Mostrar mensagens com a etiqueta Festival Bons Sons. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Festival Bons Sons. Mostrar todas as mensagens

domingo, 10 de agosto de 2014

FESTIVAL BONS SONS 2014: DA ORGANIZAÇÃO À REALIZAÇÃO

No ano passado a estreia do FUSING Culture Experience, este ano a edição de balanço do festival BONS SONS. Desde 2006 que a aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar, se fecha sobre si mesma e abre portas aos festivaleiros que procuram, tanto como música de qualidade, a genuinidade da música que surge a cada momento, em qualquer lugar, como já não se pensava ser possível.
Em 4 dias de avaliação do futuro, do festival e da música portuguesa que 55 nomes representarão de 14 a 17 de Agosto, a evolução, os destaques e o impacto de um festival que se nacionalizou a partir de uma aldeia que com ele beneficia no antes, durante e depois são questões para Luís Ferreira, director artístico do festival, responder.





BandCom (BC): Até chegarmos à edição deste ano, o Festival BONS SONS passou por algumas transformações e redimensionou-se à escala de um festival de impacto nacional. De que forma estas alterações impactam a aldeia de Cem Soldos e também o espírito deste festival?

Luís Ferreira (LF): Até ao momento o impacto tem sido positivo. Temos conseguido chegar ao nosso público. A todos aqueles que gostam de música e valorizam a aldeia. Desde o início que nos consideramos uma plataforma de divulgação da música portuguesa e é nesse sentido que queremos continuar a trabalhar. O crescimento mediatico é um resultado desse trabalho e todos saímos beneficiados. Os olhares nacionais tornam-nos também mais exigentes com o nosso trabalho. Com a diversidade e qualidade da actual oferta musical nacional o BONS SONS não tinha outra hipótese senão crescer.


BC: Ao contrário de outros festivais de Verão, o BONS SONS surge integrado no plano de actividades de uma associação local. Ou seja, é um festival feito por quem é de Cem Soldos em Cem Soldos. Além disto, há três palcos no festival que continuam a beber o seu nome de figuras marcantes da história da música portuguesa – Palco Lopes Graça, Palco Giacometti, Palco Aguardela – e continua a haver um espaço para A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria e agora para os Prémios Megafone que se
preocupam com quem lida de uma forma original com o que é tradicional. É por aqui,
pelo apego às raízes e às pequenas homenagens à História, que poderá passar o que
vos distinga de outros festivais?

LF: Esse é um dos olhares do festival mas não é o único. Valorizamos a identidade e o legado cultural, tanto colectivo como individual. É esse o reconhecimento que queremos fazer com as homenagens a este três visionários que dedicaram o seu trabalho ao estudo das tradições para as poderem transportar para actualidade de cada um. Não vivemos da cristalização do passado mas queremos trabalhar numa vanguarda e num presente que dá pistas de futuro. O futuro não se consigna à construção de prédios espelhados nas grandes cidades. Também o espaço rural evolui e não está condicionado apenas aos queijos e enchidos. É neste lado mais orgânico e ambíguo que queremos trabalhar. Uma espécie de futuro evolutivo que vive das referências do passado e as transporta para o futuro. Um presente atento aos novos estímulos e que os abraça sem recorrer a rótulos e a definições segregadoras.


BC: No mesmo fim-de-semana do Festival BONS SONS 2014 haverá, pelo menos, 3 outros cartazes, 3 outros festivais de impacto nacional destinados a públicos semelhantes e também com uma forte aposta na música nacional. Como comentam este facto? É uma situação que por vós deverá/poderá ser alterada?

LF: Este fenómeno mostra que, em 2006, estávamos certos. Certos que a música nacional iria criar o seu espaço e que haveria público para um festival de música portuguesa. Agora, após uma longa caminhada, há espaço para muitos mais. Estamos a fechar o primeiro ciclo de 5 edições. Após esta edição, que esperamos que corra bem, iremos repensar o nosso modelo. O nosso modelo nunca foi confortável até pela grande diferença face aos outros festivais. O BONS SONS nasce da vontade e mobilização de toda uma Aldeia na divulgação da música portuguesa e da nova ruralidade, sem intervenção de uma produtora, focada na obtenção de lucro. Entre cada edição colocámos sempre novos desafios e quisemos levar o espírito desta Aldeia a todos. Neste momento, vivemos a moda dos festivais e, dentro de pouco tempo, apenas ficarão os que têm realmente efeitos e que não vivem apenas de modas. A palavra "Festival" é demasiado lata e abarca muitos eventos que nada têm a ver uns com os outros, tanto nos seus objectivos como na sua oferta.


