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sábado, 24 de setembro de 2016

MARTA REN & THE GROOVELVETS - Entrevista

Dizer que temos ao nosso alcance um starsystem à nossa medida é algo cruel e elíptico. Estamos finalmente a tentar navegar naquelas piscinas super-modernas que ondulam a comando próprio e ainda por cima carregamos os valores daquilo que julgamos, e na verdade é mesmo, boa música para este ou aquele público. Mas depois temos super-talentos tão perto das nossas vidas que não sabemos bem como lidar com isso à saída da mercearia mais próxima da mesma forma que desconhecemos a próxima maré que pensamos que estamos a controlar.
Só que com Marta Ren é diferente. Nós já sabemos o que vem dali há muito, muito tempo. Mas agora a atenção cresce, o foco muda para a soul que carrega com uma banda incrível ora reinterpretando clássicos perdidos como "I'm Not Your Regular Woman" ou "Well I Done Got Over It" e surpreendendo-nos em temas como "2 Kinds Of Men" quando se torna inatingível e paira por muito mais terrenos do que o da classic soul music. Com a personalidade que a manteve relevante ao longo de todos estes anos ela não é apenas a nossa Sharon Jones, a nossa Amy Winehouse.
Diz ela que é teimosa e que mais da sua personalidade fica numa entrevista com os pais. Se calhar, temos de tratar disso. Havemos de lá chegar.
Mas ela já "lá" chegou. Com a pele de galinha por conta da casa e o reconhecimento por conta dos turistas internacionais que se vêem no olho do furacão despertado pela Record Kicks especialmente desde Fevereiro, data de lançamento de "Stop, Look, Listen", só deu para estas perguntas.






BandCom (BC): Se há algum tempo atrás imaginasses como seria a melhor fase da tua carreira, dirias que estás mais perto de lá chegar?

Marta Ren (MR): Sempre que começo uma banda ou um projecto, e finalmente esta aventura a solo, entrego-me totalmente e acho sempre que esse trabalho vai dar origem à melhor fase da minha carreira. Sinto que estou no caminho certo para o que sempre quis mas também tenho aquela sensação que "o melhor ainda está para vir", embora me sinta bastante realizada com tudo que está a acontecer com o " Stop, Look, Listen" desde Fevereiro.


BC: Dirias que Marta Ren & The Groovelvets é uma consequência do teu percurso musical até aqui ou antes gostarias de ter começado por aqui?

MR: É uma consequência sem dúvida, não teria feito este disco com esta maturidade sem ter a escola dos Sloppy Joe ou a paixão pelos Bombazines, tudo foi relevante, contou e foi importantíssimo para chegar até à aventura a solo.


BC: As tuas raízes familiares e geográficas, bem como aquelas dos que te acompanham ou acompanharam, desempenham um papel objectivo na persistência de uma carreira artística como a que tens e queres ter?

MR: O meu pai foi músico amador, o meu avô adorava cantar (e cantava bem), a minha mãe sempre adorou música, sempre houve música em casa dos pais e dos avós. Geograficamente, sou da Sra. da Hora mas estudei desde cedo no Porto. Todos sabemos que temos um lado raçudo e persistente, pode ter sido este conjunto de coisas que me tenha levado a ser tão resiliente ou mesmo e só a minha personalidade. Quem me conhece e está de fora saberá respondê-lo melhor, tens de entrevistar os meus pais (risos).


BC: Quando aprecias o reconhecimento que estás a ter em países que não Portugal, achas que o mesmo depende do estilo que entretanto adoptaste para a tua carreira a solo? Estás a receber na mesma medida daquilo que queres dar enquanto "performer"?

MR: Para ser honesta, estou a receber mais do que expectei. Ter a Wax Poetics, a Blues & Soul Magazine, o Dan Aykroyd aka Elwood Blues a fazerem críticas maravilhosas e a reconhecerem o meu trabalho de igual para igual com algumas das minhas referências foi mais do que eu esperava. Não te vou mentir e dizer que nunca sonhei com isto, mas tento sempre conter as minhas expectativas para não me desiludir.





BC: Dentro do universo 'soul', e também uma vez que partes de referências clássicas deste tipo de sonoridade, o que é que vês como mais importante para criar a tua própria notoriedade, algo que sobretudo numa carreira internacional torna-se tão difícil quando importante? É mais difícil agora o tal 'stop, look, listen' que antecede um novo passo a dar em relação a outras alturas onde as coisas poderiam acontecer de forma ainda mais espontânea e crua?

MR: Estamos na era da Internet, nada é tão difícil como há 20 anos atrás independentemente do estilo de música que faças. O segredo para ultrapassar a dificuldade é trabalhar, trabalhar todos os dias para se chegar onde se quer, até se chegar lá e voltar a fazer o mesmo do início as vezes que forem precisas.


BC: A produção e a qualidade dos instrumentais em disco têm sido decisivos para elevar a voz da Marta Ren a outros patamares de relevância. Qual é o "feedback" mais importante que podem ter, ou que já tiveram, em relação aos vossos espectáculos?

MR: Todo o conteúdo deste disco é importantíssimo, desde os microfones que fizeram a captação dos instrumentos aos compressores, tudo material analógico e vintage. As músicas, as letras, os arranjos das músicas, a edição, a mistura, a masterização do disco...foi tudo feito de forma muito perfeccionista e cuidada, embora a sonoridade final se reflicta num som mais sujo e envolvente que pode parecer um contra-senso. 
O melhor feedback que tivemos até agora foi 5 franceses que fizeram 300km para nos verem e poderem ter os discos assinados no final e sabiam as letras de cor do inicio ao fim.


BC: Valendo o que valem os "videoclips" para a carreira musical de alguém, é notória uma nova direcção na história e na elaboração dos vídeos que têm servido de suporte aos “singles”. Concordas?  

MR: Eu acho que os videoclipes sempre foram importantíssimos. Há músicas de que nem gostas muito mas os vídeos são tão fixes que acabas por vê-los mais que uma vez. Acho muito importante um vídeo aliado a um single.


BC: Nesta altura estás a ter oportunidades que esperaste 20 anos para ter. Por um lado, grandes palcos/festivais/eventos, a projecção mediática, e por outro a projecção de uma carreira com ambições totalmente internacionais. Agora que estás a tentar atingir novos objectivos, os obstáculos que havia antes para que, quem sabe, já os tivesses atingido mantêm-se?

MR: Sim, os obstáculos são praticamente os mesmos. Estes 20 anos trouxeram-me outra paciência e sapiência para os ultrapassar. A luta não é muito diferente das anteriores. Levares uma banda de 9 elementos para a estrada nunca foi fácil nem dentro nem fora de portas, o que vale é que sou teimosa (risos).


BC: Décadas volvidas, e apesar de a “soul “ basear-se e crescer a partir da independência de género, o que é o “poder soul” visto pela óptica de uma mulher que tanto pode pegar numa história sua ou noutra que lhe sirva de inspiração para chegar ao estado de espírito que pretende passar?  

MR: A soul é a alma, fala da vida, da vida vivida, do que sentes das tuas entranhas e do que sofres e aprendes com isso e a classic soul music reproduz isso tudo, traz o que muita gente passa e sente mas não o consegue expressar.





BC: Já subiste ao palco das Noites Ritual embora não em nome próprio como agora. Tens recordações destes 24 anos de concertos no Porto no final do Verão? 

MR: Tenho as melhores recordações, fui a muitas edições - em 2000 com os Sloppy Joe mas antes e depois como espectadora-, são noites de reencontros, de histórias de final de Verão, de se poder descobrir boas bandas que andam com menos atenção por parte dos media. Noites Ritual = a Noites de Celebração.


BC: Qual é o “talento clandestino” que mais aprecias num outro músico ou intérprete?
MR: Que cante ou toque ou componha com verdade, com o que está a sentir no momento e não à procura de algum tipo de fórmula que deu resultado no passado ou que acha que pode repetir. 


