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terça-feira, 7 de julho de 2015

LÁ FORA, CÁ DENTRO #8: F U Z E T A - Entrevista

Poucos são os grupos que, com pouco mais de um ano de existência, se podem orgulhar de ter pisado palcos como o Festival Printemps de Bourges, o Festival Les Transmusicales, o Festival Francofolies ou, agora em Julho, o FNAC Live, em Paris. É de Vannes, em França, que nos chega um projeto - com uma forte ligação a Portugal - que conseguiu esse feito: os F U Z E T A, Dorian, Charles-Alexandre, Pierre-Antoine e Jérémy, naturais da pequena aldeia de La-Roche-Bernard. De um sucesso local na Bretanha ao reconhecimento nacional depois de terem vencido o Prémio Ricard S.A. Live Music, temos seguido com particular atenção a ascensão destes indie-poppers contemplativos que se inspiraram, entre outras coisas, na luz e na doçura da Fuzeta, pequena foz de terra do Sotavento algarvio. Sonhos e desejos concretizados, esses parecem não ir faltando.





BandCom (BC): Porque é que atribuíram à vossa banda o nome da aldeia onde o pai de três de vocês nasceu? Porque não escolheram La-Roche-Bernard, a aldeia de onde são originários em França? Já agora, para quem não a conhece, como é essa aldeia?

F U Z E T A: F U Z E T A nasceu de um consenso à volta das nossas histórias pessoais: queríamos transmitir algo que fosse bonito, verdadeiro, solar. Queríamos falar de coisas verosímeis, que vivemos e não projetar-nos através de uma postura ou de personagens fantasmagóricos. Encontrámos a solução nas nossas infâncias respetivas, nesses momentos doces e menos doces que vos forjam, que vos fazem avançar na vida, de que por vezes sentem falta uma vez adultos. Encontramos isso tudo na nossa música: os risos, as lágrimas, a nostalgia das alegrias estivais da nossa infância onde o sol inunda as imagens dos nossos banhos no rio. No que diz respeito a La-Roche-Bernard, teria colado perfeitamente com esse espírito mas a eficácia levou-nos a buscar algo bem mais curto. Fuzeta não é a aldeia onde o nosso pai nasceu (essa confusão nasce do facto de nós termos descoberto esse sítio graças a ele), mas conhecemos a Fuzeta por lá termos estado várias vezes durante a nossa adolescência. Pensámos em F U Z E T A porque evoca o sol, a natureza, algum exotismo e também um lado pitoresco, da "pequena aldeia perdida", que também podemos encontrar em La-Roche-Bernard.



BC: Qual é a vossa relação com Portugal ? Conhecem bandas/artistas portugueses?

F U Z E T A: Conhecemos Portugal desde o início da nossa adolescência. Íamos surfar na Arrifana todos os anos, no Algarve, onde um amigo tinha uma pequena casa na praia. É um país maravilhoso onde a natureza e as paisagens são grandiosas. Desde há uns anos para cá, o nosso pai instalou-se em Almada, na margem sul do Tejo. Vamos lá de vez em quando passar uns dias para desfrutar da doçura lisboeta e das inúmeras riquezas da capital. No que diz respeito à cena portuguesa, não estamos muito a par. Conhecemos alguns grupos graças a Frank Darcel que durante uns tempos viveu e trabalhou em Portugal. É da Bretanha e beneficia de uma imensa "aura" na nossa zona porque é um dos fundadores com, entre outros, Marquis de Sade, da cena de Rennes do início dos anos 80.


BC: São um grupo relativamente jovem, o vosso primeiro espectáculo ao vivo ocorreu em Novembro de 2014…e desde então, são muitos os media franceses que apostam em vocês. Como explicam essa recepção e o sucesso que alcançaram localmente em tão pouco tempo? É o fruto de um trabalho árduo nos bastidores?

F U Z E T A: O nosso primeiro concerto foi no dia 8 de Novembro de 2014 no festival "Les IndisciplinéEs" mas não foi a primeira vez que tocámos o nosso set. Uma estrutura de Lorient (MAPL) acompanha-nos desde Dezembro de 2013. Esse apoio traduziu-se em períodos de trabalho em palco, no Manège, onde pudemos trabalhar e ensaiar os nossos temas. Também permitiu-nos beneficiar de intervenientes qualificados no que diz respeito ao canto, à gestão do palco mas também de conselhos permanentes sobre a promoção, os obstáculos a evitar e todas as coisas importantes que os jovens grupos nem sempre conhecem. Trabalhámos sempre com pessoas que nos permitiram preparar-nos da melhor das formas antes de sair da sombra e que sobretudo, ainda hoje nos permitem apreender da melhor das formas o Mundo no qual avançamos. No que diz respeito ao feedback positivo do público e dos media, estamos felizes que a nossa música consiga tocar as pessoas. Dá-nos ainda mais força para que o que aí vem seja à altura das suas esperanças.


BC: Uma das vossas primeiras grandes conquistas foi a vossa presença no famoso festival Les Transmusicales em Rennes. Como correu?

F U Z E T A: Foi vertiginoso. Um dos maiores festivais de novos talentos do Mundo e nós, com os nossos cavacos e os nossos 7 primeiros concertos a tentar "acender a fogueira"! Foi bastante intenso, o concerto correu bem, havia gente, as pessoas estavam contentes e nós ainda mais. Estamos muito gratos à organização do festival que nos acolheu maravilhosamente no palco do L’Etage e o resto do fim-de-semana. É muito importante para os grupos, sobretudo quando são jovens e ficam um pouco impressionados com o gabarito da coisa. Foram todos amigáveis, atenciosos e prestáveis connosco, à imagem do nosso encontro com Jean-Louis Brossard, caloroso e entusiasta acerca da nossa participação no festival. Um imenso obrigado a eles todos.





BC : Como se sentiram depois da vitória no Ricard S.A. Live Music?

F U Z E T A: Estamos muito contentes! Todo o dispositivo que nos acompanhou e os meios que a equipa do Ricard S.A. Live Music pôs ao nosso dispor ao escolher-nos foi enorme. Acelerou muito as coisas. Esperamos sobretudo desfrutar dessa exposição para encontrar um editora, um booker que se ocupe de nós no futuro. Estamos nas nuvens. Que grupo nunca teve o sonho de tocar em todas estas salas, com bastante público, quando ainda só está a dar os primeiros passos?


BC : Como é que se prepara um concerto quando editaram apenas 3 músicas? Optaram pelas 'covers' ou ofereceram aos vossos primeiros fãs músicas inéditas - algumas delas incluídas na segunda parte do EP que saiu em Maio - ou que se calhar nunca vão ser editadas? Se assim for, os vossos primeiros fãs foram uns privilegiados…

F U Z E T A: Ao vivo tocamos 11 músicas. São todas criações nossas que permitem a quem nos vem ver descobrir muitos temas que ninguém encontra na Internet: há, obviamente, as outras músicas do EP que saiu em Maio mas também temas que nem sequer gravámos. Estamos a trabalhar atualmente para apresentar um set rico para as próximas datas. Adoramos oferecer ao público algo único, sem falar em privilégios, mas queremos que a experiência vivida pelas pessoas nos nossos concertos seja marcante e o mais emocional possível. Por exemplo, tivemos a sorte, no festival Les Transmusicales, de participar com uma escola de música do Pays de Rennes e um projeto com alunos que vinham adicionar percussões, ventos ou canto. O resultado foi uma representação única num pequeno teatro. Foi intenso! As crianças pareciam mesmo felizes e nós estávamos felizes por termos criado algo novo e diferente com a nossa música. O público presente sentiu esse lado “mágico” daquele instante e ficaram todos com ótimas recordações.


