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sábado, 26 de abril de 2014

ERMO: ENTREVISTA


Na língua portuguesa, Ermo pode ser adjetivo ou substantivo masculino. Se por um lado significa "o que está só, solitário", por outro está associado a um "lugar desabitado, deserto". Composta por António (voz) e Bernardo, a banda homónima natural de Braga encontra-se de algum modo ligada à raíz da palavra, tendo sido uma das revelações do passado ano na música portuguesa. O seu percurso artístico é traçado essencialmente por terras lusitanas, mas conta já com alguns tentáculos investidos em conquistas além fronteiras. E se houve garantidamente sucesso com o álbum "Vem Por Aqui", lançado em parceria com a Optimus Discos, o novo ano tem vindo a trazer a continuação da apresentação deste trabalho (entre as várias atuações poder-se-á destacar a mais recente no SWR Barroselas Metalfest), mas também a preparação do EP que será lançado ainda em 2014.


Bandcom (BC): Ermo é, sobretudo, intervenção. Que inquietações, que artistas (além do “padrinho” Adolfo Luxúria Canibal), que livros, que Braga (para além do “Projéctil”) vos move para criar a vossa música?

Ermo (EM): Ermo é sobretudo intervenção se quisermos ver o projecto dessa forma. O “Vem por Aqui” é um disco mais etnográfico que outra coisa. O facto de falarmos sobre um país degradado não quer dizer que o pretendemos salvar ou que queremos puxar pelas pessoas para lutar por ele. Cada vez mais sentimos uma indiferença enorme face a tudo o que se está a passar. Talvez isso nos torne miúdos imaturos, mas estamos na idade certa para o ser. Quanto a influências, não gostamos muito de falar sobre isso. Não consigo dizer onde vamos buscar o quê, mas sim, Braga é provavelmente o factor mais decisivo na música que fazemos, quer seja pela ambiência da cidade ou pela arte que se lá se pratica e praticou.


BC: A vossa música destaca-se pelo minimalismo do instrumental onde letras com fortes referências ao país se vão desenvolvendo na ironia de que "tudo correrá bem". Como acontece o vosso processo de composição? Quem trata de que parte? As vossas ideias são semelhantes ou complementam-se entre si?

EM: Eu (António) e o Bernardo fazemos tudo a 50/50, basicamente. Escrevemos letras e compomos instrumentais juntos. Só na parte da execução é que os papeis se dividem e acho que essa é que é a piada do processo de composição. Se as nossas ideias são semelhantes, já não sei. Um dia que ambos tenhamos projectos a solo vamos todos descobrir.



BC: Os Ermo fizeram parte da colectânea "Novos Talentos FNAC" com "Primavera". Há espaço para os novos talentos em Portugal? Sentem que está mais difícil ou mais fácil procurar o vosso próprio espaço?

EM: Não sei. Creio que os novos talentos estão sempre a nascer, difícil é ouvir falar deles. Cada vez mais a imprensa dedicada a música alternativa se deixa levar por hypes e promotoras que estão em voga. Isso é tanto uma coisa má como uma coisa boa. A crescente organização neste meio pode vir a dar num seio musical português bastante sólido e é para lá que caminha. A ver vamos.


BC: O tratamento do Luís “Stereoboy” Salgado na parte da produção é uma lição para no futuro procurar novamente quem entenda tanto do orgânico como do maquinal para um resultado final satisfatório para a vossa música?

EM: Sim, trabalhar com o Salgado foi uma experiência fantástica. Aprendemos imenso e, sempre que estamos a trabalhar em algo novo, fazemos questão de o consultar para saber a opinião dele. Talvez isso venha a dar lugar a mais colaborações futuras.


BC: Contavam com o sucesso do "Vem Por Aqui"? De que maneira isso influenciou o traçar de novos caminhos?

EM: Sim, estávamos cientes de que o disco estava bom e que o público ia aderir à sonoridade. Acho que a recepção por parte do público e as críticas influenciam sempre o que vem depois, mas como foi isso que aconteceu, não sei como seria de outra forma. No entanto há críticas e críticas e, por vezes, há uma ou outra que nos chama a atenção para outros caminhos que podemos tomar, nas entre-linhas. Ou, pelo menos, é essa a maneira que as lemos.



