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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

ORELHA NEGRA - ENTREVISTA

Cabeças de cartaz na dia 2 de agosto, os Orelha Negra tiveram a difícil tarefa de representar o hip-hop (inter)nacional no FUSING Culture Experience. O BandCom esteve à conversa com Sam The Kid, João Gomes, Fred Pinto Ferreira e DJ Cruzfader instantes antes daquele que foi um dos grandes momentos da primeira edição deste festival. Sampling, cinema, arte urbana, hip-hopfalou-se um pouco de tudo.





BandCom: Vocês partem quase sempre da base de um sample para criar a vossa música. Isso não acaba por limitar, de uma certa forma, os vossos horizontes?

Sam The Kid: Não, pelo contrário. Para já, não é obrigatório a música começar do sample. Por exemplo, músicas como "A Cura" ou "Since U Been Gone" começam de um baixo, de uma bateria, de um teclado… e depois aparece o sample como uma ferramenta.

João Gomes: Não é bem uma ferramenta. Acho que se tiveres uma linha, um caminho, se
calhar segues esse caminho e fazes uma viagem por aí. Ajuda-nos a ter alguma ideia.

Sam The Kid: Por exemplo, quando estou rodeado por músicos, eu normalmente, se eu trabalhar só com samples, já não posso andar na rua e começar "pumpumpumpum pumpum". e depois tentar ouvir o disco a ficar à espera que a música esteja lá. Mas à mesma, não me vou limitar a ter uma ideia melódica e depois pedir a alguém para tocar. Por isso, é igual a qualquer banda.


BandCom: Acabam por propor sempre também mixtapes...

Sam The Kid: Normalmente, é muito raro serem editados álbuns instrumentais que depois passam a ser vocais. Por exemplo, a música "Since U Been Gone" com Orlando Santos chama-se no nosso álbum "A Memória". Isso prova que a música dá uma excelente canção.

João Gomes: Era um tema que no álbum era um pouco abstrato, sem grande forma. E depois do Orlando ter cantado, exatamente em cima daquele instrumental, com uma certa lógica, tornou aquilo numa canção.


BandCom: Não foi só para chegar a outro público...

Fred Pinto Ferreira: Não...É por nós curtirmos e para ver também aquilo que os cantores fazem com as nossas músicas. Não lhes damos nenhuma regra. O objetivo é eles fazerem aquilo que querem, e também vermos a volta que eles dão à música, a leitura que eles têm dela.

Sam The Kid: Se nós tivéssemos essa manha, nós estaríamos neste momento a fazer discos. Ou seja, dar concertos com vocalistas, etc. Mas não estamos a fazer isso, e só vamos fazer agora no Sudoeste, pela primeira vez, porque vai ser um concerto especial.





BandCom: Vai haver medleys no concerto? É por ser um desafio que apostam tanto neles?


Sam The Kid: É um desafio, acima de tudo é um exercício. É para as pessoas terem exemplos mais abrangentes, mesmo que nem sempre… Às vezes, por exemplo, se curtires hip-hop, também te podes sentir especial: "hey este gajo tá a tocar isto, estas pessoas não sabem aquilo que estão a fazer!" Tem um sentido quase pedagógico também, se por exemplo não conheceres o Big James. E depois também pode ser usado como um trunfo. Se estamos num ambiente assim mais festivo, pomos mais medleys dentro desse género…


BandCom: É preciso também muito tempo, muita cumplicidade entre os membros. Conseguem gerir isso tudo com os vossos outros projetos?

Todos: Sim, sim.

Cruzfader: As vezes, até tenho trabalho de casa (risos).

Fred Ferreira: É uma cena complicada a montar. Demoram-se alguns dias a montar isto. Há um medley por exemplo que encaixa 6 ou 7 músicas. Agora já os tocamos com mais facilidade, também já estamos mais habituados. Para teres uma ideia, nós existimos há quatro anos, e só temos 6 medleys ou 7. Não conseguimos fazer assim tantos como isso mas também não queremos só tocar medleys.

