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quarta-feira, 29 de maio de 2013

MEMÓRIA DE PEIXE - ENTREVISTA

Os Memória de Peixe, banda formada pela dupla Miguel Nicolau/Nuno Oliveira, foram uma das maiores revelações musicais do ano passado, sendo inclusivamente escolhidos pela SPA como banda autora de um dos melhores discos de 2012 pelo seu homónimo de estreia (cuja crítica pode, e deve, ser lida aqui). Se é já sabido que o nome da banda das Caldas da Rainha deriva da curta duração dos loops da guitarra que caracteriza a sua sonoridade, o BandCom decidiu ir saber mais acerca das suas origens, das suas “estórias”, do seu passado, presente e futuro. Actuarão dentro de dois dias no tão ansiado Optimus Primavera Sound, mas por agora o show é aqui nestas linhas abaixo: Memória de Peixe em entrevista ao BandCom.

"Demos um concerto na FNAC do Colombo no ano passado e ao descarregar o material ficou a guitarra no meio da estrada, à entrada do Colombo. Só nos lembrámos 20 minutos depoisPosto isto, sim, fomo-nos apercebendo que havia muito mais do que os loops de 7 segundos e a bateria.", acerca da origem do nome Memória de Peixe.

BandCom (BC): Ok, está certo: todos sabemos que está relacionado com a curta duração dos loops e que foi um nome criado pelo Miguel Nicolau. Mas há alguma coisa que não sabemos e que devemos saber acerca da origem do nome dos Memória de Peixe? Comem assim tanto queijo?

Memória de Peixe (MP): Demos um concerto na FNAC do Colombo no ano passado e ao descarregar o material ficou a guitarra no meio da estrada, à entrada do Colombo. Só nos lembrámos 20 minutos depois. Quando chegámos novamente ao sítio, apercebemo-nos que a guitarra já não estava lá. Mais, tinha sido retirada pela Polícia e chegámos antes de eles chamarem a brigada de minas e armadilhas, por não ser um estojo com o formato normal e eles terem achado aquela caixa muito estranha. Posto isto, sim, fomo-nos apercebendo que havia muito mais do que os loops de 7 segundos e a bateria.

BC: A história dos Memória de Peixe é curiosa… Inicialmente, o projecto começou por ser apenas “one man band” constituído pelo Miguel, que ia servindo-se da guitarra e interligando carradas de loops. Só depois apareceu o Nuno. Como foi a transição e a introdução de uma bateria? Foi um processo complicado ou foi uma coisa que fluiu naturalmente?


MP: Na verdade, não foi difícil a transição até porque na fase inicial estava tudo em aberto e já nos conhecíamos e sabíamos que mais cedo ou mais tarde teríamos que ter um projecto nosso. O que demorou foi a procura de uma fórmula para as músicas resultarem utilizando a técnica dos loops sem que a mesma condicionasse excessivamente as canções e digamos que nesse ponto a bateria ajudou a criar respiração e a dar novas abordagens rítmicas a algo estático, que depende sempre de elementos externos, como outras guitarras e baterias para se transfigurar – o loop. 

BC: No vosso primeiro disco, o homónimo lançado no ano passado, trabalharam com algumas pessoas ilustres do panorama musical alternativo português actual como, por exemplo, a Da Chick ou a Catarina Salinas, dos Best Youth. Essas colaborações foram difíceis de gravar ou as meninas portaram-se bem? Existe alguém com quem gostassem de trabalhar num futuro próximo?

MP: As meninas portaram-se extremamente bem e o processo foi muito rápido. Gostamos muito do timbre e das melodias e admiramos o trabalho delas, independentemente das suas diferenças. Enquanto compusemos as canções tentámos servir a identidade delas e ao mesmo tempo ir de encontro ao que pretendíamos. Da mesma forma que poder ter uma música com o Carlos Bica foi um enorme prazer. No futuro, estamos a idealizar/preparar já alguns temas que poderão responder à última parte da pergunta, mas até agora não está incluída nenhuma voz na equação.


"O que tem acontecido com o disco tem sido muito bom e estimulante, o facto de as pessoas gostarem dá-nos mais vontade e cria mais exigência. Acreditamos nas melodias, na harmonia, no ritmo."


