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domingo, 29 de setembro de 2013

A MÚSICA PORTUGUESA QUE FRANÇA VÊ E OUVE

Na opinião de muitos portugueses, a música portuguesa que se exporta restringe-se a dois géneros e pouco mais: fado, pimba e algum material dos Buraka Som Sistema ou Moonspell. Na opinião de muitos franceses, apenas se faz fado em Portugal e nenhum país do mundo consegue transmitir a pujança e a emoção caraterísticas desse género senão Portugal. Mas se déssemos uma pequena vista de olhos na agenda dos grupos e cantores portugueses que estiveram em França nos últimos meses, tanto os franceses como os portugueses na generalidade ficariam mais que surpreendidos ao descobrir a diversidade/qualidade destes últimos.
Como é óbvio, nomes como António Zambujo, Mariza, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Moura, Joana Amendoeira, Carminho, Camané, Mafalda Arnault, Rodrigo Costa Félix, Marta Pereira da Costa, ou se alargarmos um pouco, Deolinda e O'questrada, conseguem dar o salto muito mais facilmente do que grupos de hip-hop, de rock ou de electro - mesmo que estes cantem em inglês para facilitar a internacionalização – e beneficiam de alguns apoios financeiros e institucionais. 
São esses os artistas que alcançam as capas de jornais e revistas dedicados à lusofonia, passam nas rádios (lusas e não lusas) e enchem as maiores e mais conhecidas salas de França. Mas existem algumas excepções: Tony Carreira, claro, que enche à vontade três noites seguidas uma sala como o Zénith, e talvez os Moonspell, que estiveram recentemente no Divan du Monde e que são aclamados em França. Os Buraka Som Sistema também têm actuado assiduamente no país, mas só conseguiram recentemente a sala Hype da Gaïté Lyrique. 





Dito isto, temos na realidade um verdadeiro mar de bandas e grupos interessantíssimos que passam (quase) por completo ao lado da comunidade portuguesa de França, por falta de apoios institucionais ou pela simples inexistência de um acompanhamento por parte dos meios de comunicação luso-franceses e não só. Atualmente, a revista mensal CapMag e o semanário LusoJornal conseguem falar da realidade da música portuguesa, do pimba/folclore ao fado, passando pelo metal, a música clássica e o hip-hop, ainda que com uma abrangência a nível de géneros musicais diferente entre si.

No entanto, já se tem sentido, até na própria Rádio Alfa, algum vento de mudança, como o demonstra o cartaz da Festa dos Santos Populares que este ano apostou na Ana Moura, no José Cid, no Boss AC, na Lura e no Tim dos Xutos & Pontapés. Estamos bem longe do cartaz perfeito, mas para quem todos os anos vê um mesmo tipo de artista – Quim Barreiros, Lucenzo, etc. – não falta tudo.
Como era de esperar, o público não gosta e as mensagens postadas nas redes sociais não têm sido muito reconfortantes. E é neste limbo que podemos sublinhar o dilema de quem trabalha no meio cultural ou musical, ou até mesmo na TV : será que temos de agradar às pessoas que nos lêem e dar-lhes a mesma papinha todos os anos, ou diversificar a nossa oferta e mostrar-lhes outra coisa?

Não querendo ser ofensivo apenas contra a comunidade portuguesa de França, aproveito para deixar aqui bem visível a introdução de uma crónica que li num site francês aquando da saída do último disco dos Process of Guilt: “Não se pode dizer que Portugal ocupa um lugar preponderante no mundo da música. Tirando o fado que costumamos inserir por polidez nas músicas do mundo, é raro vir-nos alguma coisa de lá". E é mesmo isso que o francês quer quando ouve fado: o mesmo exotismo que procura quando ouve Amadou & Mariam, como se o português fosse incapaz de produzir ao mesmo nível um bom rock, um bom metal, um bom jazz, um bom hip-hop.





Ultimamente, fala-se da "Les Inrockuptibles" em Portugal pelos artistas que começam a passar por lá. O público português aplaude e os jornalistas portugueses tendem a denotar isso mesmo em artigos a lisonjear as bandas. Ok, têm todo o direito, mas reparem: para já, a Les Inrocks está a anos de luz de ter o reconhecimento que teve numa certa altura e os bons músicos franceses quase têm medo de aparecer nela. Ou seja, apareces na Les Inrocks e a tua "qualidade" musical "desaparece". 
Além disso, quase todos os artigos que falam de projetos portugueses (Gala Drop, Long Way To Alaska, :papercutz, Utter, Best Youth, X-Wife, Luísa Sobral, a Jigsaw, ...) foram ou escritos na altura de festivais ou para edições especiais para destacar um país ou por…luso-descendentes! Ou seja, a Les Inrocks ou a Libération podem escrever sobre fado, jazz ou blues de origem lusa, mas quando é para falar de géneros que não é costume associar a Portugal, lá vai o luso-descendente tentar preencher a brecha.
 

O público mais “especialista”, dentro de cada género, parece ser mais recetivo àquilo que vem do estrangeiro. Vemos isso no metal, sobretudo no hardcore, onde o próprio espírito incita à entreajuda. Bandas como os Devil in Me, An X Tasy, Process of Guilt, A Thousand Words ou More Than A Thousand já estiveram várias vezes em França, algumas delas associando-se a editoras ou a promotoras europeias. Nem sempre em salas com grandes condições, mas dentro desses géneros, são conhecidas e reconhecidas por franceses.
O mesmo acontece no mundo da música electrónica: Diamond Bass, Klipar, Karetus, Xinobi, Moullinex, Mirror People, Trikk... todos estiveram nestes últimos meses em França e em salas como o Social Club, o Wanderlust, ou o Batofar e vão aparecendo também em revistas como a Tsugi. A D.I.S.C.O.TEXAS começa a ser associada a um verdadeiro selo de qualidade e atrai cada vez mais estrangeiros, seguindo as pisadas da Enchufada. E claro, também acontecem milagres, como aquela pequena história que Noiserv nos contou em que depois de ter atuado em Guimarães acabou por receber um convite de Dijon de mulheres francesas que tinham ficado encantadas com a sua actuação.
 





Enquanto jornalistas ou simples bloggers, temos o dever de mostrar que a música portuguesa não é apenas fado, Buraka Som Sistema, Moonspell, The Legendary Tigerman, Wraygunn ou outros nomes já sedimentados no território francês. É também Throes + The Shine (a caminho de terem o mesmo reconhecimento internacional das bandas precedentes), Black Bombaim, Dead Combo, Orelha Negra, Process of Guilt, mas também a banda portuguesa que sai de Portugal de camião, sem nenhum apoio, e atua à frente de dez pessoas. Há que reequilibrar a balança e ser justo na abordagem que fazemos da música portuguesa, até porque ela nunca esteve tão bem artisticamente, apesar de nunca ter estado tão mal a nível financeiro.
A solução encontra-se possivelmente numa aliança bem maior entre os meios de comunicação luso-franceses e os franceses, pois o seu dever tem de ser o de criar uma ponte entre França e Portugal. Mas dizer isto acaba por ser um pouco utópico quando vemos o que o Consulado, os deputados luso-franceses e a Embaixada promovem, e a imagem que os franceses têm e sempre terão dos portugueses, tanto a nível social como a nível musical. 
Para acabar, queria falar-vos do caso de uma associação do sul da França, a Casa Amadis, que após ter pedido subvenções ao Languedoc-Roussillon para promover ações culturais tendo como base a lusofonia recebeu esta resposta: “La Lusophonie n’est pas dans le dictionnaire”.






