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segunda-feira, 10 de junho de 2013

OPTIMUS PRIMAVERA SOUND 2013 - DIA 3

Dia 3 do Optimus Primavera Sound.
Havia cansaço, havia menos frio e havia a vontade amarga de fechar um festival de 3 dias que pareceram quase uma semana.





Com João Vieira que ficara do after-hours em que esteve como White Haus, os The Glockenwise puseram a melhor face do garage-rock que sabiam e, embora muitas vezes no mesmo registo (olá Black Lips), tornaram o palco Super Bock muito mais agradável ao final de tarde. "Leeches" parece continuar as pisadas de "Building Waves", o quarteto de Barcelos dá-nos mais e mais canções do calibre da canção-título do seu segundo longa-duração e de "Bad Weather" e "Scumbag", de "Building Waves", é mesmo já um clássico. Tudo o que não foi música foi para estrangeiro ver e ainda bem: os The Glockenwise serão sempre mais eficazes agindo e actuando.





Os australianos The Drones tinham uma quantidade de público q.b. para assistir ao seu concerto e isso é fácil de se explicar: existe qualidade. Porém, ao vivo, menos do que em estúdio e foi sobretudo isso que marcou o concerto. Não que fosse um mau concerto, porque não o foi, mas foi meramente razoável. Sobretudo para quem gostou tanto do último disco dos contingentes de Tame Impala ou Nick Cave & The Bad Seeds. Mas o público gostou e muitas gentes das filas dianteiras não resistiram e fartaram-se de abanar a cabeça ao som do blues-rock bem trabalhado dos The Drones.






No palco ATP, os PAUS, perante uma considerável multidão, continuaram a justificar o seu elevado ranking em solo nacional e também na edição de Barcelona do Primavera Sound. Com algumas novidades em relação a arranjos de concertos anteriores, o super-colectivo ganhou pontos festivaleiros sobretudo nas piscadelas de olhos ao EP "É Uma Água", embora as infalíveis e estivais "Descruzada" e "Deixa-me Ser" já sejam porta-estandartes de uma nova vaga de discos e bandas que estão preparadas para conquistar além-fronteiras. "Não sei se já repararam que falamos português", coisa séria com que brincaram, tão séria como o apreço que receberam no final de tamanha dose psicadélica de tribalismos rock tão crus.





Os Dinosaur Jr. tomaram conta do recreio no palco Optimus e em boa hora. O magote que os recebeu tinha várias caras conhecidas lá pelo meio que esperavam por rock amadurecido e pronto a servir. Com belíssimos hinos - "Rude" e "Budge" em claro destaque -, a banda de J Mascis e Lou Barlow não desapontou absolutamente vivalma. Não está aqui em causa só a sua habilidade em criar discos repletos de temas que os colocam no pedestal mais alto do dito rock alternativo americano original: "Just Like Heaven", a cover dos The Cure que não dispensam a cada alinhamento, é uma das melhores versões de sempre, afagando com raiva toda a mestria do uso da distorção que dispensa qualquer sintetizador. Para o final ficariam reservados os clássicos "Sludgefeast" e a versão de "Chunks", dos Last Rights, com um Damian Abraham (dos Fucked Up) mais vestido que o habitual a estabelecer um dos melhores concertos de todo o festival.





Foi pena o pouco tempo que passámos com o indie-rock certinho dos intemporais Sea and Cake, mas pela quantidade de público, os Explosions in The Sky que estavam para chegar não eram uma ameaça.





