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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

DEAD COMBO - "A Bunch of Meninos" (2014, Universal Music Portugal)




Tó Trips e Pedro Gonçalves voltam após três anos de ausência, pelo menos em registo gravado, já que 2013 ficou marcado pela digressão que assinalou os dez anos da banda. “A Bunch Of Meninos” é o título do novo álbum dos Dead Combo, lançado em parceria com a Universal Music Portugal e conta com convidados como Alexandre Frazão (bateria e percussão) e António Serginho (percussão).
Para aqueles menos familiarizados será necessário relembrar a base deste duo, onde desde os primeiros trabalhos editados se destacam as influências de sonoridades western que se combinam com ritmos e referências ao fado, numa espécie de ode à natureza humana. 





O registo de “Waiting For Nick At Rick’s Café” serve perfeitamente para tal - abrindo o disco num tom que, não sendo do Velho Oeste nem da Madragoa, consegue servir um qualquer Rick’s Café em qualquer um dos lugares. Destaca-se o sempre ambiente envolvente, onde os riffs ou solos não são iguais a outros já ouvidos, mas ao mesmo tempo parecem ser os de sempre, aqueles aos quais nos fomos habituando e que tão confortavelmente nos vão preenchendo a alma.
E se o som do Faroeste se continua a sentir intensamente nas cordas de Tó e Pedro, não deixa igualmente de ser verdade que ao longo dos últimos trabalhos o mar que os separava da música feita na ponta da Europa se tem vindo a estreitar cada vez mais, como que na construção de um registo que, sendo do mundo, é ao mesmo tempo facilmente identificável com a banda e se desapega dessa espécie de rótulos anteriormente mencionados. 

Há pontos típicos que têm tomado forma desde o início e se tornam, por essa razão, icónicos. "Miúdas e Motas", por exemplo, transmite todo o atrevimento que os Dead Combo imprimem em algumas das suas músicas, onde as guitarras se vão misturando numa espécie de dança que alterna entre a provocação e a suave cortesia. "Waits", logo de seguida, prolonga esta dinâmica, permitindo com a entrada da percussão e da melódica a liberdade à guitarra em experimentar outros territórios.





A identidade que cada música toma com o nome que lhe é atribuída tem-se tornado um dos aspetos importantes de cada álbum do duo. Em “A Bunch Of Meninos”, além das já habituais quebras de barreiras entre diferentes línguas, há aquele inenarrável explorar de uma marca da Lisboa, parte de um país também ele às camadas, que não se dobra, onde podem ser destacados os curiosos “B.Leza”, que pelo menos obriga qualquer português a dobrar a língua perante o toque “abrasileirado” que a letra e o ponto dão à palavra se ainda não põs os pés naquele espaço, ou a "Dona Emília" que será com certeza o furacão do seu bairro e também do pó que a ZdB acumule. Além disso, parece não existir obrigatoriamente um sentido no alinhamento das diferentes faixas que compõem esta espécie de soundtrack - podia perfeitamente ter início com "Povo Que Cais Descalço", por exemplo, que tal serviria, apesar do registo mais aproximado ao tradicionalismo português, para fazer a vez a "Waiting For Nick At Rick's Café".






A não habitual percussão, pelo menos fora do que o corpo humano suporta sem instrumentos, já anteriormente referida comporta um peso importante no álbum, sendo provavelmente a grande novidade que é capaz de destacar algumas músicas. "Arraia" é talvez o melhor exemplo de tal, com uma energia que faz recordar, por exemplo, aquele concerto de Paredes de Coura em 2012. A própria faixa homónima do disco, apesar de comportar uma guitarra muito mais destacada, surge com uma dinâmica completamente diferente onde parece ser mais fácil a Tó Trips desenvolver solos não tão trabalhados ou complexos, mas com um leque experimental muito mais alargado. Não menos atenção merece "Mr. Snowden's Dream": se a bateria que entra quase a meio da faixa faz jus à misteriosa carga sonora criada até então, é igualmente verdade que a presença do som do metalofone e a sua melodia hipnotizante remete a um universo quase fantasmagórico que a banda sempre soube caracterizar.

“Hawai em Chelas” fecha o disco com sonoridades que remontam novamente à eterna Lisboa das sete colinas, numa balada onde se pode sentir uma espécie de Carlos Paredes vagabundo nos dedos de Tó Trips. A melodia é sempre envolta em lume alto, tal como o paraíso no Pacífico ou a ilha de Chelas há alguns anos atrás; num segundo estamos a surfar Waimea, no seguinte a percorrer a selvajaria urbana.
Afinal são estes os Dead Combo, do Mundo, influenciados por ele e criando a banda sonora para quem nele vive, independentemente de "onde".



João Gil




segunda-feira, 9 de junho de 2014

NOS PRIMAVERA SOUND 2014 - DIA 0 E DIA 1

É sempre fatídico; durante a época primaveril dos últimos três anos, todos os caminhos nos têm levado ao sítio do costume. E não, não falamos do poderio bélico romano – é já unânime olharmos para o Parque da Cidade, Porto, como um espaço de convívio e devoção onde a linguagem é universal. Fala-se, respira-se e sente-se música. Outrora Optimus Primavera Sound, o agora NOS Primavera Sound encarregou-se de nos trazer uma vasta quantidade de nomes assinaláveis ao longo dos três dias de festival (caso para dizer que a tradição se cumpriu). A novidade deste ano na programação do evento deu-se com uma Primavera nas Virtudes, onde os portugueses Sopa de Pedra e os Dead Combo tiveram a honra de dar as boas vindas aos festivaleiros.