BC: Parecem estar muito ligados, com um espírito que diria quase familiar, com muitas memórias e histórias em comum… Pensam que o vosso grupo podia contar uma história próxima da que nos propõem se não tivessem vivido todas estas coisas juntas quando eram pequenos?


F U Z E T A: F U Z E T A chegou numa altura em que estávamos preparados para fazer uma música autêntica e interessante todos juntos. A história que contamos é parecida connosco mas a dimensão dos temas que trazemos connosco - a infância, a fraternidade, a nostalgia... - é universal. São coisas que existem em toda a gente e pensamos que cada um pode encontrar na nossa música uma ideia, uma emoção que o pode tocar.


BC: Quando lemos as vossas entrevistas, sentimos em vocês uma certa proximidade com  a natureza, como se quisessem fazer um paralelo entre ela e a vossa infância, à volta de temáticas como a proteção, a inocência, as relações com os seres vivos. Tudo isto é pensado ou nem por isso ?

F U Z E T A: Crescemos na Bretanha. É um sítio esplêndido. As luzes variáveis, as paisagens dignas de postal, o oceano em movimento perpétuo, a natureza sempre próxima, bonita e intrigante… tudo isso influenciou-nos e, mais ou menos conscientemente, construiu-nos. Os dias onde o sol desvanece e deixa de repente uma sombra que escurece e estoura, aquelas tempestades invernais potentes que nada pode parar, aquela pequena brisa de Verão que leva o sal do mar até às aldeias mais próximas… todos estes contrastes, essas cores, consegues encontrá-las em F U Z E T A. Por exemplo, a intro íntima de "Ferns", seguida por aquela subida que te leva até ao fim, onde as ondas das guitarras despenham-se por cima dos toms da bateria. Mesmo se isto acabar por ser um pouco cliché, podemos dizer que não falamos da Natureza nas nossas canções mas que é a Natureza que fala através nós.





BC: O que se sente por momentos no videoclip realizado por Mathieu Ezan...
Podem dizer-nos mais coisas sobre ele e sobre o seu passado no Mundo da música? Porque é que o escolheram?


F U Z E T A: No que diz respeito ao videoclip há uma história interessante: foi realizado no jardim da nossa infância. O rochedo do fim é o mesmo de onde saltávamos para o rio quando éramos putos. Isso resume bem a ideia de que, mesmo sem sabê-lo, uma sensação de autenticidade desprende-se dessas imagens em coerência com a música. Mathieu é um amigo de infância do Jérémy. Conseguiu, ano após ano, impor-se como uma referência no meio das músicas mais extremas, em termos de fotografia (live e imprensa) e mais recentemente na realização de videoclips. Pensámos nele porque é muito bom e sobretudo sensível àquilo que fazemos, à nossa música. Falámos longamente do universo que queríamos pôr em relevo e rodámos no final do Verão passado. Ainda não tínhamos a gravação de “Dive” mas queríamos que a luz do Verão estivesse presente: esse lugar e essa luz evocam o que é F U Z E T A para nós.


BC: Quais são as vossas influências musicais, cinematográficas? Que tipo de música acham que fazem e porquê?

F U Z E T A: O "conteúdo" é para nós a base de tudo: pouco importa a forma se a história está presente, é autêntica e inteligível.
Ouvimos muita música que em geral não tem grande coisa a ver com a estética dos F U Z E T A. Este grupo nasceu porque queríamos contar uma história, a "forma" que foi tendo aos poucos impôs-se sem termos pensado muito nela. Com alguma distância, diríamos que fazemos pop ou indie-pop. Os grupos aos quais nos comparam são oriundos da cena indie-pop americana como The Shins ou Grizzly Bear - agradecemos o elogio mas, para sermos honestos, não ouvimos muito esses grupos. Para o lado cinematográfico, tentamos que a nossa música seja expressiva, o mais humana possível, com laivos de grandes espaços e de ternura: temos de imaginar uma mescla entre "Era Uma Vez no Oeste" de Sergio Leone e "Her" de Spike Jonze.



BC: Onde foi gravado o EP ? Quais são as vossas ambições?

F U Z E T A: Este EP, composto por 6 temas, foi gravado no estúdio La Senelle, em Laval, com Amaury Sauvé. Sabíamos que ele tinha uma maneira de abordar as coisas muito particular e, sobretudo, de captar o som da bateria como pouca gente sabe fazê-lo. Foi um momento verdadeiramente intenso.. conseguiu captar esses momentos raros que fazem de um grupo mais do que a simples adição dos seus membros. Depois, fomos ter com Sébastien Lhoro (AGM Factory – Near Deaf Experience) para o mastering e aí encontrámos uma pessoa única, qualificada e sensível ao nosso universo. Entre a riqueza humana dessa aventura e o resultado final dos masterings, estávamos impacientes de poder ter nas nossas mãos o objeto final. Depois do lançamento, gostávamos de fazer muitas coisas: compor novos temas, encontrar uma editora para concretizar o nosso primeiro álbum...e claro, continuar a nossa tournée, agora via as Ricard S.A Live Sessions.


Mickaël C. de Oliveira




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

HÁ MÚSICA EM...#3: FARO

Faro. Capital de distrito com cerca de meia centena de milhar de habitantes, um clima tão fabuloso quanto agreste, cidade de estudantes e de estrangeiros, simples visitantes ou à procura de um novo lar, a pouco mais de 100km da Espanha que Brites de Almeida tratou de acantonar em Aljubarrota. Mas, ao contrário do país vizinho, a cultura deste pequeno país dentro de Portugal esbarra em dois grandes pilares: o que se impõe ao turismo "de sempre" (até aqui nada de espantar) e um estranho silenciamento de grandes manifestações artísticas. É certo que há exemplos do que se pode fazer a partir do 0 (Pirate Weekend, Festival Verão Azul...), que não estamos alheados da boa programação que alguns espaços da cidade conseguem esquematizar quase de improviso, que há festivais como o Rock One e o Festival Adentro, entretanto substituído à última hora pelo Festival F, que se tentam implantar na cidade e nas redondezas - como não, se ao "Allgarve" pouco falta?
Mas de que cultura, gentes, espaços se faz algo no Algarve e, especialmente, em Faro?
Convidámos de novo 5 projectos musicais da cidade - Mundopardo, Killing.Electronica, The Wax Flamingos, Mopho e Rafael Rodrigues que faz parte dos An X Tasy e dos The Stray - para nos prestarem os devidos esclarecimentos. Ora vejam.

1. Em que medida é que a vossa cidade vos inspira ou inspirou, mesmo no sentido de iniciarem um determinado projecto ou rumo, para o vosso trabalho?
2. Há uma cena musical proeminente ou é difícil defini-la? 

