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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

REVERENCE VALADA - DIA UM | "Fez-se luz a partir da escuridão da noite"

Quem esteve lá, certamente terá sentido: foi ali, bem naquela hora, que começámos mesmo a sentir que o Reverence Valada era, ou pretendia ser, um festival diferente de todos os outros que habitam o canto mais à esquerda da Europa. Vive-se a altas rotações – depois da festa de aquecimento ter durado até tarde, os concertos do primeiro dia do festival do Ribatejo iam começar a partir do meio-dia. Ah, qual sono, qual cansaço, qual quê; no Reverence todos éramos um veículo em que o seu combustível eram os decibéis que iam voando a partir dos inúmeros amplificadores montados em palco. Em alguns momentos as nossas viagens mostraram-se viscerais e intensas, noutras nem por isso – foi o caso daquilo que se passou durante a tarde do primeiro dia.



O primeiro concerto que vimos seguiu a linhagem daquilo que se havia passado nos desfecho do dia anterior: os THE FEELING OF LOVE também são franceses e também acabaram por nos deixar um pouco aquém – claramente abraçados à pop de perfil mais psicadélica, deram-nos um concerto morninho onde apresentaram trabalhos como Reward Your Grace, de 2013, e Dissolve Me, de 2011. (4/10)

Sucederam-lhes as guitarras: FRANÇOIS SKY & GUESTS acabaram por dar um concerto sólido, onde evidenciaram que a partir das cinzas Sonic Youth também existe espaço para aplicar uma película que catapulta a sua música para paragens mais propícias ao psych-rock – porém, ficou a nota de que se pode fazer menos (isto é, que se pode encurtar as suas canções para que elas não caiam no aborrecimento) e melhor. Muito possivelmente, um dos melhores interessantes de toda a tarde – e o aviso que devemos estar atentos a estes alemães. (6,5/10)

Seguiam-se os norte-americanos THE ASTEROID #4, que tocavam no palco Rio. Possivelmente uma das maiores desilusões do festival, os norte-americanos nunca conseguiram elevar-nos para outro patamar que não o da monotonia – fazendo com que, por exemplo, sentíssemos saudades daquilo que raramente está presente nas suas canções: jams. (4/10)



Esperava-se mais, mas ainda assim, quando comparado com o concerto que veio a seguir, apetece dizer que o concerto de The Asteroid #4 foi monumental: os BOMBUS são uma banda sueca que, muito possivelmente, rubricaram um dos piores concertos que já vi – não sabem o que fazem nem o que querem fazer, não conseguem optar por uma vertente mais pesada ou por uma vertente mais na onda do hard rock – e convém dizer, hard rock em 2014 de uma banda que nasceu em 2008? Alguém que lhes faça um update -, fazendo com que o seu todo soe a um misto inócuo e vazio. (1/10)



Chega a hora do concerto mais esperado da tarde por este que vos escreve: WOODEN WAND é um dos cantautores com mais potencial que apareceu nos últimos anos, porém raramente o conseguiu comprovar desmembrando as suas canções em dois distintos pólos: um pólo onde nos consegue siderar de uma maneira medonha e outro onde estende tanto algumas das suas canções que elas acabam por cair num beco de aborrecimento sem saída. Ao vivo, o segundo pólo simplesmente não existe. Com uma postura em palco impecável, amigável e com influências na maneira de tocar e cantar que enganam – quem não se lembra da passagem «I was at home listening to Electric Wizard»? -, James Jackson Toth assume-se, sem medo algum, com um dos principais trunfos que o leque da história recente dos cantautores tem para nos oferecer. Concerto soberbo e, claramente, o primeiro grande concerto do Reverence Valada. (8/10)

Passar dos ritmos mais calminhos da folk de Jackson Toth para o turbilhão dos SUNFLARE não correu bem – e talvez isto nem se tivesse dado por culpa dos próprios Sunflare. Os lisboetas têm ideias salubres e sabem aquilo que estão a fazer, só ainda não sabem bem aquilo que realmente querem; sabe bem em estúdio, mas falta ainda aprimorar para a passagem para o palco. Esperemos por uma nova oportunidade. (4,5/10)