André Gomes de Abreu




domingo, 28 de agosto de 2016

WHALES - Entrevista

Após o final súbito dos Backwater And The Screaming Fantasy, Débora Umbelino assumiu-se a solo enquanto Surma e começou a criar um novo percurso para si. Não demorou muito para que os restantes membros partissem noutra direcção enquanto Whales e logo com a perspectiva de "Big Pulse Waves" e "Half Moon Bay" em maturação, com a primeira já garantida como "single" nos primeiros meses deste ano.
Com a garantia da edição do seu disco de estreia em 2017 pela Omnichord Records, a banda aproveita a cola de um selo de qualidade para diversificar a paisagem sonora desse mesmo colectivo e a vitória no Festival Termómetro foi o trampolim decisivo para um crescimento acelerado em que o Indie Music Fest é a próxima etapa passadas outras como a presença em festivais como o NOS Alive e na colectânea Novos Talentos FNAC 2016. Encostamos, por isso, todas as perguntas a meio deste salto para o desconhecido.
 


BandCom (BC): Assim que os Backwater And The Screaming Fantasy terminaram, sabiam exactamente o que queriam fazer?

Whales: Não sabíamos bem o que queríamos fazer mas sabíamos perfeitamente que não queríamos deixar de criar algo que fosse nosso e diferente.


BC: Ainda estão a trabalhar no disco de estreia? Quais as vossas maiores preocupações?


Whales: Estamos. Este disco foi sempre um dos nossos grandes objetivos e já temos vindo a trabalhar nele ao longo dos últimos meses. A nossa maior preocupação é atingir os prazos por nós previstos e fazer com que o resultado final seja o melhor possível, tanto para nós como para todos os que o ouvirem.


BC: Acham que o facto de estarem a riscar rapidamente pontos de uma imaginária “lista de objectivos de uma banda bem-sucedida em Portugal” é o reconhecimento justo e exacto pelo vosso trabalho enquanto músicos desde que começaram ou esperavam que tudo se processasse com um maior espaçamento e fosse mais fácil de segmentar?

Whales: De facto as coisas têm-nos corrido bem, temos tido sorte e, mais importante, o apoio daqueles que gostam de nós. Claro que quando começámos o projeto nunca nos passou pela cabeça que as coisas acontecessem tão rapidamente, no entanto está a ser fantástico acontecer assim.


BC: O HAUS e a sua equipa têm estado associados a vários lançamentos de bandas nacionais nos últimos tempos e a muitos lançamentos de bandas com carreiras muito jovens. Quais eram as vossas expectativas antes de entrar em estúdio para gravar a versão single do “Big Pulse Waves” e de que forma elas se materializaram na evolução do disco e de vocês também enquanto banda?

Whales: Antes de entrarmos em estúdio, sinceramente, não tínhamos dúvidas de sairmos de lá satisfeitos em relação à música. No entanto, tínhamos a noção de que íamos chegar, gravar e ir embora. Ficámos surpreendidos com a forma como eles lidaram com uma banda que não conhecem de lado nenhum, a quem não devem nada. Gostámos principalmente da sinceridade deles e da forma como se entregaram à nossa música. Após a nossa passagem pelo HAUS, começámos a dar mais atenção a pequenos pormenores que se calhar antes passavam despercebidos.





BC: Depois de vermos o videoclip da “Big Pulse Waves”, há algum cuidado especial com a imagem global da banda que queiram consolidar e enfatizar?

Whales: Ainda é muito cedo para falarmos numa imagem concreta da banda. Foi um primeiro passo que achámos que correu muito bem. O Rui Gaspar fez um excelente trabalho e transmite a energia que queríamos colocar na música.


BC: Uma vez que se posicionam, para já, como uma banda indie-rock com apego a alguma electrónica, haverá material e material a montar, carregar, agrupar para cada concerto ou cada ensaio. Enquanto músicos, o desafio maior está nesta altura na exploração da electrónica ou da parte eléctrica e mais conotável com o rock? 

Whales: Um dos nossos objetivos foi sempre explorar esta vertente mais eletrónica do rock alternativo de modo a individualizar-nos do resto das bandas, portanto para já essa é a nossa maior preocupação.


BC: Já não é possível particularizar apenas Leiria, como tão tentador poderia ser, enquanto um pólo de criação de novos eventos. Cada vez mais descobrem-se novos festivais, novos eventos, novas formas de chamar a atenção para a música feita em Portugal. É isso que têm sentido? Que locais e que concertos mais vos têm surpreendido?


Whales: Temos sentido, principalmente, que tem sido atribuída mais importância na música em Portugal nos últimos anos com a criação de novos festivais e novos eventos que apoiam bastante a cultura portuguesa em geral. "Puxando a brasa à nossa sardinha", um dos sítios que nos tem mais surpreendido em termos de dinamização da cultura é Leiria. Esta nossa cidade tem um conjunto de pessoas que de forma voluntária elevam a cultura a outro patamar. O Norte do país também nos é bastante especial, é aquele local onde vamos e nos sentimos sempre acarinhados e recebidos de forma quente. Não podemos deixar de falar do NOS Alive que foi um concerto único, em que fomos tratados de forma espetacular e recebidos pelo público de forma surpreendente.


BC: Pode facilmente tornar-se asfixiante a vida de estrada num país pequeno mas com cada vez uma maior distribuição de salas activas (não que haja uma variação substancialmente positiva na sua quantidade) e em que se chega a um festival de “montra” e é difícil sugerir bandas portuguesas que tocam todo o ano em todo o lado face a artistas ou outras bandas que vêm do estrangeiro, em estreia ou de regresso. A estagnação é algo que já vos preocupa ou não há outra saída senão o estrangeiro?


Whales: Acreditamos que tendo um público fiel e que nos siga de Norte a Sul do país, por muito pequeno que seja, nunca será asfixiante mas sim reconfortante. Mas qual é a banda que impõe um limite ao número de pessoas a quem se quer dar a conhecer?! O nosso objetivo é e será sempre levar a nossa música ao máximo de pessoas possível. Tocar no estrangeiro será sempre um desejo nosso.


BC: Em que fase é que estamos no que diz respeito à nova música portuguesa? Temos passos em falso que estamos a remediar ou que devemos remediar a curto prazo? O mercado internacional está mais aberto para “nós”?


Whales: Na nossa opinião existem algumas coisas que deviam mudar na mentalidade dos portugueses ligados aos grandes festivais de música em Portugal nomeadamente quando se trata de escolher as bandas que tocam nos palcos principais e secundários. Porquê pôr uma banda estrangeira pouco conhecida num palco principal quando se pode por uma banda portuguesa com mais nome?! Ou, por vezes, quando até tocam no palco principal, porque não colocá-las no horário da noite?! Quanto ao mercado lá fora, não temos a certeza de que as bandas portuguesas sejam tão bem recebidas como são as bandas estrangeiras cá em Portugal.


BC: Se os Whales são uma promessa a confirmar em breve, como é que se chamam as outras promessas portuguesas que gostariam de ver confirmadas tão rápido quanto possível?

Whales: Qualquer banda de Leiria pode ser uma promessa a confirmar!!


BC: Entre os Foals, Roberto Carlos e aquele labrador do “teaser” da versão “demo” da “Big Pulse Waves”, a quem gostariam de deixar uma mensagem e que mensagem seria essa?


Whales: Dos três, gostaríamos de deixar uma mensagem ao nosso amigo Juca, o labrador do teaser, que infelizmente nos deixou há um ano atrás. Gostaríamos de lhe agradecer a companhia que nos fez em dias e noites inteiras de trabalho na nossa sala de ensaios.


André Gomes de Abreu




segunda-feira, 21 de setembro de 2015

PZ - ENTREVISTA

A tour de apresentação do novo disco de PZ e sucessor de "Rude Sofisticado", "Mensagens da Nave-Mãe", conhece uma das suas últimas datas, para já, no paraíso das Noites Ritual nos Jardins do Palácio de Cristal, Sexta-feira e Sábado, onde a entrada é livre e a música não tem franquia.
Não é apenas pelo facto de a música continuar a soar, sem saudosismos, a uma espécie de Repórter Estrábico inflamados de "Viagens" de Pedro Abrunhosa, mas a ligação à terra-mãe e a utilidade acrescentada à caixa de comentários favorecem na hora do sucesso, aí cada vez mais amplificado pelo poder de despertar reacções imediatas a todo o Universo Paulo José Pimenta por parte de multidões difusas, se falamos de aplausos, ou de grupos muito concretos, se as dúvidas se instalam.
Esperava-se que PZ pudesse sobreviver sem a sua própria consciência? Não o esperamos nem o esperávamos antes, durante ou depois de o conhecer melhor.
Música de intervenção? Música é intervenção.
A pop também pode ser sinónimo de subversão.
Mas agora, queremos ver o Verão a acabar em beleza com PZ dadaísta, o aprendiz eterno de super-artista. Venham daí: com PZ, ganhamos todos nós. Com as Peta Zetas, também, claro.





