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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

B Fachada, Minta e João Correia - Os Sobreviventes (Mbari)


Foi em 1971 que Sérgio Godinho editou Os Sobreviventes, o seu primeiro álbum. Este registo estava envolto de uma mensagem política bastante vincada e assinalou a estreia daquele que viria a ser um dos músicos mais importantes e influentes da história da música portuguesa. Volvidos aproximadamente quarenta anos houve um jovem de Lisboa que decidiu prestar, de certa forma, uma homenagem àquele icónico músico, editando uma música intitulada Os Discos do Sérgio Godinho, carimbando-o como uma das suas principais influências para a génese da sua música. Esse jovem chama-se B Fachada e é hoje um dos grandes nomes da música nacional.

Sérgio Godinho gostou tanto do que Fachada fez em Os Discos do Sérgio Godinho que chegou a tocá-la num dueto com o próprio. Foi a partir daí e da amizade que se foi estabelecendo entre os dois que surgiu a possibilidade de uma reedição d’Os Sobreviventes, que seria feita e idealizada por B Fachada. Bernardo não se fez de esquisito e fez-nos chegar no mês passado a sua interpretação daquele belo disco do mítico Sérgio Godinho. O músico lisboeta contou, na génese instrumental, com convidados/amigos de peso: Francisca Cortesão (voz dos Minta & The Brook Trout, que já este ano nos brindaram com o seu amável Olympia) e João Correia (baterista dos Julie & The Carjackers), o que tornava a minha ansiedade para ouvir este disco ainda maior.



O registo é composto por doze faixas, tal como o original, mas conta com um alargamento temporal, passando de trinta e três minutos (formato original) para quarenta e quatro minutos. Os lirismos originais (que são absolutamente geniais) também se mantêm, ao invés das métricas que neles são impingidas, que sofrem uma mudança não radical, mas significativa. Já em termos sonoros a transformação é profunda, passando-se de uma simplicidade instrumental carimbada pelas guitarras e pouco mais para uma panóplia de efeitos provenientes de sintetizadores e aparelhos digitais que se vão fundindo com uma percussão bem pensada e escalonada.

Um dos grandes focos de interesse que via neste registo (e como grande fã que sou de B) era a linha tendencial que B Fachada iria adoptar depois de editar Criôlo e certo é que, pela primeira vez, é possível associar a sonoridade de um novo álbum do “tio B” a um dos seus antecessores. Existe, nesta reedição d’Os Sobreviventes, um aroma intenso ao exotismo, quentura e frescura de Criôlo, como está patenteado, sobretudo, nas faixas A-A-E-I-O, Charlatão ou Cantiga da Velha Mãe e dos Seus Dois Filhos, faixas que nos aparecem inundadas em beats pujantes e teclas saltitantes. Há também faixas bastante melódicas e peculiares, salientando a sua sonoridade calma e abrasiva, como, por exemplo, Que Bom Que É (faixa que nos aparece canta em uníssono por Minta e B) e Farto de Voar, que nos fazem voltar no tempo e viajar até ao segundo homónimo lançado por B Fachada, em 2011. Ou seja, em Os Sobreviventes não houve uma revolução sonora e artística como B Fachada até aqui nos tinha acostumado, até porque aqui isso não faria muito sentido: as palavras já estavam arrumadas e a verdade é que ainda hoje são inegavelmente actuais.

Debruçando-me sobre os pontos altos do registo, devo referir a brilhante Farto de Voar, a mexida Charlatão, a esplêndida Paula (cantada fabulosamente por Francisca Cortesão) e a primorosa Romance de Um Dia de Estrada. Contudo, estes Sobreviventes não conseguem passar incólumes (e que pena que não o consigam!) e existem algumas falhas nítidas: uma delas passa dispersão existente no disco, a outra passa pelo “esquecimento” de Maré Alta, a minha música favorita da versão original d’Os Sobreviventes, que aqui tem uma versão reduzida e desinspirada de um minuto e quatro segundos (sim, foi mesmo encurtada em mais de dois minutos).

Em compêndio, já me vão faltando adjectivos e palavras para categorizar o estro genuíno de Bernardo Fachada, esse cantautor que um dia decidiu edificar uma ode a Sérgio Godinho: primeiramente fê-lo com os Discos do Sérgio Godinho, agora fá-lo com esta maravilhosa reedição d’Os Sobreviventes. Conservando o seu perfil idiossincrático e a sua criatividade e originalidade exacerbadas, aqui reside mais uma prova daquilo que tenho vindo a afirmar: B Fachada é já um marco assinalável na música portuguesa.

Mais do que um simples disco, esta obra edifica um diálogo entre dois génios da música portuguesa que nasceram em tempos totalmente distintos, mas que vivem e respiram do mesmo ar: o ar da mestria poética, da sapiência musical e da robustez humana. 

Classificação Final: 8.5/10

Emanuel Graça

*Artigo redigido, por opção do autor, ao abrigo do acordo ortográfico de 1945




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Minta & The Brook Trout - "Olympia"


Minta and the Brook : "Falcon" : João Nicolau from Minta on Vimeo.

Depois do primeiro álbum, Minta & The Brook Trout aparecem com "Olympia". São 10 canções que nos são mostradas através de um tom muito pessoal, quer pelas letras, quer pela forma como estão cantadas e tocadas. Parece que cada música é um segredo que nos é dito, e os instrumentos estão à altura para acompanhar tal secretismo. Ao mesmo tempo, sentimo-nos bem perto dessas histórias e dessas coisas cantadas no disco. 

É essa proximidade de quem ouve, a grande característica do disco. Se formos pelas texturas musicais, o ukelele e o banjo facilitam esta tarefa, por puxarem por um lado folk mais óbvio e directo, com forte raiz americana. Aliás, o folk está sempre presente, quer através destes dois, da harmonização vocal típica do country, nos ocasionais slides.. "Family" e "From The Ground" mostram-nos isto mesmo, sem deixar de contar com a preciosa ajuda da guitarra, que vai sempre pautando o caminho. 


"Falcon" foi o tema escolhido para single, e, apesar de, estilisticamente, não representar a globalidade do disco, é uma canção que fica na cabeça pelo ar gingão do seu ritmo e pela forma como a voz nos leva através dele. A guitarra não toma um papel principal (excepto no solo) e a preocupação é mesmo a sonoridade geral, sem que nenhum elemento se destaque mais que a voz. É uma preocupação constante ao longo de Olympia, a de que a voz seja sempre o foco principal, apesar de nunca sentirmos que está demais. 


Em "Blood and Bones", temos Minta num diálogo interessante com um seu homónimo e onde está um interessante duo feito por banjo e sintetizador, dois elementos tão distantes um do outro mas que, no seu conjunto, elevam esta faixa a uma das mais interessantes do disco, também pela forma rítmica e pautada como as palavras são entoadas. A última música, "At Your Will", é um forte final para o álbum, onde o folk rock junta todos os elementos das canções anteriores, e onde se sente a força de Olympia. 

Francisca Cortesão (Minta) e a sua banda criaram um mundo próprio, um conjunto personalizado de temas que é forte, mas suave, dotados de uma personalidade que se sente, mas da qual gostamos. Todas as músicas têm de ser ouvidas como parte de um todo, e só assim se percebe o conceito por trás do disco.

Duarte Azevedo




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