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quarta-feira, 11 de junho de 2014

NOS PRIMAVERA SOUND 2014 - DIA 3

Último dia do NOS Primavera Sound; não vamos assumir o cliché de dizer que «guardou-se o melhor para fim», mas a verdade é que o último dia do evento portuense foi, segundo a nossa perspectiva, aquele que mais nostalgia albergou consigo. Primeiramente seria uma oportunidade única para ver nomes como Neutral Milk Hotel e Slint (banda mais ansiada por este escriba). Segundo, era o dia em que já carregávamos na alma o peso do adeus a um sítio e a uns tempos em que fomos mais do que felizes. Num dilúvio de emoções, tudo era simultaneamente bom e mau.





Às 17:55h lá estavam os YOU CAN’T WIN, CHARLIE BROWN em cima do palco NOS para nos fazerem felizes. É rara a ocasião em que a sua música não nos transporta para paisagens revestidas de cor e de vida e, por agora, nenhum dos seus dois discos deixou de cumprir em questões qualitativas. Se a estreia com Chromatic já tinha sido motivo maior para retermos o seu nome bem presente na nossa cabeça, o recém-editado Diffraction / Refraction é, por agora, a sua prova maior do modo como a sua freak folk repleta de sintetizadores faz corar os nomes que a acabaram por consolidar e massificar enquanto género musical. A setlist para o espectáculo, como expectável, deambulou entre os dois discos de originais e trouxe-nos uma surpresa para o fim: uma versão de “Heroin”, dos lendários The Velvet Underground. Não será necessário dizer que deram o melhor concerto português desta edição do NOS Primavera Sound e que, como esperando, foram a banda lusa com maior aglomerado de pessoas. Além do óbvio (de que são, indubitavelmente, um dos nomes maiores da actualidade da música portuguesa), outra conclusão: a sua felicidade contagiante já merecia outras paragens.


De seguida, seriam os inesgotáveis resquícios dos Sonic Youth a esvoaçar pelo Parque da Cidade ao som de LEE RANALDO & THE DUST. Ao mesmo tempo, HEBRONIX ia tocando no palco ATP. Já é um dado adquirido que os Sonic Youth são uma das bandas mais importantes de sempre da história da música independente (é claro que devem, em grande parte, ao maestro Glenn Branca) e também já é sabido que o seu fim em nada alterou a essência dos projectos musicais dos seus fundadores (Thurston Moore com os Chelsea Light Moving, Lee Ranaldo com os The Dust ou Kim Gordon com os Body/Head vão-se alimentando do banquete de uma vida – os Sonic Youth). LEE RANALDO & THE DUST não nos conseguiram trazer outra coisa que não saudades, que não lamentações pelo fim de uma das maiores bandas de todos os tempos – o mal está em fazê-lo propositadamente.


Celebrada por poucos é o que se pode dizer da estreia em Portugal de Daniel Blumberg, ex-líder dos Yuck, na pele de HEBRONIX. Entre a concorrência com Lee Ranaldo e com os ecos dos You Can’t Win, Charlie Brown, o minimalismo folk-avant garde-slowcore da combinação violino-guitarra altamente manipulada contou com um público fiel mas reduzido no palco ATP, numa clara demonstração das diferenças entre os públicos de Barcelona e do Porto e da pouca penetração das canções de “Unreal” pelas playlists prévias de educação auditiva, que claramente não preferiram o seguidismo noisy de Jim O’ Rourke perdido entre desencantos libidinosos, explorado mas não totalmente concretizado.

