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quarta-feira, 21 de maio de 2014

PAUS @ HARDCLUB, 02/05/2014


A noite de dois de maio ficou marcada pela passagem de PAUS na cidade do Porto para a apresentação de “Clarão”, que sucede ao disco homónimo da banda lançado no ano 2011. E embora se previsse que a sala secundária do Hardclub não esgotasse, dado o seu pouco tempo de lançamento e promoção, era de antever uma plateia composta e com um público já em parte a saber para o que vinha.

Partindo do princípio da ideia, é praticamente dado como certo que um concerto deste quarteto seja obrigatoriamente enérgico. À semelhança do EP e disco anterior em que as músicas transpareciam exatamente isso e tocadas ao vivo fluíam de algum modo essa mesma energia ao público, após a audição de “Clarão” qualquer pessoa esperaria o mesmo. Aliás, talvez seja essa a razão que levou a comandante bateria siamesa a estar alinhada no centro do palco, servindo de protagonista e dando apenas espaço para Makoto e Shela brilharem em outras alturas do concerto.


Mas contrariando o postulado anterior, foi de forma mais introspetiva que o público recebeu a banda no Norte. Se “Primeira” não deteve a força necessária para ter feito a plateia explodir logo a abrir a noite, talvez pudesse ter funcionado como alavanca para “Cume” e “Clarão” funcionarem de modo mais efusivo. Nem mesmo “Pontimola” ou “Bandeira Branca” foram capazes de tornar o ambiente mais festivo. E tendo-se percebido cedo que, além dos quatro rapazes estarem ainda a sincronizar-se com as novas músicas em palco, a equipa técnica de som não estava nos melhores dias, talvez esses fatores tenham contribuído para a maior dispersão das pessoas. 


Assistia-se porém a um concerto que, além de qualidade, trazia novidades. Por cima da brutalidade da bateria siamesa construía-se uma sonoridade com algumas tendências eletrónicas que PAUS não tiveram medo de explorar no mais recente trabalho. “Cauda Turca” foi o trunfo mais flagrante nesse aspeto. Além disso, não se assistia ao “tal e qual como tocado no disco”, mas as variações que ocorriam fruto das adaptações ao palco não deixaram as faixas soar estranhas, mesmo para quem já as conhecesse bem. “Nó” foi a prova disso quando se embrenhou na complexa selvajaria sonora da guitarra e provou que o nome lhe encaixa que nem uma luva.


Se em 2011 “Deixa-me Ser” foi a faixa que definiu o estilo da banda, “Corta Vazas” surge em 2014 como aquela que se aproxima melhor dessa definição (juntamente com o single “Bandeira Branca”). Talvez por esse motivo quando as duas tocaram, uma seguida da outra, a sala ganhou a energia explosiva comentada anteriormente. Não que o público não estivesse a aderir ao concerto, já que no final não pareceu existir descontentamento, mas o seu verdadeiro despertar surgiu um pouco tarde.

A época não terminou, porém, para PAUS. Se a sua sonoridade resultou e ainda a primeira noite de verdadeira primavera estava a acontecer, com certeza tempos veranis e mais quentes convidarão a momentos onde a sua forte componente rítmica decidirá qual o próximo movimento de cada corpo da plateia. É oficial, já podem anunciar o verão mais quente de sempre que está tudo preparado.



João Gil

Fotografias por Rodolfo Rodrigues
(galeria disponível em
facebook.com/bandcom)





PAUS - "Clarão" (2014, Universal Music Portugal)


Após o EP “É Uma Água” e o disco homónimo da banda de Joaquim Albergaria, Hélio Morais, João Shela e Makoto Yagyu, foi revelado oficialmente ao público no passado dia 28 de Abril “Clarão”. Editado pela Universal Music Portugal, o novo trabalho de PAUS contou com uma estratégia de publicação semelhante ao último de Linda Martini (também lançado pela mesma editora), tendo sido disponibilizado dias antes na plataforma digital Spotify.