Chegámos às Virtudes depois do concerto de Sopa de Pedra e ainda a tempo das primeiras canções de Tó Trips e Pedro Gonçalves. Repletas de gente, as Virtudes revelaram-se uma paisagem perfeita para o sentimento mais do que português que os DEAD COMBO fazem brotar a cada instante sem que para isso o tenham de restringir à ponta esquerda Ibérica – o perfil norte-americano também está sempre presente (o western, o blues e o jazz), assim como as tonalidades figuradas pelo ritmos quentes oriundos de África. Jamais lhes poderíamos chamar A Bunch of Meninos, título do último disco da banda lisboeta. No mínimo, seriam A Bunch of Senhores – senhores amigos do sol e do revestimento solarengo que estabelecem em cada um dos sorrisos que se vão esboçando na cara de quem os vê, senhores maduros e senhores de si. Sangue lusco a correr-lhes pelas veias como quase ninguém, tocam “Esse olhar que era só teu”. Faz sentido; ser português é nunca comer queijo, é comer barras de nostalgia que teimarão sempre em não se desvanecer da nossa despensa. Habitualmente, não desiludem. Ali também não o fizeram: o coro imitador do ritmo de “Lisboa Mulata” assim o confirmou. Grandes.



Depois de um fogo-de-artifício a dar as boas vindas ao NOS Primavera Sound, depois de terminado o dia zero do NPS, depois de umas horas de descanso e de, para os mais sortudos, uma francesinha no bucho ao almoço, o Parque da Cidade decidia abrir as portas. Entrámos a horas mais do que decentes de ver OS DA CIDADE, dupla que reúne, entre outros, Miguel Araújo (d’Os Azeitonas) a António Zambujo. Em fachadês, diz-se que vocês curtem é Zambujo. Acaba por ser verdade: Zambujo tem construído uma carreira sólida e tem conseguido captar muita atenção por parte de um público que tem teimado em parar de crescer. Sobre Araújo e os Azeitonas, idem. Juntos, existe ainda uma possibilidade maior de chegar a mais gente. Embora a sua identidade não fosse muito semelhante à porrada de nomes que iriam encher o NPS, a verdade é que o concerto que abriu oficialmente o festival portuense correu bem. Por entre as piadas de que as gentes só lá iam par ver Caetano Veloso, desvendaram-se alguns temas de Zambujo ou d’Os Azeitonas interpretados em conjunto por todos aqueles que eram da Cidade, mas também foi possível a alguns bons momentos de descontracção onde se parafraseou algumas das canções icónicas da música portuguesa: “Dunas” ou “Não Há Estrelas No Céu” foram apenas algumas delas.



A língua portuguesa foi quem mais reinou nos tempos primórdios da edição de 2014 do Primavera Sound versão portuguesa; RODRIGO AMARANTE, por volta das 19h, chegou ao palco Super Bock para nos trazer Cavalo, um dos discos mais vistosos do ano passado. Depois do legado prolífero que construiu com Los Hermanos, Rodrigo Amarante lançou-se à música brasileira em nome próprio e acabou por conferir-lhe uma das melhores coisas que ela viu nascer nos últimos tempos. Simpatia em palco, foi-se desdobrando entre o piano (onde tocou temas como “Cavalo” ou a estrondosa “Fall Asleep”) e a guitarra, entre a língua portuguesa, a francesa ou a inglesa, mas mantendo sempre um sorriso vincado no seu rosto (possivelmente porque Portugal é um dos países onde não se gera uma barreira linguística quando o ouvimos). Tal como nos deixou, o concerto foi um dos mais felizes de todo o festival e isso nem mesmo os momentos mais tristes e cinzentos que canções como “Irene” ou “Tardei” nos trazem apagou. Terminou em extrema beleza: todos brasileirámos (e ainda viríamos a brasileirar mais em Caetano) e dançámos em “Maná”; estava feito um dos melhores concertos do primeiro dia.




SPOON era o nome que se seguia. Sem nunca se transcenderem, os norte-americanos acabaram por dar um concerto minimamente agradável onde os seus tempos mais idos se pautaram como os seus melhores. Apesar de não parecer, Britt Daniel & companhia contam já com mais de duas décadas de existência e a verdade é que em palco isso pouco se nota: a sua sonoridade juvenil e altamente propícia a não ficarmos quietos pesa muito. No fim, não saímos insatisfeitos do palco Super Bock (ao contrário do que, confesso, esperava). Tendo raízes nacionais, SKY FERREIRA era a mulher que todos queriam ver a seguir (em alguns casos, era apenas quem interessava – que o diga a plateia das primeiras filas, raparigas ainda na casa dos 16 ou 17 anos que passaram o tempo a guardar o seu lugar de ouro na frente do palco Super Bock. Night Time, My Time, disco editado em 2013, tinha sido uma lufada de ar fresco na indústria pop e as expectativas para ver um dos nomes da música massiva mais idiossincráticos dos últimos tempos era grande. Felizmente, não fomos defraudados; SKY FERREIRA deu um concerto bastante interessante, mas pouco homogéneo e regular (como, de resto, é o seu disco). É óbvio que o ponto forte da norte-americana prende-se ao modo como suaviza de uma maneira impensável a noise pop que reveste parte das suas canções (paroxismos disso são músicas como “Omanko”, “Boys”, “Heavy Metal Heart” ou a magnífica “I Will”), o resto acaba por passar um pouco ao lado mesmo tendo sido os momentos que causaram uma maior euforia na plateia. Tanto lhe faz, diz “I Blame Myself” ao mesmo tempo que caminha a passos largos para montra da pop – e, para isso, a tour com Miley Cyrus ajudou ao crescimento da sua identidade. Em palco, é elegância pura que nem se vê/mostra e que desmistifica qualquer paradigma da pop; no fim, depois de um belíssimo concerto, só tivemos pena de não ter havido cosplay da capa do álbum. Ah, mas que merda!