BandCom (BC): Este mais recente “Mensagens da Nave-Mãe” sucede ao “Rude Sofisticado”. Fala-nos um pouco das ideias principais que te levaram a este disco e a afastares-te, não totalmente, do disco anterior.

PZ: Neste projecto não existem muitas ideias principais, são mais aglomerados de memórias e visões sociais [com] que a minha mente se confronta e se debate no dia-a-dia. Daí haver uma certa coerência entre as mais recentes “Mensagens da Nave-Mãe” e o “Rude Sofisticado”, como também acho que já houve pontes que ligaram o “Rude Sofisticado” ao meu primeiro álbum, o “Anticorpos”. O processo nestes 3 álbuns foi o mesmo, solitário, livre de fazer música à minha maneira, livre de escrever letras e melodias que me fizeram sentido, sempre pronto para brincar com drum machines, samplers, sintetizadores, tocar linhas de baixo ou guitarra. Aliado a tudo isto é o conforto do meu ambiente caseiro que me deixa compor e produzir no momento em que penso nelas. Se bem que algumas melodias e letras fiquem a ruminar na minha cabeça durante alguns meses e, às vezes, anos.


BC: Qual é a pergunta que continuas a fazer à “Nave-Mãe” sem que obtenhas resposta?

PZ: O que raio é que estou a fazer aqui? 



BC: Agora que também já participaste na abertura de um espectáculo de stand-up comedy, qual é o melhor sketch que tens na tua cabeça e que gostarias que se tornasse uma música?

PZ: Correcção, eu fechei um espectáculo de stand-up a convite do Eduardo Madeira e foi uma óptima experiência. Gostei muito de conhecer vários mestres da comédia portuguesa que se encontra num momento muito bom e ímpar a meu ver. Mas nunca pensei num sketch que se possa tornar uma música. São duas formas de expressão diferentes apesar das 2 artes se tocarem muitas vezes. Há músicas que nos fazem rir e há comediantes que usam a música para nos fazerem rir durante as suas actuações.


BC: És daqueles produtores e compositores que vai buscar inspiração a tudo ou que já sabem muito bem o que é que lhe vai chamar a atenção e cola-se a esse filão? És o membro perdido dos Primus, Sleaford Mods ou Fall?

PZ: Gostava muito de ser um membro perdido dos Primus ou dos Fall, sem dúvida! São bandas que por acaso sempre ouvi com atenção, especialmente os Primus. No entanto, quando faço uma música estou a pensar mais em mim e no que me define; aliás, é uma maneira de me libertar dos constrangimentos sociais que nos rodeiam. Sair da norma, procurar a ambiguidade e o surrealismo, mas sempre com uma forma de expressão muito própria e singular da língua portuguesa. Agora, claro, a minha musicalidade vai buscar muitas influências a várias bandas dos mais variados espectros musicais. É a lei da música.


BC: Entre os discos, vão aparecendo várias canções e videoclips de temas que só mais tarde ficamos a saber se vão mesmo integrar o trabalho seguinte. Depois de tanta partilha, tanta entrevista, tanto “passa-a-palavra”, quais são as medidas do sucesso da música do PZ?

PZ: É sempre difícil medir o sucesso. O sucesso nasce do caos residual provocado pelo trabalho de qualquer um em qualquer área. Quando esse trabalho é reconhecido pelos nossos pares, e em certas actividades artísticas pelo público, diz-se que é um sucesso. É um cliché o que vou dizer, mas o sucesso tem muito a ver com o trabalho que cada um faz e a dedicação a esse trabalho. Tive que passar por muitas etapas para chegar onde estou e durante esse tempo fui formando uma linha musical que começou a chegar a mais público através dos discos, dos videoclips, dos concertos, entrevistas, etc. Claro que as redes sociais e o Youtube foram importantes para chegar ao público moderno, aquele público insaciável por coisas novas, imediatas, que possam partilhar no momento, que se identifica com o que ouve e com o que vê. Foram muitas horas e momentos que gastei a produzir conteúdos e depois a divulgá-los; e muitas horas no Facebook e afins a comunicar com as pessoas que me seguem, o que é realmente algo de especial e somente possível hoje em dia. Outra vertente onde me dediquei muito nos últimos 2 anos foi nos concertos, na actuação ao vivo. Hoje em dia o PZ é uma banda ao vivo e um espectáculo audiovisual mas esta evolução vem de trás com outras bandas que toquei ao vivo como os Paco Hunter ou a Zany Dislexic Band. Para se ter sucesso é preciso tempo, que é uma dimensão muito menosprezada hoje em dia. 






BC: É óbvio e recorrente o teu recurso à ironia nas canções que apresentas mas acabas também por cruzar outras referências e outras figuras de estilo. Há algum momento em que a transmissão da mensagem inicial é afectada ou isso induz mais não a personificação mas sim a personalização das canções?

PZ: Acho que a mensagem inicial que se deposita na música nunca é alterada no seu essencial, mas é uma questão onde posso estar enganado… Cada pessoa tem a sua interpretação da música. Ninguém neste Mundo vê e ouve o Mundo (passe a redundância) da mesma maneira. Mas gosto da ideia de ter músicas personalizadas e não personificadas. No entanto, há certas músicas em que me torno uma personagem diferente dentro das muitas que me habitam e que vão variando de dia para dia ou mesmo de hora em hora. Para além disso, gosto de atazanar a minha condição humana e pregar-lhe belas partidas. Às vezes, nem eu próprio, no meu estado mais consciente, sei como interpretar a minha música ou o estado de espírito que me levou a fazê-la. O que eu percebo é que me divirto a fazer música sempre na esperança que outros se divirtam e se questionem enquanto as ouvem.



BC: Concordas que, para além dos leitmotivs principais de cada disco ou tema, também o projecto PZ é feito de raízes, que tem um sentido particular de espaço e de tempo, que teria que ser adaptado para ser feito noutra altura e noutro local? Por exemplo, que mais “Dinheiro” nos bolsos não significaria imediatamente atingir outros objectivos, talvez até maiores?

PZ: Por mais imaginação que tenhamos não conseguimos sair do nosso tempo. É ele que nos define a vários níveis, principalmente se estivermos a falar de um ser social como é o ser humano. Não vale a pena fazer conjunturas sobre o que seríamos se vivêssemos noutro tempo. Isso é uma impossibilidade física. Vivemos agora, e o agora é que está a dar. Mas uma coisa é certa há muito tempo: o Tempo é Dinheiro.


BC: Dizes que sempre gostaste de fazer música para te divertires mas também que esperas que a exigência e a sua singularidade se mantenham como duas características importantes. Tendo em conta essa teia de equilíbrios finos, em que é que queres puxar mais pela música do PZ? Achas, tal como o Howe Gelb disse numa entrevista recentemente, que quando tiveres feito o teu melhor disco é altura de deixares de ser o PZ e fazer com que haja outro projecto diferente mas com o mesmo grau de importância?  

PZ: Acho que nunca vou ter a certeza de qual será o meu melhor disco. Eu acho sempre que o melhor é o último pois é a experiência musical mais recente que tenho. Eu já faço outras coisas para além do PZ, e tenho outras visões musicais que espero editar brevemente, mas tudo a seu tempo.





BC: O que é a Meifumado (se não for uma espécie de “Matador” como já disseste antes) e a música independente em 2015? Esta última é a que mantém a música mainstream a respirar saúde? Ultrapassado o fantasma dos downloads ilegais, estamos a conseguir lidar bem com novidades como a implantação das redes sociais e dos festivais de Verão como um fenómeno nas nossas vidas? 