Mickaël C. de Oliveira





sábado, 31 de agosto de 2013

GOSTASTE DA MINHA MÚSICA, PODES AJUDAR-ME A FAZER MAIS?, por Joana Nicolau



Aqui há uns tempos postei no meu blog este vídeo em que a Amanda Palmer fala sobre a remuneração dos artistas. Aliás, mais do que isso; este vídeo fala sobre a relação que se estabelece entre o artista e o ouvinte.
No que à arte diz respeito (e o hip-hop não é excepção) quando um artista vende um álbum, não ocorre apenas uma transacção financeira. Ocorre muito mais: ocorre uma espécie de validação mútua em que o ouvinte dá propósito ao trabalho do artista e o artista dá ao ouvinte um sentido de não estar sozinho naquilo que a música o faz sentir. Ou, nas palavras da Amanda, é o momento em que o artista e o ouvinte dizem um ao outro “eu vejo-te”, “eu reconheço a tua existência”.
No seu vídeo, a Amanda falou bastante desta ligação entre artista e público em termos de contacto directo nos concertos, e eu diria que os artistas rap portugueses são bastante bons nisso. Mas a outra parte do seu discurso, a parte em que ela explica como conseguiu pedir 100000$ num projecto do Kickstarter e receber…1192793$ (!!!), essa parte parece escapar-lhes.

A Amanda explica que é a mesma coisa. Que nos concertos havia pessoas a ir ter com ela, darem-lhe uma nota de 10 dólares e dizerem “desculpa, pirateei o teu álbum, mas eu quero apoiar-te e por isso estou-te a dar o dinheiro a ti e não à tua label”. E que os artistas estão demasiado obcecados em encontrar formas de forçar os ouvintes a pagar, demasiado cegos com a correria contra a pirataria, para pararem um momento e investirem energia a pensar em formas de ajudar o seu público a ajudá-los a eles.
Sinto-me tentada a dizer que o rap se está a tornar cada vez mais globalizado e, com ele, o seu público. Mas a verdade é que o rap já nasceu com os ingredientes para ser uma cultura global. Se formos bem a ver, metade de uma música rap pode ser apreciada por alguém de qualquer sítio no mundo (instrumental, métrica, scratch, flow) e a outra metade pode ser tão específica geograficamente quando o artista queira (referências, comparações, trocadilhos e até sotaque). E esta raiz que é ao mesmo tempo local e global vem-se reafirmando ao longo dos tempos, desde os primórdios até hoje em dia.





Por isso pergunto-me: porque é que tantos artistas tugas se continuam a recusar a “cortar distâncias tal e qual a Internet”, como diz o Mundo em “Versos Que Atravessam o Atlântico”? Estamos a falar de artistas que sofreram na pele a dificuldade de acesso à música desde o início porque era tão cara e tão escassa, artistas que tiveram de gravar cassettes da rádio e copiar CDs dos amigos e deixar o computador ligado dois dias inteiros para conseguir aceder a um único álbum de rap estrangeiro porque era quase impossível adquirir a música de forma legítima. Porque é que estes artistas agora perpetuam o mesmo problema com a sua própria música e se continuam a recusar internacionalizar não só a música, mas também a forma como o público pode adquiri-la?

Na minha eterna jornada por “comprar música, não rodelas de plástico” já passei por um pouco de tudo, desde pagar três vezes mais o valor de um álbum directamente ao artista só para encorajar o meio musical a pensar além dos CDs, até se recusarem enviar-me mp3 em troca de uma transferência bancária pelo exacto valor do CD. Esta recusa é algo que não se entende, porque toda a gente que compra um CD o ripa logo a seguir. Ou os artistas rap acham que as pessoas ainda andam com leitor de CDs à cintura e os CDs às costas como em 2000? Portanto, se na compra do CD e na compra do mp3 o resultado final é o mesmo – a pessoa fica com os mp3 no computador – qual é a diferença entre eu comprar um conjunto de mp3 ou comprar uma rodela de plástico? Sinceramente, a única diferença que vejo é que elimino trabalho intermédio entre o momento que compro música e o momento em que a ouço.
Será que podemos continuar a considerar, em boa consciência, que o download ilegal continua a ser ilegal mesmo após termos tentado comprar a música? E exactamente de que é que os artistas têm medo quando se recusam a vender a sua música em formato digital?

O que é que os impede de estabelecer esta ligação com o seu público e pedir "ei, se gostaste da minha música, será que me podes ajudar a fazer mais"?





quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Jigsaw - Mercado Negro




Foi com uma Associação Cultural do Mercado Negro muitíssimo bem composta que os A Jigsaw proporcionaram, ontem, um belíssimo concerto em Aveiro. As razões para a adesão podem ter sido várias, desde o concerto ser de entrada gratuita à qualidade musical, que num grupo como A Jigswaw é, a priori, uma certeza. Eu, evidentemente, fui por nutrir uma particular admiração pela música da banda proveniente de Coimbra.

Agendado para as 23h, foi somente com alguns minutos de atraso que se deu início ao espetáculo. Gerado um ambiente intimista, numa sala pequena para tanta gente (todos as cadeiras foram ocupadas) e extremamente acolhedora, bem abrasiva e convidativa para se esquecer as baixas temperaturas que se faziam sentir lá fora, acabei por arranjar um lugar sentado no chão a menos de 50 cm de João Rui, a voz da banda, num sítio onde mal me conseguia mexer.

Pouco depois de nos acomodarmos e ambientarmos ao aconchegante espaço que iria receber o concerto, eis que chegam os A Jigsaw. Chegam-nos em formato duo, reduzidos a João Rui e a Jorri, e repletos de boa-disposição, facto bem visível pelos sorrisos que trazem estampados no rosto. Começaram por agradecer a adesão e prontamente se apressaram a dar os primeiros acordes e as primeiras tecladas.

A primeira música a ser tocada foi I’ve Been Away For So Long, do salubre álbum Drunken Sailors & Happy Pirates, editado no ano passado. Desde logo se deu uma empatia abrasante entre o público e o artista, sempre com um público bastante silenciado e respeitador da banda que conta já com treze anos de estrada. Esta simbiose prevaleceu durante todo o concerto, a cada música que foi tocada, tudo o que é ingrediente para que haja um belíssimo espetáculo de blues.


A setlist deambulou entre os discos mais antigos, mas incidiu sobretudo sobre Drunken Sailors & Happy Pirates, o registo mais recente dos coimbrenses. Contudo, foram tocados célebres como Six Blind Days ou Letters, músicas que foram popularizando a banda e que remontam aos tempos mais primordiais e adolescentes da banda. Agora já em fase adulta, confessaram-nos que grande parte da génese para Drunken Sailors & Happy Pirates foram as vivências que tiveram numa digressão europeia por toda a europa, mas sobretudo por Itália, um “país inspirador” nas palavras de João Rui. Tanto é inspirador que até o fez escrever sobre Júlio César e piratas, um conto que nos aparece metaforizado em Even You e que assinalou um dos belos momentos a que foram possíveis assistir na noite de ontem, ao que o público responder com uma chuvada de palmas (e que bem merecidas que foram). O concerto ia-se passando, e as músicas eram constantemente ritmadas pelo pé de João que ia batendo incessantemente no chão e pelo seu rosto bem junto ao microfone, sem de lá descolar a menos que nos encontrássemos numa transição de faixas. Havia tempo para as conversas entre o público e o artista, onde a boa-disposição era sempre a palavra de ordem e onde João Rui nos confessou que Jorri estava proibido de falar durante os concertos (provocando a gargalhada do público) e que o dono da Cakes & Tapes era ”um bandido”, numa estória que misturava Trindade & Tobago e a China.