A Bossa Nova é foda? Bem, é-o às vezes. Bem, para o dinossauro CAETANO VELOSO parece sempre ser. A passagem de um dos nomes maiores da história da música popular brasileira pelo Parque da Cidade foi monumental e o presságio da bossa nova ser foda foi logo dado na primeira jogada. Abraçaço, disco editado em 2012 e último disco de uma carreira que já conta com mais anos do que quase todos nós, pede uma banda de apoio (o próprio a apresenta como sendo a Banda Cê (C.), mais tarde popularizada como Banda C, Banda do Caralho) que nos leva para bem longe a ideia de ver CAETANO VELOSO em palco desprovido de banda, desprovido de companheiros. Ganhamos e ganhámos todos; sentimo-nos todos amigos, sentimos uma cumplicidade mútua. Exclamámos em uníssono que a bossa nova era foda e jamais, depois de um concerto como aquele, equacionámos mudar a opinião geral. Triste, mas feliz (bem constatável pela parabenização feita logo nos primeiros instantes do espectáculo; não será novidade nenhuma assumir uma veia triste perante as letras persuasivas de Veloso, ele próprio o diz «Estou triste, tão triste. Estou muito triste. Mais triste que o ligar mais frio do rio, o meu quarto», contudo não nos passa outra coisa que não a felicidade quando nos deparamos com a riqueza que Caetano nos traz. Irreversivelmente um senhor-canção, trouxe-nos, para além das canções mais recentes, alguns temas clássicos com óbvio destaque para “Leãozinho” – onde toda a moldura humana foi cantora e companheira. Possivelmente, superando as expectativas de muitos (eu inclusive), CAETANO VELOSO acabou por dar um dos grandes concertos do festival (que todos os abraçaços fossem tão foda como o imaginário que foi estabelecido entre nós e o músico brasileiro) em que, uma vez mais, brasileirámos que nos fartámos.



Superar o concerto anteriormente descrito adivinha-se complicado; as primeiras a tentar fazê-lo (mesmo que o fosse impensável) seriam as HAIM. Fotogénicas, atrevidas e quase horríveis em questões de estúdio, as norte-americanas tinham em Days are Gone o maior leque de trunfos para (tentar) contagiar o público. Totalmente diferentes daquilo que nos mostram em estúdio, mas mantendo sempre um perfil de diferenciação ao longo do decorrer do concerto, as HAIM mostram que respiram mais rock daquilo que se pode pensar e que afinal não são assim tão más (6/10).

Dentro da actualidade do hip-hop mundial poucos são aqueles com tomates suficientes para rivalizar com o poderio de Kanye West; um dessa lista é obrigatoriamente o nome de KENDRICK LAMAR. Tal como aquilo que tinha acontecido em Sky Ferreira, havia imensa gente a guardar os primeiros lugares para o concerto do rapper norte-americano. Subiu ao Palco NOS quando faltavam poucos minutos para que se fizesse chegar a uma da manhã; contrariamente ao que acontece em discos fê-lo com uma banda de apoio para reforçar a vertente instrumental de M.A.A.D City, disco que o catapultou para a ribalta. Rapidamente nos lançou às feras e aos subúrbios de uma região metaforicamente destroçada «Quem quer vir comigo até à West Coast?». 



Fomos com ele sem medos até atracarmos em Compton. Por lá diz-se que ele é rei, mas a figura que este em cima do palco NOS também o foi mesmo milhares de kilómetros de distância a separar os dois espaços. Ver KENDRICK LAMAR em palco com uma banda de apoio foi arrebatador (quase tanto como as histórias avassaladoras de Compton que nos são retratadas incessantemente pelo próprio); assistiu-se a um senhor espectáculo, dançou-se como se não houvesse coisas a acontecer no dia seguinte, fizeram-se vénias múltiplas àquele que, não duvidamos, deixará um legado bem próprio na história do hip-hop. Por entre as canções e uns desaparecimentos do palco por parte de Kendrick para, possivelmente, fumar porrinhos, um olhar por aqui e por ali: liam-se cartazes na primeira fila onde de escrevia “Obrigado por nos trazeres o hip-hop de volta». Não sabemos se ele o trouxe de volta, na verdade suspeitamos que ele sempre por cá esteve, mas jamais poderemos negar que um disco como Good Kid, M.A.A.D. City veio dar um novo ânimo ao hip-hop. Despediu-se com um «I’ll be back, I’ll be back». Vamos esperar, seguramente, mas por agora resta-nos agradecer-lhe (pelo concerto e pelo disco e por, já agora, uma canção como “Sing about me, I’m Dying of Thirst”); estava superada a barreira imposta por Veloso.
O primeiro dia encerraria, pouco depois, ao som dos interessantes, mas inócuos,
JAGWAR MA.


