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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

HÁ MÚSICA EM...#3: FARO

Faro. Capital de distrito com cerca de meia centena de milhar de habitantes, um clima tão fabuloso quanto agreste, cidade de estudantes e de estrangeiros, simples visitantes ou à procura de um novo lar, a pouco mais de 100km da Espanha que Brites de Almeida tratou de acantonar em Aljubarrota. Mas, ao contrário do país vizinho, a cultura deste pequeno país dentro de Portugal esbarra em dois grandes pilares: o que se impõe ao turismo "de sempre" (até aqui nada de espantar) e um estranho silenciamento de grandes manifestações artísticas. É certo que há exemplos do que se pode fazer a partir do 0 (Pirate Weekend, Festival Verão Azul...), que não estamos alheados da boa programação que alguns espaços da cidade conseguem esquematizar quase de improviso, que há festivais como o Rock One e o Festival Adentro, entretanto substituído à última hora pelo Festival F, que se tentam implantar na cidade e nas redondezas - como não, se ao "Allgarve" pouco falta?
Mas de que cultura, gentes, espaços se faz algo no Algarve e, especialmente, em Faro?
Convidámos de novo 5 projectos musicais da cidade - Mundopardo, Killing.Electronica, The Wax Flamingos, Mopho e Rafael Rodrigues que faz parte dos An X Tasy e dos The Stray - para nos prestarem os devidos esclarecimentos. Ora vejam.

1. Em que medida é que a vossa cidade vos inspira ou inspirou, mesmo no sentido de iniciarem um determinado projecto ou rumo, para o vosso trabalho?
2. Há uma cena musical proeminente ou é difícil defini-la? 

3. Quais os espaços, na vossa opinião, com melhores condições para ensaiar e aprimorar trabalho? Usufruem de algum deles?
4. Conseguem retratar ou caracterizar minimamente, da vossa experiência, o público de Faro que vai a concertos? 
5. Que espaços de concertos ao vivo destacam em Faro? A oferta é suficiente para os músicos?
6. Da vossa experiência, as bandas e artistas de Faro trabalham bem em conjunto ou estão mais distantes do que seria desejável?
7. Que entidades ou associações mais contribuem para que Faro possa ter concertos ao vivo e oportunidades para os artistas?
8. Quem de Faro devemos ver ao vivo ou de quem devemos ouvir as suas músicas?
9. Quem quiser conhecer o maior número de artistas possível…a que concurso ou festival deve estar atento?
10. Por fim, pode-se Faro é uma cidade que trata bem os seus artistas?


MOPHO (Paulo Duarte)



1. Não creio que a cidade tenha tido qualquer influência no aparecimento do nosso projecto. O mais importante foi mesmo a consciência de que havia algo para dizer e vontade de o fazer através daquilo que nos une: o gosto pela música.

2. A cena musical de Faro é algo difícil de definir: não existe realmente uma grande dinâmica como já houve nos anos 90, embora já tenha atravessado um período muito mau. De algum tempo a esta parte começaram a surgir mais bandas com algumas a conseguirem já um certo reconhecimento e exposição.

3. Em Faro o melhor espaço é sem dúvida a ARCM – Associação Recreativa & Cultural de Músicos.
Esta associação foi fundada em 1990 e desde então tem sido sempre um local para as bandas poderem ensaiar, com salas individuais, e onde também puderam apresentar os seus trabalhos já que a associação tinha sala para concertos. Neste momento mudaram de instalações mas todas estas valências continuam a existir e é onde nós temos a nossa sala de ensaio.
Existe também um outro local, na Galvana, a 3 km de Faro, com salas de ensaio privadas onde também há mais bandas a ensaiar.

4. O público de Faro não é muito frequentador de concertos. Embora tenhamos uma universidade com muita gente de fora a estudar cá, de uma forma estranha isso não se reflete no número de espectadores nos espectáculos. Estamos, claro, a deixar de fora os amigos das bandas que, como é normal, vão aos concertos mas de um modo geral não há muita gente a ver bandas ao vivo.

5. Faro nunca foi uma cidade com muitos locais para se tocar ao vivo. Neste momento existe o Maktub, mais vocacionado para o jazz/blues, o Castelo, o Kubico, a Sociedade Recreativa Artística Farense – Os Artistas – também faz concertos de vez em quando, mas não temos realmente um bom local para concertos de rock.

