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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Noites Ritual 2012 - REPORTAGEM



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. A vigésima edição do Noites Ritual realçou uma filosofia divergente daquelas que tinham acompanhado o festival em edições precedentes. Se em edições anteriores, o evento tinha optado por nos mostrar novos ares do panorama musical nacional, com uma maior oferta de bandas, a edição deste ano optou por preencher um cartaz reduzido a quatro bandas já moderadamente consagradas a nível nacional. A juntar ao cartaz, estiveram inúmeras actividades espalhadas pelo Porto, com destaque para o Hard Club, que esteve inundado de workshops que foram conseguindo captar a atenção dos mais curiosos.


O tempo foi passando, e era hora do Palácio do Cristal abrir as portas para se fazer cumprir o mui aguardado ritual pela vigésima vez. O BandCom chegou ao recinto já perto da hora do início do concerto dos Dead Combo, mas com tempo suficiente para se aconchegar à beleza do ínclito Palácio do Cristal ao som das batidas dos Ecosons, grupo de percussão a quem coube a difícil tarefa de entreter milhares de pessoas enquanto a dupla Tó TripsPedro Gonçalves se preparava para subir ao palco do Noites Ritual pela primeira vez. Os Ecosons por ali desfilaram com os seus tambores, mas nunca ninguém quis saber, apesar de toda a destreza que o grupo demonstrava. O recinto estava longe, àquela hora, de ter o público que merecia ter, mas, convenhamos que, além de se tratar de um dia da semana, o concerto da banda lisboeta estava agendado para uma hora pouco convidativa, muito em cima da hora de jantar.



Pouco passava das vinte e duas horas, quando chegava o tão aguardado momento: os Dead Combo subiam ao palco onde se iria fazer cumprir o ritual. De rajada, chega-nos a quentura de Rumbero, retirada do álbum Vol. 1. A empatia foi imediata e o público demonstrou-se, desde cedo, disponível a prestar culto àquela que é uma das bandas portuguesas do momento. Seguiu-se uma Sopa de Cavalo Cansado para comburir as emoções e aguçar o apetite do público para o resto do espetáculo, uma saborosa e esplêndida entrada para um dos pratos principais do concerto dos Dead Combo: a Royal Orquestra das Caveiras. Foi já numa atmosfera envolvente que a orquestra foi acolhida. E mal chegaram, aromatizaram o clima com a nostalgia e a panóplia de ritmos africanos patenteada em Lisboa Mulata, fazendo-se soar a interessante Anadamastor. O concerto prosseguiu essencialmente ao som de Lusitânia Playboys, o álbum mais aclamado dos lisboetas. Fizeram-se tocar temas como Cuba 1970, Manobras de Maio ou Desert Diamonds até que Tó Trips nos anuncia que “vai interpretar um grande senhor” e toca Temptation, música do mítico Tom Waits, esboçando o primeiro ponto alto do concerto. Mas só mesmo esboçando, porque de seguida pinta-se o primeiro clímax do concerto da dupla. Traziam-nos toda a ousadia jazz da Lusitânia Playboys, com um saxofone a ser soprado incessantemente, com uns solos de guitarra (e não só) absolutamente irrepreensíveis, entre mais outras coisas. Tudo isto a convidar o público a mexer a perna e dar um pezinho de dança (eu confesso, não me contive). Até ao “fim” do concerto, tocaram-se mais temas de Lisboa Mulata: Blues de Tanga (com especial participação de um homem do blues: Paulo Furtado, quem mais poderia ser?) e Lisboa Mulata foram fazendo as delícias a milhares de pessoas. Despediram-se com a Marcha de Santo António, e com o jogo de luzes a anteceder um Encore. Saíram de palco e regressaram passados… bem, não consegui ter noção do tempo, pois a esta altura estava “revoltado contra o mundo” por não terem tocado a Esse Olhar Que Era Só Teu. Mas, quiçá, por intervenção divina (ou então não), a primeira música que os Dead Combo tocaram durante o encore foi mesmo Esse Olhar Que Era Só Teu. A nostalgia e a melancolia reinaram, por seis minutos, os ares do Porto e assistiu-se, na minha opinião, ao momento do festival. Embora nem todo o público tenha compactuado com a arte desta canção, este é um daqueles momentos capazes de penetrar no nosso peito e ir mussitar junto do nosso coração paletes de sentimentos e emoções, que cada ouvinte sente à sua maneira, através da sua liberdade poética. Memorável. Cacto e Malibu Fair foram as duas últimas músicas tocadas pelos Dead Combo. Apesar de se terem sentido saudades de alguns temas como, por exemplo, Eléctrica Cadente, de se terem deparado com algumas dificuldades técnicas ao nível do som e de resultarem francamente melhor numa atmosfera mais intimista, os Dead Combo rubricaram um belíssimo concerto e deixaram água na boca para o resto do festival.