Os CAVE também prometiam, mas acabámos por sair de lá defraudados – é o problema de grande parte dos discos de space-rock; enfatiza-se demasiado a produção dos discos e quando estes passam para o palco vinca-se a falta dos tais pós mágicos. Numa mixórdia que assume os sintetizadores como um dos principais fios condutores da sonoridade, houve pouquíssimo espaço para que se ouvissem as guitarras e o baixo, que acaba por ser preponderante na génese musical, visto que uma das principais influências prende-se ao krautrock, o que desmoronou a ideia de que aqui podia estar uma das surpresas do festival, infelizmente. (4/10)


E por falar em surpresas do festival – e não que não contássemos com isso -, os RINGO DEATHSTARR foram um dos nomes maiores da tarde do primeiro dia do Reverence Valada e tudo porque saíram da forma pela qual mais os conhecíamos. Contrariamente ao que mostram em estúdio, a patente My Bloody Valentine quase não pesa em palco – há muita noise pop e pouco shoegaze, desprezam-se as vozes abafadas e passam-se a criar melodias que nos são familiares pelo carácter alegre que albergam com isso – a performance de “So High” foi um dos momentos altos do dia - e, acima de tudo, faz-se aquilo que quase nunca acontece em palco quando assistimos a um concerto que repesque o legado de Loveless: eles mexem-se e mexem-se bem. Naturalmente, um dos melhores concertos da tarde. (7,5/10)

Seguiam-se os WOODS, que chegavam numa altura propícia para os receber – estávamos no final da tarde e nada melhor que um som bonito e atrevido para aquela hora. Vinham para apresentar o seu mais recente disco, intitulado With Light and With Love, mas também sem esquecer o seu belíssimo Bend Beyond, de 2012. Versáteis, foram constantemente alternando entra uma vertente de singer-songwriter, que nos faz facilmente lembrar a doçura dos Wilco, e uma vertente mais mexida onde as jams assumem um papel fulcral – e, curiosamente, foi precisamente aí que o concerto foi melhor. (7/10)


20h, abria o palco Reverence: a banda responsável pela abertura do palco principal do Reverence Valada nunca na vida podia esconder de onde vinha – os THE WYTCHES são britânicos e isso nota-se em todos os aspectos: no próprio sotaque, na maneira de actuar em palco e na maneira como não conseguem disfarçar os seus fascínios por uma tal de banda chamada Arctic Monkeys. Nos dois primeiros pontos, não existe qualquer tipo de problema. A partir daí é que já começam a surgir, porque apesar destes mostrarem mais do que AM mostrou, por exemplo, jamais poderá ser algo comparável com os primeiros trabalhos dos Monkeys, trabalhos esses onde o r&b começou a ser implementado no rock. Não soube mal, mas já ouvimos a mesma coisa só que melhor. (5/10)



Naquele palco tocaram de seguida os Swervedriver, banda que do pouco que vimos não nos impressionou e que, por isso, trouxe-nos a oportunidade para irmos até à vila carregar baterias para o concerto dos RED FANG. Assim foi, chegou-se ao Palco Reverence de baterias carregadas para vermos uma das últimas esperanças que surgiu para a salvação do espírito rock – equipados a rigor (se bem nos recordamos, o baixista dos Red Fang estava equipado com uma camisola dos míticos Slint), os norte-americanos fizeram com que se desse o primeiro crowdsurfing da história do Reverence Valada. De onde estávamos posicionados não víamos suficientemente bem, mas acredita-se que também foram pais do primeiro mosh. Percebe-se porquê: os Red Fang são uma banda sem merdas no que toca a atirar-nos às feras e ainda bem, ainda bem – existisse mais rock assim. Tocaram-nos canções de todo o seu reportório discográfico, incluindo do seu disco homónimo de 2009, e foram responsáveis pelo início do despertar da luz. (8/10)