Texto por Emanuel Graça
Fotografias cedidas pela organização
(créditos: Hugo Lima)




segunda-feira, 3 de junho de 2013

PALCO HEINEKEN BUILD UP @ LUX FRÁGIL, 16/5/2013 - REPORTAGEM



Os já confirmados Dead Combo juntaram-se a Paulo Furtado na pele de The Legendary Tiger Man para a apresentação oficial do Optimus Alive nas componentes da organização (Álvaro Covões, Everything is New) e da marca Heineken, forte e habitual presença neste festival citadino. Para além da noite de concertos, ficou-se a saber que os DIIV, os Rhye e os Wild Belle são as mais recentes adições ao cartaz de dia 13 de Julho. The Legendary Tiger Man a 13 e os Brass Wires Orchestra a 14 reforçam o contingente nacional e foi precisamente com os Brass Wires Orchestra que a apresentação do evento, em tom orgânico, ganhou os seus primeiros momentos musicais.
A austeridade, musicalmente falando, afinal dá resultado e os incêndios não são protestos. É assim que blues e rock n' roll saltam de todos os poros de Paulo Furtado, que embora sem grandes novidades no seu alinhamento em relação a actuações anteriores, repescou oportunamente a presença holográfica das suas convidadas de Femina ("Life Ain't Enough For You" e "Light Me Up Twice", Asia Argento e Cláudia Efe) para começar a construir cerca de uma hora de puro prazer. De "Vermute", o novo disco que sai lá para o Outono, conhecemos "A Lifetime Of Your True Love" e da colaboração com os Dead Combo previsível para o Optimus Alive em Algés, saiu toda a areia do deserto de "Let Me Give It To You" de "Masquerade". No esforço final, nem mesmo quem lá estava mais para falar do que para ouvir ficou de pé com os clássicos "I Got My Night Off", "Crawdad Hole" e "Bad Luck Rhythm'n'Blues Machine". A pergunta é sempre a mesma: "Vocês gostam de rock 'n' roll?: então que se lixem os metrónomos.




A gozar de um reconhecimento invejável e gratuito, os Dead Combo sentaram-se no palco do piso inferior do Lux Frágil sendo como sempre "uma das mais bonitas bandas do Mundo", como Paulo Furtado os retratou naquele exacto local momentos antes. Para lhes prestar a devida reverência, é muito mais útil prestar atenção às sempre importantes mas misteriosas descrições que Tó Trips faz de quando em vez e admirar a capacidade de o Mundo lhes pertencer nos dedos, nos sapatos lustrosos e na caracterização comum a muitas das manigâncias e moscambilhas das suas canções. Entre "Rodada", "Lusitânia Playboys" (a história de "dois amigos do jazz que no Cais do Sodré encontram duas miúdas com os seus namorados ao pé"), "Mr. Eastwood", os sucessos vêm, uns atrás dos outros, e as meninas dançam. 


Nunca se saberá que Portugal musical/melómano, mais vasto ou menos, acolheria Tó Trips e Pedro Gonçalves. São pequenos detalhes que juntos mudam o estatuto de uma banda numa audiência de um país, e serão esses mesmos detalhes que calharão em sorte a alguma das bandas presentes de 12 a 14 de Julho no Passeio Marítimo de Algés. Até já.


André Gomes de Abreu
Fotografias por Catarina Abrantes Alves






quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Noites Ritual 2012 - REPORTAGEM



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. A vigésima edição do Noites Ritual realçou uma filosofia divergente daquelas que tinham acompanhado o festival em edições precedentes. Se em edições anteriores, o evento tinha optado por nos mostrar novos ares do panorama musical nacional, com uma maior oferta de bandas, a edição deste ano optou por preencher um cartaz reduzido a quatro bandas já moderadamente consagradas a nível nacional. A juntar ao cartaz, estiveram inúmeras actividades espalhadas pelo Porto, com destaque para o Hard Club, que esteve inundado de workshops que foram conseguindo captar a atenção dos mais curiosos.


O tempo foi passando, e era hora do Palácio do Cristal abrir as portas para se fazer cumprir o mui aguardado ritual pela vigésima vez. O BandCom chegou ao recinto já perto da hora do início do concerto dos Dead Combo, mas com tempo suficiente para se aconchegar à beleza do ínclito Palácio do Cristal ao som das batidas dos Ecosons, grupo de percussão a quem coube a difícil tarefa de entreter milhares de pessoas enquanto a dupla Tó Trips – Pedro Gonçalves se preparava para subir ao palco do Noites Ritual pela primeira vez. Os Ecosons por ali desfilaram com os seus tambores, mas nunca ninguém quis saber, apesar de toda a destreza que o grupo demonstrava. O recinto estava longe, àquela hora, de ter o público que merecia ter, mas, convenhamos que, além de se tratar de um dia da semana, o concerto da banda lisboeta estava agendado para uma hora pouco convidativa, muito em cima da hora de jantar.