6. Parece-me que as relações entre bandas poderiam ser mais próximas, poderia haver mais entreajuda, por exemplo, a partilhar contactos de locais para tocar, mas…

7. Sem dúvida a ARCM, o trabalho que têm vindo a fazer desde 1990 é notável a todos os níveis, neste momento temos condições de que poucas bandas ou associações se poderão gabar, mas as coisas são feitas por quem delas vai usufruir. Por exemplo, todas as salas de ensaio que temos neste momento foram construídas pelas próprias bandas. Isto não existe porque o estado deu dinheiro/subsídio, fomos nós que o fizemos.

8. Sabendo já que nos vamos esquecer de alguém e por isso as nossas desculpas:
An X Tasy, Mindlock, Fenoid, Nannok, Deep Coffee Nonsense, Godai e, claro, Mopho!

9. Não há festivais, nem concursos já há algum tempo, por isso o melhor mesmo é irem ao Facebook!

10. Sinceramente, nem por isso não, mas cá estaremos e outros como nós também porque a vontade de criar é sempre maior.


AN X TASYTHE STRAY (Rafael Rodrigues)





1. Quando andava no secundário, por volta de 1998, 3 amigos meus preparavam-se para iniciar um projecto de punk-rock melódico. Eu sempre gostei de música, desde muito novo, mas nunca ambicionei seguir carreira nesse ramo (ideia que ainda hoje se mantém). Na altura tinha um certo gosto por tocar guitarra mas sem nunca levar nada demasiado a sério. E foi nessa altura que sou convidado para tocar... baixo! Sempre fui a concertos de punk e hardcore (Punk-Kecas, Kontrattack, Sem Fuga...) e havia aquele bichinho de pisar um palco mas não sabia como chegar até lá. Comecei a tocar baixo e passado um ano estava a tocar com algumas das bandas mais influentes da região. Um sonho tornado realidade. A influência de Faro é mesmo essa, esta humilde capital algarvia é bastante pequena e toda a gente se conhece. Tu num dia não és ninguém e no outro dia toda a gente sabe quem és. Dum dia para o outro já conhecia praticamente toda a malta de bandas da cidade e isso abriu portas para muitos projectos que abracei mais tarde, em especial aquele que ainda mantenho há 12 anos: An X Tasy. No Liceu era normal a malta das bandas encontrar-se no páteo da entrada principal e ficarmos a falar de música e política. Isso unia bastante aquela malta que se identificava entre 
si, partilhando ideias e objectivos em comum.

2. Já houve. Custa-me admiti-lo mas já houve, sim. Ano após ano a cena vai-se degradando. Ganha-se em muitos aspectos: cada vez há melhores salas, melhores sistemas de som, backline de maior qualidade, mais bandas e cada vez melhores... mas perde-se o essencial: a paixão. Hoje em dia vês muitos putos preocupados com a tatuagem, a t-shirt da banda preferida, o pedal duplo extremo, o solo de guitarra técnico... mas a paixão dos 90’s já era. Na altura havia as bancas das zines, havia a K7 e o vinil, havia malta a vender comida nos concertos... hoje em dia não há nada disso. Tens o Facebook e pouco mais. A cena podia ser tão forte. Mas perdeu-se o espírito. Naquela altura era normal haver uma banda de punk-rock a tocar com uma de metal e, embora houvesse bastantes dedos apontados e críticas de parte a parte, toda a gente acabava por se apoiar pois havia um show para todas as bandas locais. Como havia muito menos espaços e condições para se tocar, a malta tinha de "engolir o sapo" e partilhar palco com bandas bastante diferentes. Tenho saudades disso. Acredito que isto, como tudo na vida, não passa de um ciclo e do mesmo modo que cada ano que passa há um estilo 
diferente de música na moda, eu acredito que esta "quebra" de pessoal nos shows também seja passageira. Tenho esperança que assim seja.

3. Sim, felizmente disso não me posso queixar. Faço parte da Associação Recreativa e Cultural de Músicos desde o meu primeiro ensaio (!!!) e sempre tive razoáveis condições para ensaiar. Sei que não é abundante haver espaços em que se possa ensaiar 24 horas por dia sem incomodar vizinhos mas felizmente tenho/temos tido essa sorte. Já vou na quarta sede da ARCM e até agora a vizinhança não se tem queixado muito. 