3. Quais os espaços, na vossa opinião, com melhores condições para ensaiar e aprimorar trabalho? Usufruem de algum deles?
4. Conseguem retratar ou caracterizar minimamente, da vossa experiência, o público de Faro que vai a concertos? 
5. Que espaços de concertos ao vivo destacam em Faro? A oferta é suficiente para os músicos?
6. Da vossa experiência, as bandas e artistas de Faro trabalham bem em conjunto ou estão mais distantes do que seria desejável?
7. Que entidades ou associações mais contribuem para que Faro possa ter concertos ao vivo e oportunidades para os artistas?
8. Quem de Faro devemos ver ao vivo ou de quem devemos ouvir as suas músicas?
9. Quem quiser conhecer o maior número de artistas possível…a que concurso ou festival deve estar atento?
10. Por fim, pode-se Faro é uma cidade que trata bem os seus artistas?


MOPHO (Paulo Duarte)



1. Não creio que a cidade tenha tido qualquer influência no aparecimento do nosso projecto. O mais importante foi mesmo a consciência de que havia algo para dizer e vontade de o fazer através daquilo que nos une: o gosto pela música.

2. A cena musical de Faro é algo difícil de definir: não existe realmente uma grande dinâmica como já houve nos anos 90, embora já tenha atravessado um período muito mau. De algum tempo a esta parte começaram a surgir mais bandas com algumas a conseguirem já um certo reconhecimento e exposição.

3. Em Faro o melhor espaço é sem dúvida a ARCM – Associação Recreativa & Cultural de Músicos.
Esta associação foi fundada em 1990 e desde então tem sido sempre um local para as bandas poderem ensaiar, com salas individuais, e onde também puderam apresentar os seus trabalhos já que a associação tinha sala para concertos. Neste momento mudaram de instalações mas todas estas valências continuam a existir e é onde nós temos a nossa sala de ensaio.
Existe também um outro local, na Galvana, a 3 km de Faro, com salas de ensaio privadas onde também há mais bandas a ensaiar.

4. O público de Faro não é muito frequentador de concertos. Embora tenhamos uma universidade com muita gente de fora a estudar cá, de uma forma estranha isso não se reflete no número de espectadores nos espectáculos. Estamos, claro, a deixar de fora os amigos das bandas que, como é normal, vão aos concertos mas de um modo geral não há muita gente a ver bandas ao vivo.

5. Faro nunca foi uma cidade com muitos locais para se tocar ao vivo. Neste momento existe o Maktub, mais vocacionado para o jazz/blues, o Castelo, o Kubico, a Sociedade Recreativa Artística Farense – Os Artistas – também faz concertos de vez em quando, mas não temos realmente um bom local para concertos de rock.

6. Parece-me que as relações entre bandas poderiam ser mais próximas, poderia haver mais entreajuda, por exemplo, a partilhar contactos de locais para tocar, mas…

7. Sem dúvida a ARCM, o trabalho que têm vindo a fazer desde 1990 é notável a todos os níveis, neste momento temos condições de que poucas bandas ou associações se poderão gabar, mas as coisas são feitas por quem delas vai usufruir. Por exemplo, todas as salas de ensaio que temos neste momento foram construídas pelas próprias bandas. Isto não existe porque o estado deu dinheiro/subsídio, fomos nós que o fizemos.

8. Sabendo já que nos vamos esquecer de alguém e por isso as nossas desculpas:
An X Tasy, Mindlock, Fenoid, Nannok, Deep Coffee Nonsense, Godai e, claro, Mopho!

9. Não há festivais, nem concursos já há algum tempo, por isso o melhor mesmo é irem ao Facebook!

10. Sinceramente, nem por isso não, mas cá estaremos e outros como nós também porque a vontade de criar é sempre maior.


AN X TASY, THE STRAY (Rafael Rodrigues)





1. Quando andava no secundário, por volta de 1998, 3 amigos meus preparavam-se para iniciar um projecto de punk-rock melódico. Eu sempre gostei de música, desde muito novo, mas nunca ambicionei seguir carreira nesse ramo (ideia que ainda hoje se mantém). Na altura tinha um certo gosto por tocar guitarra mas sem nunca levar nada demasiado a sério. E foi nessa altura que sou convidado para tocar... baixo! Sempre fui a concertos de punk e hardcore (Punk-Kecas, Kontrattack, Sem Fuga...) e havia aquele bichinho de pisar um palco mas não sabia como chegar até lá. Comecei a tocar baixo e passado um ano estava a tocar com algumas das bandas mais influentes da região. Um sonho tornado realidade. A influência de Faro é mesmo essa, esta humilde capital algarvia é bastante pequena e toda a gente se conhece. Tu num dia não és ninguém e no outro dia toda a gente sabe quem és. Dum dia para o outro já conhecia praticamente toda a malta de bandas da cidade e isso abriu portas para muitos projectos que abracei mais tarde, em especial aquele que ainda mantenho há 12 anos: An X Tasy. No Liceu era normal a malta das bandas encontrar-se no páteo da entrada principal e ficarmos a falar de música e política. Isso unia bastante aquela malta que se identificava entre 
si, partilhando ideias e objectivos em comum.

2. Já houve. Custa-me admiti-lo mas já houve, sim. Ano após ano a cena vai-se degradando. Ganha-se em muitos aspectos: cada vez há melhores salas, melhores sistemas de som, backline de maior qualidade, mais bandas e cada vez melhores... mas perde-se o essencial: a paixão. Hoje em dia vês muitos putos preocupados com a tatuagem, a t-shirt da banda preferida, o pedal duplo extremo, o solo de guitarra técnico... mas a paixão dos 90’s já era. Na altura havia as bancas das zines, havia a K7 e o vinil, havia malta a vender comida nos concertos... hoje em dia não há nada disso. Tens o Facebook e pouco mais. A cena podia ser tão forte. Mas perdeu-se o espírito. Naquela altura era normal haver uma banda de punk-rock a tocar com uma de metal e, embora houvesse bastantes dedos apontados e críticas de parte a parte, toda a gente acabava por se apoiar pois havia um show para todas as bandas locais. Como havia muito menos espaços e condições para se tocar, a malta tinha de "engolir o sapo" e partilhar palco com bandas bastante diferentes. Tenho saudades disso. Acredito que isto, como tudo na vida, não passa de um ciclo e do mesmo modo que cada ano que passa há um estilo 
diferente de música na moda, eu acredito que esta "quebra" de pessoal nos shows também seja passageira. Tenho esperança que assim seja.

3. Sim, felizmente disso não me posso queixar. Faço parte da Associação Recreativa e Cultural de Músicos desde o meu primeiro ensaio (!!!) e sempre tive razoáveis condições para ensaiar. Sei que não é abundante haver espaços em que se possa ensaiar 24 horas por dia sem incomodar vizinhos mas felizmente tenho/temos tido essa sorte. Já vou na quarta sede da ARCM e até agora a vizinhança não se tem queixado muito. 

4. Pá...tal como disse anteriormente, na altura o público era bem mais diverso e conseguias ver metaleiros, punks e pessoal do hip-hop todos nas mesmas festas a curtir em conjunto. Neste momento, e com muita pena minha, está tudo bastante dividido e já não há aquela vontade de união e de nos abraçarmos todos pela mesma causa. Falta algo e nem te sei explicar o quê. Perdeu-se a mensagem, a crença, a vontade de partilhar algo com alguém. Hoje em dia a imagem sobrepõe[-se a] tudo e infelizmente para muitos é isso que conta. Nos anos 90 a mensagem era uma componente bastante forte, a juventude gritava por ideais e vivia-os no dia a dia, fossem eles políticos, sociais, pessoais, etc. Mas estava tudo a remar para o mesmo lado.

