Mostrar mensagens com a etiqueta Capitão Fausto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Capitão Fausto. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de agosto de 2014

CAPITÃO FAUSTO - Entrevista

Apresentar uma banda dizendo que não são necessárias muitas palavras seria um cliché na grande maioria dos casos. Se falamos dos Capitão Fausto, é provável que encontremos uma excepção: por um lado, há uma base de fãs muito jovem de crescimento e dimensão quase inexplicáveis que "trabalha" pela banda e transforma um concerto ao vivo em algo que nunca sabemos bem como vai decorrer ou sequer terminar; depois, os relatos da longa vida de estrada do jovem quinteto chegam cada vez mais aos ouvidos de todos os promotores e organizadores de eventos, levando-os a novos locais, a novos públicos e criando novos fãs. Parece uma cadeia interminável.
Em matéria de discos, "Pesar o Sol" chegou finalmente este ano e sucede ao estreante "Gazela" de uma forma que para a crítica é unanimemente promissora e que tem colocado novos desafios aos seus seguidores.
Ah, a banalidade de um texto de apresentação sobre quem tem levado a sério os Xutos, os "Josés Cides", os "Faustos" desta vida e, não menos importante, mostrado o relevo do seu trajecto e da história que criaram. Vida de herdeiros não é linear: fomos saber porquê.       






BandCom (BC): Os Capitão Fausto foram os derrotados da “Célebre Batalha de Formariz”. Este novo “Pesar o Sol” tem sido mais do que um prémio de consolação?

Capitão Fausto (CF): O prémio de consolação foi termos conseguido sair da Batalha com os ossos intactos. A “Célebre Batalha de Formariz” é a balada do derrotado (a história não pode ser só contada pelos vencedores). O “Pesar o Sol” pode ser o filho de guerra, dessas duas semanas muito bem passadas no Minho.  


BC: É-vos indiferente colocar no vosso trabalho situações da vossa vida pessoal, usá-las para escrever e compor?

CF: Indiferente não é de certeza, mas é muito natural. Escrevemos e compomos sobre o que conhecemos e coisas que vivemos. A “Batalha” é um excelente exemplo disso: lutamos contra uma aldeia, no dia seguinte fazemos uma canção sobre isso. Achámos que merecia no mínimo uma canção para a imortalizar.


BC: Do “Gazela” para o “Pesar o Sol” nota-se o esticar das canções e também uma certa internacionalização do vosso som em contraste com um ligeiro abandono de algumas características mais portugalizadas das vossas melodias. Concordam ou nem por isso?

CF: Sim. As canções ficaram longas e mais densas, mas não deixaram de ser canções. Nunca pensámos numa “internacionalização” do nosso som, acho que o que aconteceu naturalmente é um afastamento da música que se estava a fazer em Portugal nessa altura. Quando gravámos o “Gazela” ainda lá estavam alguns pedaços de outras bandas portuguesas. Para o “Pesar o Sol” ficámos mais focados em atingir o som que queríamos e não o que ouvíamos. 


BC: As sucessivas comparações com bandas internacionais vossas contemporâneas e com que partilham referências (Tame Impala, MGMT, Temples, etc.), agradam-vos, aborrecem-vos ou são-vos indiferentes? Excluindo um certo oportunismo do momento (que nem a curto nem a longo prazo é benéfico numa carreira), esta sonoridade de “Pesar o Sol” é mais um fruto do que também ouvem ou simplesmente foi uma consequência e o resultado de estarem a ensaiar e a criar novo material?

CF: É-nos completamente indiferente. São bandas de que gostamos, mas há muitas outras. Quando estamos a ensaiar e a compor, as ideias e canções que fazemos são fruto de tudo o que ouvimos e vivemos. Mas não pensamos em antemão “bora fazer uma malha mesmo à ‘BANDA QUE GOSTAMOS’ ”.





BC: As melhores canções dos Capitão Fausto estão ainda por editar, a maturar como os vinhos da adega em que gravaram o disco? De todas, qual a canção até agora que mais satisfação que tenha sido escrita por vós? 