4. Pá...tal como disse anteriormente, na altura o público era bem mais diverso e conseguias ver metaleiros, punks e pessoal do hip-hop todos nas mesmas festas a curtir em conjunto. Neste momento, e com muita pena minha, está tudo bastante dividido e já não há aquela vontade de união e de nos abraçarmos todos pela mesma causa. Falta algo e nem te sei explicar o quê. Perdeu-se a mensagem, a crença, a vontade de partilhar algo com alguém. Hoje em dia a imagem sobrepõe[-se a] tudo e infelizmente para muitos é isso que conta. Nos anos 90 a mensagem era uma componente bastante forte, a juventude gritava por ideais e vivia-os no dia a dia, fossem eles políticos, sociais, pessoais, etc. Mas estava tudo a remar para o mesmo lado.

5. Não, nem de longe. Neste momento há vários espaços em Faro para música ao vivo mas com bastantes limitações, pelo menos no que diz respeito ao movimento underground. Tirando a ARCM que abre as portas a todos os que quiserem apresentar os seus trabalhos, pouco mais há para tocar. Tens bares como o Ditadura e o Maktub ou salas como os Artistas ou o Club Farense mas todos eles têm um público-alvo e muitas limitações no tipo de música a aceitar. 
Há uns bons anos ainda havia o Arcádia, que fez bastante pela cena underground, e há muitos mais anos havia bares como o Tal Bar e o Morbidus que foram peças fundamentais naquilo que é a cena local farense nos dias de hoje.

6. Julgo que já respondi a isso mais acima. Em Faro, felizmente, toda a gente se dá bem e há poucas rivalidades. No entanto, cada um faz por si e não há mais aquela cena de se fazer em conjunto. Não chamo a isso competição, felizmente, mas apenas perdeu-se aquela iniciativa de ‘vamos lá juntar 3 ou 4 bandas diferentes e fazer um evento para todos’. Isso já era, com bastante pena minha.

7. De momento tens a Associação Recreativa e Cultural de Músicos e pouco mais. Associações contam-se pelos dedos, a maior parte delas falida ou parada e as que estão no activo são cada vez mais selectivas, o que aumenta as barreiras para o meio underground.

8. Toda a gente, não vou mencionar nem discriminar. Toda a gente merece ser ouvida, mesmo que seja para se criticar a seguir. Prefiro mil vezes que me critiquem conhecendo o meu trabalho do que apontarem o dedo e falarem mal sem conhecimento da questão. Há muita gente a dizer que An X Tasy é uma banda hardcore e em 12 anos é capaz de ser a única vertente que nunca seguimos. Eu oiço hardcore no dia-a-dia e muita gente associa a banda a essa vertente por me conhecerem sempre igual. Mas quem não nos ouvir e falar à toa está a privar-se de conhecer mais um projecto da região.

9. Não ando muito atento a esse tipo de cenas. Mas acho que os festivais locais são bastante importantes e influentes e lamento imenso que estejam a desaparecer a uma velocidade fulminante dia após dia. O convívio vivido neste tipo de iniciativas é algo incomparável.

10. Essa questão é traiçoeira. Não me posso queixar muito e em grande parte por todo o apoio e força que a ARCM tem dado à cultura e arte da região nas últimas duas décadas. No entanto, podia haver muito mais. Antes havia mais festas nas escolas secundárias e eram memoráveis, havia mais eventos multi-culturais e isso tende a desaparecer com o tempo. Mas não acho que Faro seja das piores localidades, tendo em conta a reduzida dimensão da cidade. Se bem que eu não vejo as coisas como propriamente Faro, mas sim o Algarve. Tens Loulé, Portimão, Olhos d’Água, entre outras localidades, que também contribuem para o desenvolvimento cultural da região. Felizmente dentro do Algarve há bastante proximidade entre bandas, promotoras e salas de espectáculo. Toda a gente se dá razoalmente bem e isso ajuda bastante na promoção dos artistas locais.


MUNDOPARDO



1. 
Para a formação dos Mundopardo, Faro foi uma cidade determinante pois os 4 frequentamos a Universidade do Algarve e, particularmente, fazemos parte da Versus Tuna. As nossas principais vivências e o nosso crescimento musical têm como pano de fundo esta cidade. Por outro lado, sendo uma cidade tão distante do epicentro da nova música portuguesa, é para nós um incentivo maior crescer enquanto banda nesta cidade e, se tudo correr bem, colocá-la no “mapa” da música portuguesa. Para não falar da inspiração que nos tem dado a escrever as letras, pelas pessoas que aqui vivem e pelas histórias que conta.

2. Se calhar há uns anos a maioria das bandas farenses a tocarem originais procuravam um rock mais pesado, metal e hardcore. Hoje em dia existem já alguns grupos e músicos associados ao jazz e blues mas se calhar a maioria toca mais versões de outras bandas. No entanto, há novas bandas de originais a aparecer, nos mais variadíssimos estilos, por isso a cena musical em Faro já vai sendo difícil de definir.