Depois do concerto da dupla lisboeta, era hora dos festivaleiros irem recarregar energias: abasteciam-se com a habitual cerveja e com caipirinhas enquanto davam um passeio pela Concha Acústica, espécie de palco secundário do festival, onde estavam a actuar Cabaret Ritual do Meio Morto. Ou havia quem preferisse sentar-se ao pé do lago a recarregar as energias corporais, pois, de seguida, actuariam os vibrantes Wraygunn, banda liderada por Paulo Furtado (aka The Legendary Tiger Man). O tempo foi assim passando, sempre de copo na mão, até que a banda de Paulo Furtado chega ao palco do Noites Ritual.
Era já meia-noite quando o palco foi invadido pela ousadia e beleza das encantadoras Raquel Ralha e Selma Uamusse e pelo estilo peculiar de Paulo Furtado, e o recinto estava já bem mais composto que no concerto anterior. Esperava-se que a banda incidisse, ao longo do concerto, no seu mais recente disco ; o notável L’Art Brut. Mas a verdade, é que ao longo de cerca de uma hora e meia de concerto, a banda foi pulando entre os seus registos. Das colheitas mais antigas, fizeram-se tocar temas como Go-Go Dancer ou Love Letters From A Motherfucker, enquanto as novas colheitas serviram as delícias dos mais recentes fãs da banda. Sempre com uma nota bastante positiva, é de realçar o facto de Paulo Furtado ter dedicado uma música a “um grande senhor, que tanto já fez pela música portuguesa”, foi para o mítico Adolfo Luxúria Canibal que os Wraygunn tocaram Soul City Here We Go. Seguidamente, entoaram-se temas como I Betted All On You, um tema onde se ergueu o poder instrumental da banda, e Cheree, uma cover dos Suicide, onde Paulo Furtado esteve muitíssimo bem. O concerto cavalgava a um ritmo acelerado e a envolvência com o público era tremenda e este é um dos pontos que marcou a passagem da banda pelo ritual nortenho. Sempre com a boa-disposição a marcar pontos, Paulo Furtado chamou uma adolescente ao palco. O desafio era dançar, mas a rapariga só se ficou por dizer que se chamava Ana e que os amigos a tratavam por um nome especial. Bem, mas ninguém quer saber, porque Paulo Furtado tocou, seguidamente à fugaz passagem da “Ana”, Teenage Kicks, música original dos Undertones. E chamou mais jovens para cima do palco! E de repente, todo o palco dançava ao ritmo do Blues irrepreensível da banda do também The Legendary Tiger Man. Um dos momentos do concerto, sem dúvida. Contudo, o momento alto do concerto estava reservado para o fim. Foi num clima de pura histeria que Raquel Ralha e Selma Uamusse se aventuraram num crowd surfing e me fizerem bater com a cabeça contra a parede por não ter tido lugar na frente do concerto dos Wraygunn. Triste e pálido, lá me contive nas filas traseiras enquanto o público das filas dianteiras se rejubilava a olhar para cima, enquanto as vozes dos Wrayguun desfilavam por cima de si, de mão em mão, de braço em braço, de dedo em dedo. Enfim, tudo era válido, e tudo acabou com a Raquel Ralha a puxar o vestido para não acabar a noite despida. Foi ao som de All Night Long que a banda se despediu de um belo concerto, onde os ânimos estiveram elevados do início ao fim. Um show com nota bastante positiva e que, confesso, me surpreendeu. Terminava assim o primeiro dia do ritual e era hora carregar baterias para o dia seguinte, um dia onde iríamos encontrar Paus e A Naifa.




Era dia 1 de Setembro, Sábado, e era o dia onde se esperava que a afluência fosse maior, não pelas bandas em si, mas essencialmente por ser fim-de-semana. O BandCom chegou ao Palácio do Cristal “cedo”, com tempo suficiente para concluir que a o recinto estava bem mais preenchido àquela hora do que na noite anterior.