Depois do cancelamento na edição de 2012, os Explosions in The Sky começaram a actuação já deixando saudades e deixando que o passar do tempo fosse um sofrimento para a vasta audiência que não os queria deixar partir. Toda a noite não seria suficiente para algo totalmente satisfatório, mas dentro do tempo que tiveram e das faltas de material assinaladas, os texanos não desiludiram, apesar dos receios que ainda sobram de que o término de "The Only Moment We Were Alone", com que o concerto fechou, seja responsável pela maior parte das boas recordações desta actuação. A meio caminho entre os silêncios construtivos dos Mogwai e a fragilidade dos Sigur Rós, é inegável que os Explosions in the Sky têm o repertório e a perícia que influenciou directamente muitos dos projectos que vamos conhecendo da área do post-rock pós-00. Há até um ligeira vibração emo naqueles acordes longos e entrelaçados que se degladiam entre si como o Outono arranca folhas às árvores, como as rosas perdem pétalas. "Olá, nóis sómos explosões nô Céu", disseram: no final, havia gente feliz num poço de lágrimas.
 





Por diversas razões, a tenda do palco Pitchfork teve uma enchente para ver as Savages ao vivo. Para quem  fizera uma correria desde o palco Optimus, ainda apanhou parte das canções da estreia "Silence Yourself". Revitalizar a austeridade gótica e pós-punk deu-lhes, surpreendentemente, um hype monstruoso; nem se renegam as influências de Siouxsie nem de Ian Curtis em Jehnny Beth, mas seja ou não pelo facto de querer pertencer a um movimento quase perdido e irrepetível, a audiência dá-lhes todo o apoio. Como poderia não ser assim quando as canções, como "She Will" e "Waiting for a Sign", são muito acima da média? Quando há realmente uma aura de ligação público-artista que é assim tão primitiva e emancipada? Ao nível a que estiveram, são claramente uma das revelações deste Optimus Primavera Sound.



 


Ponto prévio: não somos de fanatismos. Independentemente do seu papel reconhecido no cimentar da estética do shoegaze, os My Bloody Valentine seriam o concerto da vida de muitos dos presentes. Não se esperava é que fosse o concerto da vida de quem já os tinha visto ao vivo, que fosse a razão para que tudo no Mundo fosse naquele momento como era. Com os tampões nos ouvidos, parecia que havia pausas extemporâneas para analisar as vozes que não se ouviam (olá shoegaze), as guitarras em delírios febris (olá, novamente, shoegaze) e, claro, a trepidação invulgar de quem faz música fazendo da distorção e do volume aliados tão fortes como os teclados que surgiram a certa altura na sua música. Ah, claro, "problemas técnicos". Podendo existir tudo isto, restaria a capacidade de estar ali em corpo ou não. Confirmada a primeira opção, foi tudo absolutamente sublime. Embora sendo mais perceptíveis, logicamente, em "New You" (uma das melhores canções pop de todos os tempos e estamos a falar de uma banda em que "m b v" é o disco mais recente e a sua discografia é irrepreensível), as vocalizações angelicais e deslumbrantes ligavam-se a um Colm Ó Cíosóig diabólico numa aventura sensacionalmente punk (só o facto de "You Made Me Realise" constar no alinhamento rebentava com a escala, quanto mais os 5 minutos ininterruptos de pura agressão aos amplificadores), sensacionalmente sonhadora (só o facto de o concerto começar com "I Only Said" rebentava com a escala), sensacionalmente rock em que aquelas projecções caleidoscópicas eram um elemento também fundamental. A despedida de Kevin Shields fez-se com um simples "Thank you, bye", como se nada se tivesse passado.