3. Em Faro a oferta de espaços para as bandas ensaiarem é muito curta. A Associação Recreativa e Cultural de Músicos é talvez o único espaço para esse efeito. Nós ensaiamos ou na casa de um de nós, até porque somos uma banda que usa pouco material, ou na casa da minha tia quando ensaiamos com bateria. Obviamente que gostaríamos de ter um espaço muito melhor, onde pudéssemos ter o material sempre disponível - uma garagem ou algo do género, mas isso implicaria outros custos.

4. Nós somos uma banda relativamente recente, ainda é difícil traçar um padrão. Estando nós ligados à UAlg seria de esperar que muitos estudantes marcassem presença. No entanto, aqueles que aparecem são amigos próximos. Mas isto acontece na maioria dos concertos que acontecem em Faro, os universitários não aderem assim tanto. A maioria das pessoas que nos vão ver são de Faro, da nossa idade e mais velhos.

5. 
Faro tem muitos espaços para música ao vivo. Muitos bares têm música ao vivo quase todas as semanas, onde acolhem alguns músicos que tocam versões. Depois há o Maktub Bar, que tem sempre todas as semanas jazz à Quinta e uma banda, de originais ou não, às Sextas. A Sociedade Recreativa Artística Farense promove concertos n’Os Artistas, de bandas reputadas a nível nacional e de bandas locais por vezes. A Associação Recreativa e Cultural de Músicos tinha muitos concertos mas entretanto o espaço encerrou e reabriu noutra zona da cidade.
No Verão a cidade de Faro tem palcos na baixa onde também acontecem alguns concertos de bandas da região. Por fim, o Teatro Municipal de Faro é uma sala fantástica que tem alguns concertos por ano, no entanto não tantos quanto deveria. Felizmente, já tivemos oportunidade de tocar em quase todos, e são todos espaços muito bons.

6. Até há uns meses não tínhamos percepção disso, mas hoje podemos afirmar que existe muita colaboração entre músicos. Nós na gravação do nosso álbum contamos com a colaboração de músicos de outros projectos, e em palco tocamos com o Filipe Cabeçadas, guitarrista dos Nome e envolvido noutras bandas. Depois, outros músicos vão trabalhando em conjunto, seja a nível criativo ou somente na execução em palco.

7. A Associação Recreativa e Cultural de Músicos sempre foi a associação que mais colaborou e mais apoiou os músicos farenses. Depois há também a Sociedade Recreativa Artística Farense, que promove muitos concertos e à qual estamos muito gratos por todo o apoio que nos deram desde o início. A Associação Ar Quente, no Verão, também promove vários concertos, em parceria também com “Os Artistas”.

8. Dos músicos e bandas farenses a ver ao vivo e conhecer as músicas destacamos Nanook o Vagabundo, An X Tasy, Diogo Piçarra, Nome, Fad’Nu, Killing.Electronica, The Miranda’s e The Wax Flamingos. A Teresa Aleixo, que gravou um tema connosco, vai gravar o álbum dela brevemente, vale a pena ouvir também. Ah e se puderem ouçam Mundopardo também, dizem que é agradável.

9. O MED deste ano em Loulé contou com muitas bandas da região. O Festival Adentro, em Faro, também vale a pena visitar. Depois, é estar atento à programação d’Os Artistas durante o ano. Atualmente não há assim tantos concursos como havia há uns anos
valentes.

10. 
Faro está a crescer a nível musical e as pessoas vão estando a par disso. É óbvio que poderia haver sempre mais divulgação e mais interesse, vemos quase sempre as mesmas pessoas nos eventos culturais. A cidade não trata mal os artistas, mas poderia fazer esse trabalho muito melhor. No entanto falta ainda envolver mais a comunidade académica para a música farense, muitos dos alunos que por cá estudam não conhecem espaços tão emblemáticos desta cidade como a ARCM, Os Artistas o ou Teatro Lethes.


THE WAX FLAMINGOS (André Rosado)



1. Nós nascemos literalmente na Ria Formosa, na praia de faro, e isso influenciou-nos na metade da medida, ou seja, se metade do que fazemos é urbano, a Ria Formosa, a nossa cidade, trouxe-nos o outro lado mais “rural” ou mais “da praia”, como se quiser chamar.

2. Não sei dizer porque somos naturalmente afastados da cena musical.

3. Não sei. Não.


4. Não há um hábito generalizado de ir a concertos. Há um público específico e pequeno dado que é uma percentagem da população da cidade que é pequena. Quando há eventos de maior escala e bem organizado com artistas de fora o público que não costuma ir agrega-se e participa. Exemplos: Festival F e Festival de Blues.