Era já hora d’os Paus subirem ao palco do Noites Ritual, naquele que era o concerto mais aguardado da edição do Ritual deste ano. Com um atraso de cerca de 20 minutos e com muita expectativa à mistura, foi num clima festivo que a banda de Hélio Morais, Quim Albergaria, João Shela e Makoto Yagyu pisou o palco Noites Ritual pela primeira vez. Sempre com o seu estilo bastante peculiar, lançaram-nos de imediato às feras com temas de É Uma Água, o primeiro EP da banda. Tocou-se Lupiter Deacon e a ligação com o público era imensa, com o público sempre a “ajudar” Hélio Morais no “Wow Wow Wow ; Nanaranana Nanaranana”. Com uma sonoridade simplesmente arrebatadora, os Paus provaram que são uma das melhores bandas portuguesas e que, acima de tudo, consegue suplantar-se ao vivo. E, bem, se em estúdio edificam o som que ouvimos, ao vivo… O concerto prossegui ao som de um Malhão, retirado do disco homónimo da banda e, logo de seguida, chegou o primeiro ponto alto do concerto com Deixa-me Ser. Sempre bastante interventivo, o público (das filas dianteiras) abraçou, aqui, a estreia de Paus no Noites Ritual com uma infinidade de palmas e ao cantar verso a verso esta canção. Seguidamente, foram tocados temas como Muito Mais Gente ou Ouve Só. A bateria siamesa era amplamente violada pelas batidas demoníacas de Hélio Morais e Quim, o baixo de Makoto era meneado com destreza e as teclas de Shela saltitavam sem parar. É atordoante a maneira como os Paus conseguem produzir um som tão intenso e dançante ao mesmo tempo, mas o facto é que conseguem e havia quem não resistisse a ficar um segundo quieto (ainda hoje estou às contas com o meu rico pescoço). Depois de tocarem Ouve Só, a bateria fica sem um dos seus filhos ; Quim Albergaria salta da bateria para o palco, pega no microfone e, completamente endiabrado, interpreta Descruzada, uma das minhas faixas favoritas da banda. Muito espalhafatoso (quer na voz quer na presença em palco), acaba por não conseguir uma interpretação com a qualidade esperada e desdoura um pouco o concerto da banda. Mas nada do outro mundo, porque havia mais de Paus para ouvirmos. Enquanto Hélio Morais bebia mais uma água das pedras e se acomodava para tocar a seguinte canção, um elemento do público grita desalmadamente por Ocre, que é, a meu ver, a melhor música dos Paus (sim, esse alguém fui eu), ao que a banda respondeu prontamente em Tronco Nu e, aí, assinalou-se o ponto alto do concerto. A faixa que serve de desenlace ao disco homónimo da banda foi entoada desde o início ao fim, pelo Porto inteiro (ok, vá… pelas filas dianteiras). A magia que se espalha desde a bateria siamesa é inesgotável e parece nunca querer-se esvair-se, e o público agradece. Pelo Pulso encerrou o concerto de Paus. Apesar de não terem tocado a música que mais (me) interessava, assinalaram o concerto desta edição do Noites Ritual e cimentaram-se como uma das melhores bandas portuguesas.



Era hora de repousar e “descansar” os ouvidos, dar um passeio até à Concha Acústica enquanto se empinavam umas jolas e se comiam umas bifanas. É custoso dizer, mas ninguém quis saber da Concha. Uma esmagadora parte das pessoas que compunham o recinto, aproveitavam este “intervalo entre os concertos” para colocar a conversa em dia ou para fazer um passeio pelo belo jardim do Palácio do Cristal. Mas particularidades à parte, o tempo não parava e aproximava-se a hora de A Naifa.





A Naifa foi a banda escolhida para fechar o Noites Ritual 2012. Tudo o que posso dizer acerca deste concerto, passará, certamente sempre ao lado, porque a poesia das suas músicas, a nostalgia e melancolia das suas composições fazem de A Naifa uma das mais peculiares e particulares bandas portuguesas. A mestria com que edificam uma aliança electrizante entre o fado, pop e rock é simplesmente irrepreensível, mas não é uma simbiose que consiga agradar a todos. A tarefa era complicada ; A Naifa tinha a espinhosa tarefa de actuar depois de um concerto magnífico dos Paus. A mudança em termos sonoros, de uma banda para a outra, era grande, mas nada que intimidasse o grupo, pois eles estavam bem armados. Tocaram duas dezenas de músicas, sempre com a alma a concitar-se e a incrassar de vida e nostalgia as boas dezenas de milhares de pessoas que rumaram até ao Palácio do Cristal. O saudosismo envolvente quando se fala no desaparecido João Aguardela esteve presente nos ares portuenses e em Libertação, música dedicada a Aguardela pel’A Naifa, deu, por certo, um aperto na garganta a muita gente. Um belíssimo e comovente concerto que fechou o ritual. Pela. Vigésima. Vez.