5. Não, nem de longe. Neste momento há vários espaços em Faro para música ao vivo mas com bastantes limitações, pelo menos no que diz respeito ao movimento underground. Tirando a ARCM que abre as portas a todos os que quiserem apresentar os seus trabalhos, pouco mais há para tocar. Tens bares como o Ditadura e o Maktub ou salas como os Artistas ou o Club Farense mas todos eles têm um público-alvo e muitas limitações no tipo de música a aceitar. 
Há uns bons anos ainda havia o Arcádia, que fez bastante pela cena underground, e há muitos mais anos havia bares como o Tal Bar e o Morbidus que foram peças fundamentais naquilo que é a cena local farense nos dias de hoje.

6. Julgo que já respondi a isso mais acima. Em Faro, felizmente, toda a gente se dá bem e há poucas rivalidades. No entanto, cada um faz por si e não há mais aquela cena de se fazer em conjunto. Não chamo a isso competição, felizmente, mas apenas perdeu-se aquela iniciativa de ‘vamos lá juntar 3 ou 4 bandas diferentes e fazer um evento para todos’. Isso já era, com bastante pena minha.

7. De momento tens a Associação Recreativa e Cultural de Músicos e pouco mais. Associações contam-se pelos dedos, a maior parte delas falida ou parada e as que estão no activo são cada vez mais selectivas, o que aumenta as barreiras para o meio underground.

8. Toda a gente, não vou mencionar nem discriminar. Toda a gente merece ser ouvida, mesmo que seja para se criticar a seguir. Prefiro mil vezes que me critiquem conhecendo o meu trabalho do que apontarem o dedo e falarem mal sem conhecimento da questão. Há muita gente a dizer que An X Tasy é uma banda hardcore e em 12 anos é capaz de ser a única vertente que nunca seguimos. Eu oiço hardcore no dia-a-dia e muita gente associa a banda a essa vertente por me conhecerem sempre igual. Mas quem não nos ouvir e falar à toa está a privar-se de conhecer mais um projecto da região.

9. Não ando muito atento a esse tipo de cenas. Mas acho que os festivais locais são bastante importantes e influentes e lamento imenso que estejam a desaparecer a uma velocidade fulminante dia após dia. O convívio vivido neste tipo de iniciativas é algo incomparável.

10. Essa questão é traiçoeira. Não me posso queixar muito e em grande parte por todo o apoio e força que a ARCM tem dado à cultura e arte da região nas últimas duas décadas. No entanto, podia haver muito mais. Antes havia mais festas nas escolas secundárias e eram memoráveis, havia mais eventos multi-culturais e isso tende a desaparecer com o tempo. Mas não acho que Faro seja das piores localidades, tendo em conta a reduzida dimensão da cidade. Se bem que eu não vejo as coisas como propriamente Faro, mas sim o Algarve. Tens Loulé, Portimão, Olhos d’Água, entre outras localidades, que também contribuem para o desenvolvimento cultural da região. Felizmente dentro do Algarve há bastante proximidade entre bandas, promotoras e salas de espectáculo. Toda a gente se dá razoalmente bem e isso ajuda bastante na promoção dos artistas locais.


MUNDOPARDO



1. 
Para a formação dos Mundopardo, Faro foi uma cidade determinante pois os 4 frequentamos a Universidade do Algarve e, particularmente, fazemos parte da Versus Tuna. As nossas principais vivências e o nosso crescimento musical têm como pano de fundo esta cidade. Por outro lado, sendo uma cidade tão distante do epicentro da nova música portuguesa, é para nós um incentivo maior crescer enquanto banda nesta cidade e, se tudo correr bem, colocá-la no “mapa” da música portuguesa. Para não falar da inspiração que nos tem dado a escrever as letras, pelas pessoas que aqui vivem e pelas histórias que conta.

2. Se calhar há uns anos a maioria das bandas farenses a tocarem originais procuravam um rock mais pesado, metal e hardcore. Hoje em dia existem já alguns grupos e músicos associados ao jazz e blues mas se calhar a maioria toca mais versões de outras bandas. No entanto, há novas bandas de originais a aparecer, nos mais variadíssimos estilos, por isso a cena musical em Faro já vai sendo difícil de definir.

3. Em Faro a oferta de espaços para as bandas ensaiarem é muito curta. A Associação Recreativa e Cultural de Músicos é talvez o único espaço para esse efeito. Nós ensaiamos ou na casa de um de nós, até porque somos uma banda que usa pouco material, ou na casa da minha tia quando ensaiamos com bateria. Obviamente que gostaríamos de ter um espaço muito melhor, onde pudéssemos ter o material sempre disponível - uma garagem ou algo do género, mas isso implicaria outros custos.

4. Nós somos uma banda relativamente recente, ainda é difícil traçar um padrão. Estando nós ligados à UAlg seria de esperar que muitos estudantes marcassem presença. No entanto, aqueles que aparecem são amigos próximos. Mas isto acontece na maioria dos concertos que acontecem em Faro, os universitários não aderem assim tanto. A maioria das pessoas que nos vão ver são de Faro, da nossa idade e mais velhos.

5. 
Faro tem muitos espaços para música ao vivo. Muitos bares têm música ao vivo quase todas as semanas, onde acolhem alguns músicos que tocam versões. Depois há o Maktub Bar, que tem sempre todas as semanas jazz à Quinta e uma banda, de originais ou não, às Sextas. A Sociedade Recreativa Artística Farense promove concertos n’Os Artistas, de bandas reputadas a nível nacional e de bandas locais por vezes. A Associação Recreativa e Cultural de Músicos tinha muitos concertos mas entretanto o espaço encerrou e reabriu noutra zona da cidade.
No Verão a cidade de Faro tem palcos na baixa onde também acontecem alguns concertos de bandas da região. Por fim, o Teatro Municipal de Faro é uma sala fantástica que tem alguns concertos por ano, no entanto não tantos quanto deveria. Felizmente, já tivemos oportunidade de tocar em quase todos, e são todos espaços muito bons.

6. Até há uns meses não tínhamos percepção disso, mas hoje podemos afirmar que existe muita colaboração entre músicos. Nós na gravação do nosso álbum contamos com a colaboração de músicos de outros projectos, e em palco tocamos com o Filipe Cabeçadas, guitarrista dos Nome e envolvido noutras bandas. Depois, outros músicos vão trabalhando em conjunto, seja a nível criativo ou somente na execução em palco.

7. A Associação Recreativa e Cultural de Músicos sempre foi a associação que mais colaborou e mais apoiou os músicos farenses. Depois há também a Sociedade Recreativa Artística Farense, que promove muitos concertos e à qual estamos muito gratos por todo o apoio que nos deram desde o início. A Associação Ar Quente, no Verão, também promove vários concertos, em parceria também com “Os Artistas”.

8. Dos músicos e bandas farenses a ver ao vivo e conhecer as músicas destacamos Nanook o Vagabundo, An X Tasy, Diogo Piçarra, Nome, Fad’Nu, Killing.Electronica, The Miranda’s e The Wax Flamingos. A Teresa Aleixo, que gravou um tema connosco, vai gravar o álbum dela brevemente, vale a pena ouvir também. Ah e se puderem ouçam Mundopardo também, dizem que é agradável.