BC: Quando compõem e delineiam o esqueleto sonoro das vossas músicas, em que é que pensam primeiro? É o Miguel que trata dos loops e que os experimenta e só depois é que o Nuno os reveste com a bateria ou é uma coisa que surge naturalmente da vossa experimentação e improvisação? E quem escreve as letras das vossas músicas (risos)?


MP: Depende das músicas, já existiram temas que nasceram de improvisações, experimentações e erros. Noutras situações existe uma ideia prévia de guitarra e desenvolvemos em conjunto. Gostamos de dedicar bastante tempo à composição, o que não invalida que uma ideia que nasça no momento fique para sempre numa música. Não temos um processo fechado, e adaptamo-lo à música. Acreditamos que existe muita coisa que queremos explorar no loop e na interacção de uma guitarra e bateria. Quanto às letras, a “Fish&Chick” foi a a Da Chick que a escreveu e a “Walkabout” foi escrita por nós.

BC: Houve uma reacção extremamente positiva em relação ao vosso disco de estreia, quer por parte da crítica (sendo escolhido por imensos sites e blogues musicais como um dos melhores discos nacionais de 2012) quer por parte do público. Estavam à espera que, pelo facto do vosso disco ser maioritariamente desprovido de voz, o disco chegasse a tanta gente? É um estilo que pretendem manter? Quais as vossas malhas favoritas do disco? Vá, falem-me da Indie Anna Jones, vá…

MP: O que tem acontecido com o disco, ainda por cima o primeiro registo, tem sido muito bom e muito estimulante. Só podemos ficar orgulhosos e gratos com as reacções. O facto de as pessoas gostarem dá-nos mais vontade e cria mais exigência, estamos sempre a pensar no que fazer a seguir e com ideias para desenvolver e explorar, como qualquer outra banda. Acreditamos nas melodias, na harmonia, no ritmo; tentamos apenas fazer música e música que nos agrade. A música instrumental irá manter-se como alicerce do projecto, não invalidando eventuais participações no futuro de outros instrumentos ou de uma voz.

Com os concertos complementa-se o trabalho que está apresentado no disco e dessa forma solidifica-se a parte ao vivo. A “Indie Anna Jones” é sem dúvida uma malha que gostamos e deu-nos muito gozo gravá-la (mesmo a parte dos assobios, que ninguém conseguia assobiar sem salpicar o microfone). Claro que quando fazemos um disco, o ideal é que não colocar nenhuma música que não gostes no disco, mas em termos de favoritismo é melhor não dar nenhum destaque, senão alguma pode ficar com ciúmes e não resultar tão bem ao vivo. 

BC: O vosso disco é bastante diferente entre si, mas ao vivo acaba por nem se notar tanto essa disparidade. Sentem essa necessidade de ao vivo serem mais coesos, sonoramente falando, ou isso é uma coisa que surge naturalmente e consoante o público?

MP: É algo que também está relacionado com o processo mais controlado que a gravação do disco envolveu, uma preocupação mais acentuada em separar as linhas e diferentes camadas melódicas, que podem por vezes ficar caóticas, mas que também foram um desafio para o Nuno Monteiro, a quem devemos muito. Ao vivo é tudo mais poderoso e temos momentos diferentes no concerto; uns mais fieis ao disco – as melodias ou ritmos que têm de ser reconhecidos que caracterizam certos temas - e os momentos em que temos mais liberdade de fugir para sítios diferentes do disco e por vezes improvisados. Algo que procuramos manter, que pode influenciar por vezes certos momentos do concerto e criar novos momentos para nós e para quem nos esteja a ouvir, tentando assim manter o concerto o mais dinâmico possível.

Memória de Peixe a actuar no Festival Novos Talentos FNAC

"Há sempre muita música que nos influencia, mas serão sempre pedaços de algo, fragmentos de muitas ideias diferentes."

BC: Conheço muita gente que vos viu no Festival Milhões de Festa’12 e que disse que o vosso concerto foi um dos momentos altos do festival. Ainda se lembram dessa passagem por Barcelos? Foi assim tão especial?

MP: Não há memória de peixe que nos valha a momentos destes. Para nós é sem dúvida algo que guardamos. Tivemos a sorte de estar tanta gente receptiva e naquele ambiente absolutamente fantástico e próximo que só o Milhões consegue proporcionar. Estávamos bastante nervosos no início, estava muita gente e ainda por cima depois do fantástico concerto dos grandes Riding Pânico que tivemos o privilégio de assistir também. Quando entrámos em palco entregamo-nos por completo e acabámos por ser surpreendidos com a incrível receptividade. A relembrar. Sem dúvida!

