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quinta-feira, 26 de maio de 2011

CCBEAT - Diabo na Cruz e Linda Martini


Uma iniciativa ímpar no Centro Cultural de Belém. Este espaço recebeu um festival de música rock urbano actual, algo a que o público do CCB não está habituado e algo que os fãs das bandas participantes não estão habituadas a ver num espaço como este. É sempre bom ter público diferentes em sítios diferentes, ganham as bandas, o espaço, o público e, no final, a música portuguesa.

No dia 21 de Maio, os primeiros a subir a palco foram os Diabo na Cruz, liderados por Jorge Cruz e B-Fachada.



Toda a música desta banda é uma óbvia homenagem ao passado musical português, sim, mas toda esta banda percebe muito de rock. As diferenças entre uma boa banda de rock e os Diabo Na Cruz são quase nenhumas, até ouvirmos a braguesa, o duo vocal de Cruz e fachada, as referências ao meio rural e o sintetizador que nos lembra um acordeão perdido no tempo, facto surpreendente pela modernidade que normalmente é atribuída ao som do synth. É de génio a forma como se pega num instrumento super actual e esse mesmo dito nos leva para trás no tempo.

Começaram com um som etéreo, meio celta, meio ibérico, em que se notava claramente a intenção da banda, quer do modo como tratam a parte estética da banda quer como encaram a sua própria sonoridade. Passaram por "Os Loucos Estão Certos", "Dona Ligeirinha", "Corridinho de Verão", espalhando literalmente magia pelo auditório, onde o rock português se fez sentir durante todo este evento, como nunca tinha acontecido.


Ao vivo, a musicalidade deles explode. O público adere no momento a todos os pedidos da banda, e quando a banda não pede, eles estão lá na mesma. Conseguem pegar no rock de várias formas, passando pelo indie, pelo rock dos anos 60, até um rock mais pesado. Tudo o que eles fazem é uma lição rock para todos os músicos terem na ponta da língua. Cruz está nas suas sete quintas com o público, vê-se que sabe o que está a fazer e tudo lhe sai naturalmente. A banda no geral dá-se toda muito bem ao vivo, mas Cruz é claramente o líder.



Eles representam o novo músico português do século XXI. Dão-se muito bem em palco, tocam coisas que nos são familiares desde criança, cantam a nossa língua de uma forma impecável e respeitam a música folclórica nacional sem desaprender tudo o que se faz lá fora. Durante o seu espectáculo, mais que tocar os seus hits, mais que mostrar a sua música, mais que acabar com um autêntico festival rock para apresentar os elementos da banda individualmente, os Diabo na Cruz mostraram qualidade. Qualidade que fica no ouvido, qualidade que nos deixa a pensar "Porque é que ainda não tenho cd deles?".


Para fechar a noite e este grande evento, os Linda Martini, que não menos apoio teve do público que esteve presente.



Os Linda Martini vieram a cimentar, durante este tempo todo de concertos em todo o lado e dois álbuns, uma espécie de Rock Furioso, carregado de influências emo e hardcore. Ouve-se muito as guitarras e todo o ambiente é por elas caracterizado, mas quem manda na música dos LM é mesmo a bateria, comandante de toda a raiva despejada em formato musical por cada palco que passam. Cada estrondo no prato, na tarola ou no bombo, cada ritmo fresco e imprevisível imprimido por esta central de força marca o passo na sonoridade dos Linda Martini.

A voz de André Henriques tem algo que provavelmente passará despercebido ao mais desatento ouvido: um ligeiro toque de fado. Toda aquela tristeza, todo aquele chorar, acentua o lado mais emo da banda, de uma forma muito portuguesa. Não canta como um fadista, mas toda a cadência é quase de quem já o fez durante muito tempo. As guitarras parecem imersas numa batalha imensa, de distorção, delays e vôos nocturnos.

Em músicas como "Dá-me a tua melhor faca" e "Amor Combate", a vasta legião de fãs desta banda fez-se sentir. Ao cantar as poucas partes cantadas das músicas (no caso da primeira). Os LM apostam imenso numa vertente instrumental longa, entoando apenas poucas palavras durante a música, dando ainda mais personalidade à música. Com uma parte lírica reduzida mas com grande impacto, a música ganha outra cor e outra força, outra intensidade.

Também se sentiu o jogo "Loud vs Quiet", em que a música pára subitamente para deixar ir aparecendo, progressivamente, uma fase mais agressiva da faixa em questão para rebentar de fúria e emoções acumuladas no final, algo que os Linda Martini dominam e fazem tão bem. São exemplares na forma como puxam da interpretação de emoções através de um ou dois simples instrumentos de cordas. Destaque ainda para "Juventude Sónica", um tema do mais recente álbum "Casa Ocupada", em que é feita uma análise coerente com o som do grupo à sonoridade dos Sonic Youth.

Ainda houve tempo para faixas como "Estuque" e no final de tudo "Cem Metros Sereia", música de uma frase apenas (e basta) em que o vocalista pediu que os público subisse a palco. Foi a invasão que se viu na foto acima, não uma invasão de palco, mas "uma invasão de carinho", como explicou a banda no seu facebook. E desta forma se viu a força de um grupo que tem vindo a ganhar cada vez mais força e fãs, e mais que tudo isso, uma identidade muito própria.

Obrigado ao CCB pelas acreditações e parabéns pela iniciativa! Que haja mais brindes destes para a música portuguesa. A cultura agradece!

(fotografias da muito talentosa e incansável Catarina Alves!)




terça-feira, 19 de abril de 2011

Anaquim

Bluegrass é um género temporalmente ultrapassado. Um rockabilly acústico, minimalista e suave, mas rápido, já não é muito popular. Foi uma das ramificações do rock mais antigo, mas parece estar um pouco esquecido. Daí ser tão interessante a forma como os Anaquim pegam nesta corrente. A rapidez da música adequa-se perfeitamente à língua portuguesa e ao seu vocabulário diverso e aos seus complicados sons.

Temos uma bateria muito simples, só para marcar o ritmo mesmo. Um piano blues irrequieto e infantil de uma forma muito "desenho animado", guitarras eléctricas quase-acústicas que são precisas em toda a parte da música. Temos a ocasional melódica a dar um tom parisiense. As letras falam-nos de histórias populares e acessíveis, de coisas perfeitamente reais e possíveis. Contam histórias bem portuguesas e de uma forma bem portuguesa.



O público que atinge é absolutamente transversal no que toca a idades, género, sítio onde se mora. Está aqui o forte do som da banda. A língua portuguesa já abria portas a esta possibilidade, mas a forma como a música se enrola nos nossos ouvidos - em qualquer tipo de ouvidos - é fatal e faz-nos gostar imediatamente de Anaquim. E quanto à língua, não é só por ser a nossa. É a forma como a tratam. Parece que estão a conversar connosco, a contar-nos a história da vida deles.




segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cuca Roseta - ENTREVISTA

Uma das novas e brilhantes fadistas da nova geração, Cuca Roseta, esteve à conversa com o BANDCOM. Uma fadista diferente, que larga o xaile e os tons negros e agarra a sua própria personalidade. Lança agora um álbum, todas as músicas provam o seu fresco talento.