Sam The Kid: Mas a regra é que seja baseado em samples. Por exemplo, tocámos uma música da Nneka não baseada em sample, mas depois posso ir buscar um sample do Kanye West, e isso é a parte criativa da cena.

João Gomes: Muitas vezes os samples podem ser verdadeiramente excertos de gravações que já aconteceram. Nós queremos ter ideias, criar a partir de melodias daqui e dali. E temos um pouco essas duas coisas, que são: estarmos a tocar coisas que não existem mas inspiradas em coisas que já existem, ou estarmos a pegar num sample no qual o Sam já pegou.

Sam The Kid: Nós nunca pegamos nas músicas já sampladas. Vamos sempre ao original e recriamos. O próprio "I Got The Power" é de um a capella dos anos 70.


BandCom: Estiveram há pouco tempo no Europavox a representar Portugal, digam lá como correu...

Fred Pinto Ferreira: Houve uma cena que eu nunca tinha visto, se não me engano foi nesse concerto, onde houve mosh mesmo.

Cruzfader: Foi uma loucura. Quase que partiam com tudo (risos)…

Sam The Kid: Gajos a tropeçar e a cair para cima do palco…


BandCom: Porque é que não conseguem tocar mais no estrangeiro?

Fred Pinto Ferreira: Impossibilidade financeira. Nós para tocarmos, não temos outro formato, mais reduzido. Somos 5, com o DJset podemos fazer uma brincadeira aqui em Portugal para curtir, temos o nosso técnico de som que é muito importante… ao todo somos 9 pessoas. São custos ainda elevados que não conseguimos suportar. Mas agora também vamos ao Brasil em Setembro para o Rock in Rio, já estivemos em Macau, na França, Holanda…vamos devagarinho.





BandCom: Vão voltar a colaborar com o Vhils ou a segunda colaboração que tinham previsto já não vai ter lugar?

Sam The Kid: É verdade, mas por acaso, neste momento, não há nada em concreto.

Fred Pinto Ferreira: Olha, eu já nem me lembrava. Mas o Vhils está completamente gigante. Tem viajado muito e não nos temos cruzado assim muitas vezes. Ficou falado, sim senhor, mas acabou por não se concretizar. O vídeo que íamos fazer não deu e agora não temos planos para fazer outro. Ele está connosco desde o princípio: antes de Orelha Negra ele já tinha atuado num concerto do Samuel...já é uma longa história.


BandCom: Já tiveram convites para criar bandas sonoras?

Sam The Kid: Eu já fiz para "O Crime do Padre Amaro".

Fred Pinto Ferreira: Eu, para um porno…

Sam The Kid: Agora vou te ser sincero numa cena, eu até não me importava, nem que fosse um filme nosso, que um de nós fizesse algo assim nada ambicioso, porque o cinema português… Por isso prefiro fazer o meu porque ao menos, mesmo não sendo nada de especial, é meu (risos)!

Fred Pinto Ferreira: Por exemplo, agora está a sair um filme, "A Gaiola Dourada", todos dizem que é muito bom…

Sam The Kid: É a tal cena, toda gente gosta só por ser português…

Fred Pinto Ferreira: Um dos meus filmes preferidos é francês, o La Haine...


BandCom: Para vós, podia ter havido mais hip-hop neste festival?

Sam The Kid: Por mim é na boa vir mais hip-hop. Mas ao mesmo tempo eu não me admiro.

João Gomes: Deve ter a ver com um certo preconceito ainda em programar hip-hop. Por causa do público, etc. Se calhar, nem pensaram nisso.

Fred Pinto Ferreira: Num concerto nosso, ou nos do Sam The Kid, nunca vi cenas de confusão. Em concertos de rock já vi, de hip-hop nunca vi.

Sam The Kid: E acho que também se deviam abrir portas a novos projetos. O Regula que está a ter um bom álbum, o NBC…também tem a ver com timings.