BC: Muitos dizem que vossa música é do mais original que se pode encontrar por cá, o que concordo inteiramente. Quais são as vossas grandes influências musicais? E a nível da guitarra, quais os guitarristas que mais te influenciam, Miguel? E se ainda tivessem de rotular o vosso estilo musical, como o rotulavam?

MP: Só podemos agradecer. Talvez sejamos influenciados neste projecto por influências indie/rock interligado com jazz e música improvisada, o groove e a música electrónica. Há uma procura também mútua de ritmos, devido ao facto de nós os dois gostarmos bastante de bateria. Há sempre muita música que nos influencia, mas serão sempre pedaços de algo, fragmentos de muitas ideias diferentes. Há tanta fonte onde beber que essa é sempre uma procura constante, interligada com o facto de se conhecer bandas e música diferente o mais possível.

Depende mesmo muito, mas não tenho nem nunca tive posters de nenhum em casa (risos). Depende imenso das alturas, mas ultimamente tenho ouvido Hilmar Jennson nos TYFT, Ben Monder, Nels Cline, Jeff Parker, o disco do Steve Reich com o Pat Metheny, Manuel Gottshing... Recentemente, em termos de guitarristas é por onde tenho andado. Se tivéssemos de rotular o nosso estilo musical em regime freestyle da parvoíce, diríamos um indieprovisation.



BC: Vão acutar, dentro de alguns dias, no Optimus Primavera Sound 2013, a decorrer no Porto. Qual foi a vossa reacção quando surgiu o convite para actuarem no festival? E quais são as bandas do cartaz que mais apreciam e que não irão perder por nada?

MP: A nossa reacção foi a natural felicidade por poder participar num festival que já admirávamos bastante de Barcelona pela sua programação. O facto de podermos estar na segunda edição do festival em Portugal a actuar é difícil de explicar, mas ficámos mesmo muito contentes. As bandas do cartaz passam por My Bloody Valentine, Grizzly Bear, Do Make Say Think, Explosions in The Sky, Deerhunter, Dan Deacon e por aí fora. Vamos espreitar também os concertos portugueses claro.

BC: A rádio sempre foi um catalisar fulcral na divulgação de novas bandas e projectos portugueses. Por exemplo, a Antena 3 “patrocinou” alguns dos vossos videoclips, como Fishtank, Estrela Morena e o mais recente, 7/4. Julgam que a rádio mantém a importância de outrora no processo de divulgar e projectar a música portuguesa?

MP: A rádio continua a representar um papel fundamental, pela divulgação cada vez mais abrangente daquilo que é a variedade da música portuguesa e pela qualidade de muitos programas de autor que nos levam a descobrir muitas bandas quer nacionais quer internacionais que nos surpreendem e que nem sabíamos muitas vezes que existiam. No caso da Antena3, só podemos estar gratos com a divulgação que temos tido, independentemente de sermos uma banda que tenha voz ou não, mas existem mais casos de rádios portuguesas que fazem na nossa perspectiva um grande trabalho e já de longa data.

BC: Tempo para algumas perguntas aleatórias feitas por conhecidos e amigos meus. “Para quando uma cover de The Smiths?”, AR. “Qual a vossa parte favorita do sermão de Santo António aos Peixes?”, BF. “O que acham do governo?”, NS. “São portistas?”, LS. “O que acham de Black Bombaim?”, FG. Querem responder a alguma delas?

MP: "Qual a vossa parte favorita do sermão de Santo António aos Peixes?”, BF.  + “O que acham do governo?”, NS. “A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, menos mal.” - Talvez esta passagem seja eleita porque continua a ser actual e diz-nos muito hoje em dia. Com esta citação aproveitamos e respondemos também ao que achamos do governo.

São portistas?”, LS. Não somos portistas, mas dos portuenses somos fãs.

O que acham de Black Bombaim?”, FG. Admiramos os Black Bombaim e a sua consistência artística. Todas as bandas da L&L contribuem para o orgulho que temos em pertencer a esta família.

Para quando uma cover de The Smiths?”, AR. Quanto à pergunta do grande AR, que ele já nos perguntou 50 vezes, e nós dissemos sempre que não sabíamos, se falhar a Loopstation, ligamos o jack ao Amílcar, que ele tem mostrado que é bom nos loops. Badum tss. 