9. O MED deste ano em Loulé contou com muitas bandas da região. O Festival Adentro, em Faro, também vale a pena visitar. Depois, é estar atento à programação d’Os Artistas durante o ano. Atualmente não há assim tantos concursos como havia há uns anos
valentes.

10. 
Faro está a crescer a nível musical e as pessoas vão estando a par disso. É óbvio que poderia haver sempre mais divulgação e mais interesse, vemos quase sempre as mesmas pessoas nos eventos culturais. A cidade não trata mal os artistas, mas poderia fazer esse trabalho muito melhor. No entanto falta ainda envolver mais a comunidade académica para a música farense, muitos dos alunos que por cá estudam não conhecem espaços tão emblemáticos desta cidade como a ARCM, Os Artistas o ou Teatro Lethes.


THE WAX FLAMINGOS (André Rosado)



1. Nós nascemos literalmente na Ria Formosa, na praia de faro, e isso influenciou-nos na metade da medida, ou seja, se metade do que fazemos é urbano, a Ria Formosa, a nossa cidade, trouxe-nos o outro lado mais “rural” ou mais “da praia”, como se quiser chamar.

2. Não sei dizer porque somos naturalmente afastados da cena musical.

3. Não sei. Não.


4. Não há um hábito generalizado de ir a concertos. Há um público específico e pequeno dado que é uma percentagem da população da cidade que é pequena. Quando há eventos de maior escala e bem organizado com artistas de fora o público que não costuma ir agrega-se e participa. Exemplos: Festival F e Festival de Blues.

5. Maktub, Castelo, Artistas, Ditadura.

6. Não sei dizer porque somos naturalmente afastados da cena musical. Mas parece-me que são geralmente muito amigos e pouco focados nos resultados.

7. Câmara Municipal, Sociedade Recreativa Os Artistas, Ar Quente, Associação de Músicos.

8. Deep Coffee Nonsense, Mundopardo, Sam Alone, Tribruto.

9. Para conhecer artistas novos, cremos que todos os pequenos festivais assim como concursos. 

10. Sim.


KILLING.ELECTRONICA (Marcos Alfares)



1. O Algarve sempre nos influenciou na forma como escrevemos ou vemos a música. Apesar de termos nascido os três em cidades e regiões diferentes do país, foi aqui que acabaríamos por nos conhecer e fazer mover este projecto que são os Killing.Electronica.

2. Penso ser difícil defini-la. Existem inúmeros projectos e músicos de variados estilos o que é bom mas que também cria alguma dificuldade em agendarmos concertos com grupos de estilo semelhante. Para nós, sempre foi difícil fazê-lo. Não que não tenhamos prazer em envolver em palco connosco outros estilos, pelo contrário, mas sempre que isso aconteceu sempre sentimos pouca envolvência ou adesão do público a esse género de eventos. 

3. Temos um espaço próprio para ensaios mas como espaço público e de apoio a grupos e artistas, necessitamos referir a Associação Recreativa e Cultural de Músicos de Faro (ARCM) que, apesar de várias dificuldades ao longo dos anos, tem continuado a oferecer um espaço de trabalho e criação e a sua ajuda na projecção de novos músicos.

4. Para Killing.Electronica sempre foi difícil estabelecer-se no meio musical do Algarve. Em todos estes anos sempre tivemos ao nosso lado projectos musicais distantes do nosso e isso criou sempre uma barreira na interligação com outros músicos. No Algarve e dentro do meio underground, poderás encontrar grupos de metal, hardcore ou de hip-hop mas o que fizemos sempre foi visto um pouco à margem. 

5. Para a quantidade de artistas/músicos que existe, a oferta que existe é suficiente. No Algarve é necessário destacar: ARCM, Club Farense e Os Artistas (Faro), Bafo de Baco (Loulé), Marginália Bar (Portimão) e Laboratório de Artes Criativas (Lagos). 

6. Pelo menos, do nosso ponto de vista, consideramos que as bandas estão longe daquilo que se esperaria da troca de conhecimentos e trabalho em conjunto. Costumo dizer que o rock ainda tem muito que aprender com o hip-hop no que respeita a trabalho e parcerias entre músicos.

7. Infelizmente, esse trabalho é realizado na sua maioria de forma independente pelos próprios artistas mas é isso também que fortalece e motiva cada um a lutar pelos seus próprios objectivos. Contudo, isso atrasa-nos em todo o processo e a “viagem” torna-se bem mais longa. Fora isso, temos a ARCM de Faro e os espaços de concertos que referimos anteriormente que nos ajudam como plataforma física de divulgação do nosso trabalho.

8. Existem alguns artistas que realmente é obrigatório ouvir/assistir ao vivo o que andam a fazer. Alguns deles amigos, outros com quem partilhámos palco ou apenas porque admiramos o seu trabalho mas principalmente por considerarmos verdadeiramente talentosos ou porque têm algo a dizer na música: The Quest (Lagos), An X Tasy (Faro), Mopho (Faro), Sagespectro (Loulé), Tribruto (Loulé).
   
9. Existem variados festivais/concursos organizados durante todo o ano pela ARCM, Marginália Bar e Bafo de Baco que são obrigatórios no que respeita a conhecer novos músicos não só da região do Algarve como também de todo o país e outros nomes internacionais. São três espaços bastante profissionais e que apresentam todo o ano um cartaz repleto de pequenas boas surpresas para quem gosta de conhecer nova música. 

10. No meio em que nos inserimos e a partir da nossa própria experiência no panorama musical, penso que os meios de ajuda poderiam ser maiores e melhores. Apesar de não vivermos neste momento nas melhores condições a nível cultural e artístico, penso que falta também por parte das próprias câmaras municipais e todo o seu envolvente: a existência de interesse e apoio nos artistas que são da própria região e a tentativa de lhes oferecer algum reconhecimento por aquilo que realizam pelos próprios meios e que, muitas das vezes, acabam por promover as próprias cidades onde habitam ou de onde são provenientes. E, neste sentido, pensamos que a cidade de Faro ou qualquer cidade no Algarve, poderia fazer mais pelos seus.




domingo, 6 de julho de 2014

DE E POR: The Lazy Faithful - "Easy Target" (2014, Chifre)

Quando, como acontece com muitas outras bandas, nos cruzámos com o registo gravado de "Leave Me Alone" dos The Lazy Faithful ao vivo na Avenida dos Aliados em 2010, sabíamos que estávamos perante algo singular: entre referências pop/rock/punk muito clássicas, aquele rasgar de postura estilo MC5 era mais do que viciante e símbolo de quem já estava a ultimar repertório e personalidade.
Os The Lazy Faithful, entretanto, cresceram no fino encadeamento de guitarras arranhadas e ritmos implacáveis. E se forem este Sábado ao Coz Village Festival vão poder presenciar o que pedimos a Tommy Hogg que nos contasse sobre cada uma das faixas de "Easy Target", a estreia em longa-duração.






Two Lines In The Sky

Uma das músicas escritas na sua grande parte durante a gravação do disco. A letra é uma tentativa de mistificar a experiência numa discoteca (as duas linhas no céu são criadas por holofotes). "Two Lines in the Sky" foi a primeira frase escrita desta música.


Down In One

Escrita principalmente por mim, é inspirada no som dos The Jam, banda de mod rock/new wave britânica no final dos anos '70. "Down In One” é a expressão inglesa para "de penalti".