Quem se lembra do seu primeiro LP (já lá vai em 2011), continuará a encontrar no sucessor os dois pontos fortes já noutros tempos presentes na composição do grupo: a componente rítmica da bateria siamesa permite construir uma sonoridade tribal que se une como unha e carne no rock acrescentado pelos instrumentos de João e Makoto. Contudo, e provavelmente seguindo o decurso da evolução tanto do próprio quarteto como da música por si só, em “Clarão” junta-se a esses dois elementos uma componente um pouco mais eletrónica que, permitindo uma maior panóplia de sonoridades, leva a um maior caráter experimental.

É “Corta Vazas” quem tem honras de abertura do LP. Se “Deixa-me Ser” foi a música que marcou o álbum de 2011, será talvez esta a faixa que em conjunto com o single “Bandeira Branca” permite a ligação entre o que poderá ser ou não novidade. Caso seja necessário explicar resumidamente qual é a sonoridade de PAUS, encontram-se neste momento outros dois exemplos disso.



Apesar de mais presente nas faixas destacadas anteriormente, essa sonoridade clássica não se desvincula totalmente das restantes oito do disco. É com naturalidade que vai crescendo sobre essa base sólida o experimentalismo que cada novo trabalho deve acarretar, seja ao nível eletrónico anteriormente mencionado, seja ao nível de recurso a novos instrumentos que não ganharam tanto destaque anteriormente.
Em “Pontimola” é possível assistir-se à junção do imperativo e marginal grito “Para trás! Recua!” associado a distorções que por si só evocam o ruidoso ambiente urbano e, ao mesmo tempo, ouvir-se o som de um xilofone que paradoxalmente convida o corpo a dançar mesmo no meio de tanta agressividade. Afinal, o perigo é sempre o lado mais aliciante.

E se em “Nó” a guitarra ganha fôlego já na parte final da música e em qualquer cabeça faz jus ao título da faixa, “Ambiente de Trabalho” e “Primeira” são os instrumentais onde a composição e o arranjo sobressaem em detrimento de toda a ação-reação provada anteriormente, tanto com festividade como com intervenção e agressividade. Não se revelando num sentido de crescendo, parecem antes surgir como um conjunto de degraus que terminam precisamente no “Cume”, no qual as vozes se juntam para reacender a intervenção, desta feita encaixada em toda a ideia explicada anteriormente.



"Clarão" termina com a música homónima ao título do álbum, interessante pela sua dinâmica e modo de progressão. Se o riff inicial da guitarra abre caminho à complexa batida da bateria siamesa, esta permite a explosão sonora que se junta aos cânticos consagradores entoados pelos elementos de PAUS. Por outro lado, permite atingir lentamente o culminar de um registo que, não parecendo ter uma ordem de progressão bem definida, acaba por conseguir criá-la espontaneamente. Exemplo disso será “Cauda Turca”, que após “Cume” faz o ouvinte viajar quase em choque para uma sonoridade completamente diferente - poderá ser essa queda abrupta que, parecendo passar por um desfecho “Negro” que nada permite vislumbrar senão o escuro, termina no “Clarão” que nada permite vislumbrar senão a luz. Não se sabe o que haverá logo a seguir, mas pelo menos há essa luz e nada mais interessa.

João Gil




quarta-feira, 27 de março de 2013

TALKFEST'13 - REPORTAGEM

Música enquanto agente económico? Este conceito é quase um corpo estranho para a maioria dos ouvintes de música em Portugal que, e bem, estão mais preocupados em desfrutar do que de bom se faz por cá que na sua viabilidade económica. Eis que aparece o Talkfest, que se propõe a preencher esse buraco na reflexão sobre o futuro da música enquanto negócio e enquanto braço armado do turismo, nomeadamente no que aos festivais de verão diz respeito. O Talkfest é um ciclo de conferências que, já na 2ª edição, contou com um painel de distintos oradores como Álvaro Covões, patrão da Everything is New, Tozé Brito, administrador da SPA, músico e autor, Jorge Romão (GNR) e Zé Pedro (bem, nem vou ter o desplante de vos tentar apresentar o Zé Pedro). Mas nós, gente atenta à música nacional mas sobretudo audiófilos assumidos, demos, como seria de esperar, maior relevo à música tocada. Já que mais não seja pelo facto de a música falada não ser a nossa praia (desculpem rappers deste mundo). Assim sendo, saltamos directamente do ISEG, local das conferências, para a Aula Magna, sala de espetáculos emblemática lisboeta onde tiveram lugar os concertos.