BC: Ok, voltamos novamente às perguntas minimamente decentes. São de Caldas da Rainha. A Lovers & Lollypops é de Barcelos. Como é que a Lovers teve conhecimento de vocês? Como se deu a ligação?

MP: Já o dissemos e voltamos a dizer que sempre achámos que presentemente a Lovers é a nossa SubPop em Portugal, devido à variedade de estilos, à liberdade criativa e a união de tudo isso numa estética e num trabalho muito próprio, que já vem sendo cada vez mais reconhecido, quer pelas edições, quer pelo trabalho que desenvolve no festival Milhões de Festa. Tínhamos curiosidade e vontade em saber se a L&L estaria interessada em colaborar no futuro e enviamos umas maquetes. Ouvimos falar que eles eram uns porreiros e confirmou-se quando nos conhecemos pessoalmente. E a verdade é que eles para além disso nos proporcionaram muita confiança desde o inicio e a partir daí tudo o resto foi surgindo naturalmente. Mesmo sendo uma das bandas mais distantes geograficamente, nunca nos sentimos longe.

BC: Se vos pedisse para fazer uma abordagem pequena à actualidade da música nacional, que abordagem fariam?

MP: Estão a surgir cada vez mais bandas que gostamos e que já estão num nível fantástico. A actualidade da música nacional – pelo menos a que nós seguimos - está cada vez mais variada, interessante e surpreendente. Têm surgido imensos projectos novos bastante bons, outros que se consagram e alicerçam-se como sendo inevitáveis e a verdade é que está a ser estimulante seguir o que se passa. A exigência está cada vez maior e a originalidade também. Só pode continuar a ser melhor e a crescer, assim o esperamos.

BC: Por fim, quando é que vamos ter novamente notícias vossas? Já pensam num novo disco?

MP: Sim, já começámos a compor. Mas ainda não há datas no horizonte para os próximos tempos.


Entretanto, o novo videoclip dos Memória de Peixe, para 7/4, foi já divulgado durante a manhã de hoje. Para ver aqui em baixo.


Emanuel Graça 




quarta-feira, 27 de março de 2013

TALKFEST'13 - REPORTAGEM

Música enquanto agente económico? Este conceito é quase um corpo estranho para a maioria dos ouvintes de música em Portugal que, e bem, estão mais preocupados em desfrutar do que de bom se faz por cá que na sua viabilidade económica. Eis que aparece o Talkfest, que se propõe a preencher esse buraco na reflexão sobre o futuro da música enquanto negócio e enquanto braço armado do turismo, nomeadamente no que aos festivais de verão diz respeito. O Talkfest é um ciclo de conferências que, já na 2ª edição, contou com um painel de distintos oradores como Álvaro Covões, patrão da Everything is New, Tozé Brito, administrador da SPA, músico e autor, Jorge Romão (GNR) e Zé Pedro (bem, nem vou ter o desplante de vos tentar apresentar o Zé Pedro). Mas nós, gente atenta à música nacional mas sobretudo audiófilos assumidos, demos, como seria de esperar, maior relevo à música tocada. Já que mais não seja pelo facto de a música falada não ser a nossa praia (desculpem rappers deste mundo). Assim sendo, saltamos directamente do ISEG, local das conferências, para a Aula Magna, sala de espetáculos emblemática lisboeta onde tiveram lugar os concertos.




6 de Março

A edição de 2013 do Talkfest abriu em grande estilo com os Capitão Fausto, uma das bandas em alta rotação na cena musical deste Portugal e que deu mais uma prova de vitalidade. Uma sala composta (numa 4ª à noite!) demonstrou mais uma vez a lufada de ar fresco que estes rapazes são no roque nacional. Apesar de o alinhamento ter sido muito semelhante aos vários concertos que já vimos da banda, não cansa, de facto, ouvir grandes malhas como Sobremesa ou Santa Ana. Não cansa ver o Salvador Seabra a tocar como se não houvesse amanhã e a brindar a Aula Magna com um soberbo solo de bateria. Não cansa correr atrás da gazela, tentativa inglória, que ela é rápida demais para o nosso passo pacato. É que isto de andar a ouvir Zambujos e Vitorinos, Faustos e Úrias e apanhar com tamanha descarga eléctrica sempre que nos aventuramos pela savana onde mora a gazela psicadélica faz-nos suar de alegria por haver uma banda assim em Portugal. Gostávamos que tivessem deixado cair mais o pano do segundo álbum de originais que aí vem? Claro. As poucas músicas novas que apresentaram não conseguiram empolgar como os grandes sucessos do disco de estreia? Não, o que é naturalíssimo visto não lhes conhecermos o miolo. Foi um grande concerto. Como todos os outros da banda? Sem dúvida. E, claro, há sempre a Teresa para fazer sobressaltar as hostes.