CF: Esperemos que as melhores ainda estejam por gravar! Se já tivermos gravado as melhores da nossa vida ficaríamos um bocado tristes. É difícil escolher a favorita de todos, especialmente porque ao vivo elas ganham outra dimensão. Pode não resultar em concerto, ou quando não funcionam tão bem em disco funcionam ainda melhor ao vivo. Mas gostamos todos muito da “Lameira”, deu-nos imenso gozo compor e gravar essa música. É comprida, passa por várias partes diferentes, é difícil de tocar e ao vivo é um momento especial. “Vota Lameira ’15”.


BC: Até agora, e muito embora não tenham mudado de produtor para este novo trabalho, quais as maiores diferenças que notam após a passagem da Chifre para a Sony Music? Maior projecção?

CF: Na Sony temos uma equipa e estrutura muito forte atrás de nós, que nos organizou o lançamento todo do disco. Quando fomos bater à porta da Sony já tínhamos o disco pronto: masters, capa e tudo.  Eles decidiram arriscar no nosso extenso e barulhento disco, e até agora tem corrido muito acima de qualquer expectativa! Sentimos que o disco conseguiu chegar a muita gente.


BC: Entretanto saltou cá para fora a primeira canção dos Modernos e também surge o BISPO. Como surgem estes desdobramentos de parte da banda?

CF: Surgem de ensaios esporádicos. O que gostamos mais de fazer é tocar e fazer músicas, e não precisa de ser sempre para Capitão Fausto. Como estamos habituados a tocar com os mesmos amigos desde os 14 anos, escolhemos as mesmas pessoas para cada banda que nos apetecer fazer. É tipo incesto. E acontece assim: “Queres fazer uma banda de Hip-Hop/Trash Metal?”, “Sim.”.


BC: Recentemente os Capitão Fausto dedicaram-se a transformar o “Marcolino”, inclusivamente com Júlio Pereira e JP Simões ao vivo em Lisboa, e a “Morte Lenta” dos Xutos & Pontapés, dois clássicos quase intocáveis dos respectivos catálogos.  O que vos transmitem em especial estas duas canções? 

CF: Essas duas versões foram a pedido de duas rádios, que apenas nos disseram para tocar uma canção desses artistas. Nós é que as escolhemos. Mas só as descobrimos à séria depois destes pedidos. Fomos ouvir os discos que mais gostávamos e escolhemos as canções que poderiam soar bem tocadas por nós. A “Marcolino” ficou parecida com a versão original, agora a “Morte Lenta” não podia ser mais diferente. E ainda bem, porque na verdade só os Xutos podem e conseguem tocar Xutos.


BC: Na ressaca de uma série de sucesso como “Os Filhos do Rock”, lê-se em vários textos sobre vós esta expressão aplicada ao vosso trajecto. Para vocês, o pai do “rock” português é, como tantas vezes se ouve e lê, o Rui Veloso e a mãe o José Cid?

CF: Não. O pai e a mãe é o Júlio Pereira, que gravou todos os melhores discos portugueses. O Rui Veloso é o filho e o José Cid o alien.


BC: Para uns Capitão Fausto em ascensão quase meteórica, em 2014 será mais fácil ascender no panorama musical português do que há alguns anos atrás? 

CF: Parece-nos que se tem dado mais atenção à música portuguesa neste início dos anos 10. Isso facilitou as coisas para nós e para muitas outras bandas. Esperemos que assim continue!





BC: A vossa agenda de Verão está bem preenchida mas também já tocaram bastante ao longo do ano. Qual é para vós o melhor concerto que já deram este ano e, por outro lado, qual é aquele que vos desperta maiores expectativas?

CF: Escolher apenas um é complicado, e ainda mais porque às vezes os melhores concertos foram aqueles de que não nos lembramos. Mas guardamos boas memórias do concerto no Maus Hábitos, no Porto, e na TOCA, em Braga. E tiveram noite depois do concerto à altura.
Este verão já demos uns quantos muito bons! Agora aguardamos a noite no FUSING, na Figueira da Foz, onde vamos estar rodeados de amigos e bandas portuguesas. Top deal.