Work It On Out

Uma das músicas mais antigas do disco, escrita durante a primeira encarnação da banda. Foi uma música para provar a mim próprio que conseguia escrever uma música, daí vem a sua simplicidade lírica e instrumental.


Magnificent Medicine

O nome vem de uma parte desta música que foi omitida há vários anos, fala sobre um médico que receita LSD a um utente. É uma boa música para mostrar os talentos do nosso baterista Gil, ao vivo.


Good Night

O primeiro single do álbum descreve as noites destrutivas que se vive na baixa portuense, especialmente o momento de reflexão do dia seguinte.


Frosted Glass

Uma música muito distinta do resto do disco. Fala sobre o vidro fusco metaforicamente, como algo que intercepta a tentativa de ficar a conhecer alguém melhor. É uma das duas músicas do disco que já existiam mas com estruturas muito diferentes.


Don't Let It Be

Uma das músicas mais "dark" do disco. O riff surgiu por instinto durante um ensaio. O título não é uma referência à música dos Beatles, banda da qual tenho grande admiração.


Jumpin' Over Walls

Escrevi esta pouco depois de ter ouvido a "Pinhead" dos Ramones, e consegui usar menos palavras.


Discussions

Uma simples música de punk que fala sobre discussões num casal problemático e o resultante comportamento auto-destrutivo.


Don't Even Know

Quando tocávamos esta música ao vivo dizia que a tinha escrito em 1973. É muito Free, Bad Company...


Easy Target

Outra música que existia com uma estrutura bastante diferente. Quando a escrevi tinha um som mais california punk, o Rafa fez um bom trabalho ao sugerir que pegássemos na letra e fazermos outra música.




segunda-feira, 30 de junho de 2014

3/1 #2: Todo o hip-hop instrumental tem a sua voz












É comum ouvir-se, seja no próprio meio do hip-hop nacional ou no exterior, que falta profissionalismo e seriedade ao hip-hop português. Em 2006, Rocky Marsiano dizia numa entrevista: “Acho que muito poucos vêem isto de uma forma profissional e isso reflecte-se na maneira como nos vêem de fora. Se calhar olham para nós de uma maneira muito diferente daquilo que eu gostava que nos vissem. Existe muita imaginação e talento no hip-hop em Portugal, só que falta depois esse à-vontade… talvez mais experiência e idade”. Não se fala portanto de falta de ideias, de originalidade, mas sim do alcançar do último degrau - dificilmente atingível, é verdade - pelo pouco dinheiro que ainda hoje flui nessa área mas também por falta de apoios e por culpa também de certos estereótipos. 
No entanto, há que salientar que o hip-hop instrumental nacional, sombra e essência do hip-hop português, tem dado bons frutos.
Exemplos máximos dessa boa colheita: os registos de Rocky Marsiano (aka D-Mars), um dos avós da cena nacional, Roulet, da casa ENCHUFADA, e MOZE.



Dado o boom de bandas e beatmakers que apareceram graças à banalização da Internet, no hip-hop, como em todos os géneros musicais, impera o reino da quantidade.
Para se desmarcar, trazer a sua pedra ao edifício, o beatmaker cada vez mais tem de ir beber no seu íntimo profundo para extrair dele a peça fundamental que fará dele um elemento crucial e relevante. 

Nesse campo, onde Rocky Marsiano celebrou o Brasil, o funk e o jazz, Roulet seguiu o caminho mais sinuoso do zouk, da kizomba, do R&B e do kuduro, género que até agora mais lhe associávamos. 
A viver actualmente em Amesterdão, Rocky Marsiano quis neste álbum transmitir um espírito de verão, contrastando com o ambiente frio que o rodeava. Do seu "Music for All Seasons" sobressai uma pesquisa sofisticada, cool, lounge, bem acompanhada nalguns temas pelas vozes sublimes e bem-vindas de Yinske Silva e de Bruce James, em "Standing". O espírito festivo e dançável não é levado ao extremo, nunca se utilizando os brasileirismos como clichés mas empregando respeito maxímo. 

No caso de Roulet, a ousadia é maior. Porquê? Aparentemente, a credibilização do kuduro ou mesmo de quase tudo o que vem de África como influências claras e benéficas para a evolução da música eletrónica e/ou rock 
em Portugal não está ainda totalmente finalizada - “Tanto azeite”, lia-se num dos primeiros comentários feitos em directo ao Boiler Room em que passou DJ Marfox. Contra isso, Roulet apostou claramente em todos os ambientes musicais que associamos aos PALOPS e acrescentou-lhes o R&B, a soul e o zouk. "Beats d’Amor" soa quase como uma declaração de amor a todos esses géneros que sempre o influenciaram mas que só agora se traduzem em música sua. O resultado é claramente positivo, original e demonstra que Roulet tem tudo do músico instrumental multifacetado, tanto no kuduro como no zouk, como também na vertente chill que desenvolveu em "Home Again".

No caso de MOZE, se a capa é bem sugestiva, no conteúdo de "Best of Nothing" ouvem-se laivos agradáveis de electrónica onírica, pontuados com EUA e, na segunda metade, com a presença assídua do piano, glorificada no angustiante "Goodbye". Mais uma vez, impera neste registo a mestria e a versatilidade do artista, que vai beber a todos os géneros os elementos plásticos da sua obra musical de hip-hop, de qualidade acima da média.


Mickaël C. de Oliveira




terça-feira, 13 de maio de 2014

HÁ MÚSICA EM... #2 : GUIMARÃES

Chegámos finalmente ao segundo número da rubrica "Há Música Em...", rubrica em que escolhemos 5 projectos de uma cidade do país para que nos levem numa viagem pela realidade do dia-a-dia do seu trabalho como uma parte da sua vivência nessa mesma cidade.

Guimarães foi Capital Europeia da Cultura em 2012 e apresenta-se como uma cidade cheia de história, de tradição e de valores, a passar tal como todo o país por uma regeneração e redefinição da sua oferta cultural em que a criação não é fácil de ultrapassar e concretizar e manter-se à tona e relevante é um desafio tão grande ou ainda maior para associações, músicos, promotores e programadores culturais.
Mas o que será que a juventude dentro dos Virar DaSquina, KungFuTrunx, The Wild Booze, Last Chance e Let The Jam Roll terá a responder quando confrontados com algumas questões sobre a relação dos vimaranenses com os seus artistas e a sua música? As seguintes perguntas fizemos e mais interessantes respostas obtivemos.


1. Em que medida é que a vossa cidade vos inspira ou inspirou, mesmo no sentido de iniciarem um determinado projecto ou rumo, para o vosso trabalho?
2. Há uma cena musical proeminente ou é difícil defini-la? 

3. Quais os espaços, na vossa opinião, com melhores condições para ensaiar e aprimorar trabalho? Usufruem de algum deles?
4. Conseguem retratar ou caracterizar minimamente, da vossa experiência, o público de Guimarães que vai a concertos? 
5. Que espaços de concertos ao vivo destacam em Guimarães? A oferta é suficiente para os músicos?
6. Da vossa experiência, as bandas e artistas de Guimarães trabalham bem em conjunto ou estão mais distantes do que seria desejável?
7. Que entidades ou associações mais contribuem para que Guimarães possa ter concertos ao vivo e oportunidades para os artistas?
8. Quem de Guimarães devemos ver ao vivo ou de quem devemos ouvir as suas músicas?
9. Quem quiser conhecer o maior número de artistas possível…a que concurso ou festival deve estar atento?
10. Por fim, pode-se Guimarães é uma cidade que trata bem os seus artistas?