Conheçam o próximo capítulo do Noites Ritual em 2013. O BandCom lá estará, com todo o prazer, para o relatar.
Emanuel Graça
Fotografias por Ana Pereira
(galeria completa em
facebook.com/bandcom)




sexta-feira, 23 de março de 2012

Wraygunn - L'Art Brut



A questão que se prende após ouvir o mais recente álbum dos Wraygunn é se gostamos da mudança que se sente, nomeadamente em relação ao maior controlo da energia durante as músicas. O cunho forte de Wraygunn está lá, mas às vezes a música não cresce tanto como imaginaríamos que crescesse. Será que gostamos disso?

Não sei se é o pior ou o melhor, mas este é o registo mais completo e abrangente do grupo liderado por Paulo Furtado. Este álbum define muito bem a banda porque revela um espectro musical gigante, dentro dos estilos que estes abordam, sem nunca perder a identidade. Aliás, a identidade até se revela mais. Sentimos isso em "Tales of Love": o que começa com algo muito introspectivo e calmo termina num caos dificilmente controlado. O caos blues que muitos dizem que os Wraygunn perderam está lá todo. Mais intenso. Mais curto. Apresentado com muito mais tensão. 



Também temos os hinos blues "Kerosene Honey", "Bet It All" e o mais introspectivo mas não menos forte "Track U Down". Aqui o conjunto puxa pelo lado mais clássico que os influencia. "Stroling" e "My Secret Love" puxa pelo lado exótico e tropical que o rock pode tomar. Por onde quer que o álbum vá, a voz pujante de Paulo Furtado comanda, mas as duas vocalistas femininas contribuem de uma forma que se revela essencial para a harmonia e melodia das canções. 

Os Wraygunn arriscaram. O caos (no bom sentido) de "Drunk or Stoned", "Love Letters From a Mothafucka" acalmou, reconfigurou-se. Decidiram tomar uma direcção que, do exterior, pode parecer incerta, mas é, sem dúvida, o melhor que eles podiam ter feito. Nas mesmas 12 músicas, voltam às origens, pensam no futuro, e brincam com o presente, mostrando-nos porque são um dos melhores projectos musicais que já foi produzido em Portugal. 




quinta-feira, 15 de março de 2012

Wraygunn - ENTREVISTA


Foi numa tarde de calor, pouco habitual para o mês de Março, que falámos com Paulo Furtado, Raquel Ralha e Selma Uamusse sobre "L'Art Brut", o novo álbum dos Wraygunn, o regresso dos músicos a este projecto, a música em Portugal, entre outros. 

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Já tinham saudades dos Wraygunn? 

Selma Uamusse - Claro!

Paulo Furtado - Eu pela minha parte estava, mas estava um pouco preocupado com o início, que foi difícil, principalmente pela parte de me aturar (risos). Eu vinha de um ritmo aceleradíssimo, a fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo, e de repente tive de me adaptar a 5 ritmos diferentes. Além disso, tivemos de perceber onde é que cada um de nós se encaixava dentro da banda, e como é que podíamos fazer as coisas nesse aspecto. Portanto, acho que houve um momento em que, apesar de termos todos muitas saudades dos Wraygunn, voltámos a entrar no nosso próprio ritmo de banda e se, apesar de gostarmos muito uns dos outros, ainda tínhamos, artisticamente falando, alguma coisa a dar ao mundo. Foi tudo a partir dos primeiros ensaios e do que despoletou o regresso dos Wraygunn, que foi uma música que a Raquel nos enviou, acabando por ser a primeira a ser feita para o álbum. Foi aí que recomeçou todo o ciclo de voltar a ensaiar, a trabalhar, e a perceber que as coisas faziam sentido. 

E o que é que se passou desde 2007?

PF - Eu quando editei o Femina (o último e mais ambicioso álbum do projecto a solo de Paulo Furtado, Legendary Tiger Man) pedi à banda um intervalo de 2 anos para o poder promover, prazo esse que acabou por se prolongar. Queria promovê-lo devidamente, já que os outros discos tinham sido promovidos no intervalo dos lançamentos de Wraygunn, e desta vez achei que precisava de um pouco mais de tempo. Felizmente, correu tudo muito bem, até internacionalmente. já que o disco ainda está a sair em países como o Canadá, onde eu ainda vou tocar, no Japão, até ao final do ano. Precisei de mais tempo do que esperava, mas acho que toda a gente fez outras coisas e trouxe outras influências. Esta paragem permitiu-nos, de certa forma, reinventar-mo-nos. 