6 de Março

A edição de 2013 do Talkfest abriu em grande estilo com os Capitão Fausto, uma das bandas em alta rotação na cena musical deste Portugal e que deu mais uma prova de vitalidade. Uma sala composta (numa 4ª à noite!) demonstrou mais uma vez a lufada de ar fresco que estes rapazes são no roque nacional. Apesar de o alinhamento ter sido muito semelhante aos vários concertos que já vimos da banda, não cansa, de facto, ouvir grandes malhas como Sobremesa ou Santa Ana. Não cansa ver o Salvador Seabra a tocar como se não houvesse amanhã e a brindar a Aula Magna com um soberbo solo de bateria. Não cansa correr atrás da gazela, tentativa inglória, que ela é rápida demais para o nosso passo pacato. É que isto de andar a ouvir Zambujos e Vitorinos, Faustos e Úrias e apanhar com tamanha descarga eléctrica sempre que nos aventuramos pela savana onde mora a gazela psicadélica faz-nos suar de alegria por haver uma banda assim em Portugal. Gostávamos que tivessem deixado cair mais o pano do segundo álbum de originais que aí vem? Claro. As poucas músicas novas que apresentaram não conseguiram empolgar como os grandes sucessos do disco de estreia? Não, o que é naturalíssimo visto não lhes conhecermos o miolo. Foi um grande concerto. Como todos os outros da banda? Sem dúvida. E, claro, há sempre a Teresa para fazer sobressaltar as hostes.






E a cama estava feita para os Salto, que mostraram logo ao que vinham empunhando a sua pope dançante e acentuando a sua identidade tripeiro-descontraída (“Olá, nós somos do Porto, c******!”).

Esta banda do catálogo da Amor Fúria é também ela um caso sério. Execução a roçar o irrepreensível, linguagem acessível e música construída numa lógica pop que navega entre a electrónica a gritar pelas pistas de dança e o roque alternativo a que tão bem queremos. Causaram muito boa impressão e acabaram com uma Aula Magna rendida à energia de canções como Deixar Cair, Por Ti Demais ou Sem 100, onde o groove da voz de Guilherme Tomé Ribeiro marcou pontos.





7 de Março

O segundo dia do Talkfest´13 começou também com uma banda portuense, desta feita os doismileoito. Conseguiram certamente pôr toda a gente a bater o pé, pois ofereceram um concerto de bom nível, com um alinhamento constituído maioritariamente por canções do seu álbum, intitulado Pés Frios. E foi precisamente quando se ouviu Quinta-feira, single radiofónico desse mesmo disco (e que goza de maior aceitação por parte de um espectro mais alargado de ouvintes) que as tropas se animaram e levantaram o rabo das confortáveis poltronas da Aula Magna (sim, acho que lhe podemos chamar poltronas). Estava lançada a festa com o pope-roque directo e cantável dos doismileoito e era altura de nos preparamos para o punk também, diga-se, pintado em tons pop de uns certos rapazes de Queluz.