Depois da passagem a solo pelo festival em 2012, Jeff Mangum voltou este ano acompanhado da sua banda de quase sempre: os NEUTRAL MILK HOTEL. A banda, nome maior do colectivo Elephant-6, foi uma das que acatou maiores responsabilidades pela consolidação definitiva da esfera indie na década de 90. Por trás do sucesso, uma enorme obra-prima: In The Aeroplane Over The Sea, de 1998. Jeff Mangum com a sua banda em palco, e contrariamente ao que se tinha passado há dois anos, já não era aquele filho da mãe deprimido agarrado à guitarra e a cantar sobre amores, desamores, vida e a ausência dela. Tivemos a prova em 2014 que os Neutral Milk Hotel foram uma banda um pouco à parte do mundo que os rodeou; a voz de Mangum, imperfeitamente perfeita, e o seu estro lírico persuadem-nos de uma maneira arrebatadora. Surpreendentemente, ou não, os Neutral Milk Hotel são mais ruidosos do que aquele plano lo-fi que se constrói numa densa simbiose em cada uma das suas canções. Rotulem a sua música como vos apetecer, mas hão de deparar-se com os todos os vossos rostos frente a frente no seu principal cerne. É claro que por lá corre muito mais folk de que outra coisa, mas a ambiguidade intrínseca aos norte-americanos transporta-nos para um reportório de mixórdias onde todos chocamos. É caso para dizer que também a sua música é “Two-Headed”. 

O alinhamento do concerto prendeu-se, sobretudo, à sua maior obra, mas não foram (nem podiam ser) esquecidos alguns dos êxitos de On Avery Island. Mangum ia dançando ao mesmo tempo que libertava o fuzz da sua guitarra para nos dizer «I love you, Jesus Christ!», os destroços que esculpiu em In The Aeroplane Over The Sea e o enigma que fez da sua pessoa pós-1998 já contam com perto de duas décadas e afinal são os seus principais amigos que pisam consigo o palco NOS. Sozinho, faz estremecer o coração do Parque da Cidade em “Oh Comely”; viram-se lágrimas e nelas se podia perfeitamente ter espelhado o quão humana é a oitava faixa de ITAOTS. Por entre mais sucessos, “Ghost”, “Untitled”, “Song Against Sex” ou “Two-Headed Boy Part 2”, o concerto desenlaçou-se ao som de “Engine”. Mangum, sorridente, despediu-se do Parque da Cidade. Não sabemos o que será feito dele futuramente (uma boa possibilidade é continuar-se a manter invisível do mundo – bem constatável pelo facto de não ter deixado ninguém tirar um registo fotográfico do momento -, deixando crescendo a sua barba, ganhando o aspecto de vagabundo e continuando a deprimir até que volte a pisar um palco novamente com os seus amigos), sabemos apenas que depois de um concerto destes ele é tão humano quanto as suas canções e que afinal a sua tristeza é tão efémera quanto a vida.

Em 2014, o NOS Primavera Sound fecha o ciclo de Jeff Mangum com a glória dos Neutral Milk Hotel e não é descabido que, havendo uma reunião dos Czars no futuro, JOHN GRANT tenha nova passagem marcada pelo Parque da Cidade. Ao contrário do primeiro, Grant gozou de uma passagem inequivocamente vitoriosa pelo Palco Super Bock, entre dois nomes de peso do dia como eram os Neutral Milk Hotel e os The National. Num fenómeno com o seu quê de surreal para a hora de jantar, a plateia presente parecia estar perante um dos seus cabeças-de-cartaz da noite, ou pelo menos com capacidade para tal, uma vez evidenciada agora uma faceta pop-rock electrónica e barroca ainda mais confessional mas ainda solidamente baladeira, sombria e interpretada por uma voz ímpar. Embora sem Sinéad O’ Connor, o alinhamento balançou muito mais para o lado de “Pale Green Ghosts”, do ano passado, com as excelentes “I Wanna Go To Marz” e “Queen of Denmark” no “olá” e no “adeus” a um dos marcos do NOS Primavera Sound de 2014.