Foi o fado ao teu encontro ou foste tu que deste com ele?

Fui eu que procurei o fado, por paixão, por precisar dele para me inspirar, mas foi o fado que me procurou para fazer dele a minha vida, eu não achava que tinha nascido para ele. Agora tenho a certeza. Andei a estudar psicologia e direito, e gostava destes, mas não me sentia totalmente preenchida. Hoje, com 29 anos, sinto-me totalmente preenchida no fado. Cantava fado para parar durante o dia.

O fado é muito antigo mas parece que tem cada vez mais fãs, chegando inclusivé a faixas etárias cada vez mais novas. Como é que achas que funciona o processo de alguém, nascido nos dias de hoje, gostar de algo tão tradicional?

Ainda bem que surge essa pergunta. O que o Gustavo (Santaolalla, produtor de Cuca) achou giro em mim, até na escolha da capa, foi não ser uma fadista típica, não ter uma capa de cd nessa onda, foi ser como era e sou. Ele disse “Tu fazes artes marciais, que não tem nada a ver com quem canta, vens do rock, e ouves todo o tipo de música. Não te vestes de preto e não usas xaile. Mas adoras o fado!” Eu sou completamente vidrada no fado, é o único género que me faz sentir em casa.

Eu costumo dizer que o fado me dá imensa pica, mais do que qualquer outra música, é tão difícil uma pessoa cantar fado, passando por todas as fases inerentes – declamar poesia, juntar à voz, juntar às emoções, juntar à experiência de vida, ao mundo. À medida que o tempo passa, vais-te tornando mais fadista, aprendendo a ser mais verdadeiro e a expôr mais as tuas emoções. No fado, estás sempre a ser testado, a ter que improvisar, criar uma melodia própria em cima de algo que te aparece no momento. No Rock isso não acontece, tem muito a ver com a voz e menos com experiências.

Cantas desde que idade?

Desde sempre, cantei em coros, karaokes, acabei por ir para os Toranja, onde também o fazia. Também o fiz num tributo a Rui Veloso. Passei um ano a cantar em bares, nas Docas, nos restaurantes. Passei posteriormente para as tasquinhas de fado na Graça, passando depois para o clube de Fado, em que estou há 6 anos.



E antes de cantares fado, o que é que te fazia pensar nele?

Eu nunca ouvi fado em casa, os meus amigos não ouviam fado. Foi literalmente o fado que me escolheu, como já disse. Eu, não que não gostasse, mas não conhecia Fado, se passava na rádio, mudava a estação. Agora que sou fadista, agora que descobri e estou neste tipo de música, acho quase um atentado as pessoas não o conhecerem. Quando conheci o fado, também não pensei que o fosse cantar. Estava nos Toranja na altura, levaram-me a uma casa de fados e eu achei a música brutal, estava em Lisboa mas sentia-me noutro sítio qualquer.

A passagem para fadista foi muito engraçada, porque parecia que o fado me chamava. Começei a ouvir, participei num concurso de fados e a partir daí é que foi. Quando cantei fado pela primeira vez num ambiente tipicamente fadista pensei “O que é que é isto? Que música inacreditável é esta?” Saí dos Toranja e começei a ir sozinha a casas de fado todas as sextas-feiras. Tive um ano assim, a aprender tudo o que podia, queria sugar aquilo tudo. Começei a entrar nos sítios certos, já que há um caminho gigante a percorrer.

Quais são os fadistas que admiras mais e que mais te influenciaram?

Os únicos que eu oiço em cd porque os adoro são a Ana Moura e o Camané, mexem mesmo comigo, em cd ou ao vivo. E Amália Rodrigues, embora seja difícil ouvir e mais antigo, está lá tudo, é uma voz brutal, uma interpretação inacreditável, todo um talento. Continua a ser a melhor, é o meu exemplo.

O que é que te vão dizendo da tua voz, das tuas músicas, do que tens feito até agora?

A minha mãe nunca gostou de fado. Agora, obriguei-a a ouvir fado, e ela diz-me que o meu cd é espectacular porque o consegue ouvir até ao fim (risos). Mas assim fora da família, e de uma forma mais espontânea, há algo que me deixa surpreendida e feliz, só há uma música com letra e tema da minha autoria. Nem sequer a queria pôr, foi composta ao piano, por ouvido, eu não sei tocar, o Gustavo é que insistiu para que ficasse. E têm me dito que essa é a música de que as pessoas gostam mais, talvez porque lhes soa um pouco mais a comercial, tem a ver com a minha influência. É a minha melodia, as minhas palavras, uma música que me diz muito, e isso deixa-me feliz. De resto, dizem-me que o álbum tem imensa dinâmica, eu também concordo, já que tem pequenas inovações, como fado a vozes, num trio, há um fado traduzido para castelhano, acho que ficou lindo, eu adoro espanhol!

Como é que o fado pode mudar sem se alterar o seu carácter base?

Nunca gostei de misturar o fado com outro tipo de músicas, apesar de ter tentado isso com o “Barco Negro” nos Toranja. Era um exercício gigante, tinha de seguir sempre em fado e eles tinham de andar ali à volta, num top pop. Misturar com outras coisas é brutal, mas não pode ser totalmente fundido.

E a inovação tem de partir um pouco da voz, porque as guitarras não podem de todo mudar.

Exactamente, é pela maneira de cantar e falar . Antigamente, as pessoas tinham uma forma de cantar e falar mais clássica, que não nos soa tão bem hoje em dia. O fado antigo era obviamente mais clássico, mas quando é chega pela voz de jovens, soa melhor ao público jovem. Aí já muda tudo. A linguagem, do amor cantado pelo fado, é transversal a idades, pelo que todos a devem poder ouvir.

Após a morte da Amália houve um “buraco” no aparecimento de novos fadistas, pelo que, desde a Mariza, surgiu uma nova vaga de imenso talento. Será que estes dois factos estão relacionados?

Agora não há só um talento, existem vários, mas eu acho que não foi pela morte dela, antes pelo que ela deixou, ela modernizou o fado, tirou-o dos bairros, fez o fado canção. Ela simplesmente foi ela própria. Quando ela transforma o fado, chega-nos a nós, fadistas, o fado dos grandes poetas cantados. Todos os fados da Amália são algo muito mais acessível para nós do que eram aquelas histórias dos descobrimentos, do bairro, da saudade.

O que podemos esperar da tua carreira nos próximos tempos?