PZ: Acho que não há como lidar mal com coisas positivas. As redes sociais e os festivais de Verão têm ultimamente sido muito importantes na sustentabilidade do mercado da música feita em Portugal. Promotores, editoras, agências, produtoras, estúdios, toda uma panóplia de indústrias criativas, de comunicação, etc, têm a música como a gasolina que as faz andar para a frente. E, claro, deixei para o fim de propósito, os músicos que são a peça-chave de toda esta indústria apesar de, por vezes, nos esquecermos disso. Sem os conteúdos musicais interessantes e que façam mexer as cabeças e as pernas do público nada disto seria possível. A música faz e sempre fará parte integrante, e atrevo-me a dizer estruturante, de qualquer cultura integrada numa sociedade moderna. Acho que os músicos deviam ser mais compensados pelo seu trabalho e pela sua criatividade. Não estou a dizer que não são, e é obvio que cada músico faz parte de um mercado livre onde a lei da oferta e da procura é quem dita as regras, mas há situações onde os lucros de todo este fenómeno musical deviam ser mais compensadores para quem realmente faz a música. As redes sociais ajudaram também nesse aspecto de dotar os músicos de mais independência no seu trabalho, mais controlo sobre as suas obras na medida em que podem divulgá-las de formas mais eficazes do que através dos canais tradicionais. Hoje em dia para se singrar na música não é necessário fazer parte de uma editora major. Daí estarmos a ver cada vez mais álbuns com edições próprias ou com o apoio de editoras independentes, mais pequenas, mas dotadas de estruturas eficazes para fazer chegar a música às pessoas e ao público que interessa.


BC: Que performer compõe a mais imponente figura de palco de sempre? Porquê?

PZ: Pergunta difícil… Michael Jackson, Jim Morrison, Morrissey, Kurt Cobain...há vários performers que nos enviaram e continuam a enviar para galáxias musicais distintas mas ao mesmo tempo intemporais. Acho que há sempre algo de transcendental nos grandes performers musicais.



BC: No manifesto da missão da Meifumado o epílogo rege-se com “Venham ver o barco a afundar”. No barco ou na nave-mãe, sempre com o mesmo pijama?   

PZ: :) A Meifumado é uma editora/produtora em constante transmutação, formada e reformada por várias pessoas que trabalham com uma ideia que já tem mais de 10 anos. O conceito é simples: a produção e edição de boa música. Conceito original, não?



André Gomes de Abreu




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

DAVIDE LOBÃO - Entrevista

Caro Davide, está garantido que o Benjamin Clementine volta a Portugal por ocasião do Vodafone Mexefest lá mais para a recta final do ano. Seria, evidentemente, óptimo que estreasses o teu disco em nome próprio, "Na Volta", no Indie Music Fest logo à noite com o mesmo impacto que aquele "Later With Jools Holland" teve em abrir olhos e desafiar consciências. Esperemos que estas 10 canções sejam uma das últimas Coca-Colas de um deserto de rotas claras para a maioria das pessoas que querem dar a cara e o nome pelas suas canções. Mas os Miss Titan, quem vai gravar ao Silo, outras pessoas continuarão a precisar na mesma medida de um pouco dessa personalidade que cativou acima das canções.
Agora, deixa que as pessoas saibam um pouco mais, deixa as pessoas cantar essas certezas e essas questões e tomar o pulso às canções.
Esta é a carta que não te vamos escrever.






BC: Pergunta para queijinho: tinha que ser exactamente “aquela” a hora em
que recordas que O Bisonte “terminou”? Há alguma relação com o
clique que se dá para o avanço dos Miss Titan?

Davide Lobão (DL): Há este espaço, para a dúvida, que é necessário. Começando pelo fim: Miss 
Titan já se vinha a desenvolver ainda O Bisonte estava de boa saúde. A
primeira vez que estreámos aquilo foi numa das malogradas festas do Quase
Fim d’Ano. Não recordo um momento em que tenha terminado, O Bisonte. As
coisas vão acontecendo e nós vamos percebendo o que se passa. Cada um,
individualmente, faz a sua parte, no bom e no mau. Na dúvida, se a questão
aponta ao final da banda e à sua relação com a "Hemingway", a resposta só
pode ser que a "Hemingway" data, talvez, de 2010.


BC: Pergunta para a faca na mão: onde é que se quebra o fio condutor entre
o Davide Lobão de banda, O Diligente e o Davide Lobão em nome
próprio? É na relação com o poder “relativo”?

DL: Não sei bem. Continua a ser mais cool ter um nome fixe, de banda, ou ter a

Pitchfork a dizer que a tua música é fixe e por isso o teu nome é mesmo fixe, ou
então os teus amigos fixes com mais uma ideia vintage fixe. A minha primeira
questão foi a responsabilidade, o dar a cara. Sempre o fiz, com as minhas
bandas, mas dava a cara por um grupo. Não mudou muito. Dou na mesma a
cara por um grupo que me ajuda a dizer aquilo que quero dizer. No fundo não
há uma quebra, antes sim uma continuação.


BC: Depois de concluíres no final do disco que já és “maior”, qual é a tua
maior certeza aos 33 anos? Que voltas há a dar à forma como se
relacionam inspirações e as respectivas composições que delas resultam
para quem já escreve e trata ao vivo há tanto tempo?

DL: Essa é a pergunta que eu ando a tentar responder. Na verdade não sei. As

certezas diluem-se e escapam-se-nos pelos dedos e a inspiração é apenas a
vontade que temos de dizer algo realmente honesto. A cena é quando eu
tentar contar uma coisa que nem sequer me faz assim tanta diferença, que
podia nem ter dito. Aí é que vai ser complicado relacionar-me com o Mundo.





BC: Não deixei de reparar num comentário feito na tua página de Facebook:

“A solo? Todos os músicos te abandonaram? Deves ser mesmo
insuportável : (“. Aparte a ironia, é de notar que efectivamente alguns
dos músicos com que tocavas antes acompanhar-te-ão agora. Deixaram
de ser “apenas” colegas de banda para ser uma segunda família?

DL: É. Não é à toa que o Nuno, que fez esse comentário, já teve uma banda

chamada Cabrões Irónicos (desculpa Nuno) com a qual eu ensaiei uma vez,
num escritório, do Gilman, na Maia. É muito importante tocarmos com os
nossos amigos, termos vontade de rir com eles e nos juntarmos para isso. Já
eram família antes de serem colegas de banda, portanto é mais uma vez um
sentido de continuação.


BC: Em Junho desabafavas: “Odeio pessoas felizes”. Afinal, o que há para
odiar na felicidade?

DL: Tudo. É um conceito abstrato, um desequilíbrio estranho. O ódio e a

depressão é que fazem o mundo girar. A auto-ajuda tem os dias contados.


BC: 10 canções, 10 títulos, 10 palavras. Independentemente da sua
complexidade e mensagem, é uma consequência da sua maturação que
as músicas tenham títulos minimais?

DL: Já me fizeram essa pergunta antes e nunca tinha pensado nisso. Algumas das

canções tinham títulos mais longos e caminharam até ali. Deve ter a ver com
esta fase. Poucas palavras mas mais acertadas.


BC: Qual é a canção que mais te orgulhas que seja tua ou também tua?

Porquê?

DL: Neste disco há um orgulho enorme. Do bom e do mau. Vou dizer só uma

delas, a "Vá", que começa com esperança e vontade de ser melhor e acaba com
um virar de costas. A ter que falar das canções de que me orgulho, nas quais
participei, teria de falar de praticamente todas que fiz, com e sem banda. Já
são umas quantas.





BC: Qual é o sabor de estrear um disco num dos maiores festivais do ano?

DL: De responsabilidade? De gratidão? Só quero tocar alto, muito alto

(e tens razão, é uma das coisas boas que por cá se faz, este Indie Music Fest!).


BC: Recordo um entre vários comentários à música d’ O Bisonte em que se
classificava a banda como “uma banda tipicamente portuguesa”. Para ti,
quando é que uma canção se pode tornar, também ela, “tipicamente
portuguesa”? Vamos cair sempre na questão linguística mesmo que haja
canções e bandas com termos como “Lisboa” e “Portugal” à mistura?