5. Maktub, Castelo, Artistas, Ditadura.

6. Não sei dizer porque somos naturalmente afastados da cena musical. Mas parece-me que são geralmente muito amigos e pouco focados nos resultados.

7. Câmara Municipal, Sociedade Recreativa Os Artistas, Ar Quente, Associação de Músicos.

8. Deep Coffee Nonsense, Mundopardo, Sam Alone, Tribruto.

9. Para conhecer artistas novos, cremos que todos os pequenos festivais assim como concursos. 

10. Sim.


KILLING.ELECTRONICA (Marcos Alfares)



1. O Algarve sempre nos influenciou na forma como escrevemos ou vemos a música. Apesar de termos nascido os três em cidades e regiões diferentes do país, foi aqui que acabaríamos por nos conhecer e fazer mover este projecto que são os Killing.Electronica.

2. Penso ser difícil defini-la. Existem inúmeros projectos e músicos de variados estilos o que é bom mas que também cria alguma dificuldade em agendarmos concertos com grupos de estilo semelhante. Para nós, sempre foi difícil fazê-lo. Não que não tenhamos prazer em envolver em palco connosco outros estilos, pelo contrário, mas sempre que isso aconteceu sempre sentimos pouca envolvência ou adesão do público a esse género de eventos. 

3. Temos um espaço próprio para ensaios mas como espaço público e de apoio a grupos e artistas, necessitamos referir a Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro (ARCM) que, apesar de várias dificuldades ao longo dos anos, tem continuado a oferecer um espaço de trabalho e criação e a sua ajuda na projecção de novos músicos.

4. Para Killing.Electronica sempre foi difícil estabelecer-se no meio musical do Algarve. Em todos estes anos sempre tivemos ao nosso lado projectos musicais distantes do nosso e isso criou sempre uma barreira na interligação com outros músicos. No Algarve e dentro do meio underground, poderás encontrar grupos de metal, hardcore ou de hip-hop mas o que fizemos sempre foi visto um pouco à margem. 

5. Para a quantidade de artistas/músicos que existe, a oferta que existe é suficiente. No Algarve é necessário destacar: ARCM, Club Farense e Os Artistas (Faro), Bafo de Baco (Loulé), Marginália Bar (Portimão) e Laboratório de Artes Criativas (Lagos). 

6. Pelo menos, do nosso ponto de vista, consideramos que as bandas estão longe daquilo que se esperaria da troca de conhecimentos e trabalho em conjunto. Costumo dizer que o rock ainda tem muito que aprender com o hip-hop no que respeita a trabalho e parcerias entre músicos.

7. Infelizmente, esse trabalho é realizado na sua maioria de forma independente pelos próprios artistas mas é isso também que fortalece e motiva cada um a lutar pelos seus próprios objectivos. Contudo, isso atrasa-nos em todo o processo e a “viagem” torna-se bem mais longa. Fora isso, temos a ARCM de Faro e os espaços de concertos que referimos anteriormente que nos ajudam como plataforma física de divulgação do nosso trabalho.

8. Existem alguns artistas que realmente é obrigatório ouvir/assistir ao vivo o que andam a fazer. Alguns deles amigos, outros com quem partilhámos palco ou apenas porque admiramos o seu trabalho mas principalmente por considerarmos verdadeiramente talentosos ou porque têm algo a dizer na música: The Quest (Lagos), An X Tasy (Faro), Mopho (Faro), Sagespectro (Loulé), Tribruto (Loulé).
   
9. Existem variados festivais/concursos organizados durante todo o ano pela ARCM, Marginália Bar e Bafo de Baco que são obrigatórios no que respeita a conhecer novos músicos não só da região do Algarve como também de todo o país e outros nomes internacionais. São três espaços bastante profissionais e que apresentam todo o ano um cartaz repleto de pequenas boas surpresas para quem gosta de conhecer nova música. 