André Gomes de Abreu




domingo, 16 de fevereiro de 2014

CAPITÃO FAUSTO @ LUX FRÁGIL, 6/2/2014

Quinta-feira foi o dia da tão aguardada apresentação ao público do segundo longa-duração sucessor de “Gazela”, por parte dos Capitão Fausto
Santa Apolónia, lugar de chegada e partida como assim pedia a noite psicadélica, foi o local eleito para o passeio de “Pesar o Sol”.
A noite estava fria, as expectativas eram altas e a enchente era esperada: assim que chegámos às imediações do Lux Frágil deparámo-nos com uma longa fila constituída maioritariamente por dezenas de adolescentes atraídos pela sonoridade juvenil do quinteto. Já dentro de portas, apesar do atraso de uma hora, a noite não decepcionou e enfrenesiou por via de um bálsamo sensorial de qualidade.
Em noite de James Bond (e de homenagem a Nuno Roque, o 007 Português), houve ainda espaço para que os Capitão Fausto invocassem os seus
namoros antigos com o psicadelismo nacionalizado em temas como “Febre” e Verdade”.
Para este disco perfurante, que teve um longo período de tempo de maturação em estúdio (gravado no verão de 2012), pairava no ar uma certa expectativa para ver como era transportado o forte trabalho de pós-produção para um concerto ao vivo. O resultado foi muito positivo e os Capitão mantiveram-se bastante fiéis ao resultado da gravação.





Assim que Tomás Wallenstein e companhia entraram em palco, notou-se rapidamente a manifesta evolução da formatação imediatista de “Gazela” com a ascensão da massa sonora que enche “Litoral”, uma certeza da deriva de uns Temples ou mesmo dos australianos Tame Impala em que os Capitão Fausto encontram agora o embalo, assumindo a vontade de
dar continuação à segunda metade dos anos 60 em Portugal marcada por conjuntos como o “Quarteto 1111”.
Durante hora e meia de concerto energético, de ondulação reminiscente e caleidoscópica, o delírio, a histeria e o alvoroço foram uma constante, embora muitas das vezes dando também lugar a canções que levavam as pessoas a momentos de interiorização de canções suaves e cuidadas, como o tema homónimo do novo álbum - ou não fosse este um disco suficientemente diversificado.
Em “Prefiro que Não Concordem” era mesmo impossível o movimento por entre um moche/arrastão/empurrão desorganizado alimentado por guitarras aguçadas e uma bateria pujante; quando chegou a vez do single de apresentação“Célebre Batalha de Formariz”, abateram-se sobre o Lux Frágil climáticos minutos, em que se transpôs a fortaleza psicadélica com Tomás a surfar pela multidão.








As seguintes “Flores Do Mal” e “Maneiras Más” seriam os momentos em que mais se fazia notar a nova cartilha de afectações visuais dos Capitão Fausto, reinterpretando freudianamente um mundo exótico de sons desusados por via
de guitarras embebidas de efeitos, um sintetizador alquimista, uma bateria pungente e um baixo bem conciso. Para o encore ficou reservada, da mesma forma que no novo registo, a floydiana "Lameira", relembrando que os mesmos cinco de "Teresa" estão, em boa verdade, mais consistentes, desinibidos e investidos por uma forte consciência social e satírica.

À medida que abandonávamos a sala, surgia-nos a certeza de termos chegado a boas conclusões - este “Pesar o Sol” conseguiu, efetivamente, fazer jus à expressão técnica que lembra navegação e metaforicamente a viagem. E que, apesar da exaustão, as novas canções são o carinho necessário para que sejam recebidos com tanta afeição quanta maturidade. Parece que os Capitão Fausto trocam-no a partir de agora pela absorção correta de tudo o que lhes possa caber na regeneração das suas intermináveis cadeias melódicas.