  
A dicotomia estar-sentado-porque-estou-na-Aula-Magna versus estar-de-pé-porque-estou-num-concerto-de-roque foi omnipresente no Talkfest, mas Jónatas Pires d’Os Pontos Negros tratou rapidamente do assunto. “É uma vergonha estarem aí sentados. Todos de pé, é uma ordem!”, gritou o guitarrista e vocalista. Grande parte do público respondeu e estavam criadas as condições para um concerto que revisitou os êxitos da já mui respeitável discografia da banda sem nunca esquecer o mais recente álbum de originais gravado em Abbey Road, Soba Lobi. Canções como Conto de Fadas de Sintra a Lisboa, Magnífico Material Inútil, Rei Bã e Tudo Floresce (só para citar as mais conhecidas) trataram de encher a barriga a quem se deslocou à Aula Magna. Houve ainda espaço para Pedro da Tróia (Capitães da Areia) irromper palco dentro para uma feliz versão de Supersticioso, dos Heróis do Mar e para se ouvir 1991, dos Feromona, cantado pelo próprio Diego Armés e, imagine-se, com grande parte da banda em palco. Por volta da uma da manhã, com o encerramento do metro, a assistência diminui significativamente, para níveis que uma banda com a história d’Os Pontos Negros não merece. Nós aguentámos por amor ao rock, aplaudimos com todas as forças – e fomos a pé para casa.




8 de Março

Os Ciclo Preparatório podem ter uma palavra importante a dizer no futuro da pop nacional. Prova disso é a força que o seu single Lena Del Rey já ganhou, com várias semanas seguidas a dominar o top da Antena 3. No dia 8 de Março pudemos ouvir as canções do seu álbum de estreia que, ao que consta, sairá já no próximo mês de Abril. Transpareceu algum nervosismo, natural, e a banda não conseguiu levantar a maioria dos presentes (mas não será injusto se culparmos o facto das cadeiras serem verdadeiramente de um conforto digno de um sultão das Índias). Distribuíram-se flores pelas senhoras da sala, que fica sempre bem. Deste concerto dos Ciclo Preparatório ficaram as canções, que são boas, e que fazem antecipar um álbum bem-sucedido. 






Quem também não conseguiu ganhar a batalha contra as cadeiras da Aula Magna foram os Cavaliers of Fun, apesar de toda a energia colocada em palco. A banda composta pelo ex-Loto Ricardo Coelho e pelo mentor dos Memória de Peixe, Miguel Nicolau, apresentou, no entanto, uma pop saudável que respira energia e electrónica como um relâmpago daqueles que fazem os putos esconderem-se debaixo das saias das mães. Pop dançável.

Findos que estavam estes dois concertos inaugurais, chegou-nos o grande momento desta edição do Talkfest. Não tínhamos expectativas demasiado altas. Confesso-vos, com alguma vergonha, que não sou (não era) grande fã dos PAUS. Da primeira vez que os vi ao vivo, ainda sem conhecer versões de estúdio, estranhei o som difuso e o pitoresco do cenário. Amaldiçoo o meu conservadorismo, porque no dia 9 de Março descobri uma banda que mudou a minha forma de ouvir música. O que antes parecia uma exibição frugal de técnica por parte da bateria siamesa, mas principalmente do enorme Hélio Morais, afigurou-se-me uma massa sonora que faz sentido, e faz o sentido que lhe quisermos dar. Mas dúvidas de que é brutal, arrebatadora e tudo mais? Não as há, agora.






E quando vejo uma Aula Magna cheia como não se viu noutro concerto do Talkfest´13 percebo a palermice da minha reserva quanto aos PAUS. Assistia-se à consagração de uma grande banda, num grande palco. Quim Albergaria atirou: "Hoje é um bom dia para engravidar" (!). Acrescenta: "para dizerem ao vosso filho que foi feito no dia de um concerto muito especial: no dia em que os PAUS tocaram pela primeira vez na Aula Magna!". Foi de facto um enorme concerto, que foi também especial por ser o primeiro e talvez o único em quinteto - com o novo membro Fábio Jevelim.

E a festa acabou com a já tradicional invasão de palco com um público sedento de ouvir o disco homónimo e também os dois EP´s da banda (“É Uma Água” e “Estamos Juntos”) com a força acrescentada que a interpretação ao vivo lhes dá. Mais gente no palco que na plateia e, só por aquele momento, valeria a pena fazer-se mil edições do Talkfest. E as poltronas, essas, estavam vazias.