À sexta faixa do concerto, João dá o aviso “Muitas das pessoas que aqui estão conhecem esta música” e começa a dar os primeiros acordes de London Calling, mítica música punk dos não menos míticos The Clash. A verdade é que reconheci logo que música os A Jigsaw iriam tocar, só que nunca na minha vida me tinha questionado como seria uma versão blues/americana dela. Se cepticismos existiam, toda a desconfiança desapareceu no fim de a terem tocado e foi, indubitavelmente, um ponto alto do concerto (talvez tenha sido mesmo o ponto maior, pelo menos na minha visão).  

O concerto prosseguiu com temas como Red Pony ou Lost Words, que é uma espécie de homenagem aos Tiguana Bibles, sempre com uma ambiência bastante positiva e com Jorri a despedaçar-se entre a vasta panóplia instrumental que carimba a sonoridade americana, blues e country, bem ao estilo da velha vanguarda americana, dos A Jigsaw. Enquanto isso, João Rui munia-se com a sua harmónica enquanto dedilhava sapientemente a sua guitarra, bem ao estilo de um Bob Dylan, e se apoiava no seu pé e no chão para ritmar o seu tempo de entrada. Na transição de faixas, este aproveitava para marcar/dar (analogia contextualizada no fim) um golo na sua garrafa de água.

O concerto ia-se desenlaçando com The Last Waltz, mas prontamente foi verificável que o fim ainda não era aquela altura porque a folha da setlist estava ali bem perto de mim e das gentes da primeira fila. Depois de uma tentativa de um falso encore (porque sair dali, no meio de tanta gente, iria dar confusão), havia três canções para dar término ao espetáculo: uma música de “um minuto e vinte e seis segundos, porque mais tempo seria demasiado show-off”, uma música “sobre um sonho dentro de outro sonho, que, por sua vez, estava dentro de outro sonho” e Devil On My Trail, uma das músicas da noite que mais apreciei e que mais salientou a rouquidão de João Rui quando este se preparava para dar um “berro”. Despediram-se sobre uma chuvada de palmas.

Em compêndio, devo dizer que ontem foi possível assistir a um belo concerto de uma bela banda, num belo espaço que acabou por ser pequeno para tanta gente. Tive pena apenas por não ter visto A Jigsaw na sua formação completa, pois sentiu-se ali alguma mesmice entre as faixas, o que não aconteceria com a presença de uma bateria. Contudo, espero por uma próxima oportunidade para tal. Foi bem ver tanta gente apinhada a prestar culto à sonoridade peculiar, fruto de uma panóplia instrumental que, também ontem, se viu reduzida e de uma voz rouca que vai deslumbrando quando acelera, como aconteceu em Devil On My Trail. Foi inegavelmente primorosa a versão a que ali assisti de London Calling. Em suma, valeu bem a pena aquela hora e meia que passei sentado no chão, sem que este fosse almofadado, e sem me conseguir mexer. Tive cãibras durante o concerto, mas não fui substituído e permaneci os 90 minutos em campo. No final, João Rui, que distava cerca de meio metro de mim e apercebendo-se que me encontrava em nítidas dificuldades físicas e motoras, perguntou-me se queria ajuda a levantar-me, estendendo-me a mão. Para agradecer pensei em pagar-lhe um fino, mas o homem estava a água durante o concerto. Fica para uma próxima.

Emanuel Graça




domingo, 23 de setembro de 2012

Festival Rock'Art Bairrada - REPORTAGEM (dia 2)

Depois de uma manhã mal passada no campismo do Rock’Art Bairrada 2012, recheada de dores de cabeça e estômago (fenómeno a que algumas pessoas tendem a designar por “ressaca”), aproximava-se a hora do regresso aos concertos. Contudo, havia quem não fizesse caso às dores e empinasse desmedidamente o seu garrafão de vinho, fazendo o Festão (e atenção que não me pagaram para utilizar “Festão” neste artigo) à sua maneira. A boa disposição foi sempre o lema deste festival, e isso constatava-se pela alegria estampada nos rostos dos festivaleiros. Com a festa a descingir-se pelo campismo de uma ponta à outra, eram já quase 17h, hora em que o BandCom regressaria ao trabalho para acompanhar o que se iria passar pelo palco secundário.


No segundo dia deste festival, o palco secundário ganhava o nome de Palco Murmúrio e acolheria as bandas integrantes do colectivo com o nome desse mesmo palco ; Murmúrio é um simpático colectivo de bandas composto por Birds Are Indie, Gobi Bear, Homem Ao Mar, Trampoline e Stereoboy. Ao Rock’Art iriam tocar somente os três primeiros nomes: Gobi Bear, Birds Are Indie e Homem Ao Mar.

Quem primeiramente subiu ao palco foi Gobi Bear, alter-ego de Diogo Alves Pinto. Debruçando-se sobre o seu agradável LP EP, editado já este ano, e servindo-se da sua guitarra acústica e da sua escaleta (instrumento de sopro), trouxe-nos toda a sua peculiar sonoridade, gerando-se uma atmosfera algo intimista, tal foi a simpatia com que o público acolheu este rapaz. Diferente do que nos habitou em estúdio, em palco é possível assistir a um Gobi Bear com um som mais intenso, onde a sua guitarra acata um papel atmosférico abrasante enquanto a sua voz, capaz de derreter corações, proporciona um diálogo com a guitarra absolutamente apaixonante. Com loops à mistura, mostra-nos a sua capacidade rítmica enquanto saca da sua “mini” escaleta e nos condimenta pequenos grandes tesouros. Um pouco lembrando Noiserv, Gobi Bear é, neste momento, um dos singer-songwriters mais habilidosos e entusiasmantes da música portuguesa (e digo-o sem qualquer tipo de hiperbolismo). O concerto concentrou as atenções desde o início e o desenlace deu-se ao som de Emily, a última faixa de LP EP. Um concerto de elevada qualidade e, na minha opinião, o melhor concerto do palco secundário nos dois dias de festival. Mereceu todas as palmas e até o fino que um fã lhe deu, quiçá tenha sido esse fino o inspirador de Gobi… Depois do aconchegante e primoroso concerto de Gobi Bear, o voo fazia-se até aos Birds Are Indie. Após o concerto de Diogo, seria quase impossível suplantar a sua qualidade, mas facto é que os Birds Are Indie rubricaram um belíssimo concerto, com as suas músicas a incidirem sobre vários temas: cantava-se sobre “pessoas que, às vezes, parecem folhas amarelas”, “Snooker & Curling”, entre outras coisas. Um concerto sólido, com muito amor à mistura, e que pecou apenas por alguma mesmice nas canções. Seguidamente, e para fechar o palco secundário, vinham os Homem Ao Mar. Uma banda que, a meu ver, não pretende acrescentar nada de novo à música que portuguesa, e que pesca peixe já cozinhado, mas que o aquece bem. Com um som igual a tantos outros, acabam por ter na voz o seu ponto forte, mas nada capaz de me ter surpreendido. Foi com alguma falta de interesse que assisti ao concerto, mas facto é que o público pareceu ter gostado. Foi num ambiente calmo e agradável que se cessou a actividade no palco secundário do Rock’Art Bairrada 2012.


Era hora de fazer uma pausa, pois os concertos só voltariam algumas horas mais tarde. Por esta altura, e com o calor que se fazia sentir, tudo convidada a dar um passeio pela cidade e visitar a exposição de arte da “casa Rock’Art”. Assim foi. O tempo foi passando e posteriormente fez-se uma visita até ao campismo, onde a festa teimava em não estagnar. Sempre com “Festão” a ser a palavra de ordem, tocava-se e cantava-se, enquanto alguns festivaleiros se ocupavam a ensaiar músicas d’O Bisonte, um dos nomes mais aguardados da noite. Quando se olhou para o relógio eram já 22h, tempo de ir para o palco principal, onde tudo prometia acontecer.