João Ribeiro

Fotografias por Tamia Dellinger
(galeria de fotografias disponível
em facebook.com/bandcom)




terça-feira, 16 de abril de 2013

Warm Up Vodafone Paredes de Coura @ Porto - 12 e 13 de Abril 2013 (em actualização)


O dia 1 do Warm Up Vodafone Paredes de Coura infelizmente não esteve à altura do nome do festival que inaugurou.
Os Capitão Fausto tiveram honras de abertura e o público, ainda bastante esparso, pouco reagiu à sua actuação. O seu som, já com bastante airplay nas rádios mais alternativas, é interessante, jovem e fresco, pelo menos nas 2 primeiras músicas. A partir da 3ª música, aos nossos ouvidos sucede o mesmo que ao olfacto quando exposto demasiado tempo consecutivo ao mesmo mau cheiro: ficam anestesiados. As músicas tornam-se repetitivas, com alguns contratempos e umas digressões intermináveis nas teclas, combinadas com umas letras pseudo-irónicas e completamente vazias.
O resto da actuação transformou-se numa longa e interminável mescla de tédio e ansiedade pela banda seguinte, que a falta de empatia da banda com o público não veio ajudar.
Seguiram-se os britânicos Veronica Falls. Com um hype considerável por essas redes sociais e um álbum novo Waiting For Something To Happen recém lançado pela Bella Union, a banda brindou-nos com uma actuação relativamente curta de cerca de 30 minutos, perante uma plateia já bem mais composta. O seu pop rock reminiscente de meados dos anos 80 trouxe alguma alegria à noite, mas não conseguiu prender, sendo o seu trabalho de estúdio bastante mais convincente do que o seu desempenho ao vivo.
Os Wedding Present trouxeram-nos novamente de volta aos anos 80, altura em que foram banda referência de uma geração que vivia com os ouvidos virados para norte, sempre em busca das novidades de um país que ditava as tendências mundiais em quase todos os estilos. O seu álbum novo Valentina foi o protagonista de uma actuação com grande vitalidade, onde o público teve também o privilégio de conhecer ou relembrar músicas do seu clássico álbum de estreia George Best (1987). Com um rock descomplicado e ágil, sem grandes floreados e directo ao ponto, os Wedding Present com um elenco renovado demonstraram que o seu regresso foi construído com cuidado e não apenas uma tentativa saudosista de fazer uns trocos à custa da glória passada.
A actuação da noite trouxeram-na os Everything Everything. Com uma carreira ainda relativamente recente, iniciada em 2007, o seu álbum de estreia Man Alive (2009) conseguiu uma nomeação para o Mercury Prize e o reconhecimento unânime de crítica e público pelo seu estilo pop/rock dificilmente catalogável, assente em sólidas bases harmónicas, em composições surpreendentemente originais e no falsete do seu vocalista Jonathan Higg.
A qualidade do seu álbum mais recente Arc (2013) fazia prever uma actuação interessante, mas as expectativas foram largamente superadas.
A banda em palco supera nitidamente o seu registo de estúdio, conseguindo uma fluidez e uma coesão rítmica e melódica a que só as grande banda conseguem aspirar. O facto de terem no seu repertório verdadeiras canções, bem estruturadas e harmonias vocais  imaculadas também ajudaram à festa.
O concerto começou com a faixa de abertura de Arc, "Cough Cough", com um trabalho fabuloso da secção rítmica, constituída pelo baterista Michael Spearman e pelo baixista Jeremy Pritchard, deixando o público entusiasmado e a salivar pelo que se seguiria. Em "MY KZ, UR BF" regressaram ao single que em 2009 definitivamente os lançou como uma promessa da música alternativa britânica, com os seus sumptuosos teclados a cargo de Peter Sené e as recorrentes harmonias vocais de uma precisão impressionante para um concerto ao vivo.
Seguiu-se o primeiro single que lançaram enquanto banda em 2008, "Sufragette Sufragette", dona de um riff poderoso que converteu os mais resistentes ao tímido bater de pé e ao ligeiro balançar da cabeça, a que sucedeu a música que apresentou Arc, "Kemosabe", com uma melodia daquelas que fica na cabeça durante dias sem que se perceba muito bem porquê.
Regressaram depois ao primeiro álbum com "Schoolin´", trouxeram mais um excelente trabalho rítmico com a "Feet for Hands" e encerraram a sequência com o frenético "Don´t Try". O final aproximava-se e a música escolhida para a despedida foi a mais contemplativa "Radiant", título indicado para descrever o estado em que se encontrava público já muito numeroso que aplaudiu a saída de cena dos britânicos.
Para fechar a noite com estrondo, os No Age demonstraram que bastam 2 pessoas para facilmente demolir um edifício. Esqueçam os explosivos, contratem estes dois e o trabalho é igualmente eficiente. Power duo clássico, com bateria e guitarra (por vezes apenas guitarra e baixo), tornaram-se quase ensurdecedores a espaços e a forma básica como tocam não ajudou muito a uma experiência muito construtiva. Claro que sendo uma banda cultora do punk mais experimental que se faz por aí, não era nitidamente essa a intenção e o público mais corajoso que se acumulava na frente do palco rejubilou, fazendo sentir a sua satisfação como só ele o sabe fazer.
Na setlist não faltaram os inescapáveis "Fever Dreaming" e "Glitter" e o avançar da hora ajudou a que apenas os mais resistentes ficassem até ao final, entre muito mosh e head-banging, com direito a invasão de palco por um fã, prontamente obviada pelo segurança e a crowd surfing pelo vocalista Dean Allen Spunt, nitidamente contagiado pela energia do público que o acompanhou até à despedida final, já a madrugada tinha chegado há algum  tempo atrás.