O Gustavo Santaolalla está a preparar para mim uma carreira completamente internacional. Vou ser distribuída em muitos países, ele já tem as agências prontas, aqui na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos para que, assim que enveredar por essa opção, estar tudo pronto. A Universal quer que eu começe só por Portugal, por ser o meu país. Depois do lançamento, vou começar a fazer concertos de norte a sul e a seguir, vou começar a estar mais lá fora.





terça-feira, 22 de março de 2011

Daniel Catarino - ENTREVISTA



Músico de mil projectos, todos eles com algum impacto no panorama nacional: Long Desert Cowboy, Seven Thousand, Landfill, Oceansea, Uaninauei.

1 - Como e desde quando se desenvolveu a tua ligação à música, como praticante?

Comecei aos 11 anos a tocar guitarra por acaso, porque a minha prima Irina tinha uma viola e queria aprender, e como eu não tinha que fazer, ia com ela. Aos 10 anos ia com um grupo de amigos da minha terra (Cabeção) para casa de um deles ouvir discos de black metal do irmão dele, talvez isso me tenha influenciado indirectamente, mas nunca pensei em ser músico até já saber tocar meia dúzia de canções. Desde sempre me lembro de querer ser escritor, a música acabou por aparecer mesmo por acaso.

2 - Estás em vários projectos musicais, seja de metal, hard rock, acústico, indie. Vais substituindo as bandas umas pelas outras ou tentas manter tudo a andar ao mesmo tempo?

As bandas não se substituem porque são diferentes o suficiente para não se atrapalharem musicalmente. Enquanto houver tempo e vontade para isso, os projectos funcionam, se por algum motivo a coisa não resultar, então acaba. Mas o circuito português de concertos é pequeno demais para que uma banda consiga ocupar todo o meu tempo, pelo menos actualmente, pelo que acho positivo ir-me dividindo entre todos esses géneros que gosto de tocar. Vejo a minha relação com a música como um casamento, mas cada projecto é como um namoro, uns duram mais que outros, uns acabam bem, outros acabam mal, outros vão durando, uns são mais intensos e curtos, outros mais ténues e longos, etc.

O segredo é não pensar demais nisso e deixar as coisas fluírem e acontecerem naturalmente, e os projectos mais duradouros acabam sempre por ser esses em que as expectativas nunca são maiores que os passos que se dão. Nada dura para sempre, mais vale ir aproveitando o dia-a-dia da melhor forma possível, e eu gosto de tocar e criar música com várias pessoas, sozinho, enfim. Não ando à procura de reconhecimento ou atenção, é simplesmente uma coisa que gosto muito, e como tal quero que isso ocupe a maior parte da minha vida, como qualquer outra pessoa.



3 - Nunca te ocorreu "se calhar é nesta banda que me devia fixar daqui por diante"?

Não, porque como ouvinte também nunca me ocorreu ouvir só um estilo de música. Posso-me considerar músico, mas acima de tudo sou ouvinte e apreciador de música, e acabo por gostar de coisas bastante opostas, pelo que acho normal fazer coisas diferentes. É tudo uma questão de disposição na altura em que se compõe, quando acabo um ensaio de uma banda mais "roqueira" por exemplo, a última coisa que me apetece ouvir quando chego a casa é metal, porque os ouvidos precisam de descanso. Então acabo por ouvir se calhar algo mais na base do cantautor ou ambiente, e é natural que as coisas acabem por sair diferentes no momento da composição. Os projectos são todos válidos, e a música que faço e ajudo a fazer só tem uma limitação, que é eu gostar dela. Estilos e rótulos são coisas que ajudam mais a vender roupa e acessórios de moda que outra coisa qualquer.

4 - Qual foi o projecto que foi melhor recebido pelo público?

Talvez Uaninauei, embora tanto Landfill como Oceansea ou mesmo Long Desert Cowboy tenham sido bem recebidos. A verdade é que quando limitas as expectativas e o mote de trabalho à criação daquilo que consideras boa música, a recepção positiva por parte do público acaba sempre por ser uma surpresa agradável. Na verdade, não me preocupo muito com o que as pessoas pensam do que faço, é mais uma questão de confiar no meu gosto, e pensar que se eu gosto, mais alguém há-de gostar. Mas pelas críticas e conversas que temos tido depois dos concertos com as pessoas, parece consenso geral que Uaninauei se destaca actualmente por soar a algo novo, e isso é para nós um orgulho, principalmente considerando que cada vez aumenta mais a população que considera que já está tudo "inventado" na música. Ainda não ouvi ninguém fazer metal com rancho folclórico, por exemplo.

5 - Diz-se muito que fazer música e dar concertos fora de Lisboa e Porto consegue ser muito complicado. Concordas?

Nós temos enfrentado um bocado o oposto, é mais difícil marcar concertos em Lisboa e no Porto que no resto do país, ou porque as condições de muitos locais (com algumas boas excepções) são miseráveis, ou porque tens de pagar para tocar, ou porque simplesmente ignoram os teus contactos. Se há alguma ligação deste desprezo do contacto com a região de onde é proveniente o projecto, isso já é tema de debate ou para perguntar aos organizadores de eventos.

6 - Dá-nos a tua opinião sobre a divulgação da música em Portugal. O que pode melhorar?

Pode melhorar muita coisa, mas sobretudo a distribuição desta divulgação. Não se percebe por exemplo como é que Uaninauei não entra para a playlist de algumas rádios nacionais e tens a música dos Pontos Negros de 2007 ainda a rodar em horário "nobre" radiofónico (por acaso até gosto e não serão o melhor exemplo, mas ouvi-os há pouco e até eles provavelmente preferiam que passasse um dos temas mais recentes).

E não quero com isto dizer que somos melhores ou piores que ninguém, é simplesmente uma questão de oportunidades ou coisas que se tentam e não se conseguem por motivos que não são claros. Ou como é que as rádios generalistas conseguiram dar a volta às leis de airplay nacional metendo mais músicas dos mesmos artistas, sem abrir portas às novas coisas que vão surgindo. Ou como é que boa parte das agências de marcação de concertos conseguem infiltrar-se em alguns eventos importantes e "miná-los" com os mesmos artistas de sempre. Há para a grande maioria dos portugueses uma diferença gigante entre um músico "em desenvolvimento" e um músico "estabelecido".

Noto algumas vezes isso com os Uaninauei, e ainda estamos num nível de conhecimento do público bastante baixo. Algumas pessoas que ao início nos menosprezavam agora elogiam-nos, e a única explicação que vejo para isso é que é uma questão do nosso estatuto ter mudado aos olhos das pessoas. Ou és banda de garagem e só os amigos te querem ver, ou apareces uma vez na televisão ou na rádio e já és uma celebridade. Na cabeça de muita gente, infelizmente é assim que funciona, a qualidade da música não define os gostos de grande percentagem da população, é mais uma questão de "quem ouve o quê" e "com qual destes grupos me quero integrar", "quem são os mais fixes".

Há boas excepções a isto, claro, de gente que te apoia e acredita em ti desde o primeiro momento, e de outros que não gostando são frontais e sinceros no que dizem. Estes acabam por ser os mais importantes, mas muitas vezes são os outros que tomam conta de boa parte da tal divulgação musical em Portugal.