A festa iniciava-se ao som de Jee(zus), banda da casa e que se tinha voltado a unir unicamente para este concerto, que, como a organização havia dito, prometia ser histórico. Num recinto ainda pouco povoado, pois ainda era bastante cedo, acabaram por dar um bom concerto. Sempre com uma faceta grunge (as influências do movimento que teve epicentro na cidade de Seattle eram imensas), a sua sonoridade emergia da nostalgia dos 90’s e, confesso, que me deixei impressionar pela prestação desta banda, que, por pena minha, desconhecia até à data.




Com um dialeto muito “Nirvanês”, a sua sonoridade ganhava corpo e forma a partir da pujança instrumental que era imposta pela banda. Com o carinho do público pelos Jee(zus) sempre bem presente (não fossem eles já da mobília da casa), a segunda noite do Rock’Art Bairrada 2012 tinha início de uma maneira intensa, dando excelente presságio para o que aí vinha.

Depois da boa prestação dos Jee(zus), chegava a vez de levantarmos voo num Balão Dirigível. Não se levantou voo, mas com a força que os Balão nos obrigavam a abanar a cabeça no tradicional headbang, pouco faltou. Com um som imensamente cru, musculado, vibrante e impulsivo, foram conseguindo conquistar o público num processo gradual. A alma e garra com que a banda tocava era tanta, que o bumbo da bateria chegou mesmo a romper, provocando uma pequena interrupção no concerto. Com uma presença em palco notável, o vocalista meneava-se incessantemente enquanto se desmembrava no chão ao som de melódicos e penetrantes riffs provenientes da sua guitarra. 







O concerto prosseguia a um ritmo frenético, sempre com muita emoção à mistura e com um público bastante activo. O hard rock explosivo dos Balão Dirigível tinha incendiando os ânimos na Bairrada num concerto que surpreendeu desde o início ao fim. Um nome que devemos ter em conta nos próximos tempos do panorama underground da música portuguesa.

Depois dos explosivos minados pelos Balão Dirigível, chegava até nós o post-rock dos SAUR, a banda mais esperada do dia pelo ser que está a redigir este ignobilidade que estais lendo. A banda vinda de Alverca chegava com o seu EP homónimo na bagagem, um registo muitíssimo bem elaborado e uma das surpresas da música portuguesa no ano transato. Com influências em bandas como Mogwai ou Explosions In The Sky, a banda dos arredores de Lisboa acabou por construir um belo concerto. Os seus riffs desconcertantes e a bateria sempre em destaque no que toca à génese instrumental, foram aclimando as emoções do público, que se demonstrou ameno ao longo do concerto.





Tocaram-nos todo o arrojo de Mr. Veerappan ou de Black Is White, Left Is Right, mas ficaram saudades de It Depends, o tema mais aclamado da banda e o que mais se aproxima das suas influências. Foi com alguma tristeza que nos anunciaram que iam tocar a última música, pois não lhes restava tempo para mais. E por muito custoso que tenha sido, lá tivemos que nos despedir dos SAUR.

Posteriormente à coesa prestação dos SAUR, o palco principal do Rock’Art Bairrada era invadido pela potência de um Bisonte. A banda portuense de hard-rock, que vinca a sua costela intervencionista, actuava antes do grande cabeça-de-carta para este dia, os mui aguardados More Than A Thousand. O concerto deu-se início com a uma mensagem política que defendia basilarmente que “com esta democracia não chegaríamos lá”. Foram uns bons dois minutos a deambular em torno daquelas palavras, até que se deu início com a habitual intensidade, pujança e dureza de um animal endiabrado, falamos d’O Bisonte, claro. Com uma setlist bem elaborada, onde constavam temas “célebres” como Bandidagem ou A Matilha dos Tristes, O Bisonte conquistou o público desde o início do espetáculo e a atmosfera que se viva era fulgurante, quase arrepiante: havia mosh nas filas dianteiras e a energia com que ele se dava era ofegante, nem havia tempo para respirar. Acontecia de tudo ao ritmo da música estonteante da banda nortenha: houve relatos de sangue, pés partidos e até de telemóveis que haviam sido alagados pela vasta precipitação de cerveja que se fazia sentir. Com muita sorte à mistura, o BandCom lá conseguiu sair ileso do vendaval provocado pel’O Bisonte.





O concerto estava a partir, literalmente, “com a loiça toda” e dava-se a ritmo estoicamente inquebrável, cavalgando-se a loucas rotações sem cessar um único instante para abrandar o ritmo cardíaco. Ainda houve tempo para Laia, o tema mais conhecido da discografia da banda nortenha. O público, a prestar culto à banda desde sempre, parafraseava verso a verso toda a música e edificava-se, deste modo, o clímax de todo o dilúvio que O Bisonte, em modo feroz, provocou na província de Anadia, provocando um abanão medonho. Foi num clima (quase) apoteótico que nos despedimos do concerto animalesco de um Bisonte que até metia medo.

O tempo ia-se passando e aproximava-se a hora dos tão aguardados More Than A Thousand, banda já moderadamente consagrada a nível mundial. Inovadores, têm no seu sofisticado Metalcore a receita mágica para explosões frenéticas e esquizofrénicas de um potente e arrepiante som. O público ovacionou a sua chegada, não tivessem eles a dimensão que têm (curioso e triste é serem mais reconhecidos lá fora do que em Portugal). Um facto extremamente interessante é que havia muita gente com pulseira do Vagos Open Air que tinha vindo ao Rock’Art unicamente para os ver. A primeira fila trajava a rigor, usando camisolas da banda e foi-se derretendo e desmembrando com o som concitante e perturbador dos More Than A Thousand. Com uma setlist a incidir mais sob a faceta mais actual da banda, houve tempo para acolher os velhos tempos da banda: temas como It’s The Blood, it’s something in the blood acabaram por fazer as delícias dos fãs mais antigos da banda.



A performance da banda foi simplesmente arrasadora (e eu não sou suspeito para falar, pois nem nutro uma particular admiração pela banda) e o público quis ficar atrás: houve um mega-mosh, onde o BandCom acabou por não ter a sorte de outrora e acabou a manquejar até à barraca que vendia cerveja mais próxima. Com a boca seca de tanto entoar as músicas, foi tempo de refrescar as ideias para continuar a assistir àquilo que os More Than A Thousand estavam a fazer. Foi com inúmeras palavras de apreço à organização e às bandas que passaram pela terceira edição do Rock’Art Bairrada que o vocalista da banda formalizou a despedida do palco: a despedida dar-se-ia ao som de No Bad Blood e o público, ainda com eles em palco, já sentia saudades.

Tudo na vida se resigna a um início, meio e fim. E o Rock’Art, àquela hora e apesar de naquelas condições já tudo parecer sobrenatural, também se aproximava do seu fim. O desfecho do festival estava ao encargo de DJ Mr Fresh, um DJ com um estilo mui peculiar: trazia, na cabeça, uma máscara de um cavalo. Enquanto se dançava sem parar ao som de uma música que ninguém quer/quis saber, passava-se de tudo, não estivéssemos no desenlace do grande Rock’Art: Passava-se de tudo, é verdade, mas verdade é também que pouco ou nada existe para contar. Quem se lembra, diz que gostou. Mas, bem, ninguém quer saber.