Despertar de luz que só continuou depois dos Graveyard terem ido embora do palco: chegava a hora dos ELECTIC WIZARD. Começava a hora de abanar o pescoço incessantemente, chegava a hora dos tempos de abano entre todos os festivaleiros ser medido pelo tempo certeiro que o baterista dos demorava a bater com as suas baquetas nos pratos da bateria – e certo é que estava tudo perfeitamente compassado. O som podia estar mais alto, é verdade – diz que a partir da minha casa, em Aveiro, não ouviram nenhum barulho do concerto a circular pela atmosfera -, mas a cena é que a passagem dos Electric Wizard pelo Palco Reverence foi, à falta de melhor termo, do caralho. Para que se desse efectivamente a consolidação do stoner enquanto género musical, existe um nome que jamais nos podemos esquecer: o dos Sleep. Os Electric Wizard são seus fiéis seguidores e têm em Dopethrone um dos melhores discos da história do género – foram tocadas desse disco duas canções, curiosamente das melhores: “Dopethrone” e “Funerapolis”. A um ritmo certeiro, e com a promessa que os #4 Asteróides / Asteroid #4 chegavam durante a tarde, houve a desordem: os quatro asteróides chegavam ali àquela hora e eram os quatro elementos da banda britânica. Traziam consigo imenso peso e a ideia de que os graves que saiam daquele baixo ecoavam todas as redondezas – felizmente, que se saiba, não houve tentativas de suicídio por parte dos habitantes da Valada. Tudo correu como esperado: concerto do dia, do festival, do ano, de sempre. Pode nem ter sido assim (não foi), mas no meio do turbilhão sonoro que disparava contra nós foi com essa ideia que abandonámos o Palco Reverence. Despediram-se com “Black Mass”. (9/10)



Dali para a frente os concertos iriam decorrer nos palcos secundários, dando-se por encerrada a fase do Palco Reverence. Eram duas da manhã e chegava a vez dos portugueses PROCESS OF GUILT, responsáveis per um dos melhores discos do ano em 2012 com Faemin. Têm tanto poder que nem parecem de onde são: quem diria que havia eborenses a tirar horas de sono ao tempinho da sesta em pleno Alentejo. Os Process of Guilt tinham uma missão espinhosa pela frente: tocar depois do assombro que foi o concerto de Electric Wizard. Não se deram mal, longe disso: foram responsáveis pelo continuar de uma luminosidade que não se sentira durante a tarde, dando um concerto intenso e triunfal. Não é muito fácil estipular uma barreira para podermos definir os PoG; tanto se prendem à lentidão do doom como fazem transições repentinas para o post-metal que uns tais de Cult of Luna têm libertado por aí. Não escondendo as influências, a tarefa acresce em termos de dificuldade; porém, qual dificuldade qual quê. Não sendo únicos, os portugueses têm sangue frio e instinto animal, transportando-nos com uma frieza incrível das ambiências típicas daquilo que é selado pelo “pós” para a entropia e o inferno que se vai pintando através de gritos que vão nascendo de uma voz que, diga-se de passagem, é uma das melhores vozes que podemos encontrar no metal hoje em dia. Berrando, gritando ou contemplando: rubricou-se um dos melhores concertos do dia naquela que é, cada vez mais, uma das melhores bandas de metal do panorama europeu. (8,5/10)



Voltámos à carga em THE TELESCOPES e, uma vez mais, a luz continuava. Mais experimentais do que em estúdio e também menos preocupados com a vertente shoegaze que ladeia as suas composições, saímos do concerto de The Telescopes sem saber quantas ou quais as músicas que tocaram e a verdade é que esta é também a magia de ver um concerto ao vivo: o factor surpresa. Os The Telescopes surpreenderam em todos os aspectos, menos num: já sabíamos que iria ser um grande concerto. Assim foi. (8/10)