7 - Ultimamente, as bandas portuguesas vão ganhando algum espaço no mercado musical. Há algumas que queiras destacar?

Posso destacar bastantes, como os meus conterrâneos Fato/Feto, Ballis Band, Damien's Trail of Blood entre outros, bem como a nível nacional temos O Bisonte, Bla Bla Bla, Feromona, etc. A lista é extensa, e não são os nomes que me interessa listar, mas sim o facto de termos finalmente uma geração mais aberta ao que é português, com a noção de que os padrões de qualidade não têm de vir de fora, podem ser aqueles que bem entendermos colocar consoante os nossos gostos.

Nos anos 90 principalmente, havia muito a ideia que fazer boa música em Portugal era imitar o melhor possível o que se fazia "lá fora", com bandas a editarem discos cheios de autocolantes a dizerem "produzido por Martin Barnes", seguido de várias bandas com que esse senhor tinha trabalhado, numa tentativa óbvia de se tentarem colar e roubarem atenção com o nome dos outros, aos quais querem à partida ser identificados. Penso que isso é um caminho errado, é o caminho do conformismo e da ausência de novidade, do fim da procura pela próxima canção que marca uma geração ou a mudança de uma era.

Penso que um músico é-o igual em Portugal, Espanha ou qualquer lugar do mundo, deve fazer música que lhe venha do coração e/ou da consciência e não se preocupar com o resto. Não escrevo músicas sobre Detroit porque nunca lá estive nem é uma vida que conheça senão da televisão e dos livros. Posso-o fazer, e há quem o faça bem, mas não vai ser um assunto que espere interessar ao público português, que - sejamos sinceros, é o que me vai ouvir. Prefiro ouvir uma música que fale do Alentejo ou do desemprego, porque com essas vou-me identificar mais, é uma questão básica e humana. Muitas bandas andam em competição nesse mercado musical, quando a solução parece-me outra, que será criar uma nova posição nesse mercado e não roubar a de alguém, tentar ser e soar verdadeiro, e como todos somos diferentes, é aí que está a originalidade.

DANIEL CATARINO

http://www.facebook.com/daniel.a.c.catarino

http://www.myspace.com/danielcatarino

UANINAUEI

http://www.facebook.com/uaninauei

http://www.myspace.com/uaninauei

SEVEN THOUSAND

http://www.myspace.com/setemil

LANDFILL

http://www.myspace.com/landfillpt

OCEANSEA

http://www.myspace.com/oceanseamusic

LONG DESERT COWBOY

www.myspace.com/longdesertcowboy




segunda-feira, 14 de março de 2011

Luisa Sobral ENTREVISTA

Luisa Sobral está-se a colocar a jeito de se tornar na nova grande voz portuguesa, em que a palavra "grande" não deve ser tomada da forma habitual, tida como potente, rasgante e super-presente. Não, esta voz é doce, suave e dotada de uma dicção perfeita. Canta baixinho, conta-nos histórias em forma de segredo. Cantar num volume mais baixo é muito mais difícil do que parece e Luisa fá-lo com mestria, acompanhado de um jazz minimalista, acessível e apetecível ao ouvido.

Foi em Belém que o BANDCOM teve a oportunidade de entrevistar Luisa Sobral, sempre com um ar positivo e descontraído em relação aos próximos passos da sua promissora carreira.



Estiveste a estudar nos Estados Unidos mas a tua carreira está a começar agora mesmo, ou já teve início há um ou dois anos? Quando começou mesmo, após os teus estudos?

Acabei a universidade em Dezembro de 2009, portanto desde janeiro de 2010, já estava em Nova Iorque e começei a tocar lá. Já tinha feito coisas antes, mas estava a estudar, mais do que a trabalhar.

E foi onde? Optaste por te lançar em Portugal?

Tive em NI primeiro e gravei lá um EP. Acabei por vir para Portugal, e dei uma entrevista para a RTP2. Posteriormente, dei o meu cd a um conhecido, que mostrou à Universal (editora). Eles gostaram bastante do projecto e ligaram-me, foi aí que decidi voltar, achando que era a melhor altura para o fazer.

Confirma-se, portanto, a tua vontade de começar aqui, no nosso país.

Sim, aliás acho que é um bom começo o lançamento ser no próprio país. O estrangeiro pode ser um mundo em que, por ventura, eu possa ter mais medo, mas no meu país sinto a simpatia das pessoas, e com esse apoio, sinto-me mais à vontade para ir para fora um dia.




A tua escola nos EUA foi Berklee. O que é que mudou, quanto à tua aprendizagem musical, entre antes e depois da tua passagem por lá?

Mudou quase tudo em mim. Ou melhor, não foi bem mudar, mas eu não sabia quem era musicalmente. Tinha 16 ou 17 anos, é uma fase normal na vida de uma pessoa. Esses 4 anos ajudaram nesse processo de me conhecer melhor como música e como pessoa. Este CD é um produto desse periodo: de todas as pessoas com quem toquei, todas as experiências que tive, pessoas que conheci, da descoberta da minha voz e onde melhor ela se enquadrava – eu cantava rock e pop na altura, foi aí que começei a cantar mais jazz.

Por vezes, certos músicos vêem esse tipo de aprendizagem como apenas um mero acrescento de formação no seu percurso, mas no teu caso foi bastante diferente.

Foi, se fosse mestrado seria só um acrescento, mas era a primeira vez que estava a estudar música, foi uma mudança.

Quando é que te apercebeste da tua capacidade de compor e criar algo só teu, além do tocar e cantar músicas existentes?

Nem sequer pensei bem nisso. Quando começei a tocar guitarra, fazia sentido para mim. Pegava na guitarra e reproduzia o que ouvia na rádio, mas para mim ela era um meio de composição, sempre fiz as duas coisas de uma forma muito natural. Nunca me forçei a escrever, e acredito, pelo que já vi, que normalmente quem escreve nunca se forçou a tal tarefa. É uma coisa que o instrumento nos pede, o que acontece é que as pessoas começam a crescer e a ter medo de compôr, e às tantas existe uma barreira criativa. Não significa que não consigam escrever mas que não têm o à-vontade para o fazer. Quanto mais tempo esperamos, mais difícil isso vai ser.




Ao compores, pensas num artista específico e que gostavas de fazer uma música dessa forma, ou as ideias surgem um pouco do nada?

Depende. Uma vez escrevi uma bossa nova e pensei que gostava mesmo de fazer um tema como o Tom Jobim. E a bossa nova é toda muito parecida com os temas dele. Acontece a nível pontual, ainda ontem ouvi um espiritual negro que gostei muito, e achei que boa ideia criar uma versão mais jazzística disso mesmo. Há sempre coisas que me inspiram, mas também há outras que começo a tocar e não estou a pensar em ninguém nem em nada. Devemos estar sempre atentos a qualquer tipo de inspiração, os músicos, quando criam, têm sempre uma parte de imitação/recriação e isso nunca se consegue evitar, por menos que se pense noutros artistas.