Depois de um primeiro dia bastante morno, o 2º dia do Warm Up Vodafone Paredes de Coura chegou com bons concertos em perspectiva.
Os portugueses Sensible Soccers, com a vida dificultada pela hora a que actuaram e pela ainda fraca afluência de público, não se deixaram intimidar e soltaram a sua electrónica mais ambiental, acompahados por 2 guitarras, não esquecendo o seu cartão de visita "Missé missé", a que juntaram outras criações.
Seguiram-se as inglesas Stealing Sheep, trio de vozes bonitas e muita simpatia mas com composições bastante fraquinhas que não conseguiram convencer o povo que já se impacientava pelos portugueses que se seguiam.




Os Linda Martini deram ao Porto um belo concerto neste seu regresso às actuações ao vivo, depois de um interregno que já se tornava longo demais. O seu estilo mantém-se inalterado e resulta de uma forma incrível ao vivo: alternância entre uma verdadeira wall of sound rockeira e momentos de libertação de energias, salpicados pela sempre assertiva bateria de Hélio Morais, que entre elogios ao Porto e aos seus colegas de cartaz, foi a face mais visível de uma banda concentrada em passar a mensagem através da voz e dos acordes que disparavam sem descanso.



Começaram o concerto em modo de teste da máquina, com o calmo "Este Mar", para depois se darem ao público com a épica "Dá-me a tua melhor faca", fábrica de riffs que deixou o recinto a seus pés. Pelo palco passaram ainda sucessos incontornáveis como "Amor Combate" ou a potente "Cem Metros Sereia" e lá pelo meio, uma música nova que soou bastante bem, mostrando uma evolução na sonoridade da banda.
O público estava finalmente aquecido e preparado para a invasão síria que se seguiu.



Com Omar Souleyman, sabemos de antemão o que nos espera. Onde quer que vá, espalha alegria e boa disposição, não precisando para tal de qualquer artifício verbal ou dramático. Sempre simpático, dentro da sua parca linguagem verbal e corporal, acompanhado por um teclista de aspecto duvidoso que soltava umas batidas com sabor disco oriental muito kitsch como convém, facilmente fez a festa que tomou conta de todo o recinto e só pecou por ser demasiado breve para a adesão que teve.
Num registo radicalmente distinto, o senhor que se seguiu trouxe consigo um cheiro a melancolia de outros tempos em que o Rock se reinventava a cada nova música que surgia.