Bernardo Branco Gonçalves
Fotografias por Constança Quinteiro




quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Noites Ritual 2012 - REPORTAGEM



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. A vigésima edição do Noites Ritual realçou uma filosofia divergente daquelas que tinham acompanhado o festival em edições precedentes. Se em edições anteriores, o evento tinha optado por nos mostrar novos ares do panorama musical nacional, com uma maior oferta de bandas, a edição deste ano optou por preencher um cartaz reduzido a quatro bandas já moderadamente consagradas a nível nacional. A juntar ao cartaz, estiveram inúmeras actividades espalhadas pelo Porto, com destaque para o Hard Club, que esteve inundado de workshops que foram conseguindo captar a atenção dos mais curiosos.


O tempo foi passando, e era hora do Palácio do Cristal abrir as portas para se fazer cumprir o mui aguardado ritual pela vigésima vez. O BandCom chegou ao recinto já perto da hora do início do concerto dos Dead Combo, mas com tempo suficiente para se aconchegar à beleza do ínclito Palácio do Cristal ao som das batidas dos Ecosons, grupo de percussão a quem coube a difícil tarefa de entreter milhares de pessoas enquanto a dupla Tó TripsPedro Gonçalves se preparava para subir ao palco do Noites Ritual pela primeira vez. Os Ecosons por ali desfilaram com os seus tambores, mas nunca ninguém quis saber, apesar de toda a destreza que o grupo demonstrava. O recinto estava longe, àquela hora, de ter o público que merecia ter, mas, convenhamos que, além de se tratar de um dia da semana, o concerto da banda lisboeta estava agendado para uma hora pouco convidativa, muito em cima da hora de jantar.



Pouco passava das vinte e duas horas, quando chegava o tão aguardado momento: os Dead Combo subiam ao palco onde se iria fazer cumprir o ritual. De rajada, chega-nos a quentura de Rumbero, retirada do álbum Vol. 1. A empatia foi imediata e o público demonstrou-se, desde cedo, disponível a prestar culto àquela que é uma das bandas portuguesas do momento. Seguiu-se uma Sopa de Cavalo Cansado para comburir as emoções e aguçar o apetite do público para o resto do espetáculo, uma saborosa e esplêndida entrada para um dos pratos principais do concerto dos Dead Combo: a Royal Orquestra das Caveiras. Foi já numa atmosfera envolvente que a orquestra foi acolhida. E mal chegaram, aromatizaram o clima com a nostalgia e a panóplia de ritmos africanos patenteada em Lisboa Mulata, fazendo-se soar a interessante Anadamastor. O concerto prosseguiu essencialmente ao som de Lusitânia Playboys, o álbum mais aclamado dos lisboetas. Fizeram-se tocar temas como Cuba 1970, Manobras de Maio ou Desert Diamonds até que Tó Trips nos anuncia que “vai interpretar um grande senhor” e toca Temptation, música do mítico Tom Waits, esboçando o primeiro ponto alto do concerto. Mas só mesmo esboçando, porque de seguida pinta-se o primeiro clímax do concerto da dupla. Traziam-nos toda a ousadia jazz da Lusitânia Playboys, com um saxofone a ser soprado incessantemente, com uns solos de guitarra (e não só) absolutamente irrepreensíveis, entre mais outras coisas. Tudo isto a convidar o público a mexer a perna e dar um pezinho de dança (eu confesso, não me contive). Até ao “fim” do concerto, tocaram-se mais temas de Lisboa Mulata: Blues de Tanga (com especial participação de um homem do blues: Paulo Furtado, quem mais poderia ser?) e Lisboa Mulata foram fazendo as delícias a milhares de pessoas. Despediram-se com a Marcha de Santo António, e com o jogo de luzes a anteceder um Encore. Saíram de palco e regressaram passados… bem, não consegui ter noção do tempo, pois a esta altura estava “revoltado contra o mundo” por não terem tocado a Esse Olhar Que Era Só Teu. Mas, quiçá, por intervenção divina (ou então não), a primeira música que os Dead Combo tocaram durante o encore foi mesmo Esse Olhar Que Era Só Teu. A nostalgia e a melancolia reinaram, por seis minutos, os ares do Porto e assistiu-se, na minha opinião, ao momento do festival. Embora nem todo o público tenha compactuado com a arte desta canção, este é um daqueles momentos capazes de penetrar no nosso peito e ir mussitar junto do nosso coração paletes de sentimentos e emoções, que cada ouvinte sente à sua maneira, através da sua liberdade poética. Memorável. Cacto e Malibu Fair foram as duas últimas músicas tocadas pelos Dead Combo. Apesar de se terem sentido saudades de alguns temas como, por exemplo, Eléctrica Cadente, de se terem deparado com algumas dificuldades técnicas ao nível do som e de resultarem francamente melhor numa atmosfera mais intimista, os Dead Combo rubricaram um belíssimo concerto e deixaram água na boca para o resto do festival.