Chegava a vez de Portugal mostrar o amor, já conhecido por toda a parte, pelos THE NATIONAL. Apesar dos norte-americanos terem passagem garantida por terras lusas quase todos os anos (a ponto de já podem comprar um estaminé qualquer por aí), confesso que até esta altura nunca os tinha visto. Iria vê-los, com muita pena minha, na sua pior fase; o último disco dos The National não nos trouxe nada de novo e acabou por soar a mais do mesmo. Ainda assim, trata-se de um disco razoável. Em palco, os The National são conhecidos pelas suas incríveis performances. Não é de estranhar que, por isso, as expectativas estivessem bem lá em cima. Depois de viagens por toda a discografia, onde foram tocados sucessos como “Fake Empire”, “Sorrow” (com participação especial de St. Vincent), “Abel”, “England” ou a estrondosa “Mr. November”, e não só (também se levantaram ecos de Surfjan Stevens em “Ada), acabei por ficar com a sensação de que o concerto soube a pouco. E não, o concerto esteve longe de ser mau (foi, na sua verdade, excelente), mas por vezes sentiu-se que as tropas de Ohio não conseguem ter o mesmo impacto quando viajam aos seus tempos mais recentes (“Graceless”, “I Need My Girl” ou “Sea Of Love” – pecou apenas por isso e pelas músicas que faltaram ser tocas (um festival pede a “All The Wine”). Na maior enchente do festival que me recordo, talvez as nossas expectativas estivessem demasiado altas.


Dum Dum Girls ou Charles Bradley: qual a melhor alternativa aos The National? A julgar pela coolness concentrada no palco ATP, a nova tentativa bem sucedida de integrar um histórico num festival que, embora sendo altamente cosmopolita, não deixa de ser predominantemente pop-rock. Totalmente maximalizada, a banda de CHARLES BRADLEY, esse performer deepsoul de eleição ressuscitado no documentário “Soul of America”, tem quase (ou mesmo) tudo o que um espectáculo exige: uma banda perfeitamente integrada que faz também serviços mínimos nos coros, um apresentador melhor do que muitos, o domínio de todos os caminhos do que se pode colocar em cima da soul e do blues e hinos celestiais como “Why Is It So Hard” e “You Put The Flame On It”. Uma espécie de desforra dos tempos que agora já não contêm os nomes que edificaram um género e uma canção e em que a sua irmã da Daptone, Sharon Jones, é figura de proa. Bolas, ainda há quem faça bom trabalho de casa nas editoras pelo Mundo fora…mas até que ponto tanta atenção repentina não se esfumaçará? Essa é a pergunta que fica sem resposta enquanto Bobby Womack também não for consumido, mais do que pelo tempo, pela demência de Alzheimer.


Antes da hora de espreitar outros palcos, a tenda Pitchfork, no seu dia mais interessante, era entre o final do concerto dos The National e o início dos de St. Vincent e Slint dos norte-americanos de Massachusetts SPEEDY ORTIZ que, não pondo em causa esforço que tenham empreendido, não saíram muito do registo agradável do garage-rock meio noise-pop colegial tipicamente mais datado do que alguns focos de sucesso da mesma altura que se reuniram para voltar aos palcos nestes últimos tempos. Nada que impeça, contudo, de apreciar o talento uma melodiosa e irreverente Sadie Dupuis que, independentemente dos músicos que a acompanhem, tem os tiques de personalidade necessários para que o seu nome seja mais do que um minúsculo epitáfio de quarto de adolescente em que, por acaso, os pequenos problemas dão origem a grandes canções.  

Chegava a tão ansiada hora: passavam trinta minutos da meia-noite e os SLINT subiam ao palco ATP. Estávamos nós na terceira fila do concerto. Estávamos a uns escassos metros daquele bando dos quatro que um dia decidiu começar a fazer música a sério quando ainda tinham catorze e quinze anos. Sempre defenderam a escola que frequentavam era o principal propulsor para o seu espírito criativo em tão tenra idade. Reza a lenda que nessa idade deram um concerto, ainda sem a sua formação definitiva, para os seus companheiros da escola. Reza a lenda que esse concerto durou uma hora, reza a lenda que já aí despertavam e aliavam o amor pelas harmonias de uns Misfits a devaneios demorados pelo silêncio. Não reza lenda nenhuma, está tudo num documentário: Breadcrumb Trail. “Breadcrumb Trail” é também a primeira faixa de uma besta de perfeição: Spiderland, de 1991, foi o segundo disco do quarteto sob o nome Slint. 