DL: Nunca tinha ouvido essa. É uma coisa boa. Uma canção não se torna

tipicamente portuguesa. Isso há-de ter a ver com a questão da identidade.
Quanto mais nos identificamos com uma coisa e quanto mais próximos nos
sentimos dela, mais diz acerca de nós. O que isso me leva a pensar é que de
facto as palavras chegaram ao interior das pessoas, elas reviram-se naquilo que
se estava a contar. Ser tipicamente português é o quê? Não é nada. Lisboa e
Portugal são termos que aparecem para contextualizar e para tentar contar
que lá na minha terra é desta maneira.


BC: Para terminar: qual é o melhor concerto que viste este ano e qual o pior
disco que escutaste (só para tentarmos ver se é possível fugir à tua
paixão pelo disco do Benjamin Clementine)?

DL: É uma paixão recente. Ofereceram-me o disco e quando dei por mim tinha

rodado umas dezenas de vezes. Este ano foi o Gregory Porter, na Casa da
Música. Pior disco não sei dizer porque hoje em dia já não se odeia bandas,
ignora-se. Se tivesse um disco que odiasse era sinal que era bastante bom.
Tudo isto é triste.

André Gomes de Abreu




malcontent - ENTREVISTA

Sérgio Costa, Filipe Pereira e Jorge Oliveira formam actualmente os malcontent, o agora trio nortenho activo desde 2007 que se regenerou com sucesso após a sua vitória no antigo Super Bock Super Rock Preload em 2010 com as mesmas expectativas, ou até superiores, que adquiriu na altura imprimindo um forte cunho noise a uma estética semelhante à de bandas conotadas com o post-punk e o indie-rock.
De partilhar palco (e até gosto pelo mesmo material) com, por exemplo, os Föllakzoid ou A Place To Bury Strangers, óbvios compinchas, vão amanhã ao Indie Music Fest integrar um contingente de cerca de 40 outras bandas nacionais, repetindo a militância festivaleira do Indouro Fest de há alguns meses atrás. Numa altura em que "Riot Sound Effects", o seu disco de estreia pela Honeysound e sucessor de "Erased" e "Love The Gun", também está mais do que na altura certa para ser descoberto por quem se desvia do "hype" momentâneo, falámos com a banda antes de mais um degrau no seu caminho em busca de palcos maiores.  






BandCom (BC): Porquê “Riot Sound Effects” como título do vosso novo trabalho?

malcontent: É um título que identifica a nossa sonoridade, a atmosfera que pretendemos criar em disco e que aponta o universo declaradamente caótico que pensamos que a música deve originar. Sinceramente, é também um título que identifica igualmente a nossa percepção do momento. Não cremos haver lugar a serenidade num país tão amarrado, tão sacrificado e tão enganado. Longe de se tratar de uma mensagem política, não deixa de ser um apelo contra a resignação. Noutra perspectiva, talvez a música, ou aquilo que a rodeia, necessite de um "riot sound effects".


BC: Olhando para uma banda com o percurso e sobretudo a sonoridade dos malcontent, há “gritos de revolta” por dar?  

malcontent: O rock, seja qual for a sua vertente, significa que há gritos de revolta. Voltando à questão anterior, julgamos ser necessário agitar algumas águas onde mergulha a música. Seja pela forma como a indústria se desenvolve, seja pela forma como quem consome percepciona a música. Vamos continuar assim e não nos cansamos de dizer que estamos mais próximos do início do que do fim...


BC: O que é que a adição do Jorge trouxe aos malcontent?

malcontent: Há uma grande identificação do ponto de vista musical, o que não impede o surgimento de novas ideias, e o Jorge trouxe novas ideias. Temos agora uma formação estável, serena e madura... a melhor de sempre.


BC: Foi fácil escolher as músicas e a ordem pela qual constariam no novo trabalho? Pode-se falar de algum “conceito orientador” para o “Riot Sound Effects”, apesar de não declarado?

malcontent: Alguns temas que gravámos em estúdio ficaram à margem do álbum. As misturas finais trouxeram-nos algumas surpresas. Músicas que julgávamos indispensáveis ao novo trabalho acabaram por não entrar. Outras sobre as quais tínhamos reduzidas expectativas tornaram-se as nossas favoritas. É um processo estranho, mas que mostra a complexidade de produção de um disco. Quanto ao alinhamento do álbum, seguimos sobretudo uma sequência lógica do ponto de vista melódico, o que dá ao disco uma grande coerência.
"Riot Sound Effects" enquadra (de uma forma ruidosamente melódica) o nosso ponto de vista sobre a sociedade ou sobre as relações pessoais. É o nosso pequeno contributo para questionar o que nos surge no dia-a-dia.





BC: Havendo quem vos compare ao noise e ao indie-rock mas com uma essência pop de bandas como os Jesus and Mary Chain, que descobertas e alterações na sonoridade dos malcontent, maiores ou nem tanto, vos têm surpreendido e motivado? Tem sido também um processo de revelação das vossas verdadeiras fontes de inspiração num dado momento?

malcontent: Há um vasto conjunto de nomes, sobretudo do universo anglo-saxónico, que nos influencia, é certo, mas criamos o nosso próprio caminho. Temos por objectivo escrever canções recheadas de poeira sónica e, ao contrário do que muitos pensam, os meios inovadores para lá chegar não estão esgotados. Quase diariamente exploramos novas sonoridades, diferentes modelos de composição. É muito positivo quando o nosso próprio trabalho nos surpreende e isso vai reflectir-se no futuro. Temos muito por onde inovar sem renegar os nossos "princípios", a nossa ideia do que deve ser a música. Um tema pode ter airplay sem necessariamente resultar da fórmula clássica - intro, verse, chorus, verse, chorus, end - e é isso que estamos agora a fazer, mas sem entrar no erro de transformar as nossas canções aborrecidas...


BC: A edição do disco contou, entre outros, com o contributo dos vossos fãs. Para além da contribuição monetária, houve algum incentivo, alguma mensagem que vos tivesse encantado para além do sucesso dessa iniciativa?  Consideram isso como um carimbo de qualidade, como “a melhor crítica” que poderiam receber? 

malcontent: Sem dúvida. É a prova da qualidade do nosso som. Tivemos ainda muitas mensagens encorajadoras com o lançamento do álbum sublinhando a qualidade do trabalho. É naturalmente com grande satisfação que recebemos esse feedback. A reacção aos nossos concertos também é uma mensagem positiva. 


BC: Com o EP “Riot” e este “Riot Sound Effects” passaram a fazer parte do catálogo da Honeysound. O que/quem é que vos conduziu à Honeysound?

malcontent: A Honeysound encarna exactamente o espírito que deve acompanhar a música. Não é uma editora, é um conjunto de pessoas/músicos que pretendem servir a música e não servir-se dela. Há um esforço solidário na promoção e divulgação de projectos. Há um espírito de entreajuda e não uma tentativa de usar a música como trampolim para promoções pessoais ou como meio de lucro fácil. Já havia contactos e a nossa entrada no catálogo Honeysound foi quase natural. 





BC: A “Aggressive” do “Riot” foi objecto de uma remistura por parte do Rui Maia. O que é que acharam do resultado final? Por entre as camadas de guitarras que imprimem, é útil ter alguém de fora que vos mostre outra forma para o mesmo conteúdo?

malcontent: A remistura do Rui é excelente e é com orgulho que o vemos associado aos malcontent. Trata-se da sua própria interpretação de um tema nosso sem o desvirtuar. Mantém a agressividade, a intensidade do tema, mas transporta-o para outra atmosfera, mais electrónica e dançável. Não temos qualquer "prurido" com diferentes abordagens pois esse é outro veículo para fazer chegar o nosso som a outros públicos. Seria injusto não mencionar igualmente as remisturas de Fat Freddy e Alex FX que também estão no alinhamento do "Riot" EP. São trabalhos geniais!