Pouco passava das vinte e duas horas, quando chegava o tão aguardado momento: os Dead Combo subiam ao palco onde se iria fazer cumprir o ritual. De rajada, chega-nos a quentura de Rumbero, retirada do álbum Vol. 1. A empatia foi imediata e o público demonstrou-se, desde cedo, disponível a prestar culto àquela que é uma das bandas portuguesas do momento. Seguiu-se uma Sopa de Cavalo Cansado para comburir as emoções e aguçar o apetite do público para o resto do espetáculo, uma saborosa e esplêndida entrada para um dos pratos principais do concerto dos Dead Combo: a Royal Orquestra das Caveiras. Foi já numa atmosfera envolvente que a orquestra foi acolhida. E mal chegaram, aromatizaram o clima com a nostalgia e a panóplia de ritmos africanos patenteada em Lisboa Mulata, fazendo-se soar a interessante Anadamastor. O concerto prosseguiu essencialmente ao som de Lusitânia Playboys, o álbum mais aclamado dos lisboetas. Fizeram-se tocar temas como Cuba 1970, Manobras de Maio ou Desert Diamonds até que Tó Trips nos anuncia que “vai interpretar um grande senhor” e toca Temptation, música do mítico Tom Waits, esboçando o primeiro ponto alto do concerto. Mas só mesmo esboçando, porque de seguida pinta-se o primeiro clímax do concerto da dupla. Traziam-nos toda a ousadia jazz da Lusitânia Playboys, com um saxofone a ser soprado incessantemente, com uns solos de guitarra (e não só) absolutamente irrepreensíveis, entre mais outras coisas. Tudo isto a convidar o público a mexer a perna e dar um pezinho de dança (eu confesso, não me contive). Até ao “fim” do concerto, tocaram-se mais temas de Lisboa Mulata: Blues de Tanga (com especial participação de um homem do blues: Paulo Furtado, quem mais poderia ser?) e Lisboa Mulata foram fazendo as delícias a milhares de pessoas. Despediram-se com a Marcha de Santo António, e com o jogo de luzes a anteceder um Encore. Saíram de palco e regressaram passados… bem, não consegui ter noção do tempo, pois a esta altura estava “revoltado contra o mundo” por não terem tocado a Esse Olhar Que Era Só Teu. Mas, quiçá, por intervenção divina (ou então não), a primeira música que os Dead Combo tocaram durante o encore foi mesmo Esse Olhar Que Era Só Teu. A nostalgia e a melancolia reinaram, por seis minutos, os ares do Porto e assistiu-se, na minha opinião, ao momento do festival. Embora nem todo o público tenha compactuado com a arte desta canção, este é um daqueles momentos capazes de penetrar no nosso peito e ir mussitar junto do nosso coração paletes de sentimentos e emoções, que cada ouvinte sente à sua maneira, através da sua liberdade poética. Memorável. Cacto e Malibu Fair foram as duas últimas músicas tocadas pelos Dead Combo. Apesar de se terem sentido saudades de alguns temas como, por exemplo, Eléctrica Cadente, de se terem deparado com algumas dificuldades técnicas ao nível do som e de resultarem francamente melhor numa atmosfera mais intimista, os Dead Combo rubricaram um belíssimo concerto e deixaram água na boca para o resto do festival.




Depois do concerto da dupla lisboeta, era hora dos festivaleiros irem recarregar energias: abasteciam-se com a habitual cerveja e com caipirinhas enquanto davam um passeio pela Concha Acústica, espécie de palco secundário do festival, onde estavam a actuar Cabaret Ritual do Meio Morto. Ou havia quem preferisse sentar-se ao pé do lago a recarregar as energias corporais, pois, de seguida, actuariam os vibrantes Wraygunn, banda liderada por Paulo Furtado (aka The Legendary Tiger Man). O tempo foi assim passando, sempre de copo na mão, até que a banda de Paulo Furtado chega ao palco do Noites Ritual.
Era já meia-noite quando o palco foi invadido pela ousadia e beleza das encantadoras Raquel Ralha e Selma Uamusse e pelo estilo peculiar de Paulo Furtado, e o recinto estava já bem mais composto que no concerto anterior. Esperava-se que a banda incidisse, ao longo do concerto, no seu mais recente disco ; o notável L’Art Brut. Mas a verdade, é que ao longo de cerca de uma hora e meia de concerto, a banda foi pulando entre os seus registos. Das colheitas mais antigas, fizeram-se tocar temas como Go-Go Dancer ou Love Letters From A Motherfucker, enquanto as novas colheitas serviram as delícias dos mais recentes fãs da banda. Sempre com uma nota bastante positiva, é de realçar o facto de Paulo Furtado ter dedicado uma música a “um grande senhor, que tanto já fez pela música portuguesa”, foi para o mítico Adolfo Luxúria Canibal que os Wraygunn tocaram Soul City Here We Go. Seguidamente, entoaram-se temas como I Betted All On You, um tema onde se ergueu o poder instrumental da banda, e Cheree, uma cover dos Suicide, onde Paulo Furtado esteve muitíssimo bem. O concerto cavalgava a um ritmo acelerado e a envolvência com o público era tremenda e este é um dos pontos que marcou a passagem da banda pelo ritual nortenho. Sempre com a boa-disposição a marcar pontos, Paulo Furtado chamou uma adolescente ao palco. O desafio era dançar, mas a rapariga só se ficou por dizer que se chamava Ana e que os amigos a tratavam por um nome especial. Bem, mas ninguém quer saber, porque Paulo Furtado tocou, seguidamente à fugaz passagem da “Ana”, Teenage Kicks, música original dos Undertones. E chamou mais jovens para cima do palco! E de repente, todo o palco dançava ao ritmo do Blues irrepreensível da banda do também The Legendary Tiger Man. Um dos momentos do concerto, sem dúvida. Contudo, o momento alto do concerto estava reservado para o fim. Foi num clima de pura histeria que Raquel Ralha e Selma Uamusse se aventuraram num crowd surfing e me fizerem bater com a cabeça contra a parede por não ter tido lugar na frente do concerto dos Wraygunn. Triste e pálido, lá me contive nas filas traseiras enquanto o público das filas dianteiras se rejubilava a olhar para cima, enquanto as vozes dos Wrayguun desfilavam por cima de si, de mão em mão, de braço em braço, de dedo em dedo. Enfim, tudo era válido, e tudo acabou com a Raquel Ralha a puxar o vestido para não acabar a noite despida. Foi ao som de All Night Long que a banda se despediu de um belo concerto, onde os ânimos estiveram elevados do início ao fim. Um show com nota bastante positiva e que, confesso, me surpreendeu. Terminava assim o primeiro dia do ritual e era hora carregar baterias para o dia seguinte, um dia onde iríamos encontrar Paus e A Naifa.