BC: Não se repetem nomes de 5 em 5 anos, não se realiza um festival de ano a ano mas sim a cada dois anos. São princípios de que continuarão a não abdicar?

LF: Essa será uma reflexão que vamos fazer após esta edição. Dois anos pareceu-nos um intervalo razoável para minimizar o impacto na Aldeia que queremos partilhar e também para nos dedicarmos a outros projectos de desenvolvimento local. Os únicos dogmas do BONS SONS são a promoção da música e cultura portuguesa e a vivência da aldeia de Cem Soldos. Todos os outros modelos são mutáveis caso nos faça sentido.





BC: O cartaz do BONS SONS 2014 foi conhecido na sua totalidade mesmo antes de terminar o período para compra de entradas a preço reduzido. É mais fácil atrair público sabendo este já totalmente ao que vem?

LF: Muitos são aqueles que já vêm ao BONS SONS pelo seu conceito e pela coerência da sua programação. Contudo, gostamos que estejam alinhados com o programa. Queremos continuar a ser um festival para quem gosta e valoriza a música. Além de organizadores de um Festival especial, de nos partilharmos entre ambientes rurais e urbanos, também somos consumidores de música e de outros Festivais.  Assim, também pensamos o festival com todas as características que gostaríamos de sempre ter. É este profissionalismo e compromisso com o público que depois amplifica a vivência da aldeia.


BC: A 2a edição dos Prémios Megafone, um Palco Rua com destaque para a originalidade e o festival Walk&Talk integram também este ano o Bons Sons. Quais as vossas expectativas para estas novidades? Serão para continuar?

LF: Acreditamos que são para continuar. Os Prémios Megafone estão completamente ajustados aos nossos objectivos e gostávamos de perpetuar esta parceria. Estamos certos que todas as restantes novidades são para continuar.


BC: Este ano apostaram também na realização de duas acções de lançamento, uma em Lisboa, outra no Porto, e ainda uma noite no Musicbox dedicada ao festival. Qual o balanço destes eventos?

LF: O balanço é positivo. Com estas acções pretendemos relembrar que é ano de BONS SONS e tentar chegar a outros públicos. Queremos que o Festival seja também o propósito para o debate de ideias em torno do desenvolvimento da Música Portuguesa, da indústria musical e a perspectiva sobre os vários públicos.  Por sermos um festival bienal queremos promover atempadamente um maior envolvimento das pessoas na reflexão destes aspectos. Assim também conseguimos colocar o festival nas agendas de todos com estas multiplicações e prequelas de aquecimento para o BONS SONS.


BC: Tal como a música portuguesa, o cartaz do Bons Sons 2014 também já chega
além-fronteiras? Já têm dados que vos permitam confirmar a presença de público
estrangeiro no festival?

LF: Sim, embora de uma forma tímida. Nas edições anteriores tivemos alguns países convidados (Brasil, Cabo Verde e Espanha) que abriram o festival ao mundo e criaram alguma visibilidade nos media internacionais. Sabemos de antemão que vários grupos internacionais estão a organizar-se para vir ao BONS SONS. Contudo, ainda investimos pouco nesse sentido. Será, sem dúvida, um dos grandes objectivos das próximas 5 edições.


BC: Para terminar, quais serão os outros pontos de interesse do festival e não só que também merecem destaque?

LF: Gostamos de trabalhar em parceria e em cada edição aumentamos a nossa rede. Nesta edição as actividades paralelas são resultado de várias parcerias, como os passeios de burro (AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino), os projectos de arte urbana (Walk&Talk - festival de arte urbana), os concertos na igreja (MPAGDP - Música Portuguesa a Gostar dela Própria), a Noite Prémios Megafone (Associação Megafone), as sessões de curtas metragens (Curtas em Flagrante) e a música para crianças (Associação Canto Firme). Acreditamos que estas actividades fortalecem o programa do BONS SONS e amplificam a descoberta de Cem Soldos. Sendo o BONS SONS um evento cultural queremos que o seu programa seja mais vasto e para isso trabalhamos com quem já está do terreno e o faz muito bem.