BC: À semelhança do Indie Music Fest, onde vão estar, outros festivais vão surgindo por todo o país e ganhando o seu lugar apresentando nova música portuguesa e dando lugar para que inúmeras bandas se mostrem em lugares mais destacados da sua programação. Isto significa que as organizações perderam o receio que tinham de colocar a música portuguesa ao nível da música de outros países? Que razões consideram mais importantes para esta alteração do paradigma que vinha sendo comum nos cartazes dos festivais de Verão?

malcontent: Sim, há claramente uma alteração de pensamento, mas nunca percebemos esse receio de colocar bandas portuguesas numa posição de destaque. É uma questão de mentalidade. E isso não é exclusivo dos festivais onde, para além de não haver lugar de destaque, durante muito tempo a inclusão de bandas portuguesas nos cartazes era vista como algo de favor (quantas bandas não terão ouvido, algo do género "tocam à luz do dia quando o público é reduzido e não temos como vos pagar. Ainda assim é muito bom para vocês, é promoção"). Também nas lojas convencionais questionamos a razão pela qual o nosso disco e outros de bandas nacionais é colocado lado a lado com artistas de fado ou música ligeira. Qual é o sentido?  Então não será mais coerente colocar o nosso som junto à dita música alternativa? Por que não fazem uma banca exclusiva de música espanhola, outra francesa, japonesa, de Vanuatu, etc.? É uma questão de mentalidade que felizmente e sobretudo nos festivais começa a mudar. No entanto, acreditamos que a alteração do paradigma está directamente relacionada com a melhoria da qualidade das bandas nacionais. Há projectos excelentes e abrem portas à divulgação do fulgor criativo que Portugal assiste.


BC: O que é que o futuro reserva no imediato para os malcontent? Espectáculos 
dentro/fora do país? Novas edições?

malcontent: Estão agendados concertos em Espanha. Brevemente lançaremos em formato digital um EP onde incluiremos outtakes do álbum. Um novo trabalho está já numa fase embrionária e temos o objectivo de o editar no próximo ano. Ainda vamos fazer muito barulho!

André Gomes de Abreu




quarta-feira, 26 de agosto de 2015

SERUSHIÔ - Entrevista

Vida de banda portuguesa em festivais de Verão é a vida de banda portuguesa ao longo de todo o ano: todos procuram uma reacção, por pequena que seja, e poucos palcos asseguram essa fortuna. A julgar por quem os viu no Croka's Rock e depois, à chuva, no Festival Paredes de Coura, os Serushiô desafiaram os limites da sua música, ressuscitaram memórias marcantes e fizeram o seu próprio "palco principal" antes das visitas ao Festival Philantra e à Festa do Avante 2015.
É com as músicas do sucessor dos EPs "Sights & Scenes" e "Life On Extended Play" que todos os vão querer encontrar: nós já o fizemos, no entretanto, para que Sérgio Silva, Serushiô se a envolvente for nipónica, nos falasse um pouco sobre o momento actual do grupo






BandCom (BC): Serushiô é um nome japonês mas a música que fazem tem fortes raízes ocidentais. O nome escolhido para este projecto é, segundo esta aparente contradição, acessório ou a relação entre forma e conteúdo é mais profunda do que parece?

Sérgio Silva (Serushiô): Na realidade é mais um fruto de coincidências! Comecei por utilizar o nome a solo pois achava engraçado o modo como alguns amigos japoneses pronunciavam o meu nome. No entanto, olhando agora em retrospectiva é interessante ver o triângulo criado no mapa-mundo: Portugal, Delta do Mississippi e Japão. Numa era de simbiose artística e unificação mundial é bom sentir que abraçamos o Mundo.


BC: Descobre-se mais da 'folk', do 'blues', do 'rock' ouvindo e conhecendo as histórias e músicas de outros ou construindo as próprias canções?

Serushiô: Construindo canções próprias! : ) Penso que, como em tudo na vida, a experiência em primeira mão é sempre o cerne da existência.



BC: Que pontos principais têm notado na evolução dos Serushiô de disco para disco?

Serushiô: A interacção entre os músicos, quer a nível composicional quer de execução. Eu e o Zé começamos a sentir que a musica é mesmo nossa, de um modo compartilhado. Acho isso fantástico, o facto de duas pessoas sentirem como própria uma criação em conjunto.


BC: Qual é o síndrome com que é mais complicado de lidar: o da primeira 'demo' ou o do disco que se vai seguindo a cada um dos anteriores?

Serushiô: Acho que as bandas que esperarem demasiado ou pensarem demasiado acerca da primeira demo só vão criar um problema. Do mesmo modo, uma banda que lança um trabalho e é bem sucedida, se deixar o ego inflar também pode ter problemas. Nos Serushiô não existe qualquer um destes problemas. Compomos por vocação e necessidade existencial, como tal, não existe espaço para preocupações com a aceitação. Apenas uma enorme satisfação quando isso acontece.


BC: Há alguma comparação que seja um elogio? Como lidam com essa tentação de se avaliar e descrever recorrendo a quem já está lançado?

Serushiô: Penso que a maioria das comparações são elogios. É o modo natural das pessoas catalogarem aquilo que ouvem de modo a poderem organizar os seus pensamentos e emoções. Sinceramente, ainda não ouvi qualquer banda ou músico que possa dizer “soa como Serushiô”. Provavelmente isso acontece do mesmo modo que, na maioria dos casos, um pai reconhece os seus filhos como únicos.





BC: Quer o “I'm Not Lost ... Just Don't Want To Be Found” quer o “Life On Extended Play” tiveram direito a masterização no exterior: um nos Estados Unidos da América, outro na Alemanha. Era indispensável, para vós, que tal sucedesse? É uma formação, também para vós, em relação à vossa sonoridade e os instrumentos que devem utilizar para a procurar?

Serushiô: Não é uma necessidade, mas algo que gostamos que aconteça. Isto pela simples razão de que nesse processo de finalização é bom ter alguém com os ouvidos “limpos”, ou seja, que ainda não conheça o trabalho e consiga assim tomar uma decisão estética imediata.


BC: Os Serushiô apostam bastante também na imagem e sobretudo nos 'videoclips'. É uma maneira de dar um enquadramento às histórias que contam e que poderiam ajustar-se a diferentes cenários ou preferem que sejam um veículo para adensar ainda mais o poder de sugestão e da imaginação?

Serushiô: Achamos simplesmente que é agradável ter uma história visual a acompanhar as canções. Nos dias correntes existe uma grande predominância visual latente na existência e vivência: assim, os vídeos ajudam o ouvinte a conseguir manter um elevado nível de atenção quando ouvem uma canção.





BC: O que é que sentiram, para além do reconhecimento e da simpatia, e puderam reflectir após a passagem pela Canadian Music Week? Sentiram vontade de voltar/ir para o estrangeiro ou ainda têm maior vontade de vingar em Portugal e partir daqui para o exterior?

Serushiô: Ambos. Queremos continuar a tocar no estrangeiro e se possível apresentar a nossa música em todo o Mundo. Ao mesmo tempo, o publico português é especial porque é a nossa raiz e casa. É muito agradável quando somos reconhecidos em casa.



BC: Uma banda que toque um pouco por todo o país guarda sempre no fim várias histórias para contar, algumas menos boas do que outras. Aquilo que nos separa das realidades de outros países no que diz respeito ao investimento colectivo nos músicos é recuperável sem que a questão financeira seja essencial?

Serushiô: Vale sempre a pena tocar para quem nos quer ouvir. Obviamente, por vezes as questões sociais e de subsistência não nos permitem tocar em todos os locais que gostaríamos. 


BC: Para além da Canadian Music Week, que outros palcos ficaram na memória dos Serushiô até à data e que palcos vos criam expectativas para o futuro?

Serushiô: Felizmente, temos tido várias experiências das quais guardamos muito boas memórias. É difícil individualizar…penso que todos os palcos vão melhorando com o crescimento da nossa música. Se as pessoas conhecerem melhor as nossas músicas vão divertir-se mais e assim nós vamos sentir essa energia.