E a cama estava feita para os Salto, que mostraram logo ao que vinham empunhando a sua pope dançante e acentuando a sua identidade tripeiro-descontraída (“Olá, nós somos do Porto, c******!”).

Esta banda do catálogo da Amor Fúria é também ela um caso sério. Execução a roçar o irrepreensível, linguagem acessível e música construída numa lógica pop que navega entre a electrónica a gritar pelas pistas de dança e o roque alternativo a que tão bem queremos. Causaram muito boa impressão e acabaram com uma Aula Magna rendida à energia de canções como Deixar Cair, Por Ti Demais ou Sem 100, onde o groove da voz de Guilherme Tomé Ribeiro marcou pontos.





7 de Março

O segundo dia do Talkfest´13 começou também com uma banda portuense, desta feita os doismileoito. Conseguiram certamente pôr toda a gente a bater o pé, pois ofereceram um concerto de bom nível, com um alinhamento constituído maioritariamente por canções do seu álbum, intitulado Pés Frios. E foi precisamente quando se ouviu Quinta-feira, single radiofónico desse mesmo disco (e que goza de maior aceitação por parte de um espectro mais alargado de ouvintes) que as tropas se animaram e levantaram o rabo das confortáveis poltronas da Aula Magna (sim, acho que lhe podemos chamar poltronas). Estava lançada a festa com o pope-roque directo e cantável dos doismileoito e era altura de nos preparamos para o punk também, diga-se, pintado em tons pop de uns certos rapazes de Queluz.




  
A dicotomia estar-sentado-porque-estou-na-Aula-Magna versus estar-de-pé-porque-estou-num-concerto-de-roque foi omnipresente no Talkfest, mas Jónatas Pires d’Os Pontos Negros tratou rapidamente do assunto. “É uma vergonha estarem aí sentados. Todos de pé, é uma ordem!”, gritou o guitarrista e vocalista. Grande parte do público respondeu e estavam criadas as condições para um concerto que revisitou os êxitos da já mui respeitável discografia da banda sem nunca esquecer o mais recente álbum de originais gravado em Abbey Road, Soba Lobi. Canções como Conto de Fadas de Sintra a Lisboa, Magnífico Material Inútil, Rei Bã e Tudo Floresce (só para citar as mais conhecidas) trataram de encher a barriga a quem se deslocou à Aula Magna. Houve ainda espaço para Pedro da Tróia (Capitães da Areia) irromper palco dentro para uma feliz versão de Supersticioso, dos Heróis do Mar e para se ouvir 1991, dos Feromona, cantado pelo próprio Diego Armés e, imagine-se, com grande parte da banda em palco. Por volta da uma da manhã, com o encerramento do metro, a assistência diminui significativamente, para níveis que uma banda com a história d’Os Pontos Negros não merece. Nós aguentámos por amor ao rock, aplaudimos com todas as forças – e fomos a pé para casa.




8 de Março

Os Ciclo Preparatório podem ter uma palavra importante a dizer no futuro da pop nacional. Prova disso é a força que o seu single Lena Del Rey já ganhou, com várias semanas seguidas a dominar o top da Antena 3. No dia 8 de Março pudemos ouvir as canções do seu álbum de estreia que, ao que consta, sairá já no próximo mês de Abril. Transpareceu algum nervosismo, natural, e a banda não conseguiu levantar a maioria dos presentes (mas não será injusto se culparmos o facto das cadeiras serem verdadeiramente de um conforto digno de um sultão das Índias). Distribuíram-se flores pelas senhoras da sala, que fica sempre bem. Deste concerto dos Ciclo Preparatório ficaram as canções, que são boas, e que fazem antecipar um álbum bem-sucedido. 