BC: O “Vem Por Aqui” continua disponível para “download” gratuito via Optimus Discos, o EP homónimo também…é ou não, de certo modo, apocalíptico que encontremos tanta e cada vez mais música de forma gratuita?

EM: Tem dois lados. Claro que cada vez mais, muita música passa ao lado de muita gente, mas é impossível negar que o download gratuíto nos permite fazer quase uma enciclopédia musical no nosso PC.


BC: Além da referência com o título, o vosso LP consegue associar-se muito perfeitamente à ideia transmitida por José Régio em "O Cântico Negro". A influência e importância de autores como José Régio, O’Neill, é algo que para vós está perfeitamente reconhecida em Portugal?

EM: Acho que a influência desse tipo de autores é tanto consciente como inconsciente. Acho que toda a arte que consumimos nos influencia mais tarde ou mais cedo e, toda a gente, acaba por ter contacto com os artistas portugueses, quer queira, quer não.


BC: Durante as vossas performances é interessante reparar no modo como o António aborda todo o contexto em que a vossa música coloca o público, assumindo uma postura singular em palco. Como costumam as pessoas reagir a essa teatralidade em palco, ao caderno preto com os textos que o António costuma recitar? 

EM: Acho que, acima de tudo, a minha performance, ou como lhe preferires chamar, deixa as pessoas desconfortáveis, tanto pela vergonha alheia ou pela surpresa de ver alguém em convulsão em palco durante uma hora. Isso é algo que me agrada.


BC: Que apoios mais têm sido importantes e com quem gostariam de trabalhar a curto prazo? O do NAAM Barroselas será certamente um dos apoios importantes…

EM: Sim, a NAAM foi uma das melhores coisas que já nos aconteceu. Contamos com o apoio de quase toda a gente com quem já trabalhámos, porque fazemos questão de desenvolver sempre relações pessoais com quem vamos encontrando pelo caminho. Não temos propriamente a ambição de trabalhar com alguém em específico, mas qualquer pessoa que tenha interesse em ajudar-nos a crescer é totalmente bem vinda.



BC: Os momentos que marcam até agora a vossa carreira estão mais dentro ou fora de Portugal? Que recepção tiveram nos palcos estrangeiros que já pisaram?

EM: Dentro, claro. Lá fora correu tudo bem. Tínhamos gente à nossa espera em algumas cidades e conseguimos encher alguns espaços. Impressionou-me o facto de termos tido uma óptima reacção... Pensei que as letras se tornariam um entrave, mas pelos vistos não. Acho que a expressividade é mais importante que as palavras, por vezes.


BC: O Entremuralhas e o SWR Barroselas Metalfest, em que actuam este ano, são festivais à imagem dos Ermo?

EM: Qualquer festival pode ser um festival à nossa imagem. Fazemos questão de adequar o nosso espetáculo aos sítios onde vamos, portanto não me parece que haverá grandes problemas além da estranheza que já nos é habitual.


BC: O “Amor vezes Quatro”, que andam a preparar, é um EP em que é tudo novas composições ou músicas antigas que poderiam ter feito parte do “Vem Por Aqui”? Algum conceito por detrás deste novo trabalho? Ainda o ouviremos este ano em disco ou apenas ao vivo?

EM: Nenhuma das músicas podia ter entrado no “Vem por Aqui”. São músicas muito libidinosas. Extremamente pessoais, aparte da Recreio, que já podem conhecer num show case que fizemos, recentemente, para a Yellow Glasses. O disco sai ainda este ano e é sobre 4 perspectivas diferentes de amor, num som bastante mais cru do que habituámos o nosso público.


BC: Compreender o passado para construir o futuro, regressar às raízes musicais e analisar algo do que já se fez, é essencial para também construir sonoridades de vanguarda?

EM: Totalmente. O futuro é sempre uma recriação do passado. De uma maneira ou de outra.


BC: O que é ser português?

EM: Ser português é apertar o cinto e, ainda assim, ficar com o rego de fora.