SU -  No fundo, também não estivemos assim tanto tempo separados. Entre 2007 e 2009 tocámos muito ao vivo, com o Shangri-La (o antecessor de L'Art Brut), entretanto tivemos alguns encontros pontuais, e houve o convite do Tiger Man para fazer dois temas, um deles composto pela Raquel, Kerosene Honey, e que foi tocado nos concertos do Coliseu. Posteriormente, começámos a trabalhar no estúdio, no verão de 2010. Penso que foi um hiato relativamente longo mas que não terá sido assim tão pesado. Primeiro, porque todos estávamos preparados para isso, e depois porque penso que nós também precisávamos de uma certa pausa. Tocámos bastante entre o Eclesiastes 1:11 e o Shangri-La, em que não houve quase pausa nenhuma a nível do nosso trabalho em conjunto. 
Foi uma pausa necessária, portanto. 

SU - Penso que foi, pelo menos da minha parte. Foi uma altura em que finalmente me dediquei a estudar música. Nunca o tinha feito, apesar de já cantar profissionalmente desde 2000. Além disso, estive a fazer coisas mais ligadas ao jazz, a encontrar-me noutros registos musicais, tive tempo para explorar outras coisas. Parece-me que foi um bom período para nos inspirarmos e voltarmos a ter vontade de estar juntos. Nós funcionamos mais como família do que como banda, e nas famílias as pessoas chateiam-se, apesar de gostarem muito de estar umas com as outras. Existe uma dinâmica muito própria. Os Wraygunn são mais família que grupo de amigos, uma família com a música como factor comum, o gosto por ela e por estarmos em palco juntos. Fazia-nos falta termos estas saudades de estarmos juntos, com todos os "senãos" que podem existir, que no fundo levaram a esta manta de retalhos que é o nosso disco, que apesar de ser assim, não deixa de ser muito coesa e fluída. E muito agradável. 

Sentiram algo de diferente, quando começaram a trabalhar neste álbum, em relação aos anteriores?

Raquel Ralha - Falando por mim, por causa da tal primeira música, Track U Down, essa música saiu-me mais num momento de solidão e de guitarra na mão, apenas com uma voz, que foi o que eu lhes enviei. Um registo muito rough de voz e guitarra. Não foi nada pensado e planeado para ser desta forma, mas o disco acabou por resultar num conjunto de canções que, não obstante a base comum a outros discos de Wraygunn, acaba por divergir um pouco e de fugir para outros campos, numa perspectiva mais individual, mais introspectiva e íntima. 

PF - A música que tu (Raquel) enviaste foi gravada, imagino eu, no computador, de forma muito simples, não? Essa música quase não mudou, em relação à original. O que é engraçado, todo o ambiente que estava na primeira gravação ter-se mantido. Foi um disco que foi feito assim, as músicas foram trabalhadas individualmente e feitas com muito egoísmo. Haviam músicas que era mais ou menos íntimas ou para mim, ou para a Selma, ou para a Raquel, ou para outro. Fomos assim deixando de fora algumas músicas que não nos diziam tanto. Se fosse há 5 anos, teríamos pensado "temos 5 músicas demasiado calmas aqui, vamos tirá-las e vamos meter estas que são mais rápidas e rock'n'roll", que é um bocadinho aquilo que nós somos e o que o nosso público espera de nós. Poderíamos ter vacilado e feito alguma selecção, que não fosse de uma honestidade muito grande para o disco e para nós. Estamos, efectivamente, bastante diferentes de há 5 anos atrás. E temos esta nova capacidade de controlar uma energia que antes estava sempre descontrolada. Os Wraygunn antes disparavam raios de energia para todo o lado, e agora conseguimos, de certa forma, controlar essa energia e manter as músicas em tensão, de uma maneira que a mim me agrada mais do que o que fazíamos antes, a mim e penso que a todos. Essa tensão sempre existiu mas nunca foi controlada. 

Quais serão as consequências desta mudança nos espectáculos ao vivo?

PF - Não vão ficar menos enérgicas. Se calhar, as libertações de energia vão ser diferentes. Não sei. A certo ponto, o que me começou a irritar nos concertos de Wraygunn é que se não houvesse sangue, as pessoas não ficavam contentes. Nós mudámos. Eu, por exemplo, antes gostava de fazer música com 2 acordes e 3 palavras, e agora tenho letras de 3 páginas e músicas com 15 acordes. Não que tenha sempre necessidade de mais acordes e maiores letras, até porque há músicas que continuam a ser muito primitivas e básicas e eu gosto disso. Ainda não fizemos nenhum concerto deste novo espectáculo. Nestes primeiros que vamos dar, iremos tocar o disco na íntegra, não vamos tocar músicas antigas, e isto é um "statement", como o é a primeira música deste álbum. Acho que a arte tem de ser assim, tem de estar sempre em mutação. E se nós queremos ter respeito por nós próprios como banda e como artistas e pela nossa arte, temos de arriscar seguir o que o instinto nos manda fazer. Neste aspecto, este álbum é francamente egoísta, como todos deveriam ser. 
As músicas reflectem o título ou acontece o contrário? 