Quem também não conseguiu ganhar a batalha contra as cadeiras da Aula Magna foram os Cavaliers of Fun, apesar de toda a energia colocada em palco. A banda composta pelo ex-Loto Ricardo Coelho e pelo mentor dos Memória de Peixe, Miguel Nicolau, apresentou, no entanto, uma pop saudável que respira energia e electrónica como um relâmpago daqueles que fazem os putos esconderem-se debaixo das saias das mães. Pop dançável.

Findos que estavam estes dois concertos inaugurais, chegou-nos o grande momento desta edição do Talkfest. Não tínhamos expectativas demasiado altas. Confesso-vos, com alguma vergonha, que não sou (não era) grande fã dos PAUS. Da primeira vez que os vi ao vivo, ainda sem conhecer versões de estúdio, estranhei o som difuso e o pitoresco do cenário. Amaldiçoo o meu conservadorismo, porque no dia 9 de Março descobri uma banda que mudou a minha forma de ouvir música. O que antes parecia uma exibição frugal de técnica por parte da bateria siamesa, mas principalmente do enorme Hélio Morais, afigurou-se-me uma massa sonora que faz sentido, e faz o sentido que lhe quisermos dar. Mas dúvidas de que é brutal, arrebatadora e tudo mais? Não as há, agora.






E quando vejo uma Aula Magna cheia como não se viu noutro concerto do Talkfest´13 percebo a palermice da minha reserva quanto aos PAUS. Assistia-se à consagração de uma grande banda, num grande palco. Quim Albergaria atirou: "Hoje é um bom dia para engravidar" (!). Acrescenta: "para dizerem ao vosso filho que foi feito no dia de um concerto muito especial: no dia em que os PAUS tocaram pela primeira vez na Aula Magna!". Foi de facto um enorme concerto, que foi também especial por ser o primeiro e talvez o único em quinteto - com o novo membro Fábio Jevelim.

E a festa acabou com a já tradicional invasão de palco com um público sedento de ouvir o disco homónimo e também os dois EP´s da banda (“É Uma Água” e “Estamos Juntos”) com a força acrescentada que a interpretação ao vivo lhes dá. Mais gente no palco que na plateia e, só por aquele momento, valeria a pena fazer-se mil edições do Talkfest. E as poltronas, essas, estavam vazias.




Bernardo Branco Gonçalves
Fotografias por Constança Quinteiro




domingo, 12 de agosto de 2012

Memória de Peixe - Memória de Peixe (2012)



Depois de construírem à sua volta uma grande expectativa, os Memória de Peixe lançaram finalmente este ano o seu disco de estreia, tendo como convidados especiais Catarina Salinas (Best Youth), Da Chick e Carlos Bica.



Miguel Nicolau e Nuno Oliveira são o duo por detrás deste projecto que reuniu 9 canções baseadas em fórmulas de construção e composição já experimentadas mas que ainda hoje em dia, quer em recantos mais pop ou mais rock, continuam a ser responsáveis por alguma música saudavelmente desprendida de um aparente destino final.
Os temas deste disco, por via da criação e recriação de vários loops em tempo real, são sempre resultado da estruturação de diversas camadas improvisadas. O desequilíbrio escaldante de tudo isto está na alma inata (power-)pop de todo o disco, sem esquecer o intrínseco math-rock. Como se o esquecimento fosse uma função matemática, a vivacidade e o tropicalismo catchy chegam também em camadas, em vagas como em "Dayjob" e em "Fish n' Chick", em marés como em "Estrela Morena" e "Fishtank" que têm demais força de puras e descontraídas canções. 




Todos os 9 temas criam algum tipo de impressão: há certamente quem ache aqui alguma espécie de guitarras, assobios, vozes e ritmos aos quadradinhos, também haverá quem aqui encontre por várias vezes a anarquia da simplicidade charmosa, corrente, capaz de despoletar emoções recompensadoras que se atiram com graça a recordações vãs e inconsequentes e se ajustam à sua própria procura libertária de sobrevivência e relevância, características quase sempre necessárias para que cada passo intermédio num tema não seja em si analisado como um fim, aí completamente previsível e imaturo.


De que se lembra um peixe? Talvez que para respirar, também vai engolir água. Os Memória de Peixe são a resposta a pensar nesse tempo seguinte, aquilo que se procura quando se ouve cada vez mais música.



André Gomes de Abreu




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