João Gil




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

ERMO - VEM POR AQUI (2013, OPTIMUS DISCOS)


Título: Vem Por Aqui
Edição: Novembro de 2013, Optimus Discos
Classificação final: 9.3/10

Há cerca de um ano atrás, no âmbito das nossas listas de fim de ano de 2012, onde classificámos o EP de estreia dos Ermo como um dos dez melhores EP’s nacionais do ano, dissemos que o duo bracarense formado por António Costa e Bernardo Barbosa não se resume apenas a música propriamente dita: há história e estórias, devaneios criativos como, por cá e não só, pouca gente até agora se atreveu e viagens que, a avaliar pela obra discográfica da dupla, parecem pouco preocupadas em chegar a um porto seguro.

Certamente é essa a sua intenção, a experiência de ouvir Ermo, quer no seu EP quer agora em Vem Por Aqui é abaladora, inquietante e, desculpem-me se me sirvo de hipérboles, quase única: não espanta, por isso, que no fim da viagem, no momento de atracar a caravela, desconheçamos as terras que se encontram; é um espaço novo, nunca antes, por nós, navegado, onde tudo o que lá existe e habita se resume àquilo que poucos esperariam encontrar. Sabemos apenas que é por lá, nos seus lugares mais sombrios, que os Ermo viram o seu sol, a iluminação paradoxal do seu estro, da sua essência: como sabe bem mirar um hipotético horizonte e encontrar caravelas, parte da história e glória nacional, a chegarem a novas terras em pleno século XXI, porém terras diferentes, mais tristes que outrora. Da glória dos nossos antepassados e da tristeza de Portugal versão 2013 se serve o triunfo dos Ermo.

«Porque é que queremos ser pequenos? // De lá fora cada vez mais // de Portugal cada vez menos. // Porque é que vemos sempre escuro // quando p’ra dentro nos olhamos.». Somos um país triste, com uma história irreversivelmente triste, onde a felicidade é, por estes dias, apenas uma miragem. As pessoas do nosso Portugal sabem disso, preferem ver nas conquistas do passado as alegrias dos dias de hoje; é sempre assim, hipotecando-se o futuro, deixando-o de parte, viver hoje à espera do amanhã, com o ontem sempre na lembrança. Os Ermo sabem disso e, exactamente por saberem disso, vivem no passado, no presente e no futuro: do ponto de vista lírico existem oito canções ilustrativas, ou seja, todo o disco, do ponto de vista sonoro idem; habita a certeza de que as composições mais clássicas se cruzam com os tempos futuros das composições folk.

As guitarras que outrora serviam de máxima à canção habitué da folk são, em Vem Por Aqui, substituídas por jogos concitantes de teclas e sintetizadores, sempre trabalhados com um carga electrónica bastante apreciável, e desviam-se do cliché de estarem em fase com as vozes: é demasiado evidente que a produção de Vem Por Aqui enfatiza e dá mais importância à voz de António Costa do que a tudo o resto; é ele o principal trovador do duo de Braga, é sobre ele que, como se esperava, recaem todas as atenções. António fala mais do que canta, berra mais do que murmura: podia-se, por isso, chamar Antónimo Costa que ninguém, por certo, se incomodava (matem-me).

E é por todas estas razões que Vem Por Aqui é um disco tremendo em todas as suas vertentes: esplêndido na sua plenitude enquanto registo que afilia tempos distintos da canção folk, exímio na abordagem política a interventiva que faz à sociedade portuguesa da primeira metade da segunda década do século XXI – onde as doutrinas de nomes como Fausto, Sérgio Godinho ou Zeca Afonso foram bem aprendidas – e soberbo no modo como a sua capacidade criativa consegue chamar e alertar a atenção das pessoas. “Correspondência”, “Primavera”, “Porquê?” ou “Projéctil” são apenas quatro das canções que fazem do primeiro LP dos Ermo um disco enorme, gigante. «Cala-te e come // Tu não tens fome. // És surdo e mudo // Orelhas de burro», os quatro versos delineados, escolhidos a dedo, para desenlaçar Vem Por Aqui ainda se ecoam na minha cabeça. Talvez não nos encontremos em tempos de não comer porque os outros comeram tudo e não nos deixaram nada, talvez agora a gente não coma porque não tem fome, porque somos uns burros e mesmo famintos mentimos a nós próprios dizendo que não temos fome. Afinal quem é que andamos a querer enganar? Está na hora de ver o nosso próprio sol porque Portugal está p’ra acabar e não podemos deixar o cabrão morrer.