Era dia 1 de Setembro, Sábado, e era o dia onde se esperava que a afluência fosse maior, não pelas bandas em si, mas essencialmente por ser fim-de-semana. O BandCom chegou ao Palácio do Cristal “cedo”, com tempo suficiente para concluir que a o recinto estava bem mais preenchido àquela hora do que na noite anterior.




Era já hora d’os Paus subirem ao palco do Noites Ritual, naquele que era o concerto mais aguardado da edição do Ritual deste ano. Com um atraso de cerca de 20 minutos e com muita expectativa à mistura, foi num clima festivo que a banda de Hélio Morais, Quim Albergaria, João Shela e Makoto Yagyu pisou o palco Noites Ritual pela primeira vez. Sempre com o seu estilo bastante peculiar, lançaram-nos de imediato às feras com temas de É Uma Água, o primeiro EP da banda. Tocou-se Lupiter Deacon e a ligação com o público era imensa, com o público sempre a “ajudar” Hélio Morais no “Wow Wow Wow ; Nanaranana Nanaranana”. Com uma sonoridade simplesmente arrebatadora, os Paus provaram que são uma das melhores bandas portuguesas e que, acima de tudo, consegue suplantar-se ao vivo. E, bem, se em estúdio edificam o som que ouvimos, ao vivo… O concerto prossegui ao som de um Malhão, retirado do disco homónimo da banda e, logo de seguida, chegou o primeiro ponto alto do concerto com Deixa-me Ser. Sempre bastante interventivo, o público (das filas dianteiras) abraçou, aqui, a estreia de Paus no Noites Ritual com uma infinidade de palmas e ao cantar verso a verso esta canção. Seguidamente, foram tocados temas como Muito Mais Gente ou Ouve Só. A bateria siamesa era amplamente violada pelas batidas demoníacas de Hélio Morais e Quim, o baixo de Makoto era meneado com destreza e as teclas de Shela saltitavam sem parar. É atordoante a maneira como os Paus conseguem produzir um som tão intenso e dançante ao mesmo tempo, mas o facto é que conseguem e havia quem não resistisse a ficar um segundo quieto (ainda hoje estou às contas com o meu rico pescoço). Depois de tocarem Ouve Só, a bateria fica sem um dos seus filhos ; Quim Albergaria salta da bateria para o palco, pega no microfone e, completamente endiabrado, interpreta Descruzada, uma das minhas faixas favoritas da banda. Muito espalhafatoso (quer na voz quer na presença em palco), acaba por não conseguir uma interpretação com a qualidade esperada e desdoura um pouco o concerto da banda. Mas nada do outro mundo, porque havia mais de Paus para ouvirmos. Enquanto Hélio Morais bebia mais uma água das pedras e se acomodava para tocar a seguinte canção, um elemento do público grita desalmadamente por Ocre, que é, a meu ver, a melhor música dos Paus (sim, esse alguém fui eu), ao que a banda respondeu prontamente em Tronco Nu e, aí, assinalou-se o ponto alto do concerto. A faixa que serve de desenlace ao disco homónimo da banda foi entoada desde o início ao fim, pelo Porto inteiro (ok, vá… pelas filas dianteiras). A magia que se espalha desde a bateria siamesa é inesgotável e parece nunca querer-se esvair-se, e o público agradece. Pelo Pulso encerrou o concerto de Paus. Apesar de não terem tocado a música que mais (me) interessava, assinalaram o concerto desta edição do Noites Ritual e cimentaram-se como uma das melhores bandas portuguesas.



Era hora de repousar e “descansar” os ouvidos, dar um passeio até à Concha Acústica enquanto se empinavam umas jolas e se comiam umas bifanas. É custoso dizer, mas ninguém quis saber da Concha. Uma esmagadora parte das pessoas que compunham o recinto, aproveitavam este “intervalo entre os concertos” para colocar a conversa em dia ou para fazer um passeio pelo belo jardim do Palácio do Cristal. Mas particularidades à parte, o tempo não parava e aproximava-se a hora de A Naifa.





A Naifa foi a banda escolhida para fechar o Noites Ritual 2012. Tudo o que posso dizer acerca deste concerto, passará, certamente sempre ao lado, porque a poesia das suas músicas, a nostalgia e melancolia das suas composições fazem de A Naifa uma das mais peculiares e particulares bandas portuguesas. A mestria com que edificam uma aliança electrizante entre o fado, pop e rock é simplesmente irrepreensível, mas não é uma simbiose que consiga agradar a todos. A tarefa era complicada ; A Naifa tinha a espinhosa tarefa de actuar depois de um concerto magnífico dos Paus. A mudança em termos sonoros, de uma banda para a outra, era grande, mas nada que intimidasse o grupo, pois eles estavam bem armados. Tocaram duas dezenas de músicas, sempre com a alma a concitar-se e a incrassar de vida e nostalgia as boas dezenas de milhares de pessoas que rumaram até ao Palácio do Cristal. O saudosismo envolvente quando se fala no desaparecido João Aguardela esteve presente nos ares portuenses e em Libertação, música dedicada a Aguardela pel’A Naifa, deu, por certo, um aperto na garganta a muita gente. Um belíssimo e comovente concerto que fechou o ritual. Pela. Vigésima. Vez.