Ficaste em 3º lugar na edição portuguesa de 2003 dos Idolos. Isso foi um incentivo grande para tu apostares numa carreira como música ou já era algo planeado?

Já estava na cabeça. O que os Idolos me trouxeram foi a certeza de que eu não estava pronta, musicalmente, naquela altura. Tive vários anos em que não conseguia ver as minhas performances por achá-las horríveis, agora olho para trás e acho que era normal e que tinha muito para melhorar. Depois do programa, percebi que precisava de ir estudar e perceber quem era mesmo musicalmente.

A tua música tem um toque mais intimista, de concerto pequeno.

Eu adoro concertos pequenos!

Sim, é o estilo de música ideal para esses. Mas será que isto pode ser uma condicionante, para chegar a um público vasto, a um grande número de ouvintes?

Acho que não, hoje em dia há tanta gente a fazer música mais intimista e que na mesma têm muitos adeptos. Recentemente, fui ver o concerto do Michael Bublé no Pavilhão Atlântico e estava a pensar “não sei se gostaria de tocar aqui”. O som não é feito para algo do meu género, e eu gosto de ver o fim do teatro, do pavilhão. O sítio ideal para mim, para tocar, são teatros antigos e bonitos, pequenos mas com história, em que consigo ver tudo lá atrás. Espaços como o Pavilhão Atlântico parecem tão pouco pessoais, isso faz-me preferir sítios mais reduzidos em tamanho. Talvez daqui a uns tempos, se tudo correr bem, pense de forma diferente, mais em grande, mas gosto mais de tocar em locais mais pequenos.some_text


Tocas e cantas num tom muito jazz. O que achas do que se faz nessa área em Portugal? Se as pessoas ligam ao género, se as bandas o tocam?

O que se faz de jazz é muito bom. Ouvi o último CD do Mário Laginha e é muito bom, gosto muito de Bernardo Sassetti, adoro a Maria João.. Para mim das melhores cantoras, acho incrível o trabalho dela. Na Berklee, dizia que era portuguesa, e os meus professores, que tocam com o Paul Simon, são grandes fãs da Maria João. Quando me fui embora, falavam-me dela e eu não conhecia bem, pelo que decidi ouvir tudo o que ela fez. Acho que temos pessoas muito boas. Quanto ao valor que as pessoas dão ao jazz, eu diria que o dão, os concertos estão cheios! E penso que estão a ouvir cada vez mais, o jazz começa a aparecer em restaurantes, cafés, onde não passava tanto. Mais rádios a dar temas do género.. Tenho amigos meus a mostrar-me música que nem sabem que é jazz mas é, artistas como o Jamie Cullum, que toca standards de jazz, com uma voz rockeira, rouca, e que já é mais conhecido.

Estás a começar agora, o CD está aí a chegar ao mercado. Além da Universal, que aceitou muito positivamente o teu trabalho, que feedback tens tido nos últimos tempos?

Sim, até agora tem sido tudo bom. É difícil de ver porque as pessoas ainda não ouviram bem o cd, ainda não viram bem quem eu sou, e elas precisam uma imagem para começar a ter uma opinião formada. Mas tudo o que recebi até agora tem sido muito bom.

Que concertos podemos esperar da tua parte nos próximos tempos?

Tenho concertos agendados para as FNAC de todo o país, no início de Maio vai ser o concerto de lançamento, na primeira semana do mês.

Ver e ouvir aqui as suas músicas




terça-feira, 1 de março de 2011

Uaninauei



Uaninauei é o nome peculiar com que Daniel Catarino nos brinda com mais um dos projectos musicais que integra, entre Long Desert Cowboy, Oceansea, Landfill, Seven Thousand. Desta feita, apresenta-nos um hard rock já a escorregar para o Metal, sempre cantado em português.

É muito bom o som que é produzido por este grupo, muito crú, muito puro, muito directo. É um rock pesado, sem manhas e que vai directo ao assunto. Não há solos espectaculares mas sim riffs cheios de brilho, não há uma voz super poderosa mas há letras capazes de fazer comichão a qualquer um, e no meio disto tudo um ritmo e forças constantes.

Muitas bandas arriscam a opção de passear entre o rock mais pesado e o metal, às vezes acabam por não agradar a nenhum dos lados, mas no caso dos Uaninauei pode-se constatar uma história diferente. Eles exploram imenso essa corda bamba e o perigo que ela representa, sempre com grande mestria, o ouvinte nunca sabe em que ponto está e isso não é fácil de se fazer.


O resultado é este álbum, Lume no Chão. Fica registada, por tudo o que foi dito, um grupo que, tendo em conta uma certa estagnação musical dos dias de hoje, ainda consegue pegar em tendências já gastas e abusadas e torná-las, outra vez, novas. O single Chamas em Mim é sem dúvida a melhor canção, tendo em conta esta crítica que lhes foi feita.




segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

bueno.sair.es - Separador Santinho

Banda de Penafiel com influências da língua espanhola no seu repertório, apresenta-nos um indie muito dançável, não só pelo ritmo frenético que imprimem nas músicas mas também graças aos sintetizadores muito anos 80 que fazem parte da sua imagem de marca. Apresentam o seu disco, o Separador Santinho, tanto com canções como com declamações de histórias musicadas, fisicamente trazido ao mundo através de uma caixa feita com material reciclado e flanela.




Um design pouco comum para uma banda com música mais abrangente do que se possa pensar. O seu estilo foi também reconfigurado como pop-ish post-punk. Faz sentido, as forma como é cantado leva-nos para um eléctrico powerpop e os sintetizadores remetem-nos para algo mais Joy Division. A acompanhar não podia deixar de estar um baixo que dita as ordens rítmicas ao resto dos seus companheiros, complementado por riffs de guitarra que lembrar algo mais pesado que o puro rock. Quando as histórias são narradas, é nos oferecido uma atmosfera tranquilizante e ideal para escutar a narrativa.

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O disco tem um toque muito latino no sentido de abranger diferentes aspectos do ser latino, neste caso a língua portuguesa intercalada com a espanhola. O vídeo de "Osso" já rodou na Sic Radical e o respectivo áudio deu-se a mostrar na Antena 3. E já há bom feedback de algumas referências hispânico-falantes, projectando uma boa recepção deste projecto além-fronteiras.









quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Orelha Negra



No meio de tanta especificidade musical, este é um projecto que celebra a música no geral, de uma forma revivalista e futurista. Não se escolheu um determinado género, só uma banda, apenas um artista ou grupo de artistas, para homenagear neste projecto. Apela-se à pluralidade das tendências e à música como motivo para encarar a vida, de uma forma dançável, bem disposta, sempre em movimento, sem escolher um único caminho mas escolhendo todos ao mesmo tempo. Apesar de toda esta wideness, o respeito pelos pais do hip hop, funk, soul, enfim todos aqueles que foram e ainda são dotados de uma apurada Orelha Negra, é enorme, e essa é uma das mensagens que passa, de que devemos respeitar os pioneiros, agradecendo tudo o que eles nos trouxeram, a partir do seu tempo.