Emanuel Graça




domingo, 17 de março de 2013

ERMO + NOSAJ THING @ Musicbox, 15/03/2013 - REPORTAGEM



À entrada do Musicbox um anúncio que não é assim tão frequente: bilhetes esgotados.

Isto prometia.



Trinta minutos após a meia-noite, os Ermo entram em palco e logo com os primeiros sons enchem-no de sombra e depressão. Estes dois rapazes bracarenses, António Costa no microfone e Bernardo Barbosa no teclado, trazem-nos um projecto muito minimalista e experimental, bastante centrado na voz e na letra. Embora não goste do que ouvi no seu bandcamp, fizeram, contudo, adaptações e remisturaram algumas músicas, conferindo-lhes um som mais electrónico e preenchendo o vazio instrumental que podemos encontrar na grande maioria das suas músicas de estúdio. Estas, cantadas em português e com letras, regra geral, eruditas e poéticas, mostram que este grupo pretende trazer algo novo à música portuguesaa voz sofrida e por vezes gritada deixa transparecer algumas influencias folk e dos cantares de Trás-os-Montes, apesar de não ser óbvio à primeira audição. Outras vezes, António discursa em prosa, como fez em “Novo Homem”, com recurso a um pequeno livro de bolso e um copo de tinto. À voz dele, Bernardo acrescentou efeitos, algumas escassas linhas teclas, e ritmos essencialmente do hip-hop ou da electrónica experimental.A música que fechou o concerto, “Súcubo”, merece algum destaque: António saiu do palco, penetrou por entre o público até onde o fio do microfone permitia, sentou-se no chão e começou a ler a prosa do seu livro de bolso. Falou-nos de como chegou a casa e se despiu, tocando-se a pensar em seios que vira e outros imaginários, até culminar num clímax que não trouxe a alegria que se esperaria de uma situação destas. Foi curioso observar a troca de olhares entre os elementos do sexo masculino presentes no Musicbox, como que reconhecendo o que António dizia – talvez fosse essa a intenção desta música, desprovida de linhas melódicas, apenas uma voz melancólica e efeitos que Bernardo tocava.





Após um curto intervalo, enquanto o público se foi espremendo para albergar todos os que entretanto estavam a chegar, Nosaj Thing entrou no palco para apresentar o seu mais recente trabalho, Home, tendo aberto o espectáculo com a música do mesmo nome. As músicas foram tocadas em set, e não em separado, o que demonstra o talento deste jovem norte-americano, que publicou o seu primeiro álbum de forma independente em 2006, tendo sido muito bem recebido pela comunidade da cena electrónica devido à sua originalidade e qualidade técnica. Com percussão ao estilo do future garage, glitches do IDM e por vezes ritmos do hip-hop, Nosaj Thing apresenta-se bastante versátil, porém, fiel à sua sonoridade que atrai cada vez mais fãs.
Do alinhamento fizeram parte músicas como a já referida “Home”, “Tell”, “Try” (que conta com a colaboração dos Toro y Moi) e ainda o seu último single, “Eclipse/Blue”, que inclui a magnífica voz de Kazu Makino, vocalista dos Blonde Redhead.
Os assobios e gritos que se fizeram ouvir aos primeiros segundos de “Fog” foram prova que o público já segue este artista há algum tempo – aqui notam-se claramente algumas influências de artistas como Shlohmo ou Holy Other, um som electrónico bastante dançável mas sem perder o ambiente mais obscuro e sereno. Enquanto que “Coat of Arms” se apresentou num registo mais pesado e ao estilo do post-dubstep, “Voices” e “Aquarium” vieram mostrar o lado mais IDMish, downtempo e experimentalista de Nosaj Thing

Às 2h30, Jason Chung abandona o palco, deixando um remix de “Bitch Don’t Kill My Vibe” de Kendrick Lamar a tocar. 
Foi grande o contraste entre Ermo e Nosaj Thing: talvez projectos como DWARF, Papercutz ou RA fizessem uma melhor abertura, pela semelhança de géneros musicais. Contudo, foi um grande espectáculo, isso é inegável, e não é em qualquer lugar que se tem boa música e uma cerveja incluída por 8 euros.