Dejà vu da noite anterior, os Titus Andronicus tiveram o azar de tocar ao mesmo tempo da banda que mais gente tinha a assistir, perante uma plateia meio vazia, e de se valorizarem como uma alternativa credível. Meio a medo perguntaram se alguém já tinha ouvido falar neles e a plateia, tal como na noite anterior, mostrou-se pronta a responder. Quando se abandona um concerto dos My Bloody Valentine, a expectativa pelo que aí vinha tornava-se enorme. Desta vez, ao contrário dos Hot Snakes, quando a banda terminou a primeira música, com um som que começou baixo e meio tímido, esta mostrou-se bastante surpreendida e grata por haver pessoas que os tinham escolhido. Pela forma impaciente como o público puxava pela banda, não se tardou a gerar uma das maiores festas deste festival. Com uma setlist que incluía apenas duas musicas do aquém das expectativas “Local Business”, o colectivo de New Jersey afinou pelas músicas que lhe garantem lugar entre uma das melhores dos últimos tempos. Com uma entrega devota à enorme e quase perfeita “Battle Of Hampton Roads”, estava tudo ao rubro - na hora de despedida o publico entoava em voz alta e quase autoritária “you allways be a looser” -, meio a pedido de encore, meio louvando o niilismo e a voz de algo que tanto faz e fez sentido. Mais punks e avassaladores que muitos, os Titus Andronicus deram aquele que foi um dos melhores de todo o festival.





As alternativas criadas, propositadamente ou não, para a dose de My Bloody Valentine incluíram também os Fucked Up, cheirando a final de festa antecipado e com ouvidos ainda em recuperação. Quatro palcos recheados de programação cuidada, nunca descurando o produto nacional, não nos permitiram grandes aventuras gastronómicas (como o festival estava em condições de oferecer) e muito menos acudir a todos os focos de interesse. Elogios ou críticas? Guardem todos e assegurem a vossa presença para ver os Neutral Milk Hotel e muitos outros, a conhecer até mais para o final do Verão segundo a organização, em 2014. Combinado?




André Gomes de Abreu

Agradecimento especial a Emanuel Graça, editor-geral,
pelas palavras prestadas sobre os The Drones
e a Luís Julião pelas palavras prestadas sobre os Titus Andronicus




OPTIMUS PRIMAVERA SOUND 2013 - DIA 2

No Optimus Primavera Sound, o último dia de Maio, dia 2 da programação do festival, preparava diversos regressos a Portugal, entre os quais os dos Swans e dos Blur, já com o palco All Tomorrow's Parties e o palco Pitchfork em andamento. E por isso uma grande enchente, como se confirmaria até altas horas, com os Dear Telephone, os Mão Morta e os Memória de Peixe a serem figuras importantes.





Num concerto profundamente dominado pelo disco de estreia, "Taxi Ballad", não foi por demérito próprio que os Dear Telephone foram recebidos por uma audiência menos numerosa. Embora de menos fácil encaixe na vicinalidade de um festival, o colectivo acertou agulhas com o palco Super Bock e redimensionou sem grande dificuldade as suas canções para ecos de maior dimensão. Toda a pop estratosférica dos Dear Telephone de temas como "Fit and Proper" ou "Sunset Print on Postcard" esteve irrepreensível e a puxar, como em "Revelator", a algum ousadia e ao encanto de um final de tarde solarengo num Parque da Cidade que pareceu consumido por urbanidade por momentos pela sobriedade destas canções. Fora dos planos de muitos, está aqui um espectáculo que é obrigatório na programação para consumo interno em 2013.





Toda a satisfação do Mundo está concentrada ao vivo na figura de Miguel Nicolau e isso contagia qualquer um que assista a um concerto dos Memória de Peixe. Convidando Ed Rocha Gonçalves dos Best Youth para a linha de baixo de "Indie Anna Jones" (lá se ouviram comentários como "O que é que isto tem a ver com o Indiana Jones?" que só pedem mais e mais música), o duo saiu-se impecavelmente numa missão que em outros palcos seria mais difícil: colocar as suas canções na memória de quem os via. Ainda não muito claras, espreitámos as novas direcções que as canções feitas à base de loops viciantes e de ritmos que não as sossegam admiravelmente estão a tomar. Vimos ilustres quase desconhecidos a menear, e bem, ao som destas canções: onde é que os Memória de Peixe poderão parar? Não vão, concerteza.