10. No meio em que nos inserimos e a partir da nossa própria experiência no panorama musical, penso que os meios de ajuda poderiam ser maiores e melhores. Apesar de não vivermos neste momento nas melhores condições a nível cultural e artístico, penso que falta também por parte das próprias câmaras municipais e todo o seu envolvente: a existência de interesse e apoio nos artistas que são da própria região e a tentativa de lhes oferecer algum reconhecimento por aquilo que realizam pelos próprios meios e que, muitas das vezes, acabam por promover as próprias cidades onde habitam ou de onde são provenientes. E, neste sentido, pensamos que a cidade de Faro ou qualquer cidade no Algarve, poderia fazer mais pelos seus.




sábado, 10 de novembro de 2012

AN X TASY - Entrevista



Em digressão pela Espanha e pela França, os An X Tasy tiveram a oportunidade de divulgar o seu mais recente trabalho, « The Calm Before The Storm » fora do país. Mas o concerto previsto em Paris foi cancelado à última hora. Um percalço que serviu de pretexto para falarmos com Rafael Rodrigues, voz do grupo, sobre os problemas que encontram as bandas portuguesas ao quererem internacionalizar-se.

BandCom (BC): Porque foi cancelado o concerto em Paris ?

Rafael Rodrigues (RR): No ano passado tínhamos uma data em França e dois dias antes fomos assaltados em Rennes, partiram-nos o vidro da carrinha, o que impossibilitou que nós pudéssemos ir a Paris. Tivémos de cancelar a ida a Paris e à Holanda que era no dia a seguir. Este ano, estávamos a tentar marcar uma data em Paris. A data que tínhamos era Quarta-feira, de acordo com a nossa route. Inicialmente estava tudo combinado, só que, à última hora eles disseram que não tinham arranjado sala. Foi a desculpa que nos deram.

(BC): Que problemas costumam encontrar no exterior ?
(RR): Estes anos todos, quer como músico, quer como organizador de eventos, quer como técnico de som, tenho estado a estabelecer intercâmbio. Há muitas bandas que vêm em digressão europeia e contactam-me. Eu digo: 'ok, mas que façam o mesmo quando estiver em digressão'. Nós cá garantimos sempre um mínimo, para as despesas, jantar, alojamento, tudo isso, só que tenho tido muitas dificuldades em conseguir que essas bandas consigam retribuir isso. Em França, dão-me a desculpa que as salas são muito caras, ou que as salas não têm sistema de som. Eu tenho-me baseado unica e exclusivamente no grupo do norte de França, os Hands of Blood, que já vieram cá tocar uma vez, e que já nos levaram a França também no ano passado.

(BC): Existe mais entreajuda no punk ou no metal ?

(RR): Dentro do meio do punk/hardcore, mais concretamente no hardcore, eu sinto que no hardcore há mais união. Uma banda que tenha um CD editado consegue facilmente sair do país e tocar na Europa. Nós, como já temos um estilo a puxar mais para o Rock, e para o Punk, o pessoal do hardcore já não se mexe tanto connosco. Dentro do rock tens aquelas bandas maiores que trabalham com cachês e agentes e que pedem condições que muitas vezes são insuportáveis para os promotores europeus. Agora eu sinto uma coisa : eu trago bandas de todos os géneros a Portugal, desde o hip-hop até ao black metal; quando tento enviar bandas de cá para fora, noto muitas dificultades em convencer os promotores.


créditos da fotografia: João Moreno



(BC): É mais uma questão de preconceito ou pura e simplesmente financeira ?

(RR): Mais a nível financeiro. Os promotores estão com medo de arriscar. E falo também por mim. Há cinco anos atrás tinha uma média de 300 pessoas em concertos pequenos que organizava, agora se calhar a média é de 80 a 100 pessoas. E isto faz com que as pessoas fiquem com um pé atrás. Há dois problemas cada vez mais difíceis de combater : não sei se é devido à crise ou talvez por falta de motivação, nota-se bastante que as bandas que existem atualmente em 2012, muitos dos músicos são os mesmos que quando entrei no meio em 1999, com dois ou três projetos diferentes. Os putos cada vez menos vão aparecendo…ninguém aposta neles. Isto faz com que também haja cada vez menos gente nova nos concertos. Por outro lado temos também o problema da pouca afluência nos concertos que vem de mãos dadas com essa situação: quanto menos público vai aparecendo, menos bandas têm vontade de organizar concertos e menos promotores apostam. Há uns anos atrás tínhamos quatro concertos por mês e agora temos um ou dois com média qualidade.

(BC): No entanto, não achas que o Punk, o Metal e o Hardcore são dos géneros de música mais exportáveis ?

(RR): É um circulo muito mais limitado, um meio mais pequeno, estamos dependentes uns dos outros e temos de nos apoiar mutuamente para conseguir chegar a algum lado. Por exemplo há coisa de dez ano atrás, tínhamos um movimento na Bélgica, H8000, um movimento de hardcore que apoiava muito as bandas da Europa toda, tínhamos em França o Toulouse Hardcore que tem sido forte, tens mais dois ou três países que têm uma cena de hardcore muito forte como na Alemanha, possivelmente o mais forte dentro do género. Aos poucos e poucos, esse pessoal vai envelhecendo, vão fazendo as vidas deles e cada vez há menos gente a seguir esse movimento.