VIRAR DASQUINA (Nuno Meneses)



1. A verdade é que foi de facto a nossa cidade que nos conduziu a este projecto. Há 5 anos, Guimarães começou um programa que é pena já não existir. Chamava-se FundaSound, um concurso/mostra de bandas. No liceu, por brincadeira, decidimos juntar 4 elementos da turma que tocavam e formavam os LightFingers. Não resultou, mas foi aí que surgiu a química musical entre o Nuno e a Caty e os levou a continuar o sonho e procurar por novos membros, formando os Virar DaSquina. Com uma cidade tão agitada como a nossa claro, muitas das inspirações vêm da própria vivência aqui.
Guimarães é palco de inúmeros espetáculos. Se os políticos quisessem poderia viver do turismo e arte, mas não acontece.

2. Se há algum género proeminente em Guimarães? Durante uns tempos foi o metal. Mas as gerações mais novas têm trazido muitas coisas boas e procuram outros estilos musicais.

3. Em Guimarães? Prometeram a Plataforma das Artes, mas acabou por não acontecer. Neste momento estão a restaurar o Teatro Jordão. Seria uma boa sala de ensaios. Neste momento ensaiamos em casa.

4. É engraçado. As pessoas em Guimarães vivem da arte e para a arte. Toda a gente. Prova disso foram as Capitais Europeias da Cultura e Desporto, nas quais toda a gente quis participar. O público vimaranense gosta de bom entretenimento e reagem muito bem em concertos. Acolhem muito bem todos os artistas e ajudam-nos a sentirem-se em casa. São um público muito bom para dar concertos.

5. Para concertos destacam-se o Centro Cultural Vila Flor e o Centro de Artes e Espectáculos de São Mamede. Há também inúmeros bares e plataformas artísticas nos quais isso acontece, mas deveriam existir mais. Todos os fins de semana há pelo menos 3 concertos espalhados pela cidade, mas podiam ser 6. E teriam gente a ver em todos. São tantas as bandas de qualidade na nossa cidade.

6. Sempre que existem projectos de grande envergadura todos os artistas se unem. Achamos que é um dos adjectivos que podemos fixar no povo de Guimarães. União. Mas outras vezes, como em tudo, existe alguma rivalidade nem sempre saudável. Principalmente de artistas mais velhos, que deveriam ser os nossos suportes, certo?

7. Círculo de Arte e Recreio, Associação Cultural e Recreativa O Convívio, Guimarães Noc Noc, Ó da Casa, Mi Casa es Tu Casa, Casa Amarela, Ultimatum. Estas são as entidades ou associações que mais contribuem para que isto aconteça. Deveriam existir mais.

8. Em Guimarães há algumas bandas de diferentes estilos que devem ser ouvidas e vistas. Por gerações, e nos mais variados estilos, diríamos que GuimaFloyd, Barca do Inferno, Fragmentos, Reptile, Let the Jam Roll, Dona Lu, Virar DaSquina, Enleio, Plektron, Finished With My Ex. E muitas mais. É estar atento aos cartazes.

9. Há tantos concursos e festivais que é impossível numerá-los a todos. Este ano tivemos uma grande experiência no concurso de bandas da FAP. É pena a Câmara Municipal de Guimarães não dar continuidade ao FundaSound e ao Festival na Penha.

10. Tem dias, espaços e pessoas. A cidade transpira arte. O público trata muito bem todos os artistas. Os donos de estabelecimentos tentam dar o máximo que podem e mostrar o que de bom existe por cá. A Câmara é que podia dar mais atenção às pessoas de dentro. Há tanta coisa boa a acontecer. Não é apenas de dinheiro que precisamos, mas apoio na divulgação, espaços para pensarmos e crescermos em conjunto com a comunidade artística. A Capital Europeia da Cultura deixou tantas marcas em nós que não podemos simplesmente ignorar a arte. Temos que continuar a fazer o que gostamos e dar vida à cidade. São estes artistas que dão vida aos turistas. Temos pena que nem toda a gente o note.




1. Desde que comecei com este projecto, por vezes introduzo nos meus trabalhos alguns samples de gravações da minha cidade, despercebidamente tento introduzir algum “ar” de Guimarães naquilo que faço. No ano de 2013 essa inspiração aumentou, pois fiz um trabalho (CD) intitulado “Atrás das Portas” (Livro+CD) que consistiu em musicar entrevistas (que foram captadas em áudio) de taberneiros (tasqueiros) de Guimarães, de forma a que se captasse, o melhor possível, o espírito dos locais e das pessoas.

2. Existe claramente uma cena musical em Guimarães, mas penso ser difícil defini-la, pois são variados estilos existentes (ou a surgir).

3. O meu projecto essencialmente electrónico é ensaiado na minha própria casa, ou em alguns casos, na casa de um dos intervenientes, por isso não necessitamos propriamente de um local próprio, mas é claro que preferia ter um local próprio para isso. Penso que aqui em Guimarães ainda não existe um local preparado para esse efeito.

4. Pela minha experiência, é um publico jovem, conhecedor e amante de música, que está habituado a sair para a rua aos fins-de-semana, maioritariamente numa faixa etária 16-40 anos.

5. Aqui em Guimarães temos muito poucos espaços acessíveis. Os grandes palcos de centros culturais não são fáceis de lá chegar mas temos 2 ou 3 bares: por exemplo o bar Casa Amarela; temos associações como o Círculo de Arte e Recreio ou a Convívio, depois temos os palcos maiores (e de mais difícil acesso) como é o caso do Centro Cultural Vila Flor, o Centro de Artes e Espectáculos de São Mamede e a Plataforma das Artes.

6. No meu caso, que estou mais ligado à música electrónica, penso que as coisas no geral são satisfatórias, normalmente convido outras pessoas ligadas a outros projectos e até hoje nunca houve nenhum tipo de afastamento.

7. Que me lembre, em termos “públicos” temos a Associação Cultural e Recreativa O Convívio, o 
Círculo de Arte e Recreio, a Câmara Municipal e a Oficina. Em termos “privados” temos os tais bares falados anteriormente, o El Rock Bar, que promove vários concertos e até edições de CDs e uma ou outra entidade como por exemplo o Efeito Borboleta.

8. Posso dizer o meu projecto? KungFuTrunx, claro! Eheheh...mas gosto muito de ouvir o projecto de um amigo meu aqui de Guimarães chamado Simulated Systems. Gosto também de uma banda que são os Pornography.

9. Ao “Milhões de Festa”.

10. Quando eu encontrar uma cidade que trate bem os seus artistas, eu depois aviso.




1. Além de sermos naturais de Guimarães, o que já representa a clara vontade e orgulho de o referirmos quando nos apresentamos, esta cidade sempre foi muito dinâmica a nível musical e, dessa forma, sempre existiram concursos de bandas (FundaSound, UMplugged, ...) e até festivais (Barco Rock Fest, Vimaranes Metal Fest, Manta) com o intuito de lançar e mostrar a boa música que se faz cá. Dessa forma, e respondendo directamente à pergunta: sim, Guimarães influencia a nossa motivação para continuarmos o nosso trabalho.

2. Há sem dúvida. Desde já há algum tempo que bandas de vários géneros surgem e unem-se para realmente divulgar o que cá se faz e um ponto interessante a realçar é o facto de ser algo que passa de geração em geração, fazendo com que se solidifique uma história e com que a cena musical nunca se extinga.