No primeiro passeio pelo palco ATP, esperavam-nos memórias dos Sleep. Os OM são incontornavelmente um nome gigante na cena stoner/doom metal, e a verdade é que acabaram por provar o porquê disso com um excelente concerto. Embora "Advaitic Songs", o mais recente álbum da banda de Al Cisneros, não espelhe um sucesso estrondoso em estúdio, a verdade é que ao vivo o resultado de todas aquelas combinações de ritmos mais tribais é quase um sucesso instantâneo e revela-se num autêntico convite a abanar a cabeça. O público respondeu positivamente e ainda celebrou os tempos mais fervilhantes da banda, com esta a entoar músicas tão estrondosas como Bhima’s Theme. No fim, o pescoço já doía: e isso é bom.





Com a eminência Daniel Johnston no palco ATP, os Local Natives ouviam-se ao longe, bem demais para um festival com vários palcos, mas nada que afectasse a verdadeira celebração que estava ali à frente. Muito embora debilitado pela sua doença, Daniel Johnston não precisava de ser referido por tanta celebridade para ser, como muitos outros nomes do cartaz do Optimus Primavera Sound, uma celebridade por si mesmo dentro do seu espectro musical. Nem sequer o concerto precisa de actos de contrição e artistas assim não conhecem a palavra "pena". Devido à peculiaridade da sua obra, muitos eram os curiosos que escutaram talvez pela primeira vez os ensinamentos de canções como "Devil Town", "Love Not Dead" ou "Life in Vain" e acordes tão emocionantes como os de "Rock 'n' Roll" ou "Mountain Top". "True Love Will Find You In The End", num pequeno encore, seria a lembrança oferecida, mas quem realmente precisa dela após cada disco dos Girls que saia?





Os Swans estão para a música contemporânea como "Tree of Life" para o cinema contemporâneo. Não pela fotografia do filme, mas pela pureza de cada uma das suas composições. A gente de Michael Gira foi um dos fortes alicerces do cartaz do Optimus Primavera Sound, representando na perfeição, por um lado, o poder da memória que se infiltrou pela programação artística, e por outro o papel que não é apenas de influência que protagonizam. A sua vitalidade está ainda presente em "The Seer", título do disco de 2012 e de uma das canções mais subversivas dos anos 00, que fez parte da meia-dúzia de canções que se permitiram despachar, conjunção mais que física com os pontuais momentos anti-estoicismo-epilépticos de Gira que dominou o tempo seguinte a esta actuação. Um tempo de bons e pequenos rapazes e raparigas, sem palavras para Deus que descera à Terra e criara um novo Mundo.





À mesma hora, os Mão Morta secavam por completo a energia de todos os que assistiam à performance de Adolfo Luxúria Canibal e companhia e ao desfile de músicas que são mais do que um género ou epístrofe poderá ser. Os concertos dos veteranos portugueses continuam a não comportar-se mediante qualquer expectativa, muito menos segundo tamanho prazer quanto aquele que se viu durante a interpretação de um alinhamento recheado de clássicos como "Oub Lá", "Budapeste", "Véus Caídos" ou "Cão da Morte" e sem esquecer o momento "Novelos da Paixão" que não serve só para recordar o mais recente "Pesadelo em Peluche". Tal como Nick Cave, Adolfo é um mestre de/sem cerimónias de rock insalubre e bem que era necessário um para colmatar a ausência de Rodriguez. Missão cumprida com inegável brilhantismo.








Metade Grizzly Bear, metade Shellac, assim se dividia o nosso coração antes dos METZ.
No palco Optimus, os Grizzly Bear deram certamente o seu melhor concerto em solo português, muito embora "Shields" não partilhe da grandeza de "Veckatimest". A primeira parte do concerto foi recheada dos bons momentos do disco mais recente como a épica "A Simple Answer" dourados por instrumentais e coros exímios e quando na segunda parte chegaram os êxitos, não surpreende que muita gente tenha saído de barriga cheia do palco principal do festival com o topo de forma dos autores de "Two Weeks".