Conheçam o próximo capítulo do Noites Ritual em 2013. O BandCom lá estará, com todo o prazer, para o relatar.
Emanuel Graça
Fotografias por Ana Pereira
(galeria completa em
facebook.com/bandcom)




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dead Combo - CONCERTO

Quem entrasse na Aula Magna, por engano, nesta noite de 3 de Maio, e visse dois pianos, uma bateria, várias guitarras, um contrabaixo, sopros a um canto, e um palco para duas vozes no outro, certamente diria que ia actuar uma big band de jazz, ou pelo menos uma banda de música rock com o seu estatuto, para ocupar o palco daquela forma, ainda para mais com flores um pouco por tudo o que era sítio. Estava uma casa bem composta, decorada de acordo com a imagem dos Dead Combo (Tó Trips e Pedro Gonçalves) e até com música ambiente a condizer com uma banda que tem cada vez mais respeito em Portugal, ainda para mais depois do seu quinto álbum de originais, "Lisboa Mulata". O concerto contava ainda com a participação especial das vozes de Camané e também das Víboras do Chiado, e da Royal Orquestra das Caveiras. Na plateia, estavam algumas figuras conhecidas da música (Pacman, Paulo Furtado, entre outros) e um público que era transversal em idades e estilos de pessoas, numa prova de que os Dead Combo chegam cada vez mais longe. 
O duo começou sozinho a sua actuação, deixando os convidados para mais tarde. O som western-fado-tango-flamenco do grupo começou a desenrolar-se com "Rumbero" e "Sopa de Cavalo Cansado" e apenas na terceira música se abordou o novo álbum, com a bipolaridade emocional de "Cachupa Man". O mote estava dado para o concerto e o público começou-se a deixar levar pelas histórias que as guitarras ou o contrabaixo iam contando. Vislumbrava-se já a multi-instrumentalidade que Pedro Gonçalves ia mostrar durante as próximas duas horas. "Anadamastor" e "A Menina Dança" surgiram com duas dedicatórias, a primeira para uma empregada de mesa e a segunda para a mãe de Tó Trips, dada pelo próprio. O ambiente era íntimo, apesar do tamanho da sala e do palco, e os solos de Tó Trips foram interpretados de forma muito sentimental, numa mistura de técnica com paixão, numa prova de grande mestria no instrumento que tocou noite fora. Depois veio "Assobio", tema inspirado por um assobio de Vasco Santana entoado pelo avô de Trips, e surgiu aqui o primeiro toque forte de fado, da Lisboa sentimental típica. "Quando A Alma Não É Pequena", do álbum com o mesmo nome, leva-nos definitivamente para outra época, efeito esse que ao vivo é mais sentido do que nos discos, culpa do reverb etéreo na guitarra solo. Tó Trips apresentava o espectáculo com poucas palavras mas bem disposto, criando alguma empatia com os presentes.
Com toques de música clássica tocados à la Dead Combo apareceu "Putos A Roubar Maçãs", uma música carregada em que diríamos que o crime é muito maior do que o indicado. O pé de Tó Trips bate incessantemente durante as músicas, perfeitamente audível da plateia, e fica-se sem perceber se faz parte da actuação ou se é apenas um trejeito do músico. Ouvimos o dark slow de "Aurora em Lisboa", uma música mesmo deste grupo pelo cocktail de world music que carrega e onde Trips emana toda o seu talento uma vez mais, e "Morninha do Inferno", ambos do "Lisboa Mulata". Pedro Gonçalves mostra-se à altura do seu companheiro, tocando com o arco ou a pizzicato no contrabaixo. Nas últimas duas canções que tocaram sozinhos, os Dead Combo mostram "Cowboy's Cure For Jah", do mesmo álbum, numa reencarnação do reggae e do dub do miradouro de Santa Catarina, com Gonçalves na melódica, numa mistura psicadélica de loops e feedback infinito, onde imperou um certo caos dub, e "Pacheco", onde um pequeno piano foi estreado ao vivo, numa homenagem em forma de cabaret-noir ao guitarrista que acompanhava a fadista Hermínia Silva. 
Juntaram-se as Víboras do Chiado, duas vozes femininas para atiçar o ambiente. Estiveram com o duo em "Esperanza", tema baladeiro com vozes circulares, "Like A Drug", cover dos Queens Of The Stone Age em que nas palavras de Trips "soa a um rádio na cozinha de um restaurante chinês" e "Esse Olhar Que Era Só Teu", música oriunda de outra em que Amália canta por cima de um ritmo africano e em que imaginamos a diva a cantar à nossa frente, nos seus anos dourados, bem como a guitarra portuguesa. É assim o génio do duo. Chegou Camané, devidamente aplaudido, onde começou por declamar o poema de "Ouvi O Texto Muito Ao Longe", uma balada falada, com texto de Sérgio Godinho, em que as Víboras cantavam entrelaçadas com o texto. Tocou-se fado em "O Vendaval", provando que o género também pode ser ligeiramente psicadélico, fazendo com que ficasse ainda mais o mar e a saudade, numa tristeza inerte mas bonita. A voz de Camané encaixou perfeitamente na sonoridade dos Dead Combo, que continuou com "Inquietação", versão do original de José Mário Branco, em que o fadista cantava um pouco fora do seu género mas mostrava-se igualmente confortável. Misturavam-se 3 mundos neste tema, e o solo e a voz fundiam-se num instrumento que as palavras nunca chegarão para descrever. 
Camané saiu de palco e voltou-se a "Lusitânia Playboys", 3º álbum da banda, com "Cuba 1970", tema que deu entrada à Royal Orquestra das Caveiras. O som ganhou contornos mais firmes, reais e fortes e os metais começaram a desenhar o ambiente que se faria sentir em breve, levando-nos directamente para uma antiga Havana. A seguir estava o toque de tourada e de México de "Manobras de Maio", e percebíamos que mesmo com a orquestra, os Dead Combo não perdiam o seu carácter original. Em "Desert Diamons", a orquestra explodiu, o duo brilhou e o público aplaudiu forte o rock mais forte e cinematográfico, onde a bateria se mostrou indispensável para um show incrível. O momento da noite, sem dúvida! Posteriormente veio "Lusitânia Playboys", que nos contava a rixa entre dois músicos de jazz e dois marinheiros, num jazz muito completo e em plena percepção de que a atmosfera tinha ganho novas cores com a Royal Orquestra. Pedro Gonçalves fez um solo de contrabaixo ímpar e o jazz tornou-se quase em cabaret. Voltando ao quinto álbum, "Blues da Tanga" foi um registo rock menos típico dos DC e exibiu uma slide guitar mais que furiosa. Por esta altura, PGonçalves já tinha tocado guitarra, contrabaixo, piano e melódica. Regressou-se ao western com "Mr. Eastwood", em tons eléctricos e fortes, havendo depois espaço para uma banda sonora de um filme por estrear, de Bruno Almeida e com o mesmo nome da canção, "Operação Outono". Um funk-rock policial com laivos de Dead Combo por todo o lado, em que se denota a grande capacidade de todos os músicos como grupo. 
Na recta final, apareceu "Rodada" e "Old Rock 'n' Roll Radio", num jazz com tiques cabaret, e antes de uma curta pausa, "Marchinha do Santo António Descambado", numa visita relâmpago a um Havai que deixou de existir ou que foi apenas uma ilusão, como nos provou a guitarra chorosa e longínqua que não parava de tocar. Regressaram os Dead Combo, não só do backstage mas também às origens, com duas músicas do 1º albúm, "Cacto" e "Eléctrica Cadente", onde a primeira podia ter perfeitamente entrado em vários filmes de Quentin Tarantino e a segunda mostra uma bateria poderosa. Após todos estes temas, toda a audiência já sentia que estava a levar uma bela sova de boa música para os seus ouvidos. O concerto terminou com "Malibu Fair", numa espécie de frenético hard rock do faroeste, e em beleza com um super adornado, dançável e viciante "Lisboa Mulata". Com a orquestra, este single, do último álbum, ganha uma dimensão enorme, começando em Ray Charles e acabando em proto-Kuduro. O nome da música é perfeitamente explicado durante a performance da mesma, e o público, se é que ainda não estava, ficou na mão do homem da cartola e do senhor dos óculos escuros.
Se tinham apelidado a música deste grupo como mais contemplativa e de ambiente, falta-lhes ver uma actuação do mesmo ao vivo, num espaço adequado ao seu talento. Os Dead Combo provaram o porquê de todo o buzz em volta do seu último trabalho e confirmam algo de que já desconfiávamos: eles são fortes e muito talentosos, em estúdio e ao vivo, e percebem imenso de vários géneros musicais. Quem diria que Portugal viria a conceber um talento como estes dois senhores!