O que realmente ficou na retina depois do Rock’Art Bairrada 2012 foi: Na mesmice da música que a nossa sociedade tristemente consome e que facilmente enche coliseus, é bom saber que há quem tenha boas ideias e as execute, mesmo que os fundos monetários sejam escassos, edificando autênticos oásis para quem se diz farto da ininterrupta amálgama cuspida pelas rádios nacionais, etc. O Rock’Art é um festival de música portuguesa que assume a sua costela alternativa e que não é indicado para meninos. Da indie pop ao Metal, vi neste festival capacidades para ombrear com alguns eventos que por aí andam: O ambiente vivido no campismo é fantástico (que o diga eu! E não, não vou entrar em pormenores), o cartaz nunca desilude e a envolvência que acontece entre o artista e o público é fantástica. Em jeito de analogia, arrisco-me a dizer que o Rock’Art pode ser visto como um Milhões de Festa em (muito) menor escala. Com um cartaz destes, com uma atmosfera destas, julgo que o festival merecia ter mais público. Contudo, ninguém quer saber, porque a festa fez-se à mesma. E até 2013, Rock’Art Bairrada.


Texto e fotografias: Emanuel Graça




quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Festival Rock'Art Bairrada 2012 - REPORTAGEM (dia 1)




Na terra afamada pelo seu delicioso leitão e pelas suas requintadas vinhaças, surgia, pela segunda vez, o Rock’Art Bairrada. A região do distrito de Aveiro era assim, e por dois dias, palco de um dos festivais que mais prima pela música portuguesa e pelos seus contornos alternativos. Com um cartaz composto por bandas como Memória de Peixe, Throes + The Shine, More Than A Thousand e O Bisonte a assegurarem o prisma alternativo com que a organização do festival o encara, a ânsia de quem por lá passou assumia índices elevados. (Que o diga eu!)

O BandCom chegou a Anadia já em cima da hora do início dos concertos no palco secundário. No primeiro dia do evento, iriam estar pelo palco secundário Devaneio, Asimov e New Kind Of Mambo. Com o palco secundário montado no centro da “cidade”, davam-se asas para uma maior envolvência entre os seus habitantes e o festival, facto que foi constatável por uma senhora ter pegado no megafone enquanto as bandas faziam o tradicional soundcheck e ter parafraseado “Bora lá a despachar com esta gaita, que tenho de ir fazer o jantar!”, provocando a risada total. Depois de um atraso de cerca de uma hora, chegava a hora de dar início à festa.


Os primeiros a actuar foram os Devaneio, banda vinda de Rio Maior e com quem não dispensei muito tempo, porque, por muito custoso que seja dizê-lo, são uma das piores bandas que já vi ao vivo. Após ter praticado o acto de masoquismo ao ouvir os Devaneio, chegavam os Asimov, duo de psychedelic rock. Se no concerto anterior estava encostado a uma árvore, e sem interesse algum, neste era impossível estar parado. O som desconcertante da dupla faz uma viagem pelo que melhor existe do space rock, da neo-psychedelia e do drone, sem nunca fugir à sua vertente mais vincada, o seu rock mergulhado em pormenores de puro psicadelismo. Uma excelente surpresa e um nome que merece toda a nossa atenção. Depois do bom concerto dos Asimov, chegavam os New Kind Of Mambo, uma banda que pesca e nos condimenta todo o revivalismo do rock’n’roll. Vindos de Coimbra, acabaram por conseguir um agradável concerto, embora lhe tenha calhado a “fava”: com os atrasos dos concertos, a banda coimbrense tocaria à hora em que a selecção portuguesa de futebol jogaria contra o Luxemburgo. E, bem, pouca gente quis saber da banda. Mal sabem o que perderam.


Asimov

Os concertos regressavam horas mais tarde, com Nice Weather For Ducks, The Poppers, Memória de Peixe e Throes + The Shine a preencherem os nomes que encabeçariam o palco principal do festival na primeira noite. Mais tarde, no after-hours, Meneo e DJ ZC prometiam meter toda a gente a mexer.



Nice Weather For Ducks

Foi novamente com uma série de atrasos que se reiniciou a festa (e não que ela não tivesse continuado a ser feita durante os intervalos dos concertos). Passavam já das 23:30 quando os Nice Weather For Ducks, vindos de Leiria, subiram ao palco principal do Rock’Art Bairrada 2012. A banda leiriense rubricou um belo concerto, embora não tenha conseguido atrair a atenção de todo o público. Provando que bebem das melhores fontes (as influências de bandas como Klaxons ou Foals estão bem presentes), o quinteto instrumenta um indie rock coeso e vibrante, surpreendentemente “dançável” e sapiente.
Com uma energia inesgotável, tocaram-nos temas de Quack, o LP da banda. Sempre com uma sonoridade cuidadosamente doseada e apetrechados com uma imensa panóplia instrumental, o clímax do concerto deu-se com 2012, o single de maior dimensão da banda, que a tem vindo a popularizar pouco a pouco e que serviu de desenlace ao concerto da banda proveniente de Leiria. Interessantemente, é digno dizer-se que o quinteto toca melhor ao vivo do que em estúdio. Um nome a ter em conta.

Depois do agradável concerto dos Ducks, chegou-nos toda a frescura e pujança dos The Poppers. A banda que muito recentemente abriu, no pavilhão atlântico, o concerto de Jack White, carrega com orgulho a herança do verdadeiro espírito rock’n’roll e isso é bem constatável quando tocam ao vivo. A interecção com o público foi uma constante ao longo de todo o concerto, chegando mesmo ao ponto de Luís Raimundo, o senhor das vocais, pedinchar ao público para dar um golo na sua cerveja, evidenciando que o clima da boa disposição era o que reinava no festival. O quarteto deu uma verdadeira lição do que é tocar ao vivo: solos desconcertantes e uma setlist muitíssimo bem conseguida, a juntar a uma atitude em palco invejável. Não querendo soar, de nenhum modo, hiperbólico, foram os The Poppers que catapultaram os ânimos do Rock’Art para outro patamar. Sempre com o seu rock bastante frio, cru e musculado, mantiveram uma postura dentro de palco absolutamente irrepreensível, captando a atenção dos fãs, que até à data se tinham demonstrado amenos.


The Poppers


Sempre com a boa disposição à mistura, o vocalista perguntou se alguém sabia tocar guitarra, porque quem soubesse iria para cima palco mostrar do que era capaz. Por casualidade, ou talvez não, quem acabou por subir ao palco foi o guitarrista e vocalista dos Asimov (lembram-se deles?), proporcionando um belo momento, com riffs monstruosos. Quando tudo já estava sintonizado com os ares do Rock’Art, a banda faz uma cover da mítica Psycho Killer, dos Talking Heads, assinalando o ponto alto do concerto. A reacção do público foi imediata, com toda a gente a parafrasear verso-a-verso a icónica música da banda que marcou os 80’s. Houve ainda tempo para My Generation, dos The Who. O concerto terminou, obviamente, ao som de Drynamill, música que fez dos Poppers autênticos “milionários”, citando o seu vocalista, e a mais conhecida do grande público.

De seguida, chegavam os Memória de Peixe, a banda mais aguardada de todo o cartaz pelo ser que está a escrever esta ignobilidade que estão a ler. Mas preciosismos à parte, vamos ao que realmente interessa. E tudo o que realmente interessa são os Memória de Peixe. A dupla das Caldas da Rainha subia ao palco depois de concerto incrivelmente enérgico por parte dos The Poppers e tinha a tarefa de manter bem quentes os ânimos do público. A dupla constituída por Miguel Nicolau, na guitarra, e Nuno Oliveira, responsável pela bateria, trazia na bagagem os temas do seu disco homónimo editado já no presente ano de 2012. Subiam ao palco com algumas horas de atraso e já com um público mais interventivo, mérito da prestação dos The Poppers. Com uma criatividade e originalidade bastante grandes, a banda foi conquistando o público (pelo menos o público das filas dianteiras) desde o início do concerto. Miguel Nicolau sequenciava uma série de loops, sempre demonstrando uma destreza tremenda, enquanto Oliveira os afiava com a sua bateria.