Lee Ranaldo, que com os seus Sonic Youth fez avançar um estilo musical moribundo na direcção certa, com a sua Lee Ranaldo Band mantém os riffs orelhudos e a postura de inconformismo, mas a juventude já se foi, deixando-lhe a experiência que usa como ninguém.
Tendendo para composições com um formato mais convencional de canção, Ranaldo apresentou-nos o seu álbum mais recente Between the times and the tides (2012), do qual escolheu faixas chave, com destaque para "Angles", "Shouts" e "Hammer Blows" (em que solou utilizando um arco), que simpaticamente apresentou ao público que não arredou pé, como que hipnotizado pelo seu carisma.



Matias Aguayo fechou o festival com a sua boa disposição, num set pejado de ritmos latinos e sonoridades disco, que transformou numa espécie de karaoke particular, ao acompanhar com a sua voz muitas das faixas.
O Warm Up Vodafone Paredes de Coura foi uma excelente ideia para promover o melhor festival do norte do País, trazendo música de qualidade, de forma acessível e central, a uma das movidas nocturnas mais destacadas desta Europa tão triste.
Esperemos que o evento se concretize novamente em 2014, porque são iniciativas destas que nos fazem crescer e ser notados.  

Texto de Paulo Silva
Fotos Raquel Lemos

(O BandCom lamenta que as fotos do 1º dia ainda não estejam disponíveis mas serão publicadas com a maior brevidade possível.)




quarta-feira, 27 de março de 2013

TALKFEST'13 - REPORTAGEM

Música enquanto agente económico? Este conceito é quase um corpo estranho para a maioria dos ouvintes de música em Portugal que, e bem, estão mais preocupados em desfrutar do que de bom se faz por cá que na sua viabilidade económica. Eis que aparece o Talkfest, que se propõe a preencher esse buraco na reflexão sobre o futuro da música enquanto negócio e enquanto braço armado do turismo, nomeadamente no que aos festivais de verão diz respeito. O Talkfest é um ciclo de conferências que, já na 2ª edição, contou com um painel de distintos oradores como Álvaro Covões, patrão da Everything is New, Tozé Brito, administrador da SPA, músico e autor, Jorge Romão (GNR) e Zé Pedro (bem, nem vou ter o desplante de vos tentar apresentar o Zé Pedro). Mas nós, gente atenta à música nacional mas sobretudo audiófilos assumidos, demos, como seria de esperar, maior relevo à música tocada. Já que mais não seja pelo facto de a música falada não ser a nossa praia (desculpem rappers deste mundo). Assim sendo, saltamos directamente do ISEG, local das conferências, para a Aula Magna, sala de espetáculos emblemática lisboeta onde tiveram lugar os concertos.




6 de Março

A edição de 2013 do Talkfest abriu em grande estilo com os Capitão Fausto, uma das bandas em alta rotação na cena musical deste Portugal e que deu mais uma prova de vitalidade. Uma sala composta (numa 4ª à noite!) demonstrou mais uma vez a lufada de ar fresco que estes rapazes são no roque nacional. Apesar de o alinhamento ter sido muito semelhante aos vários concertos que já vimos da banda, não cansa, de facto, ouvir grandes malhas como Sobremesa ou Santa Ana. Não cansa ver o Salvador Seabra a tocar como se não houvesse amanhã e a brindar a Aula Magna com um soberbo solo de bateria. Não cansa correr atrás da gazela, tentativa inglória, que ela é rápida demais para o nosso passo pacato. É que isto de andar a ouvir Zambujos e Vitorinos, Faustos e Úrias e apanhar com tamanha descarga eléctrica sempre que nos aventuramos pela savana onde mora a gazela psicadélica faz-nos suar de alegria por haver uma banda assim em Portugal. Gostávamos que tivessem deixado cair mais o pano do segundo álbum de originais que aí vem? Claro. As poucas músicas novas que apresentaram não conseguiram empolgar como os grandes sucessos do disco de estreia? Não, o que é naturalíssimo visto não lhes conhecermos o miolo. Foi um grande concerto. Como todos os outros da banda? Sem dúvida. E, claro, há sempre a Teresa para fazer sobressaltar as hostes.