Depois do concerto da dupla lisboeta, era hora dos festivaleiros irem recarregar energias: abasteciam-se com a habitual cerveja e com caipirinhas enquanto davam um passeio pela Concha Acústica, espécie de palco secundário do festival, onde estavam a actuar Cabaret Ritual do Meio Morto. Ou havia quem preferisse sentar-se ao pé do lago a recarregar as energias corporais, pois, de seguida, actuariam os vibrantes Wraygunn, banda liderada por Paulo Furtado (aka The Legendary Tiger Man). O tempo foi assim passando, sempre de copo na mão, até que a banda de Paulo Furtado chega ao palco do Noites Ritual.
Era já meia-noite quando o palco foi invadido pela ousadia e beleza das encantadoras Raquel Ralha e Selma Uamusse e pelo estilo peculiar de Paulo Furtado, e o recinto estava já bem mais composto que no concerto anterior. Esperava-se que a banda incidisse, ao longo do concerto, no seu mais recente disco ; o notável L’Art Brut. Mas a verdade, é que ao longo de cerca de uma hora e meia de concerto, a banda foi pulando entre os seus registos. Das colheitas mais antigas, fizeram-se tocar temas como Go-Go Dancer ou Love Letters From A Motherfucker, enquanto as novas colheitas serviram as delícias dos mais recentes fãs da banda. Sempre com uma nota bastante positiva, é de realçar o facto de Paulo Furtado ter dedicado uma música a “um grande senhor, que tanto já fez pela música portuguesa”, foi para o mítico Adolfo Luxúria Canibal que os Wraygunn tocaram Soul City Here We Go. Seguidamente, entoaram-se temas como I Betted All On You, um tema onde se ergueu o poder instrumental da banda, e Cheree, uma cover dos Suicide, onde Paulo Furtado esteve muitíssimo bem. O concerto cavalgava a um ritmo acelerado e a envolvência com o público era tremenda e este é um dos pontos que marcou a passagem da banda pelo ritual nortenho. Sempre com a boa-disposição a marcar pontos, Paulo Furtado chamou uma adolescente ao palco. O desafio era dançar, mas a rapariga só se ficou por dizer que se chamava Ana e que os amigos a tratavam por um nome especial. Bem, mas ninguém quer saber, porque Paulo Furtado tocou, seguidamente à fugaz passagem da “Ana”, Teenage Kicks, música original dos Undertones. E chamou mais jovens para cima do palco! E de repente, todo o palco dançava ao ritmo do Blues irrepreensível da banda do também The Legendary Tiger Man. Um dos momentos do concerto, sem dúvida. Contudo, o momento alto do concerto estava reservado para o fim. Foi num clima de pura histeria que Raquel Ralha e Selma Uamusse se aventuraram num crowd surfing e me fizerem bater com a cabeça contra a parede por não ter tido lugar na frente do concerto dos Wraygunn. Triste e pálido, lá me contive nas filas traseiras enquanto o público das filas dianteiras se rejubilava a olhar para cima, enquanto as vozes dos Wrayguun desfilavam por cima de si, de mão em mão, de braço em braço, de dedo em dedo. Enfim, tudo era válido, e tudo acabou com a Raquel Ralha a puxar o vestido para não acabar a noite despida. Foi ao som de All Night Long que a banda se despediu de um belo concerto, onde os ânimos estiveram elevados do início ao fim. Um show com nota bastante positiva e que, confesso, me surpreendeu. Terminava assim o primeiro dia do ritual e era hora carregar baterias para o dia seguinte, um dia onde iríamos encontrar Paus e A Naifa.