Memória de Peixe


Tocaram-se temas como Estrela Morena ou 7/4 na fase inicial do concerto, mas foi com Indie Anna Jones, a música mais agressiva, pujante e concitante de Memória de Peixe, que chegou a primeira explosão de emoções no concerto da banda. Com o público a deixar-se mergulhar no oceano sonoro que os Peixe(s) edificavam, o concerto começou a tornar-se (ainda) mais interessante. Sem hiperbolismos, esta banda é, indubitavelmente, um dos projectos nacionais mais interessantes, originais, com mais qualidade e que mais merece a nossa atenção. A maneira como se mesclam e se sobrepõem todos os loops da guitarra de Nicolau é deliciosa, e o diálogo estabelecido com a bateria acaba por funcionar muitíssimo bem. Sem ser possível categorizar o género musical produzido pela banda num único género, diria que a dupla estabelece uma ponte entre a indie pop instrumental e o indie rock, sempre com um estilo “dançável” subjacente à sua sonoridade. Sempre num ambiente refrescante, fervilhante e intenso, o concerto prossegui ao ritmo dos riffs fugazes e electrizantes provenientes da guitarra de Miguel. Houve tempo ainda para nos tocarem uma música e quando já me doía o pescoço e a perna de tanto me mexer, eis que os Memória de Peixe nos anunciam que nos vão deixar. Tocam-nos Fishtank, o "maior" single da banda, e abrasam os ânimos do público com a sua música incrivelmente refrescante, fluida e vívida. Sem vontade de irem embora (pois, parecia que o público estava a gostar do que estava a ver), deixaram-se ficar no palco a improvisar por largos minutos, com a baterista a tocar guitarra com a sua baqueta (sim, verdade). E no fim, chegou o momento de dizer adeus àquele que foi o grande concerto do dia.

Se os Memória de Peixe são um dos projectos nacionais onde a originalidade e a criatividade estão mais vincadas, os Throes + The Shine também têm de estar obrigatoriamente na lista de bandas portuguesas mais criativas.  O seu estilo é verdadeiramente único: mais nenhuma banda no globo, suponho eu, concilia o rock e kuduro na mesma música. O rockuduro da banda já tinha invadido os ares da Bairrada na edição de 2011, mas naquela ocasião andaram pelo palco secundário do festival. Desta feita, a festa era deles, ali, onde mereciam, no palco principal. O carinho do público pela banda era já imenso e descingiu-se ao longo de todo o concerto, fazendo com que a banda demonstrasse toda a sua alegria enquanto entoava temas como É Batida ou Hoje é Festa e, bem, era mesmo dia de festa. Houve direito a mosh, a banhos de cerveja e a queimadelas de cilindros de papel. Direito a ir para cima do palco dançar ao som da batida dos Throes e do hip-hop “kudurizado” dos Shine. Direito a parafrasear versos como “Hoje é festa, eu vou dançar” enquanto já se via tudo numa roda viva, a sépia ou mesmo a cores negativas. 


Throes + The Shine

Depois de uma maré de cerveja espalha pelo recinto, de um concerto que “partiu com a loiça toda” e de uma festa só ao alcance do indie rock corrosivo dos Throes e da diversão e presença em palco dos Shine, chegava a hora da despedida. Mas a festa ainda não acabava por aqui. Não sem antes os The Shine cantarolarem novamente a passagem “Hoje é festa, vamos dançar”. E assim, o palco ficou deserto, à espera que por lá chegasse Meneo para o after-hours.

Sem ter bem noção das horas, arrisco dizer que quando Meneo subiu ao palco com a sua Game-Boy Colour seriam já umas quatro horas da manhã. O ambiente era de pura descontracção e festa, tal como os Throes + The Shine prometeram. Num clima efusivo, dançava-se incessantemente e sentiram-se saudades de Ian Curtis no meio de tanta “mexidela”. Tantas, que uma série de pessoas se deslocou para as filas dianteiras do recinto para pedir para Meneo passar Joy Division, pedido que não foi correspondido e veio mais do mesmo, brostep para dançarmos enquanto se parecia simular ataques epilépticos.

A festa acabou já de manhã e prometia regressar no dia seguinte: era agora tempo de reabastecer as energias e descansar o corpo, pois o dia havia sido intenso. Um dia em que os Throes + The Shine ganharam o público, os Memória de Peixe rubricaram um concerto brilhante, os The Poppers deram um concerto agradável lembrando clássicos da vanguarda “setentista” e “oitentista”, os Nice Weather For Ducks nos deram uma agradável surpresa e os Asimov assinalaram um grande concerto no palco secundário.


Texto e  fotografias por Emanuel Graça




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Noites Ritual 2012 - REPORTAGEM



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. A vigésima edição do Noites Ritual realçou uma filosofia divergente daquelas que tinham acompanhado o festival em edições precedentes. Se em edições anteriores, o evento tinha optado por nos mostrar novos ares do panorama musical nacional, com uma maior oferta de bandas, a edição deste ano optou por preencher um cartaz reduzido a quatro bandas já moderadamente consagradas a nível nacional. A juntar ao cartaz, estiveram inúmeras actividades espalhadas pelo Porto, com destaque para o Hard Club, que esteve inundado de workshops que foram conseguindo captar a atenção dos mais curiosos.


O tempo foi passando, e era hora do Palácio do Cristal abrir as portas para se fazer cumprir o mui aguardado ritual pela vigésima vez. O BandCom chegou ao recinto já perto da hora do início do concerto dos Dead Combo, mas com tempo suficiente para se aconchegar à beleza do ínclito Palácio do Cristal ao som das batidas dos Ecosons, grupo de percussão a quem coube a difícil tarefa de entreter milhares de pessoas enquanto a dupla Tó TripsPedro Gonçalves se preparava para subir ao palco do Noites Ritual pela primeira vez. Os Ecosons por ali desfilaram com os seus tambores, mas nunca ninguém quis saber, apesar de toda a destreza que o grupo demonstrava. O recinto estava longe, àquela hora, de ter o público que merecia ter, mas, convenhamos que, além de se tratar de um dia da semana, o concerto da banda lisboeta estava agendado para uma hora pouco convidativa, muito em cima da hora de jantar.