Os elementos do grupo já eram parte integrante da banda que acompanhava Sam The Kid nos seus concertos ao vivo, pelo que simplesmente se juntaram para criar algo de raiz. Afirmam que "na forma, os Orelha Negra são hip hop, mas, na essência, são mais do que isso". Hip Hop old school, funk, electrónica e rock, de tudo há neste aglomerado sem fim. A variedade permite obter resultados óptimos e, no fim, alcançar um público muito mais generalizado. A forte carga instrumental é um risco que um projecto toma, mas que até agora tem os seus frutos, indo assim ao encontro da intenção de improviso da banda, permitindo muito mais criatividade. Nada se perde ao terem uma voz baseada em samples.





A banda tem uma vertente extra-musical interessante, usando e abusando do "Sleeveface" para se apresentarem ao mundo, por uma questão de valorização do grupo e não do individualismo, destacando a importância do contributo de cada um para o enriquecimento do projecto como um todo.

Pode-se achar que esta banda tem o destaque que tem pela rodagem que Sam The Kid tem no circuito nacional, mas aviso os mais cépticos que aqui, sim, há talento. São músicos altamente experientes na sua área, e com elevado sentido de estrutura musical (e abertura À sua diversidade), sendo que só assim seria possível criar, com tanta segurança e firmeza, uma sonoridade com este gabarito.

O ano passado foram um dos 5 candidatos a Best Portuguese Act. Em "LORD", temos surf rock misturado com electrónica, em "A Cura" há um cheirinho a electro hard rock. Se gostam de géneros standard, não podem de todo confiar nos Orelha Negra, eles estão a desafiar o estigma dos rótulos do nosso panorama musical, e ninguém os pode parar, facto perceptível nos primeiros segundos das suas faixas.




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Guta Naki



O nome pouco habitual deixava adivinhar uma sonoridade estrangeira, algo pouco nacional e muito experimental. Ora nenhum dos três está certo,após se ouvir este trio de Lisboa. Fala-se muito ultimamente de pegar na tradição musical portuguesa (Diabo na Cruz, Deolinda), de uma forma mais ou menos directa. As bandas que o fazem pegam sempre nisso de uma forma moderna mas sem desafiar assim tanto os princípios do nosso "folk". Os Guta Naki foram por outra via, mais arrojada.

É cantar português que se ouve, mas a novidade está num electro pop com uma intenção muito influenciada pelo fado. Não nos instrumentos usados pelo fado, nem pela temática das letras, mas pelo tom escuro das músicas. Descrevem-no como "Um fado electrónico com baixo e guitarra…eléctricas", conceito tão claro em "Blues". É uma nova perspectiva no tratamento do som português e sem dúvida uma forma completamente original de concretizar essa intenção.




Um elemento muito importante é a voz da vocalista, Cátia Pereira. A interpretação é extraordinariamente invulgar. Controla, da forma como bem lhe apetece, o volume da voz, tanto chora como grita, tanto é doce como magoa, além de uma dicção perfeita. Por vezes, até nos premeia com rasgos mais soul, com a voz mais abafada. Numa altura em que programas de televisão em busca de grandes vozes imperam, é incrível como vozes destas passam ao lado de toda aquela mediatização.

Outro pormenor interessante é a forma como a banda lida com a percussão, não recorrendo à normal bateria mas sim aos sintetizadores. Em "Blues" nem existe, em "Margarida" sente-se o tom electro da banda (apenas na percussão contudo). Tanto tende para o standard acústico como é usada em modo super-synth.


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Estão em tour pelo país, e para quem está a aderir á moda do "Espera aí que estes cantam em português e até soam bem", esta banda é incontornável, sendo um desperdício não lhe dedicar uns bons minutos a escutar o que têm eles para nos oferecer!




domingo, 20 de fevereiro de 2011

Aurea - Concerto 20/02, 17h, FNAC CascaiShopping

Áurea, a nova voz soul portuguesa, vai actuar na FNAC do CascaiShopping, hoje, dia 20, pelas 17 da tarde. Talvez um pouco fora de mão para os habitantes de Lisboa, mas a FNAC transmite o showcase em directo, no perfil do seu facebook.

Oiça, aqui em baixo, as músicas da cantora que chegou recentemente ao 1º lugar de vendas em Portugal. Uma voz impressionante, com o feedback merecido.




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Diabo na Cruz


Rock / Folclore

Tendo em conta o objectivo deste blog, seria desprezível e quase negligente não falar dos Diabo na Cruz. Muito já se falou deles, pouco já há a dizer. Ou será que não há mais nada a dizer? Há pois. Não fossem eles a nova vanguarda da música portuguesa. Fazem parte de uma geração de músicos que finalmente valoriza a tradição musical portuguesa, sem esquecer a actualidade musical do século XXI.

Quer nas letras quer nas músicas se percebe esta ponte. As letras são em português e retratam um mundo menos urbano e um universo lírico não tão actual como a atitude da banda. A musicalidade é tocada com guitarras eléctricas e arranjos para as mesmas que podiam ser tocados nos Strokes ou em qualquer banda de Garage Rock, mas não, aqui toca-se música portuguesa - verdadeiramente falando.




A nível de sonoridade, há dois aspectos fundamentais a destacar: as segundas vozes e a braguesa. O primeiro dá um tom tradicional a nível das vozes, até diria celtibérico aos arranjos vocais. O segundo completa a influência da tradição musical do nosso país, tendo o jeito corrido do cavaquinho e o som doce e reconfortante da guitarra portuguesa.

Os músicos que constituem a banda não são amadores nem iniciados no ramo. Jorge Cruz, o vocalista, já anda no mundo da música há mais de 10 anos, tendo tido outros projectos colectivos e um a solo, sem o sucesso do actual. B Fachada tem nome no actual panorama nacional, a solo. Contam com a participação de Sérgio Godinho na faixa "Combate com Batida", em que nos apercebemos que este grande vulto da música lusitana deveria ter feito parte da banda, pela forma como a sua dicção e forma de cantar se assemelha à atitude dos Diabo na Cruz.



Ao vivo, são uma explosão de boa disposição, sabendo comunicar com o público, sabem cantar e tocar como o público quer, e de alegria dançável, mas o que eles melhor transmitem é o orgulho em ser português. Cantam na língua mãe, e Jorge Cruz canta bem, falam da cultura portuguesa, da vida portuguesa e do ser português em geral. Brincam, retratam, criticam, enaltecem, mandam abaixo.