E a cama estava feita para os Salto, que mostraram logo ao que vinham empunhando a sua pope dançante e acentuando a sua identidade tripeiro-descontraída (“Olá, nós somos do Porto, c******!”).

Esta banda do catálogo da Amor Fúria é também ela um caso sério. Execução a roçar o irrepreensível, linguagem acessível e música construída numa lógica pop que navega entre a electrónica a gritar pelas pistas de dança e o roque alternativo a que tão bem queremos. Causaram muito boa impressão e acabaram com uma Aula Magna rendida à energia de canções como Deixar Cair, Por Ti Demais ou Sem 100, onde o groove da voz de Guilherme Tomé Ribeiro marcou pontos.





7 de Março

O segundo dia do Talkfest´13 começou também com uma banda portuense, desta feita os doismileoito. Conseguiram certamente pôr toda a gente a bater o pé, pois ofereceram um concerto de bom nível, com um alinhamento constituído maioritariamente por canções do seu álbum, intitulado Pés Frios. E foi precisamente quando se ouviu Quinta-feira, single radiofónico desse mesmo disco (e que goza de maior aceitação por parte de um espectro mais alargado de ouvintes) que as tropas se animaram e levantaram o rabo das confortáveis poltronas da Aula Magna (sim, acho que lhe podemos chamar poltronas). Estava lançada a festa com o pope-roque directo e cantável dos doismileoito e era altura de nos preparamos para o punk também, diga-se, pintado em tons pop de uns certos rapazes de Queluz.




  
A dicotomia estar-sentado-porque-estou-na-Aula-Magna versus estar-de-pé-porque-estou-num-concerto-de-roque foi omnipresente no Talkfest, mas Jónatas Pires d’Os Pontos Negros tratou rapidamente do assunto. “É uma vergonha estarem aí sentados. Todos de pé, é uma ordem!”, gritou o guitarrista e vocalista. Grande parte do público respondeu e estavam criadas as condições para um concerto que revisitou os êxitos da já mui respeitável discografia da banda sem nunca esquecer o mais recente álbum de originais gravado em Abbey Road, Soba Lobi. Canções como Conto de Fadas de Sintra a Lisboa, Magnífico Material Inútil, Rei Bã e Tudo Floresce (só para citar as mais conhecidas) trataram de encher a barriga a quem se deslocou à Aula Magna. Houve ainda espaço para Pedro da Tróia (Capitães da Areia) irromper palco dentro para uma feliz versão de Supersticioso, dos Heróis do Mar e para se ouvir 1991, dos Feromona, cantado pelo próprio Diego Armés e, imagine-se, com grande parte da banda em palco. Por volta da uma da manhã, com o encerramento do metro, a assistência diminui significativamente, para níveis que uma banda com a história d’Os Pontos Negros não merece. Nós aguentámos por amor ao rock, aplaudimos com todas as forças – e fomos a pé para casa.




8 de Março

Os Ciclo Preparatório podem ter uma palavra importante a dizer no futuro da pop nacional. Prova disso é a força que o seu single Lena Del Rey já ganhou, com várias semanas seguidas a dominar o top da Antena 3. No dia 8 de Março pudemos ouvir as canções do seu álbum de estreia que, ao que consta, sairá já no próximo mês de Abril. Transpareceu algum nervosismo, natural, e a banda não conseguiu levantar a maioria dos presentes (mas não será injusto se culparmos o facto das cadeiras serem verdadeiramente de um conforto digno de um sultão das Índias). Distribuíram-se flores pelas senhoras da sala, que fica sempre bem. Deste concerto dos Ciclo Preparatório ficaram as canções, que são boas, e que fazem antecipar um álbum bem-sucedido. 