Pouco passava das vinte e duas horas, quando chegava o tão aguardado momento: os Dead Combo subiam ao palco onde se iria fazer cumprir o ritual. De rajada, chega-nos a quentura de Rumbero, retirada do álbum Vol. 1. A empatia foi imediata e o público demonstrou-se, desde cedo, disponível a prestar culto àquela que é uma das bandas portuguesas do momento. Seguiu-se uma Sopa de Cavalo Cansado para comburir as emoções e aguçar o apetite do público para o resto do espetáculo, uma saborosa e esplêndida entrada para um dos pratos principais do concerto dos Dead Combo: a Royal Orquestra das Caveiras. Foi já numa atmosfera envolvente que a orquestra foi acolhida. E mal chegaram, aromatizaram o clima com a nostalgia e a panóplia de ritmos africanos patenteada em Lisboa Mulata, fazendo-se soar a interessante Anadamastor. O concerto prosseguiu essencialmente ao som de Lusitânia Playboys, o álbum mais aclamado dos lisboetas. Fizeram-se tocar temas como Cuba 1970, Manobras de Maio ou Desert Diamonds até que Tó Trips nos anuncia que “vai interpretar um grande senhor” e toca Temptation, música do mítico Tom Waits, esboçando o primeiro ponto alto do concerto. Mas só mesmo esboçando, porque de seguida pinta-se o primeiro clímax do concerto da dupla. Traziam-nos toda a ousadia jazz da Lusitânia Playboys, com um saxofone a ser soprado incessantemente, com uns solos de guitarra (e não só) absolutamente irrepreensíveis, entre mais outras coisas. Tudo isto a convidar o público a mexer a perna e dar um pezinho de dança (eu confesso, não me contive). Até ao “fim” do concerto, tocaram-se mais temas de Lisboa Mulata: Blues de Tanga (com especial participação de um homem do blues: Paulo Furtado, quem mais poderia ser?) e Lisboa Mulata foram fazendo as delícias a milhares de pessoas. Despediram-se com a Marcha de Santo António, e com o jogo de luzes a anteceder um Encore. Saíram de palco e regressaram passados… bem, não consegui ter noção do tempo, pois a esta altura estava “revoltado contra o mundo” por não terem tocado a Esse Olhar Que Era Só Teu. Mas, quiçá, por intervenção divina (ou então não), a primeira música que os Dead Combo tocaram durante o encore foi mesmo Esse Olhar Que Era Só Teu. A nostalgia e a melancolia reinaram, por seis minutos, os ares do Porto e assistiu-se, na minha opinião, ao momento do festival. Embora nem todo o público tenha compactuado com a arte desta canção, este é um daqueles momentos capazes de penetrar no nosso peito e ir mussitar junto do nosso coração paletes de sentimentos e emoções, que cada ouvinte sente à sua maneira, através da sua liberdade poética. Memorável. Cacto e Malibu Fair foram as duas últimas músicas tocadas pelos Dead Combo. Apesar de se terem sentido saudades de alguns temas como, por exemplo, Eléctrica Cadente, de se terem deparado com algumas dificuldades técnicas ao nível do som e de resultarem francamente melhor numa atmosfera mais intimista, os Dead Combo rubricaram um belíssimo concerto e deixaram água na boca para o resto do festival.




Depois do concerto da dupla lisboeta, era hora dos festivaleiros irem recarregar energias: abasteciam-se com a habitual cerveja e com caipirinhas enquanto davam um passeio pela Concha Acústica, espécie de palco secundário do festival, onde estavam a actuar Cabaret Ritual do Meio Morto. Ou havia quem preferisse sentar-se ao pé do lago a recarregar as energias corporais, pois, de seguida, actuariam os vibrantes Wraygunn, banda liderada por Paulo Furtado (aka The Legendary Tiger Man). O tempo foi assim passando, sempre de copo na mão, até que a banda de Paulo Furtado chega ao palco do Noites Ritual.
Era já meia-noite quando o palco foi invadido pela ousadia e beleza das encantadoras Raquel Ralha e Selma Uamusse e pelo estilo peculiar de Paulo Furtado, e o recinto estava já bem mais composto que no concerto anterior. Esperava-se que a banda incidisse, ao longo do concerto, no seu mais recente disco ; o notável L’Art Brut. Mas a verdade, é que ao longo de cerca de uma hora e meia de concerto, a banda foi pulando entre os seus registos. Das colheitas mais antigas, fizeram-se tocar temas como Go-Go Dancer ou Love Letters From A Motherfucker, enquanto as novas colheitas serviram as delícias dos mais recentes fãs da banda. Sempre com uma nota bastante positiva, é de realçar o facto de Paulo Furtado ter dedicado uma música a “um grande senhor, que tanto já fez pela música portuguesa”, foi para o mítico Adolfo Luxúria Canibal que os Wraygunn tocaram Soul City Here We Go. Seguidamente, entoaram-se temas como I Betted All On You, um tema onde se ergueu o poder instrumental da banda, e Cheree, uma cover dos Suicide, onde Paulo Furtado esteve muitíssimo bem. O concerto cavalgava a um ritmo acelerado e a envolvência com o público era tremenda e este é um dos pontos que marcou a passagem da banda pelo ritual nortenho. Sempre com a boa-disposição a marcar pontos, Paulo Furtado chamou uma adolescente ao palco. O desafio era dançar, mas a rapariga só se ficou por dizer que se chamava Ana e que os amigos a tratavam por um nome especial. Bem, mas ninguém quer saber, porque Paulo Furtado tocou, seguidamente à fugaz passagem da “Ana”, Teenage Kicks, música original dos Undertones. E chamou mais jovens para cima do palco! E de repente, todo o palco dançava ao ritmo do Blues irrepreensível da banda do também The Legendary Tiger Man. Um dos momentos do concerto, sem dúvida. Contudo, o momento alto do concerto estava reservado para o fim. Foi num clima de pura histeria que Raquel Ralha e Selma Uamusse se aventuraram num crowd surfing e me fizerem bater com a cabeça contra a parede por não ter tido lugar na frente do concerto dos Wraygunn. Triste e pálido, lá me contive nas filas traseiras enquanto o público das filas dianteiras se rejubilava a olhar para cima, enquanto as vozes dos Wrayguun desfilavam por cima de si, de mão em mão, de braço em braço, de dedo em dedo. Enfim, tudo era válido, e tudo acabou com a Raquel Ralha a puxar o vestido para não acabar a noite despida. Foi ao som de All Night Long que a banda se despediu de um belo concerto, onde os ânimos estiveram elevados do início ao fim. Um show com nota bastante positiva e que, confesso, me surpreendeu. Terminava assim o primeiro dia do ritual e era hora carregar baterias para o dia seguinte, um dia onde iríamos encontrar Paus e A Naifa.




Era dia 1 de Setembro, Sábado, e era o dia onde se esperava que a afluência fosse maior, não pelas bandas em si, mas essencialmente por ser fim-de-semana. O BandCom chegou ao Palácio do Cristal “cedo”, com tempo suficiente para concluir que a o recinto estava bem mais preenchido àquela hora do que na noite anterior.




Era já hora d’os Paus subirem ao palco do Noites Ritual, naquele que era o concerto mais aguardado da edição do Ritual deste ano. Com um atraso de cerca de 20 minutos e com muita expectativa à mistura, foi num clima festivo que a banda de Hélio Morais, Quim Albergaria, João Shela e Makoto Yagyu pisou o palco Noites Ritual pela primeira vez. Sempre com o seu estilo bastante peculiar, lançaram-nos de imediato às feras com temas de É Uma Água, o primeiro EP da banda. Tocou-se Lupiter Deacon e a ligação com o público era imensa, com o público sempre a “ajudar” Hélio Morais no “Wow Wow Wow ; Nanaranana Nanaranana”. Com uma sonoridade simplesmente arrebatadora, os Paus provaram que são uma das melhores bandas portuguesas e que, acima de tudo, consegue suplantar-se ao vivo. E, bem, se em estúdio edificam o som que ouvimos, ao vivo… O concerto prossegui ao som de um Malhão, retirado do disco homónimo da banda e, logo de seguida, chegou o primeiro ponto alto do concerto com Deixa-me Ser. Sempre bastante interventivo, o público (das filas dianteiras) abraçou, aqui, a estreia de Paus no Noites Ritual com uma infinidade de palmas e ao cantar verso a verso esta canção. Seguidamente, foram tocados temas como Muito Mais Gente ou Ouve Só. A bateria siamesa era amplamente violada pelas batidas demoníacas de Hélio Morais e Quim, o baixo de Makoto era meneado com destreza e as teclas de Shela saltitavam sem parar. É atordoante a maneira como os Paus conseguem produzir um som tão intenso e dançante ao mesmo tempo, mas o facto é que conseguem e havia quem não resistisse a ficar um segundo quieto (ainda hoje estou às contas com o meu rico pescoço). Depois de tocarem Ouve Só, a bateria fica sem um dos seus filhos ; Quim Albergaria salta da bateria para o palco, pega no microfone e, completamente endiabrado, interpreta Descruzada, uma das minhas faixas favoritas da banda. Muito espalhafatoso (quer na voz quer na presença em palco), acaba por não conseguir uma interpretação com a qualidade esperada e desdoura um pouco o concerto da banda. Mas nada do outro mundo, porque havia mais de Paus para ouvirmos. Enquanto Hélio Morais bebia mais uma água das pedras e se acomodava para tocar a seguinte canção, um elemento do público grita desalmadamente por Ocre, que é, a meu ver, a melhor música dos Paus (sim, esse alguém fui eu), ao que a banda respondeu prontamente em Tronco Nu e, aí, assinalou-se o ponto alto do concerto. A faixa que serve de desenlace ao disco homónimo da banda foi entoada desde o início ao fim, pelo Porto inteiro (ok, vá… pelas filas dianteiras). A magia que se espalha desde a bateria siamesa é inesgotável e parece nunca querer-se esvair-se, e o público agradece. Pelo Pulso encerrou o concerto de Paus. Apesar de não terem tocado a música que mais (me) interessava, assinalaram o concerto desta edição do Noites Ritual e cimentaram-se como uma das melhores bandas portuguesas.