Carreto
Fotografias por David Cachopo
(galeria completa em facebook.com/bandcom)




segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Ermo (2012)

Ermo é o nome do projecto formado no Verão de 2011 por António Costa e Bernardo Barbosa, dois jovens naturais da cidade de Braga. Começaram desde cedo a divulgar algumas músicas através do seu bandcamp, conquistando, de imediato, algum público, que tem vindo a aumentar com concertos um pouco por todo o norte de Portugal, destacando-se uma actuação no Theatro Circo, em Braga, ao lado dos conterrâneos Simx Smox Smux.

A sua música é fortemente marcada por melodias obscuras, manifestações de interioridade e abordagens líricas. Mas o que os Ermo fazem não pode ser apelidado apenas de música, é muito mais que isso, é poesia, é expressão de sentimentos, é o reviver de figuras do passado, é a criação de uma nova estética musical.

No início de Outubro passado lançaram o seu primeiro EP, ao qual não foi dado título. Esta edição é constituída por 5 faixas que contabilizam menos de 20 minutos de música e giram à volta do mito do Quinto Império, abordando o passado, o presente e o futuro da nação. Tal como nas suas canções apresentadas anteriormente a este EP, a música dos Ermo apresenta uma grande maturidade, bastante surpreendente e cada vez mais rara no mundo que nos rodeia.



Deixando um pouco a música de lado, porque não é a única coisa que importa num álbum, os Ermo brindam-nos também com um prefácio de Adolfo Luxúria Canibal e ilustrações de Rui Itálico, factores que dão ainda mais força a esta edição do jovem duo de Bracarense.

À imagem do EP, a primeira faixa também não tem nome. Este pequeno tema apresenta um excerto do hino nacional desconstruído e adaptado à negra realidade actual da nação. “Heróis do mar, Parco povo, Triste berço, Triste sal. Lembrai, Oh negros mares o esplendor de Portugal.” é o inicio desta canção que representa o declínio de um país tão esplendoroso em tempos longínquos.
Segue-se Destronado, faixa minimalista composta apenas por voz e piano que fala de um tal “Rei Conquistador”, que se apresenta triste e abandonado por uma nação da qual queria ser herói mas da qual nunca recebeu mais do que mereceu.

Montalegre é o terceiro tema do EP, e o mais antigo de todos. Esta ode à histórica vila do norte de Portugal surge no entanto alterada relativamente ao tema que já tinha sido apresentado tanto no bandcamp da banda como em actuações ao vivo.

Dies Irae (Dias da Ira), título de um hino latim do século XIII que descreve o Dia do Juízo Final, dá o nome ao quarto tema deste EP. Tanto a letra como a construção instrumental desta canção apelam à reflexão de um Portugal cada vez mais perdido e adormecido que necessita de encontrar um rumo que traga de volta o esplendor de outros tempos. A alusão feita pelos Ermo ao Dia do Juízo Final, através do nome deste tema, alerta para a urgência e importância desta reflexão para o rumo do país.

O primeiro registo dos bracarenses Ermo termina num Concílio. Este longo tema começa com um diálogo entre António e Bernardo ensopado num ruído de fundo provado por multidões e máquinas, ilustrando uma típica conversa de café em que está presente o habitual maldizer do povo português e o seu estado de espirito. A segunda metade deste tema inicia-se com um bonita junção de piano e vozes que nos faz lembrar as lindas paisagens da música dos islandeses Sigur Rós, culminando com a declamação de dois poemas, cada um no seu auscultador, um representando a esperança (à esquerda) e outro representando a coragem (à direita).

É difícil descrever o que se sente ao ouvir esta homenagem ao Quinto Império materializada por dois jovens que apenas conheceram o Portugal esplendoroso de histórias ouvidas e lidas. Mais que um grande EP, estamos na presença de uma mensagem para a pátria que transmite força e coragem através da invocação de feitos passados.

Este EP não foi uma surpresa nem uma novidade para os que andam mais atentos. Não é aquela primeira edição que nos chama a atenção e nos deixa curiosos para assistir ao desenvolvimento da banda, mas sim uma confirmação do que já todos sabiam através das canções lançadas pontualmente ou das suas prestações ao vivo. É claro que a curiosidade no que aí vem também está presente, mas uma coisa é quase certa, o que virá será bom.


Classificação Final: 7.9/10

Diogo Marçal




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