O concerto começava e os prognósticos dão-se antes do jogo começar: iria sair dali o concerto do festival. Não fomos defraudados. «São a melhor banda do mundo, caralho!», gritou alguém da plateia. O grito estava certo, quase tão certeiro como quando “Breadcrumb Trail” se abre para nós. As cabeças abanam-se, o legado celebra-se, as diferenças sobressaem; Tweez e Spiderland não parecem filhos dos mesmos progenitores. Se por um lado existe a manutenção do espírito post-hardcore/math-rock veiculado por um dos seus principais mentores, Steve Albini, por outro, pelo lado de Spiderland, existe o equilibrar de forças entre o silêncio, o dilúvio e a experiência. Se por um lado se abanam cabeças incessantemente, por outro existe mais espaço para meditarmos e repensarmos na sua grandeza. São os contadores de histórias; “Don, Amon” nasce da fusão de um baixo com uma guitarra e de um spoken-word constante. Termina numa distorção como por asfixia depois de levitar por entre cada átomo de ar que compõe a atmosfera que se vive no Parque da Cidade. Felizmente, o respeito pelo artista foi enorme e fez jus àquilo que se pedia: silêncio e devoção. Foram-se embora dizendo “Goodmorning, Captain” e a praia ali tão perto. No fim, nostalgia a correr-nos pelo corpo. Sabíamos que era um acto irrepetível, mas nem nos nossos melhores sonhos equacionámos poder ver tanta grandeza junta. Não foi um mero concerto de uma vida, foi muito mais do que isso: foi o comprovar da existência de quatro seres que na casa dos vinte anos esculpiram algumas das obras mais louváveis de todos os tempos e alteraram os paradigmas musicais desde então. A evolução após a sua existência acalmou, o conceito de novo também, quanto ao de único é deles e de pouco mais. Não sabemos o que será feito deles futuramente, mas tal como se gritou em “Goodmorning, Captain”, «I’ll miss you».

Depois de um concerto assim (ler acima), quase tudo iria soar banal: foi o que nos aconteceu com TY SEGALL. Monstro da garage rock actual, Ty Segall subiu ao palco ATP em dia de aniversário. Bem, vamos ser francos: apesar de ter alguns discos com um qualidade assinalável, Sleeper e mais um ou outro disco pecam por nos dar sono. Em palco não chegámos a ter sono nem a abrir a boca a acusar a presença dele, mas Ty Segall nunca nos conseguiu demonstrar aquilo que realmente é (ou foi) para além de ser um mestre a tocar guitarra. Estava a ser mediano, mas depois de Slint era como comprar um bolo-rei e calhar-nos a fava.



Bem diferente da primal screamer Ida No no ano passado, Cameron Mesirow, GLASSER, ocupava o mesmo lugar na programação do palco Pitchfork com os mesmos objectivos. Curiosamente ou não, foi também quando o ritmo do concerto abrandou e se tornou um pouco mais exploratório, etéreo e negro que os verdadeiros atributos do duo norte-americano de “Ring” e do mais recente “Interiors” sobressaíram em alturas como “Landscape”, “Design” e “Mirrorage” num apelo electrónico e metódico ao hedonismo à flor da pele correspondido pelo numeroso público que se dividia entre algo mais funky como os !!! e a alternativa inércia/curiosidade pelo registo frenético ligado a outras voltagens do aniversariante Ty Segall. Para quem ficou, sobrou o brilho da voz altamente dinâmica de Mesirow que lhe soube incutir um certo misticismo e mistério não abafados pelo chamamento cafeinado de percussões convidativas. És tu, “art pop” título de disco de Lady Gaga?