O último concerto do dia que vimos também falava português: chegava a hora dos BLACK BOMBAIM mostrarem porque é que são, neste momento, uma das maiores bandas do mundo (e tenho a perfeita noção que isto jamais poderá ser considerado uma hipérbole) disto a que chamamos de psych-rock. E é fácil perceber porque é que isso acontece: têm três elementos com uma qualidade tremenda e dentro do mesmo estilo musical conseguem fazer música para quem não gosta dos estilos que se encontram desse próprio estilo. Se não gostarmos de stoner, temos lá as guitarras que nos transporta para uma maresia espacial. Se não gostarmos de stoner nem de space rock, podemos interpretar os barcelenses com uma nova vaga quem nascido do krautrock: batida contínua, baixo em grande destaque e uma guitarra que quando aparece, regra geral, é para partir a loiça toda. O facto de serem quatro da manhã em nada afectou os acontecimentos: iam-nos descarregando uma energia incrível. É a tal história: no Reverence somos, ou éramos, veículos em que o combustível eram os decibéis que saíam a partir de cada concerto. Aqui conseguimos encher o depósito; a luz continuava. (8,5/10)



Texto por Emanuel Graça

Fotografias por José Vidal




quinta-feira, 12 de setembro de 2013

AINDA TENS QUE OUVIR #7: PROCESS OF GUILT - "FÆMIN" (2012, Division Records/Bleak Recordings)





Já fez um ano desde que saiu "FÆMIN", o sucessor de "Erosion", anterior trabalho dos 4 eborenses Process Of Guilt. Mais crescida e chateada do que nunca, o grupo deu-se finalmente a conhecer a um publico mais abrangente. Ainda que para um publico atento, já não seja preciso andar-se a vasculhar tão fundo ou levantar tantas pedras para se chegar ao nome de Process Of Guilt. Pode-se mesmo dizer que se tornaram um nome enorme para qualquer pessoa que esteja minimamente informada em relação ao mundo da música, goste-se ou não.

O conceito não é propriamente novo mas que ninguém se atreva a dizer que para português não é mau. Ou que para português é bastante bom. Estamos a falar de quem que tem perfeitamente noção do que faz e do que quer fazer. Não é uma banda que pretende soar a qualquer coisa que ainda não tenha chegado a Portugal e que, como tal, tem mais hipóteses de brilhar. Não, os Process Of Guilt são uma banda a sério. Fazem música a serio e não são bons dentro do seu género: são bons. E 
"FÆMIN" foi, quase sem duvida, o melhor álbum editado em Portugal no ano de 2012: desde aí não houve nenhum que conseguisse chegar perto. 





Lentamente, sempre lentamente, o álbum começa por criar uma atmosfera que embora quase suave transmite logo uma violência avassaladora que cativa ao primeiro acorde de guitarra. Um baixo vai-se suavemente introduzindo e ganhando uma força que prepara para tudo o que pode dali vir. Nem se dão por terem passado dois minutos e já entrámos num transe que nos agarra daqui em diante. A voz entra, mas não rebenta, vem acentuar a raiva, a dor. Vem crescer em nós todas as assombrações dos Process Of Guilt. Mas faz-se cara: a canção explode e as emoções transmitidas explodem também, quase que como necessitássemos daquela explosão, de um alívio. A raiva dos POG faz-nos ir buscar todas as nossas angústias vividas ao longo da vida e sem nos apercebermos já estamos de punho cerrado, dando uma nova força para encarar o futuro de frente da mesma maneira que se encara um inimigo, com o maior desdém possível.

A experiência entre o dominante (post-)doom metal, sludge monolítico e um industrialismo quase acluofóbico pode ser compreendida melhor após ver os POG ao vivo, num álbum que se acaba de ouvir com cara de mau e com vontade de andar à porrada, um registo que transmite sentimentos como poucos já fizeram. 
Muito provavelmente, um trabalho que elevou os Process Of Guilt a melhor banda nacional.



Luis Julião




sábado, 15 de junho de 2013

PROCESS OF GUILT - ENTREVISTA

Com dez anos de carreira, o grupo eborense Process of Guilt chegou a França pela primeira vez no âmbito de uma tour europeia que teve como expoente máximo a actuação no célebre festival Roadburn na Holanda. A banda, que vagueia entre o doom, o death e o sludge metal actuou em Lyon no dia 23 de Abril e em Perpignan no dia 24. Hugo Santos, vocalista e guitarrista da banda, aceitou o convite do BandCom e falou-nos, entre outras coisas, da ansiedade que tem em mostrar lá fora que se faz boa música em Portugal.