Era dia 1 de Setembro, Sábado, e era o dia onde se esperava que a afluência fosse maior, não pelas bandas em si, mas essencialmente por ser fim-de-semana. O BandCom chegou ao Palácio do Cristal “cedo”, com tempo suficiente para concluir que a o recinto estava bem mais preenchido àquela hora do que na noite anterior.




Era já hora d’os Paus subirem ao palco do Noites Ritual, naquele que era o concerto mais aguardado da edição do Ritual deste ano. Com um atraso de cerca de 20 minutos e com muita expectativa à mistura, foi num clima festivo que a banda de Hélio Morais, Quim Albergaria, João Shela e Makoto Yagyu pisou o palco Noites Ritual pela primeira vez. Sempre com o seu estilo bastante peculiar, lançaram-nos de imediato às feras com temas de É Uma Água, o primeiro EP da banda. Tocou-se Lupiter Deacon e a ligação com o público era imensa, com o público sempre a “ajudar” Hélio Morais no “Wow Wow Wow ; Nanaranana Nanaranana”. Com uma sonoridade simplesmente arrebatadora, os Paus provaram que são uma das melhores bandas portuguesas e que, acima de tudo, consegue suplantar-se ao vivo. E, bem, se em estúdio edificam o som que ouvimos, ao vivo… O concerto prossegui ao som de um Malhão, retirado do disco homónimo da banda e, logo de seguida, chegou o primeiro ponto alto do concerto com Deixa-me Ser. Sempre bastante interventivo, o público (das filas dianteiras) abraçou, aqui, a estreia de Paus no Noites Ritual com uma infinidade de palmas e ao cantar verso a verso esta canção. Seguidamente, foram tocados temas como Muito Mais Gente ou Ouve Só. A bateria siamesa era amplamente violada pelas batidas demoníacas de Hélio Morais e Quim, o baixo de Makoto era meneado com destreza e as teclas de Shela saltitavam sem parar. É atordoante a maneira como os Paus conseguem produzir um som tão intenso e dançante ao mesmo tempo, mas o facto é que conseguem e havia quem não resistisse a ficar um segundo quieto (ainda hoje estou às contas com o meu rico pescoço). Depois de tocarem Ouve Só, a bateria fica sem um dos seus filhos ; Quim Albergaria salta da bateria para o palco, pega no microfone e, completamente endiabrado, interpreta Descruzada, uma das minhas faixas favoritas da banda. Muito espalhafatoso (quer na voz quer na presença em palco), acaba por não conseguir uma interpretação com a qualidade esperada e desdoura um pouco o concerto da banda. Mas nada do outro mundo, porque havia mais de Paus para ouvirmos. Enquanto Hélio Morais bebia mais uma água das pedras e se acomodava para tocar a seguinte canção, um elemento do público grita desalmadamente por Ocre, que é, a meu ver, a melhor música dos Paus (sim, esse alguém fui eu), ao que a banda respondeu prontamente em Tronco Nu e, aí, assinalou-se o ponto alto do concerto. A faixa que serve de desenlace ao disco homónimo da banda foi entoada desde o início ao fim, pelo Porto inteiro (ok, vá… pelas filas dianteiras). A magia que se espalha desde a bateria siamesa é inesgotável e parece nunca querer-se esvair-se, e o público agradece. Pelo Pulso encerrou o concerto de Paus. Apesar de não terem tocado a música que mais (me) interessava, assinalaram o concerto desta edição do Noites Ritual e cimentaram-se como uma das melhores bandas portuguesas.