João Gomes: Tekilla…

Fred Pinto Ferreira: No Sudoeste temos uma oportunidade de programação, levamos Mind da Gap, Regula…

Sam The Kid: E depois esses MC’s também têm de ter um álbum relativamente recente. O Regula era uma das pessoas que ia ajudar o festival a crescer e trazer muitas pessoas.

João Gomes: Traz um público diferente mas as pessoas parece que têm um bocado de receio desse tipo de gente.





BandCom: Projetos para o resto de 2013?

Fred Pinto Ferreira: Rock In Rio, alguns concertos, continuar a promover a mixtape e o álbum. As cenas vão acontecendo a pouco e pouco. Temos algumas ideias.



Mickaël C. de Oliveira




sexta-feira, 12 de julho de 2013

ORELHA NEGRA - "MIXTAPE II" (2013, Valentim de Carvalho)




“Mixtape II” é o mais recente disco de Orelha Negra, banda portuguesa composta por Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e João Gomes. Arriscando a dizer que, neste momento, são os “mestres” do hip-hop tuga, os Orelha Negra inovam não só nas participações, como é exemplo a de Teresa Santos (Da Chick) que estamos habituados a ouvir num registo mais funk, como também nos instrumentais que, como em qualquer masterpiece do género, vão beber a todas a “fontes”, misturando as várias culturas tradicionais e contemporâneas de forma a recriar, de forma inovadora, o infinito musical que nos circunda. Nas 21 faixas encontram-se ainda as participações de Amp Fiddler e Fred (“Queen of Hearts”), Osso Vaidoso (“Blu Marina”), Pocz & Pacheko (na remistura de “Bala Cola”), Stereossauro & Razat (“O Segredo”), Kika Santos (“My Best Keep Secret”), Zombies For Money e DJ Izem (nas remixes de “Throwback”) ou DJ Riot (“A Luta”).





As colaborações de Carlos Nobre, Capicua e Fuse surgem, contudo, em destaque. A primeira relembra a primeira mixtape dos Orelha Negra mas também o seu disco homónimo como Algodão. Desde os Da Weasel, em que Pacman apresentava a sua faceta mais agressiva, muito se modificou. Aqui, a sua voz invade os ouvidos de quem o ouve, afirmando que “um homem e uma mulher não ficam juntos para sempre” e fazendo uma ode à música, dizendo-lhe: “Sempre Tu”. Fuse, um dos mentores e maiores filósofos do hip-hop português, entre temáticas recorrentes como o contraste entre o céu e o inferno, o bem e o mal, o dia e a noite, o anjo e o demónio, sussurra a Adolfo Luxúria Canibal. Em “A Noite Em Que Eu Nasci”, e servindo-se de algum “heavy metal”, o ambiente criado é de terror e agonia, com o tema a terminar com uma declamação de Napoleão Mira, pai de Sam The Kid. Capicua, a afirmar-se e a conquistar novo terreno para as mulheres, ensina-nos a diferença entre a paixão e o amor em “A paixão É Às Vezes, O Amor É Sempre” numa mensagem de apelo ao sentimento verdadeiro. Muitos dos dilemas que os jovens, e mesmo os adultos, enfrentam na sociedade surgem aqui reflectidos: a rapidez e a fugacidade dos sentimentos, a falta de paciência e tolerância, são tidos como “amor” e não passam de paixão, de sentimentos passageiros sem a consistência necessária para prevalecer. 


Dentro do colectivo, Sam The Kid mostra mais uma vez que não tem de provar nada a ninguém na arte do rap. O domínio das palavras e do flow, da escrita e da declamação, sempre no seu registo humilde e defensor de grandes ideais (neste caso, a monogamia), mantém a sua coerência desde os seus primeiros álbuns até aos dias de hoje. O mesmo se passa com Regula, que em “Solteiro”, com Heber e Roulet, defende o que sempre afirmou defender: a poligamia e o crime.