(BC): Os putos saem cada vez menos de casa não é ?

(RR): Nota-se cada vez mais que há essas bandas caseiras. Há uns anos atrás tinhas o guitarrista, o baixista, o baterista e a voz, hoje em dia, um músico que tenha um mínimo de conhecimentos consegue programar uma bateria, ter uma voz ou não...e cada vez há mais projetos desses. Eu falo bastante com esses músicos em Portugal, dou valor ao que eles fazem, pessoalmente não tenho esse talento, mas tento explicar que se eles tentarem passar aquilo para o palco - mesmo que não seja a vida deles, porque isto de seguir carreira hoje em dia é complicado - ao menos podem mostrar que podem exprimir-se de outra forma. O pessoal muitas vezes tem medo de arriscar. Pessoalmente, não há nada como ter o meu disco gravado, ir para o estúdio, ter os discos na mão… E aqueles 50 minutos de live ultrapassam qualquer sensação que possa existir numa banda.

(BC): Não achas que o sucesso dos Moonspell e dos Miss Lava (entre outros) contribuiu para o sucesso do metal português no exterior mas também do Punk ?

(RR): Sim, sem dúvida. Não só essas bandas Os Moonspell, Os Miss Lava, os More Than A Thousand, os Easyway, os Fonzie, os Devil In Me. Nota-se mesmo nos An X Tasy. Quando fomos a Toulouse o pessoal falou bastante e quando voltámos era tudo ‘ah como é que foi, como é que não foi’. Tocámos em mais festivais, vendemos mais merchandising, os nossos discos têm mais saída, e eu noto mesmo que o nome conseguiu ficar mais vincado. Obviamente que a internacionalização não passa só pelo período lá fora. Passa também pelos contactos que se estabelecem, passa por tentar licenciar o disco no estrangeiro. Uma coisa é vir tocar cá com o disco editado, outra é não o ter. Os Miss Lava por exemplo são um caso de sucesso a curto prazo. Começaram a tocar há quatro ao cinco anos, na altura em que eles trabalhavam mais connosco e de um momento para o outro estão a produzir discos nos Estados Unidos com os produtores de Opeth e Katatonia e estão com uma exposição espetacular.

(BC): Já agora, quais são as tuas influências ? E as do grupo ?

(RR): A nível pessoal passa por tudo o que é música menos música eletrónica. Não tenho nada contra mas!.. Ainda agora quando vínhamos de Sevilha para Barcelona, eu pus o meu iPod em shuffle e o pessoal dizia ‘como é possível estares a ouvir Bon Jovi e depois Metallica e depois hip-hop’. Eu sou um grande apreciador de música e consigo ouvir tudo desde que na minha opinião tente transmitir um mínimo de sentimentos. No resto da banda cada um tem as suas influências, temos um baterista que essencialmente só ouve metalada, um guitarrista que ouve aqueles guitarristas mais virtuosos e ouve muito funk, o outro guitarrista mais blues-rock, e um baixista que ouve muito punk-rock. Eu acho que isto reflete-se no nosso trabalho. Muitas vezes quem o ouve tem dificuldades em catalogar-nos.


(BC): Achas que a variedade da música portuguesa é visível e aparece o suficiente nos media nacionais ?

(RR): Tu podes ter cem bandas que mandam um CD a uma editora, para um festival, uma rádio, mas se não houver aquela pessoa que tu conheces na rádio que diga : ‘olha, ouve esta banda aqui que é lá de baixo’. Só para teres uma ideia : nós, da edição do último disco, eu enviei nada mais nada menos que 100 CDS para jornais, editoras, rádios, canais de televisão. Eu tive 5 ou 6 respostas positivas e para mim foi uma vitória. As pessoas têm muito esse hábito de dizer : ‘ah, não se aposta nas bandas da alternativa ou da garagem’, mas na minha opinião, tens mais de 80% das bandas que não arrisca em enviar nada para nenhum lado, simplesmente gravam um CD e esperam que alguém fale nelas,  e depois tens os outros 20% que enviam e que gastam dinheiro ao promover a banda. Mas é preciso aquela pessoa influente no meio que te consiga abrir algumas portas. E nós infelizmente não temos essa sorte.