Era hora de repousar e “descansar” os ouvidos, dar um passeio até à Concha Acústica enquanto se empinavam umas jolas e se comiam umas bifanas. É custoso dizer, mas ninguém quis saber da Concha. Uma esmagadora parte das pessoas que compunham o recinto, aproveitavam este “intervalo entre os concertos” para colocar a conversa em dia ou para fazer um passeio pelo belo jardim do Palácio do Cristal. Mas particularidades à parte, o tempo não parava e aproximava-se a hora de A Naifa.





A Naifa foi a banda escolhida para fechar o Noites Ritual 2012. Tudo o que posso dizer acerca deste concerto, passará, certamente sempre ao lado, porque a poesia das suas músicas, a nostalgia e melancolia das suas composições fazem de A Naifa uma das mais peculiares e particulares bandas portuguesas. A mestria com que edificam uma aliança electrizante entre o fado, pop e rock é simplesmente irrepreensível, mas não é uma simbiose que consiga agradar a todos. A tarefa era complicada ; A Naifa tinha a espinhosa tarefa de actuar depois de um concerto magnífico dos Paus. A mudança em termos sonoros, de uma banda para a outra, era grande, mas nada que intimidasse o grupo, pois eles estavam bem armados. Tocaram duas dezenas de músicas, sempre com a alma a concitar-se e a incrassar de vida e nostalgia as boas dezenas de milhares de pessoas que rumaram até ao Palácio do Cristal. O saudosismo envolvente quando se fala no desaparecido João Aguardela esteve presente nos ares portuenses e em Libertação, música dedicada a Aguardela pel’A Naifa, deu, por certo, um aperto na garganta a muita gente. Um belíssimo e comovente concerto que fechou o ritual. Pela. Vigésima. Vez.

Conheçam o próximo capítulo do Noites Ritual em 2013. O BandCom lá estará, com todo o prazer, para o relatar.
Emanuel Graça
Fotografias por Ana Pereira
(galeria completa em
facebook.com/bandcom)




terça-feira, 29 de novembro de 2011

PAUS



Os PAUS são 4; parecem 40. Os PAUS têm baterias siamesas, uma guitarra e umas teclas, mas parece que são uma orquestra inteira. Os PAUS são muito bons gravados e escutados nos headphones; são ainda melhores no meio do suor e fantasia do espectáculo ao vivo.

Após o aclamado EP “É Uma Água”, os PAUS editaram finalmente neste ano o seu disco de estreia, escolhendo para tal 8 músicas de um já admirável catálogo de canções. Todo este texto seria um passeio alegre até uma nota de luxo no final, não fossem as 8 músicas ser, infelizmente, poucas para a avidez que o som do quarteto lisboeta deixou a arder nos ouvidos dos que já os escutaram. O primeiro single, “Deixa-me Ser”, é simplesmente o melhor de 2011 por cá ouvido. A estratégia de lançamento do disco (semelhante ao lançamento de “Casa Ocupada”, dos Linda Martini) é uma das mais audaciosas e bem conseguidas dos últimos tempos.





O disco, homónimo…esse faz-se de música pulsante, ao sabor de batuques da imaginação onde cabe o Mundo todo e mais uma chiclete de morango. O jogo do ritmo e da melodia é o exacto semelhante de tentar fazer um balão de pastilha maior do que a vista alcança. Tudo flui, sem sabermos como, quando será o passo seguinte, para onde vai a canção. O envolvimento não é desmanchado pelas (poucas) palavras; antes é perpetuado (“O Fim é um princípio qualquer/Foi tudo um bem entendido”). O fim é marcado por uma das melhores malhas do disco, “Tronco Nu”, em que se diz “Nada fala tanto como o que não fala”. Quando o artista diz o que o escriba quer dizer dele, é difícil escrever mais.

O próximo concerto é no Vodafone Mexefest, local e data ideais para começar bem a acabar 2011. Os PAUS marcaram 2010; 2011 será um ano “siamês”.



André Gomes de Abreu




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