PF - A ideia da Selma, da manta de retalhos, é uma boa ligação. Seja como for, a ideia principal da arte bruta é ela ser o último local na arte onde existe perfeita inocência, onde as pessoas fazem a arte pela arte, onde muitos dos artistas não têm noção que estão a fazer arte, é o mundo exterior que lhes diz que o que eles estão a fazer é arte. Nós não fazemos arte bruta, nem este álbum é um álbum de arte bruta, nem nos queremos, de certo modo, associar-mo-nos a ela, apesar de sermos grandes admiradores. Mas é um sítio bonito para olhar, como foi importante olhar para o salmo eclesiastes 1:11, como foi importante procurar paraísos perdidos como o Shangri-La. Às vezes, precisamos de sítios para olhar, para nos inspirarmos, para fazer música, fotografias, vídeos, peças que possam funcionar como arte, fora do contexto da música. Acho que é o caso das fotografias do André Cepeda, os desenhos e ilustrações do Artur, que também compõem o álbum. O próprio vídeo que eu fiz poderia funcionar num contexto aparte da música dos Wraygunn.   

Paulo, já mostraste algum desagrado perante o conflito de ruído, oriundo de outros palcos, que por vezes o palco em que estás sofre. O que se pode fazer neste aspecto? 

PF - Acho que já se fez.. Mais do que eu fiz, não se pode fazer (risos). Depois de estares 3 anos a tentar gravar um álbum, e de teres vendido o teu carro pelo meio, e feito trinta por uma linha para acabares o álbum.. aliás na altura nem sabia se era possível acabá-lo, achava que nunca o ia acabar, por um milhão de problemas diferentes. Chegas a um momento em que começas a tocar essas músicas do álbum, e levas convidados, como eu levei, para tocar pela primeira vez as músicas do Femina. No sudoeste, era virtualmente impossível tocar. Já todos os músicos tocaram em condições que não eram as melhores mas em que era possível tocar. Ali não havia qualquer possibilidade. Acho que, na altura, toda a gente percebeu, e a atitude acabou por ser um "statement" e, ao mesmo tempo, acabou por influenciar quem faz os festivais e quem os organiza, para que tenham mais cuidado com a localização dos palcos, com acústica entre eles. Não o fiz de ânimo leve, não quero ser aquele tipo de pessoa que está sempre a resmungar, eu não quero resmungar quando não tenho razão, antes pelo contrário! Há músicas que pedem algum silêncio, e a maior parte dos sítios onde eu toco tem esse silêncio, por isso não há grandes problemas em relação a isso. 
Como se mantém uma carreira, um percurso profissional e musical, dentro do género do rock mais antigo e do Blues? Isto porque as pessoas estão sempre à procura do que é novo..

PF - Eu acho que aquilo que fazemos é novo.. Acho que, hoje em dia, fazer um álbum de trance pode ser mais antiquado do que fazer um álbum como nós fazemos, em que misturamos elementos de quase tudo. A base pode ser blues e rock mas penso que nós mostramos elementos de música africana, gospel, soul, blues.. 

E a categorização de géneros musicais que muita gente tende a fazer da música actual pode representar um problema nesse aspecto?

PF - No iTunes, vi que nos puseram sob a categoria de Pop. Se me tivessem feito isso há 10 anos, eu ia procurar o escritório do iTunes em Portugal, entrava lá dentro aos pontapés e perguntava-lhes pelo imbecil que tinha feito isso. Hoje em dia, não me incomodam muito os rótulos; a Pop, como música popular, é algo enorme, e se calhar, acaba por ser o melhor título. Houve um momento em que, fosse country, fosse soul, fosse o que fosse, era tudo música popular, no sentido em que não era preciso ir à escola de música para a fazer, todos a podiam criar e ouvir. Esse conceito da pop foi posteriormente transformado numa máquina de vender produtos e não propriamente música, mas actualmente penso que é o melhor modo de descrever aquilo que fazem os Wraygunn. No que toca à parte das carreiras, não há nenhuma fórmula, e nem sei se aquilo que temos é uma carreira. Temos concertos marcados em França, e em Portugal, mas não sei se vamos vender mil ou cinquenta mil discos, ou se vamos vender um milhão - até porque ninguém está livre disso, é o que eu costumo dizer. 