O concerto dos Shellac de Steve Albini não passou despercebido ao público que se juntou em volta do palco ATP: não alcançou a soberba do ano anterior mas também não desiludiu. Alguns problemas de som foram determinantes na eficiência do rock de ataque do trio de Chicago e no desacerto dos elementos de post-hardcore que desconjuraram o conjunto das canções. Todavia, a sequência final teve ainda as passagens por "Wingwalker", "Crow" ou "Spoke" e uma saída de palco por elemento até que a tarola deixou de levar pancada. Silêncio desnecessário.





No palco Pitchfork, mesmo antes do concerto começar, os METZ já eram uma banda do caralho. Depois do concerto, a confirmação disso mesmo: com METZ até te explodes. Tocaram-nos as malhas do seu homónimo do ano passado, com músicas como "Wasted", "Knife In The Water" ou "Rats" a revelarem-se um autêntico estrondo, que, por sua vez, resultaram em moshes infindáveis e em crowdsurfings descomunais. Foi do caralho, e não precisam de saber mais nada. Diz quem viu que nem no Plano B nem na  Galeria Zé dos Bois foi tão bom: parabéns aos que acertaram em cheio.





Dez anos depois, os Blur reentraram em Portugal pela mão do Optimus Primavera Sound. Dez anos que tinham sido, por uma miríade de razões, quase sinónimo de serem votados ao julgamento da História. Foi sobretudo este que deixará o seu concerto como um dos concertos desta edição mas sobretudo como o concerto da vida de muitos dos que assistiram. Recheado de canções pop inigualáveis e similar ao de Barcelona, o alinhamento dos Blur deu a primazia aos feitos de Damon Albarn e companhia enquanto escritores de canções e não enquanto compositores de álbuns. De "Girls & Boys", início do concerto, até ao seu fim com "Song 2" depois de um curto encore, os Blur não esqueceram mesmo assim pequenos apontamentos como "Caramel" e "End of A Century" facilmente ofuscáveis. Para além da aparente reconciliação, os Blur deixaram no Porto um recital de cultura pop para rookies e utilizadores avançados num dos regressos que farão sempre sentido, uma e outra vez. P.S: Nem mesmo "The Great Escape" continua uma birra, ao que parece.





Quando subiram ao palco, à hora em que os Blur ainda actuavam, os Hot Snakes não deveriam ter mais do que cinquenta espectadores. Perguntaram mesmo se alguém os conhecia mas o escasso publico parecia conhecer. Uma das bandas que mais pareceu passar ao lado do publico apresentou-se então: quarentões bem dispostos que não pretendem agradar ninguém que não agrade a eles, que tocam um rock 'n' roll que transborda para o hardcore e para o melhor do pós-punk. Parecendo um tanto ou quanto descontraídos, não conseguiam evitar o sorriso trocista sempre que a cada intervalo de música se ouvia o concerto de Blur, chegando mesmo a tentar acompanhar os acordes. Num concerto entusiasmante que foi enchendo com o tempo, disseram que era um prazer tocar num festival em que não tocam os Pennywise, não tocaram a “I Hate The Kids” e fizeram questão de mostrar que os Moonspell não fazem de certeza parte das suas preferências. 





Num festival onde a electrónica esteve guardada para horários mais adiantados, fomos descobrir uma screamer ao concerto mais improvável. Ida No, vocalista dos Glass Candy, reescreveu as coordenadas do som do duo norte-americano para algo menos nu-disco e mais pulsante. Inebriada no meio da sua coreografia, à audiência poderá ter escapado lá pelo meio preciosidades como "Candy Castle" ou "Life After Sundown" onde os norte-americanos enchem de orgulho o colectivo da Italians Do It Better. Dissimuladas, as doses industriais de sintetizadores ao serviço de interlúdios electroclash foram as cicatrizes perfeitas numa actuação que terminaria em apoteose ao som de "Warm In The Winter", ainda a tempo de ver os Fuck Buttons, serpentes a voar, árvores com sombras chinesas, cenários a pedir ácidos e o sacramento dos BPM elevados.