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Dada esta mescla entre o passado e o futuro da música, são, sem tirar mérito aos Homens da Luta, a melhor escolha actual para o festival da Eurovisão, em que os grupos que mais têm sucesso pegam sempre na mesma fórmula de sucesso: música tradicional entranhada em música actual. Os Diabo na Cruz não nos deixariam mal.




terça-feira, 5 de outubro de 2010

Orangotang

As Minhas Fotos | Orangotang



Indie Rock

E como sabe bem ouvir bom rock em português. Cada vez mais complicado este tipo de bandas singrarem dados os facilitismos à música de fraca qualidade do mercado musical português. Mas ainda assim temos estes bons exemplos. Os Orangotang vêm do norte do país e trazem-nos este Indie Rocl tão bem tocado e cantado. Principalmente o cantado, porque como já disse, é a cantar em português que se vêem os bons escritores de música, pois em inglês qualquer um o pode fazer, parece que soa sempre minimamente bem.

A sua sonoridade prima pela frescura que dá ao indie, pegando nos seus elementos principais e não inventando muito. O que é bom, por vezes vemos as bandas indie a entrarem por caminhos estranhos, tendo em conta o percurso que fazem até essa eventual viragem. Com  isto quero dizer que este tipo de bandas, dada a popularidade que por vezes as atinge, decidem fazer um desvio na sua rota musical, como que para se cingirem apenas aos mais fanáticos apoiantes. A intenção não é essa, a escolha musical diferente é da conta dos próprios, mas a verdade é que se perde sempre um pouco da intenção inicial. Não tem mal nenhum ser uma banda popular, desde que seja pelos bons motivos, pela boa música que fazem, pela sua originalidade.

A nível musical é de aplaudir o super aproveitamento das linhas de baixo, simples e cruas, mas sempre muito presentes e controladoras do fio condutor da música. O rock por vezes têm o defeito de ignorar as potencialidades do baixo e das suas características, mas aqui isso não acontece, e está a vista o resultado, uma música muito marcada nas alturas certas, com o baixo sempre a mostrar como é que tal coisa se faz. As guitarras tomam um papel típico do indie, riffs orelhudos, solos simples e marcantes, um papel um pouco mais fácil mas nem por isso menos relevante.

Continuando o que disse ao início, a voz. A voz! O português tão bem cantado pelo vocalista desta banda, palavras simples, descomplicadas e acessíveis, linguagem que todos percebem, e é por isso que soa mal? Não. Talvez seja essa a chave. São bandas destas que nos fazem orgulhar da nossa língua, soa tão natural que acaba por fazer parte da música sem hesitações e sem solavancos.

http://www.myspace.com/orangotang




terça-feira, 8 de abril de 2008

ENTREVISTA: Linda Martini


Lançaram agora o novo EP, "Marsupial". Farto-me de o dizer: são a grande esperança musical do nosso país. Será exagerado dizê-lo? Quem me nega, não os ouviu de certeza. Talento em português, inovadores e muito. Eis esta grande banda em discurso directo!

1 - Linda Martini: contem-nos como começou a vossa história.Tínhamos todo estado juntos noutras bandas. Não ao mesmo tempo, mas dois a dois, três a três, etc. Tínhamos em comum a frequência habitual em concertos de hardcore desde o meio dos anos 90. Depois das tais bandas em comum e quando decidimos procurar outro tipo de coisas que não hardcore, chegámos a Linda Martini, em 2003.

2 - A vossa sonoridade é, de facto, bastante original. Quais são afinal as vossas influências?
De tudo um pouco. Nick cave, sonic youth, portugal the man, lack, beastie boys, at the drive-in, gybe!, etc...

3 - "Olhos de Mongol" e "Marsupial" são muito diferentes?
Ainda bem que achas ou o nosso esforço teria sido infrutífero. :) Não queremos estar a fazer as mesmas coisas disco atrás de disco e foi isso mesmo que procurámos com este disco. Acho que conseguimos o que queríamos.

4 - Têm bastante apoio pelo MySpace. E fora disso, quanto a editoras, media, outros meios de suporte e de divulgação?
Temos uma agência linda que nos dá imenso apoio, não só a nível de management, como de marcação de concertos e assessoria de imprensa. Estamos felizes com isso, porque assim não é imprescindível estar numa major para ter o tipo de promoção que pretendemos.

5 - Algum projecto nacional e internacional musica que queiram destacar?
Todos os do black sheep. If lucy fell, men eater, riding panico, vicious 5, lobster.

6 - Qual foi o concerto que mais gostaram de dar até hoje?
Em termos gerais, o paredes de coura. Foi dos dias mais felizes das nossas vidas enquanto banda. Tocar naquele anfiteatro cheio até lá acima às seis da tarde, é qualquer coisa de mágico.

7 - Está para breve algum novo videoclip?
As ideias estão a fluir. Agora falta sentarmo-nos todos e definirmos realmente como se vai processar a coisa.

8 - E participações em festivais, vão acontecer?
Boa pergunta. Mas essa não devia ser feita a nós. Estamos a trabalhar para isso, mas o timing dos anúncios das bandas portuguesas ainda não chegou. Mais para a frente todos saberemos disso.

9 - Um novo cd, uma fan-base crescente, um prestígio em crescendo também. Que mais podemos esperar dos Linda Martini?
Música. Seja em discos, seja em concertos. É a única coisa que nos move. Agora queremos promover este disco e conseguir fazer um novo até ao fim do ano. Vamos ver se conseguimos...

MySpace: http://www.myspace.com/lindamartini

Site: http://www.lindamartini.pt




domingo, 30 de março de 2008

CONCERTO: Linda Martini



Os Linda Martini actuaram ontem, na Zé dos Bois do Bairro Alto, para apresentar o seu novo EP, "Marsupial".

"Ouve-se a mudança na maturação, nas notas que ganharam cãs. No primeiro som há na garganta um corte de ar. Tudo soa ao ácido da infância que agora não acreditamos que existiu, que matámos com sorrisos quentes de um corpo ainda não nosso, arrastado num slow. Começamos a tirar agora as máscaras dos dias quase felizes. Molas de madeira que prendem no estendal os resquícios dos anos, dos cheiros, dos sons e cores… a corda? A corda de sisal, do estendal, cria em movimento gémeo ao som. Pequenos rasgos na pele, por cima da cicatriz que acabou de fechar. São outros os dias que nos prostituem o corpo e fazemos contas às rugas, numa só mão, que valeram a pena."

Este texto, no myspace da banda, sobre o novo EP, mostra de uma forma perfeita as faixas que nos foram dadas a conhecer no espectáculo de ontem. É óptimo saber que a sonoridade de uma banda se mantém nos seus pontos fulcrais, mas que evolui para uma mais abrangente atmosfera. A isso podemos chamar de amadurecimento musical, em pleno. O concerto em si teve o apoio infinito do público, que cantou e viveu aquela hora com imensa intensidade. Banda e fãs estavam de mãos dadas, numa apoteótica união.

Diria que os Linda Martini têm tudo para ser réis - e rainha - da nossa música. O espírito presente na sua sonoridade lembram-me uma Portugalidade soturna, triste, deixada por uma Lisboa órfã de passado e de futuro. A voz a fazer lembrar o fado, no seu tom mais negro. A voz a cantar a melancolia da vida. As guitarras e o baixo a esticarem a nossa noção de consciência, brincando com o tempo. Quem não se lembra de Fernando Pessoa, aquela angústia gigante, aquela criança perdida algures. A bateria a dizer se devemos correr ou ficar parados a pensar. No depressa ou devagar. São uma grande banda, que fazem grandes músicas, e que só podem ter um grande futuro, nesta mistura de tudo o que é rock.

