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domingo, 24 de fevereiro de 2013

3ª Festa Arte-Factos - REPORTAGEM




A 3ª Festa Arte-Factos, tal como referido no evento do Facebook, fez-se “sem voz, mas com o peso instrumental adequado à medida”, trazendo-nos para esse efeito SAUR e RA, dois projectos recentes com apenas um EP lançado mas com muito potencial.

Como bom hábito português, a festa começou com um atraso significativo, dando mais tempo para dois dedos de conversa e uma imperial no excelente ambiente que O Bacalhoeiro tem. Na cave do bar, ouviram-se as primeiras notas de Alien Dinosaur Explosion, dando início à actuação de SAUR.

Com casa cheia até à escadaria, esta banda de jovens rapazes animou o público com o seu post-rock bastante técnico, mostrando que apesar de serem estes os primeiros passos, são bastante profissionais e têm imensas ideias para explorar. Poli-ritmos, guitarras com delay e filtros e estrutura bastante dinâmica. À medida que a temperatura na sala ia subindo (acreditem, dava para fazer umas torradas para a ceia), os SAUR foram acrescentando mais distorção e acelerando a bateria, tocando algumas das suas músicas mais pesadas. Pareceu-me ouvir uma música que não reconheci do EP deles, datado de 2011. No entanto, não foi avançada nenhuma informação sobre as músicas, pelo que suponho que seja algum tema mais antigo, não editado. Em palco revelaram-se bastante tímidos na ausência de música – faltou-lhes um pouco de capacidade de entretenimento (para além da música, entenda-se), o que não significa que foi um mau espectáculo, muito pelo contrário! Um concerto com bastante energia, por vezes lembrando Paus e algumas linhas de Battles.

 
Após um breve intervalo para a malta apanhar ar e para ser montada a tropa de teclados e midi-controlers de Ricardo Remédio, deu-se início à actuação de RA com Rancor, numa atmosfera sombria, à qual foi acrescentando as restantes linhas: um baixo ácido, teclas etéreas e bateria que, por alguns problemas técnicos, permaneceu num volume mais baixo que o esperado. A sonoridade algo depressiva e pesada das suas músicas encaixam na perfeição com o ambiente negro da cave, cujo único local iluminado é onde Ricardo Remédio toca. Surpreendeu-me que houvesse espaço vazio na sala, pois RA é em nada inferior a SAUR – talvez esteja a sobrevalorizar o facto, mas penso que tal possa dever-se à falta de reconhecimento da música eletrónica. O número de géneros e subgéneros roça o infinito e acho lamentável que a grande massa das pessoas julgue que se resume ao house, dubstep e psytrance. Mas isto dava páginas e páginas para outro artigo.


Infelizmente não pude ficar até ao final do concerto e aproveitar o resto da festa, mas, pelo que vi e pelo que sei do Arte-Factos, tenho a certeza que ninguém ficou insatisfeito. Por algum motivo esta foi a 3ª festa e já há mais agendadas para breve. Para quem tenha disponibilidade, é ir a estes eventos e aproveitar a boa música e o óptimo ambiente d’O Bacalhoeiro.

Texto de Carreto
Créditos das fotografias: Arte-Factos




domingo, 23 de setembro de 2012

RA - Rancor (Lovers & Lollypops, 2012)





Oriundo da cena doom de Setúbal, Ricardo Remédio lançou o EP Rancor, que mistura as suas antigas influências, de quando era teclista nos Löbo, com música eletrónica ; um rumo que quis definitivamente adotar no seu novo projeto RA – Rei Abutre. Negro, este EP ajuda a conhecermo-nos melhor, realçando a parte mais sombria de cada um de nós. Desse modo, a análise das quatro músicas que compõem Rancor assemelha-se a um acompanhamento de um filme de terror, aéreo e lírico na negrura, com o objetivo de expulsar de nós a parte desconhecida, ou melhor, aquela que não queremos ver e que deixamos ao julgamento dos outros.

O(s) Cobarde(s) ou aqueles que não ousam ouvir. O(s) Cobarde(s) ou aqueles que não aceitam o inferno. O(s) Cobarde(s) ou aqueles que não se ouvem a eles próprios. O(s) Cobarde(s) ou aqueles que simplesmente não (se) aceitam.


Envolvido na atmosfera assombrada dos primeiros instantes do álbum Rancor, sinto-me logo atacado : a angústia que sinto não será apenas a que eu tenho em mim ? Magoado na minha autoestima, encho o peito e sigo em frente, sem medo. Atravesso as fronteiras sombrias semeadas de urtigas enegrecidas, procuro enfrentar o meu mau-estar avançando e mostrando-me a ele, rodeado de vozes fantasmagóricas e de uivos de lobos permanentes. Até à minha salvação: a esperança mesclada aos primeiros sons de teclado, lentos, aéreos, planantes. Acolhido desse modo, acredito que me tenham aceite antes mesmo de eu ter decidido entregar-me. E se me aceitam, também me aceitei.



Mas o tempo é ainda de reflexão. Contemplam-se visões opostas, desafiam-se, tentam perceber-se, encontrar uma semelhança. Tudo se torna mais melancólico numa quase dark wave que não se quer apagar. E a música acaba.
A lentidão do Rancor assemelha-se ao percurso sinuoso que me é oferecido pelo artista. Não é fácil alcançar-me, não é fácil alcançá-lo. Como dois corpos que se conhecem ainda há pouco, os primeiros toques são subtis, mesmo que a ousadia ganhe em força ao longo do tempo. Quanto mais ele passa mais ganho confiança e me deixo levar pelo ritmo que se torna então mais completo, acelerado. A batida ganha cor na negrura, e tudo se embala. Preparo-me a sofrer as consequências da minha pouca abertura mas espero, firme, com as certezas de cair em boas mãos. Tudo isto para um castigo que nunca mais chega, que nunca vai chegar. Aí, o meu Rancor torna-se superior ao do artista : queria aquele último golpe fatal. Queria o meu próprio sofrimento.

Mas o que vale a confiança nos tempos que correm ? A Paz Podre, declarada aos poucos, e o lado habitado que emerge e me testa de novo. A angústia, lobos, o medo, uivos, o negro, fantasmas. Em pleno No Man’s Land, esta música define a efemeridade do nosso estado, entre a entrega total e a reflexão.

Em O Inferno são os outros, a batida é mais forte, sinal de despedida fúnebre. Procura-se o ângulo de ataque, o ponto fraco, entremeiam-se alguns sons mais dubstep, já não existem gentilezas, ataca-se com os sons mais saturados e fortes possíveis, destrói-se por completo o ouvido do ouvinte, mistura-se o sonho ao pesadelo, a vida à morte, no fundo tudo é o mesmo. O velório pode acabar sem nunca termos ido, a marcha fúnebre desafina. O Inferno são os outros, aqueles que nós somos, o reflexo da parte de nós que nos assusta, que nos destrói, seleciona, põe à parte.

No meio de tanta sensação confusa, pouco importa se estamos vivos ou mortos, o importante é ter estado, ter ouvido este álbum, um hino à confusão dos sentimentos. E como diria Jean-Paul Sartre de quem se inspira Ricardo Remédio no último som : « Há uma quantidade de gente no mundo que está no inferno porque depende em demasia do julgamento do outro. » Resta saber se a música do RA não é uma espécie de catarse que nos permite também entender-nos a nós próprios.







Mickaël C. de Oliveira




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