Reportagem de Duarte Azevedo // Fotos de Catarina Alves




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Dead Combo - Lisboa Mulata



Estamos habituados à sonoridade latino-fado-blues dos Dead Combo, melancólica e repetitiva, agridoce, numa complicada textura de guitarras ritmo e solo, acompanhadas por um contrabaixo que manda num ritmo já por si só rebelde. Mas desta vez, o duo da cartola e do fato de mafioso decidiram aplicar o seu som a um lado diferente da cidade de Lisboa. O lado heterogéneo da metrópole, onde várias nacionalidades se cruzam, histórias de amor, histórias de desamor e de crimes passionais, contos de negócios inseguros. São estas as histórias que Lisboa Mulata nos conta.

Temas como "Cachupa Man" e "Anadamastor" levam-nos numa nostalgia eléctrica, num cruzamento vertiginoso entre flamenco, tango e desert blues calmo. Quando começa uma música dos Dead Combo em que pensamos que a sonoridade vai ser fixa e de apenas um tom, o duo surpreende sempre com elementos de outras ondas sonoras. E é esta capacidade de inovar que a dupla não perdeu. Sente-se isso também, de uma forma ainda mais triste e bonita, em "Aurora em Lisboa" e "Marchinha de Santo António Descambado", e nesta última o toque de música havaiana solidifica ainda mais o toque do antigo e do soturno.


Olhando para o fado actual, depois da "coroação" do mesmo como património imaterial da humanidade, assistimos a uma mutação, depois de anos de fermentação deste género na cabeça de várias gerações de músicos e artistas. Novas abordagens do mesmo começam a despontar, e os Dead Combo também têm culpas no cartório neste aspecto. Apenas numa música do álbum decidem aproximar-se verdadeiramente ao fado ("Esse olhar que era só teu", num poema de Sérgio Godinho), mas durante todo o registo sentimos uma certa influência fadista, talvez pela constante emulação das guitarras para tentar recriar a atmosfera lisboeta, recriando por vezes arranjos de guitarra portuguesa. É este "fado alternativo" que marca as cores do duo.

Em 2007, foi lançado, em mais um projecto de Damon Albarn, The Good, The Bad and The Queen, um projecto de um só disco em que as músicas falavam da cidade de Londres, com uma intenção semelhante à dos Dead Combo: uma melancolia agridoce, ora alegre, ora triste, mas sempre flutuante. Não consegui deixar de reparar em algumas semelhanças nos dois registos.
Cidades diferentes, músicos e melodias diferentes, mas algum paralelismo.

Um lado diferente de olhar para uma cidade, pegando no que o fado nos ensinou e no que o mundo nos transformou. Eis Lisboa Mulata.






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