Era hora de repousar e “descansar” os ouvidos, dar um passeio até à Concha Acústica enquanto se empinavam umas jolas e se comiam umas bifanas. É custoso dizer, mas ninguém quis saber da Concha. Uma esmagadora parte das pessoas que compunham o recinto, aproveitavam este “intervalo entre os concertos” para colocar a conversa em dia ou para fazer um passeio pelo belo jardim do Palácio do Cristal. Mas particularidades à parte, o tempo não parava e aproximava-se a hora de A Naifa.





A Naifa foi a banda escolhida para fechar o Noites Ritual 2012. Tudo o que posso dizer acerca deste concerto, passará, certamente sempre ao lado, porque a poesia das suas músicas, a nostalgia e melancolia das suas composições fazem de A Naifa uma das mais peculiares e particulares bandas portuguesas. A mestria com que edificam uma aliança electrizante entre o fado, pop e rock é simplesmente irrepreensível, mas não é uma simbiose que consiga agradar a todos. A tarefa era complicada ; A Naifa tinha a espinhosa tarefa de actuar depois de um concerto magnífico dos Paus. A mudança em termos sonoros, de uma banda para a outra, era grande, mas nada que intimidasse o grupo, pois eles estavam bem armados. Tocaram duas dezenas de músicas, sempre com a alma a concitar-se e a incrassar de vida e nostalgia as boas dezenas de milhares de pessoas que rumaram até ao Palácio do Cristal. O saudosismo envolvente quando se fala no desaparecido João Aguardela esteve presente nos ares portuenses e em Libertação, música dedicada a Aguardela pel’A Naifa, deu, por certo, um aperto na garganta a muita gente. Um belíssimo e comovente concerto que fechou o ritual. Pela. Vigésima. Vez.

Conheçam o próximo capítulo do Noites Ritual em 2013. O BandCom lá estará, com todo o prazer, para o relatar.
Emanuel Graça
Fotografias por Ana Pereira
(galeria completa em
facebook.com/bandcom)




segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Rescaldo Vodafone Mexefest

No passado fim-de-semana, a Avenida da Liberdade em Lisboa transformou-se numa roda-viva de gente à procura de novas referências musicais.
Num festival onde é quase impossível ver todos os artistas em cartaz, há quem prefira acompanhar o maior número de bandas possível, em oposição a quem prefere acompanhar o maior número de concertos possível. Eu segui a última opção.

Para o meu fim-de-semana, acabei por fazer escolhas semelhantes para os dois dias: começar calmamente pelas guitarras e passar lentamente para ritmos mais agitados com o chegar da madrugada. Não foi propositado, mas acabou por ser coincidente.


SEXTA, DIA 2
Sexta-feira, escolhi começar pelos Julie & The Carjackers, ver os Handsome Furs e Junior Boys e acabar em PAUS.
Uma nota dominante deste festival (antes Super Bock em Stock) tem sido a beleza dos espaços escolhidos para os concertos. Não foi excepção desta vez. No terraço do Restaurante do Hotel Tivoli, os Julie & The Carjackers começaram pouco depois da hora marcada. O concerto foi uma boa maneira de solidificar o álbum de estreia, “Parasol”. Durante os cerca de 30 minutos, notou-se que o que funcionou bem no disco funciona melhor ao vivo. Uma banda claramente a navegar numa filme a preto e branco dos anos 60 e 70, como se a sua performance tivesse também os mesmos pequenos pormenores característicos dessas gravações. Vibrações quentes, coros harmoniosos a duas e três vozes, linhas de guitarra descompensadas, irreverência em progressão, lá entre a canção americana mais recente. Para começo de noite, foi bastante agradável. São uma banda com qualquer coisa de especial, de facto.

Numa noite em que os Handsome Furs andaram confortavelmente entre o seu próprio suor e os Junior Boys abriram de porta em porta a pista de dança possível entre as cadeiras do Teatro Tivoli, coube aos PAUS tocar para intervalar o festival antes dos DJs.
A estação de metro dos Restauradores mostrou ser um espaço tão inibidor da plateia que até a meio do concerto os PAUS pediram para que metade da plateia se sentasse para a outra metade ter os seus segundos de contacto visual com a banda. Em contraste com o que deles vi no Super Bock Super Rock, deram um concerto muito mais cerebral, apesar de ir ficando 2 ou 3 vezes sem tímpanos. Com muita interacção entre temas, os PAUS foram procurando manter o auditório atento ao novo disco que queiram mostrar e não aos temas desejados do EP anterior que estavam na imaginação de muitos. No saldo final, foi impossível a um excelente disco dar menos que um concerto excelente.


SÁBADO, DIA 3

Tal como no dia anterior, a noite teria espaço para 2 artistas portugueses e 2 internacionais: desta vez seria a produção nacional a grande vencedora da noite.

A noite começou com o concerto do Filho da Mãe na Sociedade de Geografia, concerto esse bastante concorrido de início e que ficou tão melhor quanto mais vazia foi ficando a audiência. Coincidência ou não, na parte final do concerto sentiu-se mais o storytelling necessário para a eficácia de qualquer conjunto de temas, coisa que o CD tem. Por isso, no final do concerto, a ovação do público foi totalmente merecida.
Havia Dead Combo a seguir no Teatro Tivoli. O novo “Lisboa Mulata” serviu de mote principal para um dos concertos do festival, onde luzes, sombras, uma guitarra, um contrabaixo e histórias sinistras fizeram um espectáculo fantástico e sequestrador. Pelo meio, espaço para os já familiares “A Menina Dança?” e “Lusitânia Playboys”, para terminar em beleza com a “Marchinha de Santo António Descambado”, de “Lisboa Mulata”. Não havia furor possível nas palmas que chegasse para tamanha classe.

Para responder à fila enorme para ver o headliner James Blake, fui até ao Maxime ver os When Saints Go Machine, que entre um copo de cerveja, uns teclados e uns gestos de aprovação de cabeça, tronco e membros lá ajudaram a passar o tempo.

Por fim, paragem pelo Cinema São Jorge para ver o projecto americano Toro y Moi: outro dos inúmeros live acts de bandas ditas “modernas”, de uma pop urbana em que a nata está mais em disco e nas paragens por territórios mais experimentais do que nas actuações ao vivo. A julgar por esta, os Dead Combo deram 10-0 no princípio da noite e não foi preciso ninguém levantar-se das cadeiras.

Tal como se previa, o Vodafone Mexefest foi um festival onde a música portuguesa esteve em claro destaque, embaciando uma boa parte dos artistas internacionais que não foram surpresa para ninguém que soubesse ao que ia e aonde ir.
André Gomes de Abreu




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