André Gomes de Abreu




terça-feira, 25 de agosto de 2015

SATURNIA - Entrevista

Muitas têm sido as oportunidades de se conhecer o trabalho de Luís Simões ao longo das últimas duas décadas. Muitos projectos, muitos instrumentos, muitas colaborações e o nome Saturnia ecoava pelo subterrâneo musical a partir dos finais de 1996. Transformava-se, adaptava-se e redefinia-se, como um bem essencial e muito querido, de forma a perpetuar o seu core musical enquanto o desenvolvimento tecnológico não lhe disponibilizava outras ferramentas igualmente intuitivas. Pelo caminho mais cerceado e mais pulsante, por uma estrada de tal maneira íngreme em direcção a uma nova forma de conceber música, a ligação à alemã Elektrohasch tornou-se umbilical e seria inevitável, a partir da edição de debute do ano passado, que uma das raras aparições de Saturnia ao vivo, em formato banda, estivesse reservada para um cartaz do Reverence Valada onde Daevid Allen, Nik Turner e Stefan Koglek, renomeados colaboradores em disco, se sentiram (ou sentiriam) também confortáveis.
Mesmo que o dia 28 de Agosto amanheça em Valada do Ribatejo com os Saturnia e Miguel Fonseca aka Astroflex, muitos continuarão sem saber onde estavam na altura em que ouviram pela primeira vez os Saturnia. E muitos continuarão à espera que esse momento aconteça, excepto aqueles que leiam as próximas linhas partilhadas com o todo-poderoso Luís Simões.





BandCom (BC): Na sua génese, os Saturnia não eram meramente um projecto musical, correcto? Como é que surgiram?

Luís Simões (LS): Não eram, de facto, os Saturnia surgiram fruto da minha vontade de trabalhar de forma totalmente diferente e de fazer algo totalmente diferente daquilo que tinha feito até então.
A ideia era fazer uma “banda” multimédia que envolvesse música, vídeo, performance e todas as formas de arte que o conceito Saturnia pudesse assimilar. Uma ideia muito idealista e ligeiramente megalómana...
Na fase mais inicial dos Saturnia eu estava a reagir contra a minha educação feita no rock e dos seus paradigmas, basicamente a experimentar, procurar e tentar coisas novas numa luta consciente contra o dogma na arte e na minha vida.


BC: Quando é que decidiste focar-te inteiramente na música?

LS: A mudança para um projecto puramente musical acontece quando se torna para mim óbvio, em 1998, que no caminho que estava a seguir os Saturnia iriam ser basicamente umas texturas sonoras com vídeo e uma performance; era muito pouco e muito limitador para o que eu queria atingir artisticamente e então decidi apontar a energia para a minha área, a música.
Deixei de perder tempo com coisas supérfluas. É aí que passa a fazer sentido para mim, como multi-instrumentista, trabalhar sozinho; é algo que essencialmente dura até hoje. Aquilo que faço pode ser apresentado ou percebido como uma banda mas é demasiado detalhado para ser produzido num contexto de trabalho de grupo.


BC: Há alguma cena musical que te fascine particularmente? O 'krautrock' da Alemanha dos 60, o 'prog' italiano da década de 70...

LS: É difícil falar de uma cena especificamente pois sou um melómano amante de discos e Saturnia bebe de muitas fontes: numa camada mais superior, a psicadelia inglesa dos anos 60, todo o prog europeu dos anos 70, as bandas alemãs (nomeadamente as electrónicas) mas também a música concreta e classica-indiana e até algum easy- listening e exotica. Embora hoje seja uma influencia menor, no inicio de Saturnia a musica electrónica da segunda metade dos anos 90 também foi extremamente importante pois mostrou-me uma abordagem composicional diferente e abriu-me os horizontes para novas formas de abordar, trabalhar e estruturar a criação.





BC: Quando José Cid decidiu recentemente tocar o "10 000 Anos Depois" ao vivo, muitas pessoas descobriram uma faceta que não sabiam existir nele e, talvez, mesmo na música portuguesa dos anos 70. Quais são, para ti, as pérolas nacionais esquecidas pelo tempo?

LS: É curioso que fales desse álbum em particular pois lembro-me de ser motivo de risinhos nos anos 90 por admirar desse álbum e muito do trabalho do José Cid; realmente, e felizmente, a vida dá muitas voltas…
Talvez o disco dos Experiencia, “Passo A Passo”, ou o primeiro do Rão Kyao, “Malpertuis”, mereçam ser escutados com mais atenção; para mim, os dois primeiros álbuns de Tantra, “Mistérios e Maravilhas” e “Holocausto” (e o próprio Manuel Cardoso), são absolutamente incontornáveis.


BC: Podes falar um pouco do teu percurso enquanto músicos? Qual foi o teu primeiro instrumento e como é que foste expandindo horizontes?

LS: Comecei por aprender guitarra clássica e na adolescência passei à guitarra eléctrica e baixo. A meio dos anos 90 comecei a gravar em casa, ainda num contexto tecnicamente analógico: primeiro comecei a trabalhar com caixas de ritmos e sintetizador, depois a necessidade de mais instrumentação cresceu e assim comecei a tocar órgão, mellotron, gongo, sitar indiano, theremin, flauta e vários outros instrumentos conforme as peças em que trabalhava. 
Sempre tive facilidade em tocar vários instrumentos e para mim foi um processo natural no qual fui crescendo tecnica, artistica e intelectualmente e que se foi desenrolando paralelamente às gravações e ao próprio trabalho de criação.
Em 1999 a mistura de sonoridades de Saturnia, embora na sua infância, já existia como uma identidade sonora, o que é perceptível no primeiro álbum; curiosamente ela cristalizou muito rapidamente e no segundo disco, “The Glitter Odd”, já temos algo que, embora num contexto de impressionismo lo-fi, é o que ainda hoje encontras em Saturnia embora, actualmente, com a evolução e experiência de mais alguns álbuns e as metamorfoses da própria passagem do tempo.
Numa nota mais biográfica, toquei e toco em três projectos: Shrine (entre 1989-1997), Saturnia (1996- ) e Blasted Mechanism (2003- ); gravei e toquei com artistas como Cool Hipnoise, The Gift, Nigga Poison, Lulu Blind, The Firstborn, Ena Pá 2000, More Republica Masonica ou Plastica.


BC: Este parece ter sido sempre um projecto bastante "caseiro". Como é que se convence os Saturnia a tocar ao vivo?

LS: Sim, Saturnia é música homegrown e a ideia sempre foi não tocar demais ao vivo; basicamente se o interesse dos promotores nos Saturnia for musical e artístico e existirem as condições técnicas, se os planetas estiverem no alinhamento correcto e eu estiver para aí virado (o que não é muito frequente) a coisa pode dar-se.
Saturnia é um artista que ao contrário dos outros não busca o sucesso ou reconhecimento por si mesmo mas sim a satisfação artística e estética. 
Aquilo que na promoção dos Saturnia, ou ausência da mesma para ser mais objectivo, é visto como alienação por alguns e elitismo por outros sempre foi uma forma de preservação da integridade do projecto e da minha saúde mental. O grande contra disto é que é uma constante da carreira de Saturnia aparecerem permanentemente pessoas a dizerem-me coisas do género "como é que vocês têm cinco álbuns e só vos conheci agora?”.





BC: No final deste mês vais marcar presença no Reverence Valada. Por acaso foi ideia do Passos Coelho tocarem com os Astroflex ao nascer do sol?

LS: Pois é, Saturnia vai tocar no Reverence Valada, já não tocávamos em Portugal há algum tempo e eu vou fazer a Sunrise Jam com o Miguel Fonseca - foi um convite do Alexandre Travessas e do Miguel Fonseca.
Conheci o Miguel Fonseca em 1992 quando ele estava nos Thormenthor e eu nos Shrine, tocámos [em] vários concertos juntos e mais tarde gravei sitar, mellotron e gongo em dois discos dos Plastica e toquei ao vivo com eles - gosto de todo o seu, também já extenso, trabalho e estou sempre interessado em fazer coisas com ele.


BC: Para estarem frescos em dois concertos a horas tão tardias vão passar o dia a dormir ou há concertos que considerem absolutamente imperdíveis?