BC: Já se pensa na próxima edição e na comemoração dos 10 anos desde a primeira edição do festival?

LF: Sim, estamos apenas à espera do sucesso desta edição para confirmarmos a nossa perspectiva para o futuro do BONS SONS. O festival é "apenas" um dos projectos que estamos levar a bom porto, em Cem Soldos. É o nosso projecto embaixador e o elemento agregador de toda a acção da associação.





André Gomes de Abreu




terça-feira, 28 de agosto de 2012

FESTIVAL BONS SONS 2012 - REPORTAGEM


A cada dois anos, Cem Soldos abre portas e recebe o Festival Bons Sons. Um festival sem fins lucrativos que tem marcado posição ao longo das últimas edições como um exemplo a seguir na divulgação da música portuguesa. Como não podia deixar de ser, o BandCom esteve presente nesta edição de 2012. E vimos esta aldeia perto de Tomar cheia de vida, a fervilhar de actividade. Vimos um ambiente de partilha entre habitantes e festivaleiros que faz jus ao mote que anuncia o festival: “Venha Viver a Aldeia”. Mas vimos sobretudo música, muita e boa música portuguesa. Os concertos, tanto de nomes consagrados como de jovens promessas, foram distribuídos por palcos espalhados pela aldeia. Houve ainda teatro e vídeos projectados no Auditório de Cem Soldos. Houve uma feira de marroquinarias, exposições, vendas de artigos dos artistas participantes, campismo (como se quer) e a sempre necessária comida e bebida. Houve Cultura com a marca nacional. E, pasmem-se os organizadores dos grandes festivais, plateias completamente cheias para ouvir música portuguesa!




16 de Agosto

O Festival arrancou com Nuno Prata no Palco Giacometti. O baixista dos agora retornados Ornatos Violeta, que brilharam em Paredes de Coura, apresentou ao público o seu novo álbum “Deve Haver” e abriu a edição de 2012 do Bons Sons com a canção “Um Dia Não São Dias Não”. Foi um concerto transparente e agradável com as canções a serem tocadas despidas de arranjos, ora à guitarra, ora ao ukelele. Pena foi a visível falta de público neste primeiro concerto (muitos chegavam ainda à aldeia, ou aproveitavam para montar as tendas). A romaria seguiu em grande estilo com os Capitão Fausto no Palco Eira. A banda de “Teresa” montou autenticamente a festa, perante um público conhecedor e em bom número. Uma banda que pode dar muito ao roque nacional (prepara já um novo disco) e que, temos que dizê-lo em bom português, toca tanto que até dói.
E eis que voltamos ao Palco Giacometti com Filho da Mãe. Mais um concerto estrondoso - o guitarrista acabou a ser aplaudido de pé (neste palco a norma é o público estar sentado, a aproveitar a sombra) pelos presentes que se renderam à sua técnica superior e presença em palco. Logo a seguir, uma das surpresas deste primeiro dia: os Lousy Guru. Os Lousy Guru destacam-se pelas harmonias vocais e pela panóplia de influências surpreendentemente distintas, que, diga-se, acaba por fazer com que a banda não tenha um som bem definido. O ambiente esteve morno a início, mas incendiou na recta final, tendo esta formação oriunda de Lisboa posto parte significativa da plateia a dançar descontroladamente.
Enquanto no Auditório de Cem Soldos era apresentada a produção teatral “See You Later Aligator”, assistimos ao concerto da formação espanhola El Náan, que abriu o maior palco do recinto, o Palco Lopes-Graça. Espanha foi o país convidado desta edição e este concerto esteve inserido precisamente nessa participação espanhola. A banda, que partiu das raízes da canção castelhana para montar um espectáculo de criação vanguardista, fez uso da vídeo-arte e da sua boa disposição em palco para manter o interesse do público. À nossa frente ouvimos gritar: “Boa Hermanos!”, mais um exemplo da boa aceitação deste concerto. No mesmo espaço pudemos ouvir A Naifa que, com uma nova formação e um novo disco no bolso (“Não se deitam comigo corações obedientes”), apresentou um espéctáculo em que o Fado marcou presença: a Guitarra Portuguesa e a boa voz de Maria Antónia Mendes ecoaram por Cem Soldos. A toada algo melancólica poderá não ter entusiasmado muitos dos mais novos, mas tratou-se de uma clara tentativa de atrair um público mais abrangente, de diferentes faixas etárias.
Posteriormente, o Palco Lopes-Graça transformou-se em Palco Noites Longas e deu lugar a uma fusão inesperada entre electrónica e rimos étnicos e tribais com Yechidah, que resultou num ambiente exótico e desinibido.