Quase à mesma hora, os Fuck Buttons subiam, então, ao palco onde iriam despejar-nos toda a sua essência – a essência da descoberta. Drones e mais drones, interligações de sons contínuos com mais sons contínuos. A continuidade é, e deve ser, a palavra de ordem para falar da música dos norte-americanos, mas não só; deverão existir mais adjectivos para a definir, porque é quando ela explode que nos sideramos com ela. Há por aí música que se faz para nos fazer dançar, esta é uma música de dança mas numa amplitude diferente: quem dança são os nossos sentidos. Foi genial, tal como fora todo o dia de concertos.




André Gomes de Abreu

Agradecimento especial a Emanuel Graça, editor-geral,
pelas palavras prestadas sobre os OM, METZ e Fuck Buttons
e a Luís Julião pelas palavras prestadas sobre os Hot Snakes





OPTIMUS PRIMAVERA SOUND 2013 - DIA 1

Chegara o último fim-de-semana de Maio, aquele em que o Porto era a capital da segunda edição do Optimus Primavera Sound pelo segundo ano consecutivo. Sem ameaça de chuva, a cidade começava a encher-se, sobretudo, do espírito de um festival tremendamente voltado para o seu público, ávido de novidade. A representação nacional estava assegurada pelos Memória de Peixe, Dear Telephone, The Glockenwise, PAUS e pelos Mão Morta, que à última hora iam ocupar o lugar deixado vago na programação por Sixto Rodriguez que cancelara a sua actuação.
O dia 30 de Maio não contava com bandas portuguesas, estando todos os concertos estavam concentrados nos palcos Optimus e Super Bock e isso permitia montar da melhor forma o ambiente pretendido para o resto que viria. 






Os americanos Wild Nothing seriam os segundos a pisar o palco Super Bock, o primeiro concerto a que poderíamos assistir. Embora o EP "Empty Estate" ainda esteja fresco, foram as canções de "Nocturne", longa-duração anterior, que agitaram principalmente o público e que o envolveram, mais uns menos outros, na teia de sons justificados pelas bolas de sabão que voavam e pelas camadas de sintetizadores que se sucediam. Os concertos da noite estariam para chegar, mas Jack Tatum e companhia fizeram bem por lembrar que seria melhor jantar mais tarde e que a felicidade dos sonhos melódicos "Live in Dreams" e "Ride" era real.







Por volta das 21h, os noventas diziam-nos olá. Eram os Breeders, banda fundada pela quase icónica membro dos Pixies, Kim Deal, a interpretar na íntegra o seu trabalho mais conhecido da sua vasta discografia, "Last Splash", de onde foram retirados singles que andaram quase por todo o lado, como "Cannonball". O concerto cumpriu as expectactivas que haviam sido criadas e foi absolutamente divinal; embora já tenham passado vinte anos desde o lançamento do dito LP, há toda uma frescura em torno da sonoridade excitante da banda das irmãs Deal. Além disso, o encanto e a simpatia de Kim também é um trunfo que pesca sempre as atenções: disse-nos primeiramente “Boa Noite” e depois despediu-se com o já habitué “Muito obrigado”. Mas quem tem de agradecer somos nós.
   




Lisa Gerrard e Brendan Perry, os Dead Can Dance, dividiam estranhamente apetites, mais ou menos enviesados por um certo neo-classicismo que perpassa pela sua discografia que nem a presença pelo mítico catálogo construído pela 4AD ao longo das últimas décadas alivia. Tal como no concerto anterior, e mesmo tendo o duo chegado com uma sala esgotada do Coliseu dos Recreios no currículo poucos dias antes, haveria sempre sobretudo duas formas distintas de caracterizar este concerto: uma tentativa falhada de um último acesso de condescendência e de supressão de experiências auditivas/visuais anteriores ou a constatação de um regresso fiel ao passado e que ainda tem pertinência em 2013, recheado de vozes e instrumentais que fazem da música do Mundo, do rock do Mundo, aquilo que ele deve ser visto de uma maneira apurada e arty. Nota de rodapé: a cover de "Song to The Siren", entre o extraterrestre e o inóspito.