MySpace: http://www.myspace.com/lindamartini

Site: http://www.lindamartini.pt




quinta-feira, 27 de março de 2008

Peixe : Avião



O ser humano deve ter um problema qualquer em relação ao indie pop ou ao pop em geral. Pode ser tão fácil rejeitá-lo. Chegamos a dizer que não conseguimos ouvir certas músicas pop. Mas todos temos uma veia pop, e ela puxa bastante por nós e pelos nossos sentidos quando a música em questão, os músicos em questão, a sonoridade em questão, é boa. Boa do género: ouvimos e queremos ouvir mais, saber mais.

Isto é um fenómeno que por vezes também acontece com a música portuguesa em si: há certas músicas que não somos capazes de ouvir, mas basta aparecer algo que gostemos minimamente e tendemos para a admiração intensa. "Peixe : Avião". Como assim, peixe-avião? Peixe avião? "Aprender a voar, mesmo sem penas, através da imaginação. Fluir como nadar, mesmo na ausência de água, através do pensamento.", dizem eles. Dizem bem...

Destaque também para o bom uso da língua portuguesa. Por menos que se goste da música, acho que qualquer cidadão português gosta de não ter de fazer aquela tradução inconsciente das músicas quando as ouve em inglês. Em português não é preciso, e o nosso cérebro sente logo isso. A música só tem que entrar nos nossos ouvidos! Por vezes todos os fãs de música portugueses esquecem isso mas é preciso recordar o bem que sabe ouvir música na nossa língua mãe. Ainda para mais quando o português é bem usado e ao mesmo tempo arrojado.

A electrónica toma com eles formas flutuantes mas voadoras simultaneamente, que nos fazem tanto ir ao céu como ao fundo do mar. A certa altura tocam num psicadelísmo muito próprio, através da rara conjugação de instrumentos velhos e novos, arranjos frescos e gastos. As guitarras são as suas boas companheiras. Arranjos simples e crús mas tocantes, as guitarras passeiam-se nas músicas sem que quase não se dê por elas. Todo o percurso ao longo da música é adornado com as mesmas. Sem exageros. A voz percorre-nos de uma forma doce, segredando-nos aquilo que queremos ouvir. A língua portuguesa soa tão bem, faz-nos orgulhar do nosso próprio vocabulário.

Ao ouvir, lembrei-me um pouco de Keane, de Radiohead, acima de tudo lembrei-me de que vou ter que ouvir Peixe : Avião mais vezes. A nivel nacional conseguimos também descortinar um certo toque mais suave dos Linda Martini e uns Ornatos Violeta a tocar baixinho num quarto próximo. Mas o melhor a retirar daqui é o que esta banda está a criar: uma imagem própria. Isso acontece quando um grupo parece que está a fazer o que aquele e outro já fizeram, mas as tantas já se soltou dessas amarras musicais e já se liberta para os seus próprios caminhos. Os PA pegam em algo que já foi feito mas que não é nenhum dos dois. Nem no ar nem na água!

MySpace: http://www.myspace.com/peixeaviao




ENTREVISTA: Orangotang


Os Orangotang dispensam apresentações. Há muito que se encontram no Top 10 dos projectos musicais interessantes tocado por portugueses e cantado em português. Deram-nos a conhecer o seu estilo com Propaganda, dos quais ficaram no ouvido "Só", "Lâmpada Azul" e "Fome". A dose de boa música não fica por aqui e vem aí novo álbum, "Surto Mudo", do qual já está disponível para se ouvir "Decide".


Como é que correu a "Propaganda" do vosso 1º álbum? (reacções, expectativas que tinham, se elas foram correspondidas, ultrapassadas, concertos, públicos)

Penso que correu muito bem, foram mais de 60 concertos, tivemos o single Lâmpada Azul durante todo o ano com um airplay bastante significativo principalmente na Antena 3, fomos convidados para participar no 3Pistas também na Antena 3, tivemos participações em programas de televisão e claro, tivemos um feedback enorme e através do nosso myspace, foram milhares a apoiar-nos e a fazer o download das canções.
Conseguimos também fazer uma série de concertos em Espanha onde participamos também num Festival de Verão.

Pela vossa experiência, como acham que está o mercado musical, cá em Portugal?

Quanto ao mercado das vendas de cds, acho que está a passar pelo mesmo problema que existe no resto do Mundo: as pessoas não compram música como antigamente, fazem downloads em massa, quase sempre ilegais; no entanto este efeito de globalização e de fácil acesso a tudo também veio abrir portas a outras formas de divulgação, uma banda muito pequena pode, pelos seus próprios meios, chegar a muita gente se usar sites como o myspace e outros. Há muitos casos de sucesso que começaram por aí.
Um exemplo de que este negócio está a mudar é o facto de em Portugal as editoras multinacionais terem fechado as portas.

Consideram-se enquadrados em algum género musical específico?

Penso que fazemos um tipo de música que se encaixa no estilo Pop Rock.

Quais as vossas influências, quer a nível musical, quer a nível de cultura, a nível geral? (outros tipos de arte, caso haja essa influência)

Tivemos como principal influência os Cure e os Clash nos 80, mais tarde a BritPop com o movimento de Manchester que tinha os Stone Roses, os Primal Scream e os Happy Mondays como principais pontos de interesse, depois também “sofremos” a influência do grunge como é natural. Neste momento, cada membro tem as suas influências: podem ir desde Antony and the Johnsons até aos The New Puritans passando pelos The National de regresso ao Bruce Springsteen....

A partir de quando é que começou a pensar-se num novo álbum dos Orangotang?

Antes de terminarmos o Propaganda já tínhamos canções para o próximo álbum.

O 1º single lançado do vosso novo álbum parece mais "dark" que o habitual, mesmo até que "Lâmpada Azul". Que podemos esperar deste próximo registo?

Tem menos produção, menos sintetizadores e por essa razão é um pouco menos “doce”. Está menos produzido, no sentido em que há mais som de guitarras directas de amplificador para micro, praticamente sem efeitos, as baterias são mais naturais mas em termos de composição, penso que este trabalho continua a ser, tal como o Propaganda, bastante pop.

Temos, actualmente, projectos musicais em Portugal com nível para estarem num patamar mais alto àquele que estamos habituados. Que bandas gostariam de destacar, neste contexto?
(e porquê?)

Neste momento, o que gosto mais de ouvir é o projecto Rita Redshoes e o último álbum do David Fonseca. Gosto também de Linda Martini, qualquer um destes artistas/bandas tem grandes canções, canções que são grandes em qualquer parte do mundo.

MySpace: www.myspace.com/orangotang




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