17 de Agosto

A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria é um projecto arquitectado pelo realizador Tiago Pereira e que tem como principais objectivos divulgar a música portuguesa que não cabe no circuito comercial, com especial incidência sobre o tradicional. Um projecto com mais de quatrocentos vídeos que é já também ele uma referência na divulgação da música portuguesa e que caminhou de mãos dadas com o Bons Sons 2012. De facto, este segundo dia de festival começou com a projecção de vídeos da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e houve mesmo no Festival o Palco Música Portuguesa a Gostar Dela Própria (MPGDP), situado na Igreja de Cem Soldos. Era neste espaço que deveriam ter actuado às 15h os
Cosie Cherie, mas o concerto da banda foi cancelado. Assim, tivemos que esperar pelas cinco para ouvir Gala Drop no Palco Eira. Este projecto bem lançado dentro e fora de portas apresentou-nos música que cheira a África, mas cheira também a electrónica pintada de roque. Um dos momentos musicalmente mais bem conseguidos deste dia, sem dúvida.
Houve “Curtas em Flagrante” no Auditório, e
Carlos Batista no Palco MPGDP. Trata-se de um artista que consegue de forma ímpar fazer a ponte entre a canção tradicional e uma roupagem mais cuidada, revestindo-se de estética sonora mais próxima aos nossos ouvidos que a dos intérpretes a que nos habituámos na música tradicional. Muito boa aceitação do público e muitos e merecidos aplausos. Tempo para ouvir Celina da Piedade no Palco Giacometti que nos mostrou o seu disco “Em Casa”, prestes a ser lançado. Esta excelente cantora e tecnicamente evoluída acordeonista (que colabora com Rodrigo Leão, entre outros artistas) conquistou a plateia com a sua simpatia e abordagem, à semelhança de Carlos Batista, diferente da música tradicional. Subiu a palco acompanhada por violoncelo, percussão e, surpreendentemente, pelo cantor e compositor Samuel Úria, que já depois do final do concerto brindou os presentes com algumas das suas canções.
Às sete da tarde todos os caminhos iam dar ao Palco Lopes-Graça: era a vez dos
You Can't Win Charlie Brown deixarem a sua marca no Bons Sons. Um concerto para lembrar mais tarde, que fez alternar momentos de melancolia com jubilação. A alegria em palco foi nada menos que contagiante, num concerto que teve o seu ponto alto na canção “Over the Sun/ Under the Water” e que acabou com o inevitável Joaquim Albergaria (PAUS) a saltar para o palco a juntar-se à festa. Seguiu-se a vez de Abaixonado na Igreja. A irreverência e alguns aspectos interessantes nas canções que ouvimos não escondem a necessidade de polimento que foi evidente em certos momentos.
Muito do público abandonou o espaço para guardar lugar no Palco Giacometti, onde
António Zambujo mais tarde nos transportaria numa viagem pelas suas origens alentejanas, a bossa-nova, trabalhos recentes como “Guia” ou “Quinto” e, claro, o Fado. Cantou-se Vinicius de Moraes, Pedro da Silva Martins (Deolinda) e Miguel Araújo Jorge (Os Azeitonas, e com quem António Azambujo tem um projecto: “Os da Cidade”). Canções ora divertidas, ora comoventes, tocadas por Zambujo sozinho ao violão, sempre com a grande voz que é dele e que há-de ser, com certeza, uma das melhores a cantar em português. O concerto, talvez um dos grandes momentos do festival, acabou com o público a cantar “Zorro”, e o carinho do público surpreendeu o próprio Zambujo que, comovido, dizia: “A minha alma está parva!”.
Este dia 17 era um dos mais aguardados do festival pela qualidade dos artistas que marcaram presença e pela variedade de estilos distribuídos pelos diferentes palcos. De facto, depois deste concerto intimista saltámos para o roque puro e duro dos
Linda Martini no Palco Eira. Apesar de alguma falta de clareza na definição do som das linhas de guitarra, esta banda que, fizeram questão de o anunciar, comemora já dez (!) anos de carreira, levou a plateia ao delírio muito por culpa da paixão assombrosa com que toca o baterista, Hélio Morais. Um dos melhores de Portugal e a alma desta banda.
E pouco depois ouvíamos já Paulo Furtado no Palco Lopes-Graça. Uma guitarra com chama acesa, a voz a transbordar sexo, muitos blues, muito roque enrole. Senhoras e senhores foi assim, como sempre é,
The Legendary Tiger Man. Nunca deixa de parecer impressionante como um só homem em palco tira tanto som, mantem um espectáctulo com tanto andamento e põe todos a bater o pé. E como se a dose não chegasse havia ainda os PAUS para se ver e sonhar no Palco Eira. É música que não sabemos bem o que é, sabemos que é uma massa sonora de algo eletrónico e tremendamente surreal que não deixa ninguém indiferente. E claro um grande Albergaria, a puxar todos para a dança e para a vida (frente-a-frente a um Hélio Morais que, num esforço sobre-humano, dava dois concertos gigantes quase seguidos). Uma plateia a abarrotar consagrou os PAUS como uma das bandas do momento.
Para acabar um dia tão potente como este, pedia-se música e dança noite dentro. E
Batida não desapontou no Palco Noites Longas. Ritmos africanos, electrónica e celebração. E uma plateia ao rubro.