Numa mixtape em que cada música tem o seu valor, todas as temáticas são
diferentes e definem os artistas envolvidos que, apesar de divergirem intensamente uns dos outros, nem por isso ficam desintegrados: antes, completam-se em plena sinfonia tocada e cantada pelos mais diferentes instrumentos e vozes, numa panóplia de estilos integrados que fazem com que o mesmo tenha uma dinâmica difícil de superar.
Tudo isto, dando uma nova vida a um género que, muitas vezes, não encontra uma saída do cubículo que é, e 
procura a sua inspiração apenas a partir dos anos 90. É com álbuns destes que nos apercebemos que as sonoridades do hip-hop podem e devem ser mais exploradas quando conseguimos perceber a extensa dimensão que este consegue atingir.


Catarina Bessa





segunda-feira, 25 de março de 2013

ORELHA NEGRA @ HARDCLUB, 22/3/2013 - REPORTAGEM



Dois anos depois do seu último concerto no Porto, os Orelha Negra encontraram no seu regresso triunfal à Invicta uma excelente sala totalmente esgotada do Hard Club, que os aguardava ansiosamente em ambiente de celebração. Uma hora e meia de concerto soube a pouco para colmatar essa ausência que se tornava já demasiado longa.


O quinteto apresentou um alinhamento renovado, juntando a alguns inevitáveis clássicos como A Cura ou M.I.R.I.A.M., algumas delícias do seu segundo registo como Bala Cola, 24/7, Polaroid e Viva Ela (com um trabalho fabuloso do Fred na bateria) e incursões no novo Mixtape II, o álbum fresquinho, já disponível em diversas versões por essa net fora, com reinterpretações de músicas do segundo álbum, acompanhadas por um quem-é-quem dos melhores vocalistas e MCs portugueses da actualidade como Mónica Ferraz, Capicua e Valete ou o americano Amp Fiddler.




O ambiente electrizante que criam desde a primeira nota é constante e contagiante e a máquina move-se com uma fluídez que não julgavamos possível num colectivo que, nos registos de estúdio, se alimenta vorazmente das sonoridades características do hip-hop. Ao vivo, a banda não necessita de vocalista(s) para injectar alma nas melodias que conhecemos e repetimos incessantemente nos nossos gadgets e o poder da bateria do Fred é o perfeito metrónomo para uma sonoridade surprendentemente orgânica e una, impecavelmente equilibrada entre o scratch de primeira do Cruzfader, os samples e os beats disparados pelo MPC do Sam the Kid, o baixo maravilha do Francisco Rebelo e as teclas talentosas do Diogo Santos, que substituiu na perfeição João Gomes, actualmente em digressão com Ana Moura por esse Mundo.




Sem quaisquer pausas entre as músicas, a experiência torna-se ainda mais intensa e a cumplicidade que se sente nos pequenos esgares e sorrisos entre os cinco transparece na forma aparentemente fácil como parece que assistimos à criação de músicas de raíz, tal é a vitalidade com que nos chegam. O segredo? A capacidade de fundir bom gosto e talento ímpar no uso, em tempo real, dos samples, beats e scratch com um motor soul de alta cilindrada.




Como bónus para as apresentações ao vivo, os Orelha Negra brindam-nos com o que eles singelamente apelidam de medley, em que, com o seu toque de Midas, juntam à festa convidados tão especiais como o Sure Shot dos Beastie Boys, I put a spell on you, do Screaming Jay Hawkins, Yegelle Tezeta, do Mulatu Astatke, Otis de Jay-Z com Kanye West ou a mítica Todos Gordos, dos portuenses Mind da Gap, confirmando apenas o que todos já sabiam: para além de talentosos, trazem na bagagem um repertório que excede em muito o que se poderia esperar de qualquer outro colectivo da mesma área musical. Os Orelha Negra são únicos em qualquer parte do Mundo e ao vivo superam-se de uma forma incrível. O Mundo é deles. Basta que o queiram. 


Texto por Paulo Silva,
Fotografia por Raquel Lemos




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