BandCom (BC): FÆMIN foi um dos grandes sucessos nacionais de 2012. Recebeu críticas positivas de quase todos os horizontes e abrangeu um público bem mais amplo/diverso...

Hugo Santos (HS): Também foi o registo em que mais força empenhámos na promoção do mesmo. Mas também porque a música que ele tem nos permitiu fazer isso e por outros fatores, como a associação à editora suiça Division que nos permitiu pelo menos aumentar a nossa rede de contatos e chegar mais longe. Em termos de concertos, com aquela mini-tour em Outubro onde algumas data falharam, foi um disco que superou um bocado aquilo que estávamos à espera, em comparação com as reações que tínhamos com o nosso trabalho anterior.


(BC): Achas que a nova direção escolhida pelo grupo também contribuiu para isso ?

(HS): Sim. Para nós, não acaba por ser uma “nova direção” porque nunca tivemos a ideia de que só gostaríamos de fazer um só género de música, um só tipo de música. Queríamos fazer a música que nos dava mais prazer, com a qual nos identificávamos mais. Talvez no início as nossas referências fossem um pouco diferentes, porque a nossa habilidade talvez não fosse a melhor... (risos) Mas agora, de facto, as influências que temos e a direção que temos representam aquilo que nós somos. Daí eu acreditar que essa mudança tenha chamado mais gente para a nossa música.


(BC): Ainda é válido dizeres, como já o referiste numa entrevista, que os Process Of Guilt são uma “banda pequena, do underground, num país pequeno e que poucas pessoas conhecem ?”

(HS): Quer dizer, continuamos a ser uma banda pequena num país pequeno. (risos) A única coisa que mudou é que de facto há mais gente a conhecer-nos. Nós conseguimos ver isso pelas reações que temos, pela maior facilidade com que conseguimos marcar concertos fora de Portugal, e pela nossa presença num ou noutro festival que chamou a atenção de mais público e mais promotores, mas também pela net através das vendas que fazemos e das visitas nos sites. Mas se compararmos com as bandas portuguesas conhecidas lá fora,  continuamos a ser uma banda pequena, completamente dependente de nós, ou seja, em que tudo aquilo que nos acontece é fruto do nosso input pessoal e económico. Até porque hoje em dia as editoras servem apenas para lançar discos e pouco mais...


(BC): O facto de alguns de vocês terem passado a viver perto de Lisboa também apagou alguns problemas do ponto de vista da logística, não ?

(HS): Isso é complexo (risos). Porque nós conhecemo-nos todos em Évora. Somos 4, três de Évora, e o Nuno, de Setúbal, mas ele também estudou lá. A nossa base sempre foi Évora: hoje em dia, três de nós vivem em Lisboa ou arredores mas continuamos a ensaiar lá. É lá que está a nossa sala, o nosso material e acaba por ser um regresso semanal às raízes por assim dizer. A logística continua a ser complexa...


(BC): É uma desvantagem para uma banda ser-se de Évora ? Têm os mesmos problemas que as bandas algarvias por exemplo ?

(HS): Se olharmos para a distribuição de Portugal, Lisboa e Porto representam 40% das pessoas que estão aqui não é?!.. As outras estão divididas pelas outras cidades. Acredito que no Algarve seja pior, com tudo aquilo que o país está a viver, as portagens, o gasóleo e falo por nós porque fomos tocar ao Algarve no ano passado e de facto não é fácil. Gasto tanto dinheiro quase em ir tocar ao Algarve como em ir tocar a Madrid. E é claro que quando comparas uma cidade onde tens quase 5 milhões de pessoas e potencialmente 50-100 pessoas a ver o teu concerto, com o Algarve onde todas as bandas que vão lá queixam-se que só têm 20 ou 30 pessoas, é porque se calhar não é um tipo de som que agrada lá em baixo. Mas por exemplo agora há um bar em Viseu com uma boa agenda semanal, com bandas underground e de todo o país, temos o festival de Barroselas em Viana de Castelo que movimenta já muita gente, temos outros locais perto de Aveiro ou até mesmo em Évora... A pouco e pouco vai-se construindo algo que a meu ver não existia há dez anos. Uma espécie de circuito que permite às bandas dar a volta ao país quase sem custos. Mas acho que em Espanha acontece um pouco o mesmo. E se calhar em França também...