18 de Agosto

O dia começou às 15h no Palco Eira, sob um sol abrasador, com Gabriel Ferrandini e Pedro Sousa, desta feita com pouco público presente. O experimentalismo do duo de bateria e saxofone bem como o calor terão contribuído para afastar muitos naquele que terá sido, porventura, um dos momentos menos conseguidos do festival.
Logo a seguir, na Igreja (Palco MPGDP) ouvimos Joana Espadinha num registo jazz a fazer ecoar a sua excelente voz pela Igreja, acompanhada por um guitarrista com muita bossa nova nos dedos. Márcia tocava no Palco Giacometti pouco depois e fez-se valer da doçura das suas canções e da simpatia da sua presença em palco. Surpreendeu com uma participação não planeada do já citado Samuel Úria a que nem uma guitarra desafinada tirou o brilho e deliciou com canções já conhecidas do público como “Cabra-cega” e “A Pele que Há em Mim” cantada, como na versão inaugural de “Dá”, sem JP Simões.
Já às 18h, Gobi Bear deixou boa impressão na Igreja que encheu e se rendeu à qualidade da sua música.
O Auditório de Cem Soldos acolheu, neste dia 18, duas sessões de um espectáculo em que Joana Sá, de forma inventiva e experimental, explorou o som do piano. E do outro lado da aldeia, no Palco Eira, Mikado Lab impressionava e ganhava o respeito do público com música instrumental com pitadas de jazz e electrónica muito bem executada.
A Igreja acolheu pouco depois um espectáculo em que a canção tradicional ganhou vida através do teatro e em que a interacção com o público foi conseguida de forma maravilhosa. A coisa só podia acabar com os Canto Hondo a serem aplaudidos entusiasticamente pelos presentes.
Os ATMA tocavam no Palco Lopes-Graça para muito público, também eles bebendo da canção tradicional e apresentando uma formação com excelentes instrumentistas. Foi por esta altura que aconteceu um dos momentos mais inesperados do Bons Sons. No Palco Acústico, um palco criado para dar a oportunidade a criadores de música nacional de exporem os seus projectos, tocou uma banda de sopros metálicos com som de inspiração balcânica que provocou o êxtase dos que por ali passaram. Os Marko i Blaky foram venerados pelo público que se apinhou na pequena sala para os ver e mostraram que têm estofo para tocar noutros palcos de maior dimensão.
A música não parava e foi a vez d’Os Velhos subirem ao Palco Eira. Com Manuel Fúria a assistir dos bastidores, os Velhos apresentaram ao Bons Sons o seu roque cru que agradou a muitos. É, no entanto, aparente uma certa falta de desenvoltura no contacto com o público, aspecto que pode potenciar as suas canções quando tocadas ao vivo.
E aproximava-se aquele que foi talvez o grande momento do dia: Maria João e Mário Laginha no Palco Lopes-Graça. Para além das expectáveis exibições de técnica da parte de Mário Laginha que encheu a aldeia com o som do seu piano, e da qualidade da banda (contrabaixo e bateria) que acompanhou o duo, houve uma Maria João generosa e solta, de voz escorreita como sempre e que conquistou desde o primeiro minuto os presentes. Estava preparado o terreno para o DJ João Gomes que pôs todos os presentes a dançar.



