Foi com um Teatro Académico Gil Vicente
repleto de gente que B Fachada foi recebido ontem, em Coimbra, para o início d’O Fim
de um ciclo ; um ciclo marcado por um ritmo inquebrável, onde se fazia
parir, pelo menos, dois discos por ano ; um ciclo marcado pela afirmação de B Fachada como o melhor cantautor
português da sua geração e como um dos melhores de sempre da música portuguesa.
Não admira, por isso, que o teatro académico se tenha deixado inundar de gente
para prestar culto àquele que é já um marco da canção nacional.
O concerto começou com alguns
minutos de atraso, mas B Fachada
logo se apressou a dar-nos os seus primeiros acordes. Sem dirigir nenhuma
palavra ao público, preferindo o silêncio e gesticulações no mínimo risíveis
com o seu corpo, a primeira parte do concerto foi preenchida pela braguesa
eléctrica e por temas d’O Fim, último álbum que Bernardo Fachada publicará antes da sua
pausa sabática, há muito anunciada, em 2013. Aqui, nesta primeira parte do
espectáculo, foi tempo para viajarmos cronologicamente pela carreira musical de
B, assim como este anuncia através
dos irrepreensíveis e primorosos lirismos e atenuantes métricas que impinge na
sua música. As primeiras palavras da noite foram relativas à cidade de Coimbra
e ao O
Fim, dizendo de um modo notoriamente bem-disposto “Acho que venho sempre a Coimbra menos vezes do que devia (…) Estas
músicas que toquei pertencem ao O Fim, álbum que acabei de gravar ontem à
noite. Isso nota-se.”.
Foi com estas palavras que o
concerto conheceu um novo rumo ; um rumo mais vibrante, dançante, alegre,
analógico/electrónico e quente: falou-se em criôlo, cantou-se em fachadês, hipotecou-se
o baile. A primeira música de Criôlo (ler crítica ao álbum aqui) a
ser tocada foi Quem Quer Fumar Com o B
Fachada?, uma das minhas músicas favoritas do registo. Desde logo houve um
berro de um elemento do público, respondendo ao refrão da música que B Fachada tocava, que continha a
mensagem que toda a religião fachadesca responderia caso se fizesse a pergunta,
um simples “Eu.”. Infelizmente (ou
felizmente), não houve fumos para ninguém, a não ser os fumos que causavam
neblina que se mesclava com o jogo de luz que se ia conchavando com a potência
dos beats das músicas de Criôlo.
Posteriormente, foi-nos tocado Afro-Xula,
onde se rubricou um dos primeiros pontos altos do concerto, com o público a
agraciar o momento com uma tremenda e intensa chuvada de palmas. Seguiram-se a
já emblemática Como Calha, Tendinite e Carlos T. Antes de assistirmos a um momento a que já lá vamos,
houve ainda tempo para um versão (ainda mais) pornográfica de É Normal, onde a rapariga que no fim
desta canção nos aparece a gemer ruidosamente foi aqui completamente massacrada
com o B Fachada a premir ininterruptamente
o botão que a fazia gemer. Fechava-se, assim, mais uma etapa do concerto: a
etapa Criôlo. Se Criôlo é um álbum estupendo, ao vivo
é inegavelmente melhor; uma experiência sonora onde somos violados pela foleirice
d’ouro pintada pelos beats pujantes e pelas teclas saltitantes com que B Fachada se mune.
Depois de encerrada a celebração
de Criôlo,
chegou-nos um marco na discografia de B
Fachada: a interventiva Deus, Pátria e Família. Apareceu-nos
numa versão reduzida, com cerca de dez minutos, mas com a mesma capacidade e
qualidade de nos fazer viajar sob palavras que B Fachada cospe acerca da sua posição sociopolítica vivida em Portugal.
Com uma interpretação arrebatadora, ia-nos dizendo que não era português. E se B Fachada não é português, eu também
não o sou; que se foda Portugal, celebro o fachadês.
Depois da primorosa e do clímax
rubricado com Deus, Pátria e Família,
B Fachada larga a sua mesa electrónica e abraça novamente a sua braguesa.
Destila-nos uma música d’O Fim, na qual um verso
aninhado numa promessa se vestiu nos meus ouvidos: “Este é o final concreto, tenho o futuro na mão.”. Este era, a priori, uma maneira soberba de se
despedir. Assim foi. B Fachada
despedia-se de Coimbra sob uma tremenda chuva de palmas a agradecendo a vinda
de tanta gente. Contudo, as luzes a meio gás e as palmas que teimava em
silenciar-se, ditavam uma coisa: vinha dali um encore.
O Homem voltava, então, ao palco para gáudio
de mim e de todos. A primeira música que nos bombardeou foi Não Pratico Habilidades, do belo
homónimo de 2011, servindo-se, uma vez mais, da sua mesa digital, a mesma com
que nos tocou temas de Criôlo. Posteriormente foi hora de
ter, novamente, a braguesa ao peito e tocar-nos Joana Transmontana, de Há Festa Na Moradia, onde se enganou
na letra e desatou uma gargalhada muitíssimo bem audível que foi também dada em
uníssono pelo público. De facto, a empatia entre ambos foi uma constante ao
longo de todo o concerto e sempre que B Fachada
entrevia após tocar alguma música, o resultado era uma camada de risos
estampados nos rostos das pessoas que enchiam a plateia do Teatro Académico Gil Vicente. A “despedida” deu-se com Tó-Zé, de É P’ra Meninos.
Estava já fora da sala e a falar
com o meu pseudo-primo-irmão-cunhado-não-sei-bem e a relatar-lhe que tinha um
sido um concerto monumental, provavelmente um dos melhores que já vi, quando B Fachada regressou novamente ao palco
para delírio de todo o mundo (bem, na verdade foi só para delírio de mim e dos
que lá estavam).
Chegou para nos tocar a última
música, do seu último capítulo que jamais será o último porque a
intemporalidade nunca acaba, nunca se esvai nem nunca deixará que as palavras
morram, desapareçam ou acabem. Tocou-nos mais uma música d’O Fim que, na verdade,
nunca será o fim. O momento foi excelente e explodiu em silêncio; com B Fachada
a desligar o cabo da sua guitarra eléctrica, a afastar-se do microfone e
avançando para a frente do palco com o olhar preso nos olhares alheios, no
futuro. No ouvido ficou que “As cinzas são
a saudade dos tempos que já lá vão”. Em 2013 todo eu serei cinzas.
*Por opção do autor, este artigo foi redigido ao abrigo do acordo
ortográfico de 1945
Fotografia de Fausto Silva, texto da autoria de Emanuel Graça
3 comentários:
Só para dizer que a última canção não é d'"O Fim", mas sim uma versão de um fado de Alfredo Marceneiro intitulado "Cabelo branco é saudade".
(btw, gostei de aprender que os álbuns eram publicados :P )
De facto, a última música foi mesmo uma interpretação de um fado de Alfredo Marceneiro mas, quem sabe, ele não a introduza no "O fim"...
Uma excelente reportagem, muitíssimo bem redigida que merece os meus parabéns! Continuação de um excelente trabalho!
Cumprimentos,
José Esteves
a última canção que tocou não é do fim mas um fado do adriano correia de oliveira, failzito
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