SU - Acho que a forma como nós fazemos música, sendo pessoas atentas ao que se passa à nossa volta, a nível social, emocional e musical, não se caracteriza por seguir as tendências, no sentido de querer fazer algo mais soul ou mais rock. Noutro dia, o Paulo estava a dizer que se o Eclesiastes tivesse saído no ano passado, teríamos sido uma banda muito popular, na senda do "boom" de todas as bandas soul, entre a Amy Winehouse e a Sharon Jones, e tantos outros artistas com uma boa projecção internacional. A música de Wraygunn é sempre feita de forma um pouco egoísta, repetindo o que já foi dito, muito feita para nós. Isto tem um efeito à posteriori e um resultado muito positivo, que torna a nossa música muito própria, o que faz com que os fãs a sintam como tal. Em todos os álbuns, vão havendo mais ligações à soul, ou à electrónica, ou a música mais exótica, mas a verdade é que somos 6 elementos e todos muito diferentes, que ouvimos géneros de música muito distintos mas ainda assim conseguimos encontrar uma fusão particular e especial. Penso que é isto que agrada às pessoas. Eu tenho muitos amigos que gostam de Wraygunn, uns pela parte soul, outras pelo lado mais africano, outros porque é mais a abrir. Não querendo ser arrogante, penso que em Portugal não é fácil comparar Wraygunn a outra banda nacional, não por sermos muito especiais mas por fazermos uma música muito própria. Apesar disto, não podemos prever nada. O Paulo poderia ter imaginado que o Femina teria o resultado que teve. Limitou-se a fazer aquilo que queria, enquanto podia e enquanto não tinha que vender a alma (risos). 

PF - A alma está segura! 

SU - Fico mais descansada então..

PF - A música popular acaba por nos definir bem por sermos e não sermos, ao mesmo tempo, uma banda de afro-beat, rock n roll, blues, soul, etc. Tem um pouco a ver com a forma como eu mudei e nós mudámos nos últimos 10 anos, e isso reflecte-se na nossa música. No meu caso, espero que não seja a ternura dos 40, mas acho que mudámos e evoluímos, penso que para melhor, gosto de pensar que não nos repetimos nem fazemos a mesma fórmula. 

Acham que os Wraygunn seriam uma banda diferente se tivessem começado noutro país, num sítio mais receptivo à música em geral e ao vosso género em particular?

PF - Há muitas respostas para essa pergunta, mas eu tenho duas. Se fossemos exactamente assim e fossemos ingleses ou americanos, tenho a certeza que teríamos uma dimensão mundial, muito maior que a que temos. Por outro lado, se fossemos ingleses ou americanos, não faríamos a música como a fazemos, que se deve ao facto de morarmos em Portugal e o país é um eixo entre África, Europa e América, e nós como povo absorvemos muitas influências. Penso que uma banda como os Wraygunn só poderia ter existido aqui, para ser sincero. Além disso, é muito difícil ser uma banda portuguesa fora do universo de world music e do fado e exportar a sua música. Temos poucos casos, como os Moonspell, nós conseguimos isso, em alguns países. Existem alguns artistas que vão tentando fazer isso mas não há propriamente uma tradição a  esse nível. As bandas inglesas passam directamente do "pub" para os palcos principais dos festivais europeus. Tu aqui entre o clube de 50 pessoas e esse palco, demoras 15 anos, se tiveres sorte, e se trabalhares muito para isso. Tem sido também um erro de visão por parte de todos os governos nos últimos 20 anos, a fraca exportação da música portuguesa. Nunca ninguém conheceria os Air, por exemplo, se o governo francês não tivesse, desde sempre, investido nas tournées deles, e o retorno para França é enorme. Quem diz os Air, diz os Arcade Fire ou a Feist, que são dos artistas mais importantes da actualidade, não seriam a mesma coisa sem o apoio do governo canadiano. Este apoio é muito simples, eu já fui promotor de espectáculos e quando contratava bandas canadianas, o governo canadiano via os contratos e pagava as viagens às bandas, pondo-as ao mesmo nível de qualquer banda local. Bastava isto para, na música portuguesa, haver um "boom" e mais 40 ou 50 bandas conseguiriam ter concertos a nível mundial. E isto traz dinheiro de volta para Portugal: as bandas recebem cachets, pagam cá os impostos. São coisas legais, ninguém recebe dinheiro por baixo da mesa, nem nada disso. É mesmo um erro de visão. Nós neste momento somos muito mais do que o fado e a world music, sem querer desprezar isso. Temos muita música nacional, que é exportável e que é de qualidade, de todos os géneros musicais, há projectos que seriam facilmente exportáveis. E estamos a cometer um erro ao não transmitir essa ideia de Portugal, que é muito diferente do país que querem vender, do bacalhau, do pastel de nata e da sardinha assada, nós somos isso mas também somos muitas outras coisas. 
Esse apoio pode ter origem privada ou terá sempre de vir das entidades públicas?