19 de Agosto

Este último dia de festival arrancou com música para crianças de manhã e concertos didácticos ao meio-dia. Houve ainda tempo para uma nova projecção dos vídeos da MPGDP, antes de vermos Martim na Igreja. Este senhor, conhecido de muitos pela colaboração com B-Fachada ao baixo e contrabaixo e pela participação no programa televisivo “5 para a Meia-noite”, veio ao Bons Sons apresentar o seu novo disco “Em Banho Maria”, e tocou uma (bela) guitarra, acompanhado por baixo e por bateria (David Pires, Pontos Negros e produtor de Martim). As suas letras, divertidas, a presença, simpática. Enlaçou o público embora hajam sem dúvida aspectos a limar no seu som ao vivo. Os Passos em Volta, nascidos no seio da editora Cafetra Records, apresentaram a sua música sob o calor do Palco Eira. O som que navega entre a canção pop e o panque, tendo muito de interessante, sempre assumidamente lo-fi, tem também muito de adolescente e chega a ser manifestamente pouco maturo nalguns momentos. Mas o potencial está lá, e o público respondeu dentro do possível tendo em conta o sol que queimava. E se o houve em abundância neste Bons Sons!
E foi precisamente no Palco Tarde ao Sol que ouvimos os Viguela, a segunda formação espanhola a actuar no festival. Uma viagem pelo dia-a-dia de uma aldeia, contado através de música tradicional e com muita dança à mistura.
Houve Curtas em Flagrante no Auditório de Cem Soldos, mas a essa altura já guardávamos lugar na Igreja para ver os Birds Are Indie no Palco MPGDP. Um casal de Coimbra que toca folk bem cantado e que interagiu de forma exemplar com o público, proporcionando um concerto intimista a uma Igreja cheia que os aplaudiu entusiasticamente (“Obrigado por nos aplaudirem com mais força do que estamos habituados a ouvir”, foi a mensagem da banda).
Aldina Duarte apresentou o seu novo disco “Conto de Fados” no Palco Giacometti. Fado tradicional, do bom, que toca no coração de qualquer português. Como tal, um concerto com uma boa aceitação.
Dirigimo-nos depois para o Auditório de cem Soldos para assistir ao filme do realizador Tiago Pereira “Não me Importava de Morrer se Houvessem Guitarras no Céu”, um documentário sobre a Chamarrita, dança tradicional dos Açores. Infelizmente não conseguimos assistir ao concerto de Rafael Carvalho na Igreja pois dificuldades técnicas com o projector atrasaram o final do documentário. Ouvimos, no entanto, Xícara no Palco Lopes-Graça num espectáculo em que a música tradicional portuguesa voltou a ter destaque. Uma boa voz, bons instrumentistas e boa poesia portuguesa. A aceitação do público era expectável e foi visível.
Os Pé na Terra encheram depois o Palco Eira. Instrumentos como gaita-de-foles, acordeão e percussão à antiga ajudam a explicar o som desta banda que assenta, como foi norma neste dia, na música tradicional portuguesa e que deu uma grande festa com a plateia cheia e a saltar. Tempo para Vitorino subir a palco. Este senhor da música portuguesa chegou-nos acompanhado por uma banda sublime e levou o público (não tanto como noutros momentos do festival no Palco Lopes-Graça – muito dos festivaleiros abandonavam já o recinto – mas ainda em bom número) a cantar em coro músicas como “Queda do Império” e, claro, “Menina Estás à Janela”. Nem as recentes e corrosivas declarações do cantor alentejano (“Um português fica tristemente ridículo quando canta em inglês”) lhe retiraram a simpatia do público e a admiração por um dos nomes maiores da antologia da canção portuguesa.
Por fim, o DJ Bento 17 encerrou o Festival Bons Sons 2012.

Em suma: foi um grande, grande festival. Uma iniciativa em tudo salutar e que merecia ser replicada, este Bons Sons. Parabéns à organização e agradecimentos à hospitalidade de Cem Soldos, fazendo votos para que esta festa continue por muitos e muitos anos.


Bernardo Branco Gonçalves
Fotografias por Inês Parro
(galeria completa
em facebook.com/bandcom)




Twitter Facebook More

 
Powered by Blogger | Printable Coupons