CLOUD NOTHINGS eram quem se seguia. A priori, tinha-os avançado com um dos grandes concertos do festival. Colocar uma banda de post-hardcore (mesmo que por lá corra um fio pop bem vincado) a tocar às três da manhã é, à falta de melhor termo, para partir com tudo. Efectivamente partiram: houve mosh, crowdsurfing, empurrões e cerveja espalhada pelo chão. Mais turbulentos e caóticos do que em estúdio, a harmonia pop é sempre uma constante nas canções dos norte-americanos que facilmente podiam ser confundidas com hinos à época juvenil. O alinhamento do concerto andou sempre à volta de Attack on Memory e de Here and Nowhere Else, disco editado já este ano, e desenlaçou-se com a portentosa “Wasted Days”. É bom quando a expectativa é cumprida.

A festa portuense encerrou-se no festão incrível de PIONAL, que nos trouxe um set ecléctico mas sempre abraçado ao house. O NOS Primavera Sound já tem data de regresso marcado: época primaveril de 2015.

Texto por Emanuel Graça / Glasser, Charles Bradley, Speedy Ortiz, John Grant e Hebronix por André Gomes de Abreu

Fotografias cedidas pela organização (créditos: Hugo Lima) / Gonçalo Loureiro




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

YOU CAN'T WIN, CHARLIE BROWN - DIFFRACTION/REFRACTION (2014, PATACA DISCOS)

Título: Diffraction/Refraction
Edição: Pataca Discos, 2014
Classificação final: 8.9/10

Bandas e a coabitar Portugal com o estatuto de “super-grupo” são escassas, mas sempre vão existindo algumas (poucas, é verdade) que conseguem ter esse estatuto. Quando os Diabo na Cruz surgiram, por volta do fim da década passada, contavam com B Fachada como seu membro e rapidamente conseguiram consolidar-se como uma das maiores bandas nacionais da sua altura, sendo que ainda hoje o são (mesmo já sem B Fachada), contando na sua formação com membros como Jorge Cruz ou João Gil. Passado pouco tempo da formação dos Diabo na Cruz, surgiam os You Can’t Win, Charlie Brown, inicialmente formados apenas por três membros. Mais tarde, David Santos, musicalmente conhecido por Noiserv, Tomás Sousa e o próprio João Gil dos Diabo na Cruz juntaram-se ao grupo e ainda hoje esta é a sua formação.

Depois de um EP editado em 2010, os YCWCB cresceram bastante e acabaram, naturalmente, por se tornar um dos nomes mais importantes para a música portuguesa com a edição de Chromatic, em 2011, carimbada pela Pataca Discos. Já na altura, a estética das suas canções era aprumada e preocupada com os pequenos detalhes de passar o silêncio ao não silêncio de uma forma bastante simples: bastava a adição de um sintetizador naquele trecho de canção e esta ganhava mais corpo sem que para isso se tivesse de moldar a um novo esqueleto. Mudam-se os tempos, mas as vontades parecem manter-se; parece ser esta a doutrina pela qual os You Can’t Win, Charlie Brown se regem, e ainda bem.

Diffraction/Refraction, o segundo longa-duração da banda lisboeta, viu a sua luz do dia no passado mês de Janeiro, numa edição novamente carimbada pela Pataca Discos e mantém o perfil idiossincrático que Chromatic nos mostrara, contudo de uma forma mais coesa, concisa e madura. “After December”, tema escolhido pela banda como amostra de Diffraction/Refraction, fazia prever uns YCWCB com menos chama e por essa razão o disco não tem um início estrondoso, mas quando nos chega “Fall For You” aquela chama que tinha acendido em 2011 volta a aquecer-nos e a aconchegar-nos de uma maneira como hoje em dia poucos sabem como fazer isso acontecer.