(BC): Pois, a tal “centralização parisiense...”

(HS): Chegámos a ter uma data marcada em Paris. Era uma data aí com uma banda um pouco mais conhecida. Mas não era uma banda de metal e como não queriam ninguém a fazer barulho no concerto deles então acabámos por mudar. Ficámos com esse dia pendurado e afinal transformou-se em duas datas : em Lyon e Perpignan.








(BC): Li numa review francesa ao vosso álbum Faemin uma introdução que me intrigou. E gostava de saber qual era a tua opinião sobre isso. “Não se pode dizer que Portugal ocupa um lugar preponderante no mundo da música. Tirando o fado que costumamos inserir por polidez nas músicas do mundo, é raro vir-nos alguma coisa de lá.” Na linha seguinte falam de Moonspell.

(HS): (Risos) Ele se calhar sabe melhor isso do que eu. O que é facto é que tenho consciência que principalmente no que diz respeito ao metal, os Moonspell são a referência, pelo percurso que já têm e pela quantidade de fãs que têm... Mas é um bocado uma banda que “seca tudo o que está à volta.” As pessoas ouvem falar de Portugal e associam automaticamente a Moonspell. E a música que se faz hoje em Portugal não tem rigorosamente nada a ver com os Moonspell. Aliás, acho que eles pouco contribuiram, dinamizaram sem ser trabalho deles - acho que nunca levaram muitas bandas a fazer o que eles faziam. Até porque surgiram numa altura das “vacas gordas”, por assim dizer, numa altura em que as editoras apostavam, em que havia dinheiro, em que a sua atividade lhes permitiu instalar-se num patamar que só uma ou duas bandas da Península Ibérica conhecem, uma ou duas gregas, uma ou duas italianas, uma ou duas belgas... Obviamente que o fado é o cartão de visita, mas não acaba por ser o espelho do país: há cada vez mais bandas em tours europeias e até às vezes nos Estados Unidos. Acabam por ser bandas talvez a pender mais para o hardcore ou para o punk, cuja própria atitude lhes permite passar mais tempo na estrada. Acho que é um fraco retrato do nosso país, mas que acaba por ser percecionado desta forma no estrangeiro. Cá não se fala noutra coisa senão na crise e em toda uma data de problemas nos quais estamos afundados. No entanto, na minha experiência recente, quando falei com belgas, holandeses, nem lhes passava pela cabeça o que é que era a crise em Portugal e o que é que que isso queria dizer. Portugal continua a ser um meio pequeno, o que não desvirtua o esforço que as pessoas fazem cá dentro para levar o seu trabalho ou a sua música lá fora. Infelizmente, estamos para a Europa como Vila Real de Santo António está para Portugal... (risos) Ou a ponta de Sagres...é um cantinho à beira-mar plantado.


(BC): Sem entrar em considerações politico-sociais, achas que a situação de desespero que se vive em Portugal pode levar mais gente a interessar-se por sentimentos muito presentes na vossa música como o desespero, a  desolação ? Como uma forma de se libertarem deles ?

(HS): Se houvesse algum ponto positivo no meio da crise, que fosse esse! (risos) Que o pessoal encontrasse refúgio na nossa música. Não estou a ver muitos pontos positivos aqui mas se houvesse algum, que fosse esse!


(BC): Até porque o desespero é algo que vos inspira bastante…

(HS): O desespero, ou a falta de alento, são temas comuns e que percorrem toda a nossa discografia, mesmo em termos de letras, independentemente das direções que possamos ter tomado, num ou noutro disco. O que é facto é que há sempre uma tendência para esse desespero. Mas no meio da música, há sempre uma luzinha ao fundo do túnel.


(BC): Não há agora menos “desespero”, “menos fome de desolação” com o sucesso que têm tido? Isso pode ressentir-se no próximo álbum?