Quem também não conseguiu ganhar a batalha contra as cadeiras da Aula Magna foram os Cavaliers of Fun, apesar de toda a energia colocada em palco. A banda composta pelo ex-Loto Ricardo Coelho e pelo mentor dos Memória de Peixe, Miguel Nicolau, apresentou, no entanto, uma pop saudável que respira energia e electrónica como um relâmpago daqueles que fazem os putos esconderem-se debaixo das saias das mães. Pop dançável.

Findos que estavam estes dois concertos inaugurais, chegou-nos o grande momento desta edição do Talkfest. Não tínhamos expectativas demasiado altas. Confesso-vos, com alguma vergonha, que não sou (não era) grande fã dos PAUS. Da primeira vez que os vi ao vivo, ainda sem conhecer versões de estúdio, estranhei o som difuso e o pitoresco do cenário. Amaldiçoo o meu conservadorismo, porque no dia 9 de Março descobri uma banda que mudou a minha forma de ouvir música. O que antes parecia uma exibição frugal de técnica por parte da bateria siamesa, mas principalmente do enorme Hélio Morais, afigurou-se-me uma massa sonora que faz sentido, e faz o sentido que lhe quisermos dar. Mas dúvidas de que é brutal, arrebatadora e tudo mais? Não as há, agora.






E quando vejo uma Aula Magna cheia como não se viu noutro concerto do Talkfest´13 percebo a palermice da minha reserva quanto aos PAUS. Assistia-se à consagração de uma grande banda, num grande palco. Quim Albergaria atirou: "Hoje é um bom dia para engravidar" (!). Acrescenta: "para dizerem ao vosso filho que foi feito no dia de um concerto muito especial: no dia em que os PAUS tocaram pela primeira vez na Aula Magna!". Foi de facto um enorme concerto, que foi também especial por ser o primeiro e talvez o único em quinteto - com o novo membro Fábio Jevelim.

E a festa acabou com a já tradicional invasão de palco com um público sedento de ouvir o disco homónimo e também os dois EP´s da banda (“É Uma Água” e “Estamos Juntos”) com a força acrescentada que a interpretação ao vivo lhes dá. Mais gente no palco que na plateia e, só por aquele momento, valeria a pena fazer-se mil edições do Talkfest. E as poltronas, essas, estavam vazias.




Bernardo Branco Gonçalves
Fotografias por Constança Quinteiro




terça-feira, 15 de janeiro de 2013

AINDA TENS QUE OUVIR #6 - CAPITÃO FAUSTO - GAZELA (Chifre, 2011)






2011 marca o ano de lançamento do primeiro LP por parte da banda 
lisboeta Capitão Fausto. Antecedido por um EP de encher o ouvido, Gazela segue os contornos do psicadelismo já escutado em bandas como Pink Floyd, The Beatles, Tame Impala, que se une ao pop-rock dos anos 00’s, criando um equilíbrio adicional às melodias 
catchy cantadas pelo líder Tomás Wallenstein.




Gazela contempla-nos com onze faixas que nos fazem bater o pé: desde os 
arrepios de “Música Fria” e juntando uma “Febre” de nos fazer suar, “Santa Ana” 
dá o mote a uns passinhos de dança, aclamando assim uma das suas letras mais 
conhecidas: “Está a chover dentro da sala de estar / A casa ardeu, ninguém parou de 
dançar”. “Teresa”, primeiro single extraído deste álbum, seduz-nos facilmente com 
guitarradas luminosas assim como coros gritantes capazes de arrastar uma plateia em 
êxtase.  





O auge chega no fim com o tema “Raposa”, que embora seja uma música 
repartida em duas metades, é unificada pelo ambiente sombrio provocado por 
fervorosos sintetizadores aliados à energia efusiva da bateria.
Um excelente ponto de partida para os Capitão Fausto do qual ansiamos para 
breve o seu regresso.

João Taborda




Twitter Facebook More

 
Powered by Blogger | Printable Coupons