(BC): Não há também uma dificuldade extra por serem de Faro ?

(RR): Existe um grande obstáculo. Porque em Lisboa, qualquer festival junta bandas de vários estilos, se for preciso 7 ou 8 bandas de cada género e com algum exposição. As bandas de Lisboa conseguem ir facilmente ao Porto e ao Algarve porque são centrais, qualquer editora pega nelas, têm outro tipo de condições. Para nós ir ao Porto ou a Lisboa tem sempre custos insuportáveis, tal como para uma banda do Porto. Com o preço da gasolina, das portagens, a viagem nunca sai por menos de 300 ou 400 euros. E não há promotores dispostos a pagar isto. Tudo aumenta…

(BC): Torna-se quase mais barato dar um concerto em França…

(RR): Nós fomos tocar a Sevilha, e o dinheiro que gastámos de gasóleo, não tenho as contas aqui, mas foi uma coisa surreal. Não apanhámos nenhuma portagem. Com esse dinheiro não saimos do Algarve. Isso é uma coisa que me faz muita confusão. Uma banda quer fazer uma t-shirt: o IVA aumentou, a t-shirt também. Queres ir para um estúdio: com tudo a aumentar, o estúdio também, comprar material...as bandas começam a fazer contas e a tomar opções. Agora são obrigadas a fazer escolhas. Ou tour, ou discos. No ano passado, fizemos um disco e uma tour. Este ano, o objetivo é fazer o mesmo. A nossa ambição por agora continua a ser igual: para o ano que vem lançar um novo álbum que deverá ser no primeiro semestre e ver se em 2013 também voltamos a sair de Portugal.

(BC): Como conseguiram alcançar o patamar que hoje atingiram ao estar sempre a trocar de elementos ?

(RR): Desde 2002 a 2009, quando gravámos a primeira demo, pode-se dizer que a banda era a típica banda de garagem que era só para curtir, sem grandes ambições. Em 2009 entrámos em estúdio, gravámos uma maquetezinha com pouca qualidade, para nos dar um empurrãozito, e daí para a frente, comecei a levar as coisas mais a sério. Mesmo não podendo viver desta banda, porque não tenho fé nem ambições nisso, sei que a banda pode chegar a algum lado. Daqui a uns anos, a minha intenção é poder viver disso. Em 2009 deu-se a primeira grande alteração que foi a entrada de um baixista porque durante os primeiros sete anos não tínhamos. Ao entrar o baixista, a banda começou a ganhar forma. Mas depois foi sucessivamente alterando a formação : uma troca de baterista, o baixista, adicionámos uma segunda guitarra e passei só para a voz, o outro guitarrista saiu e eu voltei para a guitarra. Há bandas que com cada alteração perdem o andamento, eu senti o contrário. Senti que cada pessoa que chegou a esta família acabou por dar o seu contributo para que isto tenha chegado a este estado. E isso nota-se mesmo a nível de tipos de eventos que conseguimos alcançar: a Festa do Avante, os festivais de Verão…

(BC): O público compensa ?

(RR): Compensa sempre. Utimamente temos estado a sentir um feedback muito mais importante. O tema do último clip « Until the death set us apart », é uma música que o público pega bem ao vivo, é a última faixa do set. Muitas vezes vamos para o palco com a moral em baixo, porque alguém está doente ou porque algo não correu bem na viagem, e se não for o público a nos dar força, saímos de lá com a moral muito mais em baixo. O que aconteceu em Sevilha na sexta-feira passada foi algo de surreal. Subimos para o palco, não estávamos nas melhores condições - eu com a voz apanhada, o nosso guitarista tinha avariado a coluna no dia anterior e houve ali muita coisa que nos condicionou. O público no início não foi o melhor, um pouco parado, mas a partir do meio deram-nos uma força!..


(BC): Questão mais técnica : com mais de 20 concertos desde março, como é que consegues preservar essa voz ?

(RR): Dois dias antes da primeira data em Faro eu estava com a voz completamente apanhada e tava com medo. Demos o concerto em Faro (que foi mais ou menos), mas na sexta em Sevilha fiquei totalmente afónico. O sábado e o domingo foram mesmo muito pesados para mim. E agora a minha sorte é que temos estes três dias para recuperar. Mas isto não é fácil. De uma certa forma a culpa também é minha por não ter aulas de canto e não fazer aquecimento, não ter atenção à mudança de temperaturas, e realmente com essa quantidade de concertos, nunca tive na nossa história esse cuidado. Para a preservar…acho que é uma questão de sorte!


Mickaël C. de Oliveira




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