Urge referir a canção folk de cariz mais tradicional como um dos géneros que mais marca o disco; “Heart” relembra-nos o dedilhar habitué da canção folk dos anos setenta, onde se foi desencantar Nick Drake ou mesmo Jackson C. Frank. Contudo, raramente nos é possível sentir o peso que a guitarra tem no disco como teve nessa canção: a guitarra é completamente colocada em segundo plano, juntamente com toda a restante panóplia sonora. Diffraction/Refraction é, acima de tudo, um disco que se rege pela actualidade da canção folk, pela sua modernização e pelo detrimento que este género tem dado, cada vez mais, à guitarra: o que mais interessa são os sintetizadores e o modo como eles nos conseguem aprisionar ininterruptamente às canções. É mais do que evidente que os You Can’t Win, Charlie Brown apostam muito mais nos teclados do que nas guitarras ou baixos, tal como hoje em dia têm feitos nomes como Grizzly Bear, Surfjan Stevens ou mesmo Animal Collective, mas com a diferença de que hoje, 2014, ninguém tem mostrado que o faz melhor do que eles.

 As vocais do disco são de excelência, quer a sua componente principal quer mesmo a harmonia dos seus coros, o modo como Diffraction/Refraction nos prende a si é soberbo: e, generalizando, a sequência “After December” / “Fall For You” é um autêntico exemplo de como deve correr um disco; deve ser conexo entre si, contar uma história ao mesmo tempo que nós queiramos que essa história nos seja contada. Podemos não ter aqui um momento tão épico como “An Ending”, musicão do primeiro LP, mas temos um autêntico puzzle de onze peças em que quando nos apercebemos da sua imagem sorrimos de satisfação por um dever que, mesmo não sendo nosso, foi cumprido.

Emanuel Graça




quarta-feira, 8 de junho de 2011

You Can't Win, Charlie Brown - "Chromatic"



O universo acústico ainda tem tanto para oferecer que até parece mal mais projectos não investirem nessa vertente do seu trabalho. You Can't Win, Charlie Brown é uma banda que luta por isso. Fazem uma música um pouco sonhadora, uma atmosfera acústica com uns tons muito quentes e coloridos, que nos levam a pairar e a imaginar outra coisa, outro lugar. Esta sensação é demasiado forte para não ser dita, fazem-no com o mesmo talento como fez um grupo que nunca é mencionado nas suas influências mas que se quer acreditar que pode estar associado: The Good, The Bad and The Queen, um dos mil trabalhos de Damon Albarn, fundador dos Blur e Gorillaz. A comparação nem é tanto pela musicalidade mas mais pela panóplia de sensações transmitidas ao ouvir.



Nem tudo se baseia no formato acústico standard. São por vezes usadas texturas electrónicas neste "Chromatic", álbum de estreia dos YCWCB, que surge no seguimento do lançamento de um EP homónimo pela Optimus Discos. Um dos elementos mais importantes nestas faixas é o uso recorrente de uma cama vocal muito confortável. Sejam 2, 3 vozes, a fazer coros ou a fazer segundas vozes da voz principal, elas assentam que nem uma luva. Em "In The End We Start Again" sente-se isto mesmo, a música é percussão com vozes praticamente!


As suas verdadeiras referências são nomes como Nick Drake, Animal Collective, Simon & Garfunkel, Fleet Foxes, e continua. Mas o importante a reter disto tudo é a identidade musical que os YCWCB estão a cimentar. A música tanto parece simples como de repente parece verdadeiramente complexa. E as vozes sempre presentes, tão importantes. São a grande imagem de marca deste grupo, e esperemos que o continue a ser.

O electro-folk que eles nos trazem já começa a trazer feedback doutros países. O Shout4Music.com diz:

"This is dead good. They’re Portuguese, and you can hear fado in the understatement, and the melancholy of the vocal line; you can hear Dennis Wilson and the Flaming Lips jamming Brooklyn psychedelia in the instrumentation. And you can dance to it too. It sounds uncannily like a Scottish summer evening."

E desta forma termina esta análise. Scottish Summer Evening é capaz de ser a mais descrição mais perfeitamente adequada para todo este trabalho genial.




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