(HS): Não sei. A forma como abordamos a composição de cada álbum depende sempre do estado de espírito em que nos encontramos no momento. E sobre isso ainda não sei falar. Agora, quando regressarmos desta tour, é que vamos começar a pensar em compor um álbum novo. Já temos algumas ideias, mas acho que há uma identidade que percorre, independentemente das nossas direções, toda a nossa discografia. Que tenha ou não a ver com o desespero, o cenáriode desolação; talvez alguma coisa do ponto de vista lírico possa mudar, mas a desolação é um cunho nosso e vai permanecer.


(BC): Como receberam a notícia de que iriam tocar no Roadburn Festival? Como é que uma banda prepara um evento como este?

(HS): Já lá tinha estado algumas vezes e é um festival que me é caro porque já lá vi muitas bandas, fui de propósito só para ver esses concertos. Recebemos a notícia de forma meio apreensiva, porque tivemos o contacto do Walter (diretor artístico do Roadburn) que desta vez ficou interessado em levar-nos lá. Ficámos muito contentes porque é quase uma espécie de confirmação ou de reconhecimento externo do valor que a nossa música tem e que é música que tem significado e contexto, pelo menos num festival onde vão as maiores referências neste tipo de sonoridades. Por outro lado, esse concerto acaba por ser a âncora desta tour, e tivemos que o encarar como um concerto especial e importante certamente, mas também como o sexto ou sétimo de uma série de 13 que teríamos de fazer! Entregamo-nos a todos da mesma maneira, é essa a forma como nós encaramos a música. Mas claro: ansiosos por tocar no Roadburn.








(BC): Ao vivo, parece que conseguem inculcar nas vossas músicas uma força bem maior...

(HS): Quando tocamos ao vivo, é uma oportunidade única para nos reinventarmos naquele momento.  Ou seja, apesar de tocarmos músicas que nos acompanham há um certo tempo, o que é facto é que são músicas com as quais nos identificamos muito e tentamos transmitir ao máximo a forma como desfrutamos. No fundo, tudo o que fazemos, seja um disco, um ensaio, tudo se completa no palco, tudo faz mais sentido quando estamos a tocar ao vivo. Pelo menos, expressar-nos de forma a que tudo aquilo corra bem, que nós consigamos fazer justiça ao imaginário para o qual o disco remete. Há uma espécie de conceito relacionado com a nossa performance e tentamos fazer com que aquela experiência de 45 minutos valha tanto a pena para quem nos está a ver como para nós. É o nosso único segredo.


(BC): Apostam também num lado mais visual ?

(HS): Como a forma como abordamos a estrada reduz-se a nós e ao técnico de som, nós procuramos, pelo menos ter alguma coisa que remeta para o design dos discos. Se pudermos ter projeções, temos um filme preparado para esse cenário, senão apenas estamos dependentes das luzes do sítio, mas é um factor ao qual damos muita atenção. 


(BC): Parece que isso não era uma das grandes preocupações dos grupos de metal e de doom...

(HS): Da minha experiência, tudo vai mudando ao longo de tempo. No início, a nossa principal preocupação era tocar tudo de uma ponta à outra sem termos problemas (risos). Agora, como estamos noutra fase, começamos a abordar o espetáculo como um todo. Como a nossa música apela a mais do que estarmos a ver apenas a nossa ação em cima do palco, tentamos criar um cenário que acompanhe a música. E isso é comum à maioria das bandas que encaram as atuações ao vivo com a seriedade que elas merecem.


(BC): Fala-nos um pouco do que se passou com a vossa atuação que tinha sido prevista para Rouen em Outubro passado.

(HS): Éramos para ter atuado em Rouen, não tocámos, não sei porquê, nunca mais tivemos contacto com ninguém...não é uma coisa que tenhamos ficado contentes com, mas já passou e vamos fazer com que agora dê tudo certo. Em Paris também éramos para ter tido um concerto, mas esse aí eu sei que não foi por culpa do promotor. Mas é quase certo que numa próxima oportunidade vamos a Paris. Esta vai ser a nossa primeira vez em França, que tem sido sempre aquele “deserto” que temos de atravessar para chegar a qualquer lado (risos).




Mickaël C. de Oliveira




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