LS: Penso que vamos passar o dia o mais calmamente que conseguirmos mas Amon Düül II, Sleep, The Jon Spencer Blues Explosion e Electric Moon são para ver.


BC: Em 2016 os Saturnia atingem o seu vigésimo aniversário. Como o vais celebrar?

LS: Continuando a fazer aquilo que considero ser válido e útil na minha existência e também para a espécie humana: mais musica.
O novo álbum de Saturnia está a começar a ser misturado e à partida em 2016 vamos ter álbum novo. Além disso também vão aparecer mais vídeos da série Official Bootleg.



Daniel Sampaio




sábado, 22 de agosto de 2015

d3ö - ENTREVISTA

Habituámo-nos ao muito que parece pouco. Deixámos o tempo passar e já lá vão quase 15 anos em que a presença dos d3ö nos palcos, nas conversas ou nos escaparates de música portuguesa é constante - primeiro pela tentação de continuar a seguir grandes vultos, mais tarde pela certeza de uma bela carreira, de uma bela identidade tatuada com o blues e o rock n' roll que, por ser o mais despudorado e o mais apegado a uma vivência completa, é também o que mais prepara um futuro sóbrio.
Primeiro uma série de 3 EPs, depois uma série de dois discos de originais: "Exposed" e o mais recente "Love Binder" editado pela Lux Records. As mudanças, mesmo na formação original, parecem mínimas se podem ser pouco notadas. Só são amplificadas quando assim o merecem, quando assim tem que ser, tal como o magnetismo quase inevitável para as luzes mais brilhantes que já os empurrou para palcos como o do agora NOS Alive. 

Uma das perfeitas "instituições do rock" que continua viva, incendiária e refrescante para um público cada vez mais alargado. A propósito de mais uma paragem, desta feita no festival Croka's Rock em Castelo de Paiva, fomos às aulas com o professor Toni Fortuna e vivemos para contá-lo.





BandCom (BC): Como é que os d3ö chegam a 2015? De boa saúde? De bem com o passado e com o seu percurso?

Toni Fortuna (TF): Sim, o trio está de boa saúde e recomenda-se. Tem sido um caminho trilhado com alguns 
momentos atribulados, mas isso faz sempre parte da vida e das escolhas que vamos fazendo.
Mas estamos bem, focados no que ainda queremos fazer e no percurso que ainda nos falta trilhar.


BC: O projecto inicial era mesmo o de apenas gravarem um EP por cada membro da banda? A oportunidade de gravarem o “Exposed” nasce de que forma? Mais como um impulso após perceberem que gostavam de prolongar o projecto ou porque houve algo que vos fez mudar cirurgicamente e em definitivo de planos?

TF: Não, o conceito dos 3 EPs foi uma abordagem diferente: queríamos poder editar trabalhos sem pressão, só as músicas que queríamos, achámos que o facto de sermos 3 e poder "brincar" com isso também nos agradava...mas nunca pensámos em só fazer 3 EPs. Quem sabe se depois de fazer 3 álbuns fazemos mais 3 formatos diferentes.


BC: Gravar e lançar o “Love Binder” fez-vos, de alguma forma, apreciar ainda mais o legado discográfico que deixam ou não existe forma de se “cansarem” de tocar ao vivo e de ansiar pelo próximo concerto?

TF: Nós gostamos muito de tocar ao vivo, temos necessariamente de gravar discos para o podermos fazer e podermos também pensar em coisas novas. Esperamos nunca nos cansar de tocar ao vivo, que é sem dúvida onde nos sentimos mais à vontade.


BC: O aparente descomprometimento com manter um formato e uma fórmula para o que fazem, incluindo os discos, é uma liberdade que vos custou caro em algum momento? Ou ficaram mais perto da perfeição, da auto-realização, da satisfação com o vosso próprio trabalho?

TF: Já pagámos algumas "facturas" por termos feito determinadas escolhas ( o exemplo dos 3 EPs, foi um desses momentos), mas foi e tem sido uma escolha consciente. Assumimos o que daí advém em prol da satisfação (e também auto-realização que falavas) de podermos decidir o nosso caminho. Estamos sempre a aprender.





BC: É também fácil e/ou rápido ficarem satisfeitos com uma determinada canção nova ou podem passar mais tempo a debater uma canção do que um disco inteiro?

TF: Já aconteceu ficarmos satisfeitos rapidamente tanto como passado pouco tempo já acharmos que precisa de alterações mas nunca tivemos grandes casos de uma música demorar mais que um disco. Se não funciona, ou se dá a volta (tocando, experimentando às vezes até ao vivo) ou então segue-se para outra coisa é e eventualmente mais tarde voltamos lá só para perceber se vale a pena.


BC: O “efeito ‘Love Binder’”, resgatando a referência ao concerto com que fecharam o ano 
passado e passando-o para as vossas relações com outros músicos também ou não de Coimbra, está cada vez mais alargado e mais sólido mesmo que a cidade de Coimbra possa não dizer o mesmo?

TF: A partilha e união está bem presente em quase tudo (senão tudo) o que fazemos; por outro lado, gostamos de experimentar o que ainda não fizemos e essa reunião com outros músicos foi verdadeiramente isso. E isso pode acontecer em Coimbra como em outro lado qualquer.
Não sabemos o que a cidade de Coimbra acha...ela não nos fala com frequência...


BC: O Miguel Benedito, membro original dos d3ö, deixou de tocar com a banda e agora encontra-se, inclusivamente, fora do país. Embora não tenham deixado de tocar no estrangeiro, passa-vos/passou-vos a ideia de que também poderiam vingar lá fora em definitivo como banda? Houve desafios que ficaram por ultrapassar? Quais?

TF: O Miguel deixou de tocar (no trio) porque saiu do país, senão ainda estaríamos a partilhar palcos. Já pensámos muitas vezes em sair do país por algum tempo ( mesmo que isso sejam anos) mas cada vez se torna mais difícil com famílias. Mas acho que nunca foi posta de parte essa hipótese, quem sabe um destes dias ainda acontece.


BC: O que é que vos motiva num determinado público? A sua capacidade de reagirem como massa única e com personalidade própria ou a possibilidade de a manietar e provocar?

TF: Nós gostamos de partilhar; emoções, momentos, alegria, energia... E os nossos concertos vivem muito disso... cada pessoa reage de forma diferente ao que vê, ouve e sente, mas é essa individualidade que nós gostamos, e que de alguma forma nos une...é uma relação osmótica.


BC: Que concertos foram tão marcantes que por eles a vossa existência ainda tem valido mais a pena?

TF: Já tocámos com muitas bandas ou pessoas que nos dizem muito ou com quem nos
identificamos bastante, em salas ou sítios que por si só podem "fazer" um concerto, mas é a junção de tudo, incluindo o público e a partilha de energias e alegria, que nos preenche mais e nos faz pensar que aquele concerto em especial valeu a pena e nos faz continuar a querer fazê-lo.





BC: A Lux Records é um projecto de futuro que os d3ö gostaram e gostariam que contasse também para o seu futuro?

TF: A Lux Records (o Sr. Rui Ferreira) tem-nos acompanhado desde o princípio, com todos os altos e baixos que 12 anos carregam. Gostamos de pensar que isso é também o futuro, mas não queremos ter um pensamento redutor e por isso não fechamos nenhuma porta de podermos trabalhar com outras editoras ou entidades.


BC: Quais as expectativas dos d3ö para os próximos tempos em matéria de: concertos? Novo material discográfico? Novos acontecimentos (um disco novo, um livro, uma peça de teatro, um filme, etc…) em Portugal e no Mundo?

TF: Temos uma série de músicas novas que estamos a trabalhar para um novo disco, temos andado a trabalhar em "mercados" novos de forma a podermos espalhar a nossa música por outros sítios, culturas e pessoas. Gostaríamos muito de fazer bandas sonoras para um filme ou peça de teatro, mas não havendo propostas podemos sempre fazermos nós alguma coisa que se assemelhe e por isso temos feito muitos registos de imagens pelas nossas viagens. Não temos nada de concreto, mas temos uma série de ideias e muita vontade de continuar a tocar e a desenvolver coisas novas para podemos apresentar ao público.

André Gomes de Abreu




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