PF - Nós não precisamos de nada, nós fazemos as coisas como sempre as fizemos. Por vezes, passamos dificuldades e não ganhamos dinheiro para as coisas acontecerem, ou temos trabalhos paralelos para fazer as coisas como queremos. No final, acabamos por fazer as coisas e por ser relevantes numa série de sítios. É possível fazer tudo sem nenhum apoio até, aliás o meu princípio é sempre esse. Mas acho que é pouco inteligente da parte do estado não reconhecer a cultura portuguesa como um bem exportável. Acho ridículo quando temos o ministro da economia a ir com 80 empresários para Angola, Brasil ou Japão, e nunca pensar que podem levar 50 músicos a tocar pelo mundo inteiro e a representar Portugal, em todas as suas formas possíveis. Temos boas bandas, bons projectos, em todo o lado, é uma tolice não se reconhecer um valor nisso. Há sempre a ideia de que a cultura é uma coisa que vai sugar e gastar dinheiro, desperdiçando-o, e sem qualquer retorno. 

Se for um projecto em nome próprio, fica tudo mais fácil? Notaste diferenças nesse aspecto, comparando Wraygunn e o projecto do Legendary Tiger Man?

PF - Obviamente que tenho uma série de vantagens. Na pior das hipóteses, eu posso fazer um concerto em qualquer lado do mundo, sozinho. Posso nem levar engenheiro de som, e já me aconteceu muitas vezes. Posso ir com uma equipa muito reduzida, e isso sempre foi uma vantagem. Se é mais fácil um projecto como o meu ter uma carreira internacional? É, claro. É mais difícil um projecto como os Wraygunn ter um percurso internacional por causa da parte logística, apesar de termos conseguido e irmos conseguindo. Não é por isso que vamos deixar de o fazer. 

Seria viável levar os Wraygunn aos coliseus, como aconteceu com o Tiger Man?

PF - Acho que os projectos não têm nada a ver um com o outro, excepto no facto de eu fazer parte de ambos. Como a Selma disse, nunca na minha vida imaginei que iria ensaiar a tournée do Femina nos coliseus, e muito menos com eles esgotados. A forma como vou partir para o próximo disco é de quem tivesse quase a começar tudo de novo. Vamos ser sinceros: nós não andamos atrás de nenhuma corrente ou moda. Fazemos as coisas um pouco como numa bolha, e temos o nosso caminho, que nos trouxe muita gente, já nos trouxe pouca, não faço a mínima ideia. Era óptimo acabarmos a esgotar 3 coliseus, até, quem sabe. Mas também podemos acabar a fechar no MusicBox, com muito orgulho. O mais importante está feito, que é aquilo que nós consideramos o nosso melhor álbum. O resto não depende efectivamente de nós. Antes e durante o processo de composição das músicas, somos muito egoístas e não pensamos a quantas pessoas vamos chegar. Mas, lá está, ninguém se livra de vender um ou dois milhões, ou de ser famoso. O Eclestiastes 1:11 foi ignorado em Portugal, quase não vendeu, e foi um êxito de vendas em França, e foi o que nos catapultou aí. O Shangri-La, que nos projectou em Portugal, foi completamente desprezado na Europa, e quase ninguém achou grande interesse no álbum, e que era diferente do que fazíamos antes. Neste álbum, ninguém sabe, tu nunca sabes verdadeiramente o que vai acontecer aos discos. 

SU - O importante é continuar a fazer as coisas com paixão e dedicação. O resto se for bom, ainda bem que o é. 


PF - Num certo ambiente indie, parece que há um medo do sucesso. Não há que ter medo nenhum dele, nem do insucesso, nem uma coisa nem a outra implica que sejas bom. O que é importante é a qualidade da carreira do artista, se fez algum sentido a carreira, os álbuns que ele fez, a totalidade da sua obra, e não por um disco ou dois.  

Quais são os concertos que teremos de Wraygunn nos próximos tempos?

SU - Temos agora estes 4 primeiros, de apresentação do disco, em Lisboa, Coimbra, Tondela e no Porto, em que o acesso aos concertos se garante na compra do disco. Nestes, vamos fazer o alinhamento do disco e experimentar as músicas, pela primeira vez, na íntegra. Iremos também a França, e depois contamos fazer alguns concertos pelo resto do país, em outras cidades, e esperamos poder tocar em festivais, queimas e tudo o que for possível. Temos aquela normal expectativa de voltar a estar em contacto com os nossos fãs, recentes ou mais antigos, e de celebrar a música com eles, acima de tudo. 

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L'Art Brut já está à venda. Não percam este excelente álbum e os concertos que se vão seguir ao seu lançamento!

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