3. Existem vários espaços disponíveis a alugar na cidade. No entanto, não usufruímos de nenhum.

4. Trata-se de um público difícil mas justo e coerente o que torna tudo mais interessante porque é sempre mais um desafio.

5. Centro Cultural Vila Flor, Centro de Artes e Espectáculos de São Mamede, Casa Amarela, Bar N101...a oferta e a maneira como somos recebidos são sempre boas.

6. Em relação ao facto de as bandas se unirem entre si mesmas, isso é totalmente verídico uma vez que, e reforçando o que referi, as bandas juntam-se para divulgar ao resto do país os projectos vimaranenses.

7. Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 foi sem dúvida um auge para os artistas dado que se reforçaram os eventos ligados à música, projectando mais os artistas.

8. Horas Mortas, Alive Dead Bodies, Cratera, Delta Works, Smartini, Xícara.

9. [Concursos:] UMplugged, FundaSound. Festivais: Barco Rock Fest, Manta.

10. Claramente sim.




1. No nosso caso a cidade nunca foi influência sobre o rumo para o nosso trabalho nem a razão do seu início, mas claro que nos serve sempre de inspiração em tudo o que fazemos.

2. Existem muitas bandas dentro de uma onda alternativa, [dentro do] metal também existem muitas bandas…

3. Fábrica ASA e Teatro Jordão. Não usufruímos de nenhum espaço em Guimarães.

4. É um publico intenso, fiel, entusiasta e que vibra com as suas bandas.

5. Casa Amarela, Associação Cultural e Recreativa O Convívio, Plataforma das Artes, Centro de Artes e Espectáculos de São Mamede, Centro Cultural Vila Flor… A oferta nunca é suficiente, mas em comparação com outras cidades é muito muito boa.
6. Trabalham bem juntos quando é necessário…


7. Câmara Municipal, Rádio Santiago (Programa Submarino), entre outras…

8. Let The Jam Roll, Virar DaSquina, Black Burn Hate, Head Citizen e muitas outras… 

9. Fundasound e Barco Rock Fest

10.
Pode ser sempre melhor, mas de uma forma geral Guimarães trata bem os seus artistas…




1. Guimarães é uma cidade inspiradora, a todos os níveis. Felizmente existem variados espaços de convívio, onde as artes são tratadas, discutidas e praticadas. Foi e continua a ser habitual o convívio entre artistas de todas as áreas e obviamente que isso influenciou muito o nosso percurso.

2. É difícil defini-la, por ser tão eclética. Cremos que neste momento existe um ambiente musical muito variado e de alto nível, na nossa cidade.

3.  Acreditamos que o melhor espaço para ensaiar é sempre em casa de alguém, quando há essa possibilidade. Ao criar, um artista tem de se sentir bem, sem limites de tempo. Aparte disso, existem em Guimarães várias salas de ensaio para alugar. Há também várias associações como o Círculo de Arte e Recreio ou a Associação Cultural e Recreativa O Convívio (entre outras), que regularmente ajudam artistas nesse sentido.


4. A faixa etária entre os 25 e os 40 são os mais assíduos, como público cultural. Os mais jovens - entre os 16 e os 25 - começam agora a apreciar mais a “boa” música, mas é ainda um processo lento que se verifica em todo o país. O gosto pela “boa” música não é devidamente desenvolvido, seja pela triste oferta televisiva, seja pelo ensino da música que continua a ser um pouco fechado. A revolução cibernética veio contribuir grandemente para que os jovens possam ter mais variedade no acesso a música de qualidade. No entanto, o culto da imagem cresce cada vez mais, renegando a qualidade musical para segundo plano. Isto acontece um pouco por todo o lado. Em Guimarães existe também muita mistura de públicos (o que achamos muito positivo); o publico é educado (até certo ponto), na medida em que consegue reconhecer e apreciar qualidades em todos os estilos de música – há sempre coisas boas a aprender e apreciar, seja qual o estilo. A mesma pessoa pode ver hoje um concerto de música erudita, no dia seguinte ver um concerto de rock ou jazz e depois até gostar de ir a um arraial minhoto! Sentimos que a parte social é também muito importante no público vimaranense; aparecer nos eventos também para “ver e ser visto” é muito comum.

5. A oferta não é nem nunca será suficiente. No entanto, há imensos locais onde se pode actuar em Guimarães. A Casa Amarela, a Associação Cultural e Recreativa O Convívio, o Círculo de Arte e Recreio, o Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, o Ultimatum, o Centro de Artes e Espectáculos de São Mamede, etc... Enfim, quase todos os locais ou bares aceitam e desejam música ao vivo, quando proposta. Um músico profissional competente que actue a solo ou duo, pode perfeitamente viver bem a tocar só na nossa cidade. Já em banda é mais difícil. Obviamente que os valores pagos não são os que consideramos justos, mas essa realidade acontece em todo o país. Pelo menos, a mentalidade do “anda tocar que pagamos-te as bebidas” já não acontece em Guimarães (muito raramente acontece). As entidades que promovem concertos estão cientes que esta é uma profissão e que deve ser respeitada e dignificada, coisa que em muitos outros locais do país (e do estrangeiro) não acontece. 

6. Achamos que as bandas e os artistas se respeitam e ajudam. Há muita troca de informação, de músicos, de material. Muito convívio, como referimos acima.

7. Cremos que as oportunidades são criadas pelos próprios músicos e artistas. Se estivermos à espera que nos criem oportunidades, nunca as teremos. A Guimarães CEC2012 veio alterar um pouco essa mentalidade para melhor e notamos uma grande pró-actividade dos artistas nesse sentido. Criar oportunidades. Fazer propostas. Essa é a solução. Claro que as associações culturais e recreativas (existem mais de 70!) têm um grande papel neste campo e têm contribuído na medida do possível. 

8. Há varios projectos de qualidade. Mas para não deixar ninguém de fora, somos obrigados a salientar apenas um: Let the Jam Roll, obviamente.

9. Os músicos de Guimarães actuam em vários projectos, dentro e fora da cidade, dentro e fora do país. Por todo o lado. Não há nenhum festival ou concurso onde se possa “conhecer” essa realidade. Só frequentando os locais de convívio se conhecem as pessoas. Existe anualmente um grande Jantar de Músicos de Guimarães, onde todos (os que podem estar) convivem, tocam juntos (jam session) e se divertem. Cremos que essa é a altura onde se podem encontrar mais artistas por metro quadrado, simultaneamente. Há também alguns eventos/actividades que reúnem muitos músicos como o aniversário do Bar El Rock ou o projecto Rock Friends Project (concebido e organizado pelo Mário Gonçalves, baterista dos Let the Jam Roll). Este último tem por objectivo descobrir novos vocalistas e bandas em Guimarães, desafiando-os a participar com temas adequados ao contexto da festa e com uma banda residente para os acompanhar.

10. Guimarães é uma cidade que começa agora a tratar melhor os seus artistas. Mas há ainda um longo caminho a percorrer. Falta apoio aos projectos artísticos de qualidade, a nível nacional ou internacional. A cidade poderia ajudar mais a promover “lá fora” a arte de qualidade que cá se faz. Muitas das vezes, “santos da casa” continuam a não fazer milagres, mas é uma mentalidade que começa a mudar. 






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