Entre o folguedo e a ebriez, Nick Cave regressava a Portugal depauperado de alguns dos míticos elementos dos Bad Seeds (Mick Harvey e Blixa Bargeld) mas com Barry Adamson de regresso. Se já as perspectivas era de um concerto de uma vida, no final o alinhamento e a atmosfera trouxeram um concerto maior do que a mesma. Sem vergonhas, o concerto arrancou e encerrou com três das músicas do novo "Push The Sky Away", mas foram os clássicos como a versão imortalizada de "Stagger Lee" (e com injecções de ironia e provocação feroz à maquinaria móvel que está nas mãos de quem deveria sentir o pulso a um dos ícones de gerações e gerações), "Tupelo", "From Her To Eternity" (uma das imensas subidas ao lugar mais perto do público que as grades permitem) e "The Weeping Song" que suportaram o ímpeto de "Jubilee Street", já um dos clássicos da turma de canções de 2013. A experiência de absoluta catarse e evisceração que remonta ainda aos tempos dos Birthday Party confundiu-se com um performer extraordinário e exuberante a conquistar o respeito, palavra de epígrafe no silêncio da final "Push The Sky Away". Há hashtag para "LOOK AT ME NOW"?   






As saudades de uns headphones e das canções de "Microcastle" e de "Halcyon Digest". Os Deerhunter, ao contrário de Bradford Cox como Atlas Sound, não são melhores ao vivo do que em disco e o Festival Paredes de Coura acolheu-os da última vez com esse resultado. Depois de uma primeira parte de concerto absolutamente desinteressante (spoiler alert: para quem concordar, "Monomania" vai ser assim), algumas das linhas-mestras de "Halcyon Digest" como "Desire Lines" e "Memory Boy" conseguiram assegurar o mínimo dos mínimos, o que para um festival apontado como "o melhor de todos" pela cara principal da banda, não seria o suficiente, nem mesmo para os que deveriam transportar a audiência de Nick Cave a James Blake, dois objectos fortes da programação, muito embora por razões diferentes. Vamos sublinhar todos os efeitos nefastos da palavra "fofinho".





Antony e poucos Johnsons? James Blake, uma banda reduzida e máquinas à volta? Ok, ouve-se a voz (as vozes?) de "CMYK". Ao contrário dos Deerhunter, um concerto de James Blake é, nada mais nada menos, uma pequena réplica do seu processo criativo. Maior interesse e curiosidade não poderiam ser gerados. Olhando para a audiência, percebia-se que este era um concerto com novamente uma franca dose de expectativa, pelo conhecimento e pelo apreço muitas vezes fora do ponto de equilíbrio. Fugindo a pérolas como "Lindisfarne" ou "Life Round Here" e "Take a Fall For Me" do mais recente "Overgrown", o compositor inglês percorreu com sucesso os seus dois longa-duração e espreitou alguns dos seus EP, deixando marcas na sua ambição escondida em "Digital Lion", uma "Voyeur" que faz jus aos seus altos padrões de hipnotismo e ultrapassando a alta velocidade o seu pai em "The Wilhelm Scream". Se "I Never Learnt to Share" suga todas as formas de alimentar a fragilidade das letras e a segurança das opções estilísticas, num intercâmbio sedutor entre (pós-)dubstep arrancado ao melhor da cena underground do UK e puro instinto soul, "Retrograde" foi a pedra de toque daquela que para alguns terá sido ainda uma melhor forma de encerrar o dia de concertos do que com Nick Cave.




André Gomes de Abreu

Agradecimento especial a Emanuel Graça,
editor-geral pelas palavras prestadas sobre os Breeders




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