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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

TORTO - TORTO EP (2013, LOVERS & LOLLYPOPS)

Título: Torto EP
Edição: Dezembro de 2013, Lovers & Lollypops
Classificação final: 8.6/10

Há muito que, nós portugueses, já nos aclimámos à ideia de que a Lovers & Lollypops, editora discográfica com raízes em Barcelos, é, muito possivelmente, a label que mais fulcral é para a música portuguesa neste momento; algures no início da década fizeram nascer os gigantes Black Bombaim para mais tarde, com Titans, nos fazerem ver que está ali um dos nomes mais sonantes da stoner rock contemporânea. No ano passado catapultaram nomes, hoje unânimes, como Memória de Peixe, Throes + The Shine ou RA. Este ano, menos produtivo, é certo, as vitórias dos barcelenses parecem reflectir-se, numa maior escala, em Jibóia EP, de Jibóia, Leeches, de The Glockenwise e no recente EP homónimo dos Torto.

Os Torto são um caso peculiar na maneira como fazem e pensam música; o escape a rótulos é evidente: não se podia estranhar se os apelidássemos d’os Tortoise da stoner rock. Tal como a sonoridade dos norte-americanos, a música dos bracarenses portuenses assume um espectro mais atmosférico e imprevisível e, propositadamente, menos explosivo. As linhas de baixo fazem um apelo claro à importância do baixo pesado da stoner rock, as guitarras são tratadas com classe q.b. para que nunca seja necessário fazer barulho a sério para ver que está ali alguém que as sabe tocar e as baterias apontam-nos, na maior parte das vezes, para o principal foco deste disco: o foco ambiental.

O saldo final é extremamente positivo; os Torto respiram e fazem-nos respirar música, malhos como “As coisas atrás”, “Tigre” ou “Polvo Sereno” são uma lufada de ar fresco para o rock nacional. O disco desenlaça-se com “Barcelos”, local onde se iniciou uma espécie de revolução na música portuguesa; a avaliar por este EP de excelência dos Torto, apesar de portuenses, a revolução parece continuar: Avante, camaradas.


Emanuel Graça




quinta-feira, 7 de março de 2013

Jibóia - Jibóia Ep (2013, Lovers & Lollypops)



Se na quentura e exotismo das proximidades do equador e trópicos serpenteiam jiboias, Óscar Silva queda-se por não lhe estropiar habitat; abrasam-se loops e exuma-se por solos ricos em flora, uma flora rica em guitarras embalsamadas em psicadelismos atordoantes. A locomoção da sua música também não se esquiva do conceito animal, mas quem se acaba por abanar e gingar ao barulho dela somos nós.



No seu EP de estreia, homónimo, lançado pela mão da sempre grande Lovers & Lollypops, havia um burburinho que se teimava em silenciar. Havia ruído acerca do que esperar desta estreia, sendo que eu também contribuía para tal. E agora depois dele ter conhecido a luz do dia? Não me posso considerar uma pessoa totalmente desiludida. Todavia, Jibóia não magicou veneno suficiente para me render logo na sua estreia.


A atmosfera das suas músicas são muito semelhantes entre si, existe um perfil bastante monótono ao longo do EP: os riffs soam, por diversas ocasiões, semelhantes. Os loops, ou maneira como eles estão/são articulados, revelam-se, por vezes, pouco dinâmicos e retiram parte da intensidade que algumas canções conseguem ter, lá bem no plano de fundo – pois os loops são, tal como a produção do registo enfatiza, o grande cerne para a génese musical de Jibóia. Em contraste, e aquilo que realmente me fez gostar deste EP, tudo o resto: as ambiências perfumadas em toques e retoques psicadélicos. O africanismo transversal à sonoridade de Jibóia. Mas, sobretudo, a frescura que este EP promete em pistas de dança imaginárias. Longínquas. Distantes. Imaculadas. Mas sujas de perigo: o perigo que paira em Jibóia. Conclusões? Tirem-nas vocês mesmos. Mas que Jibóia é uma promessa não haja dúvidas.


Classificação final: 7.0/10

Emanuel Graça
 




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Black Bombaim - Titans (Lovers & Lollypops, 2012)


Não é droga, mas os efeitos que temos ao ouvir a música dos Black Bombaim são os mesmos: há quem se renda com um simples “foda-se, é do caralho”, mas eu prefiro entrar em trip com ela. Camuflada em ácidos proporcionadores de autênticas viagens vertiginosas por mundos celestiais. Catalisadores eternos e renovadores da esperança que jaz em cada um de nós. Apaixonados pelos céus, enamorados com a acidez e visceralidade do psicadelismo; os Black Bombaim conseguiram provocar um autêntico terramoto e abanar com meio mundo. Nós só temos que lhes agradecer.



Contra dos deuses da ganância e do dinheiro. (…) Liquidar os mandantes da prisão. Libertar os escravos do cifrão. Ainda longe, longe, essa primavera adubada pelo sangue dos heróis… Os Deuses são poderosos, cheios de artifícios. O poder rompe o canto das sereias. Enlouquece.”. A mensagem fica dada agrestemente pela voz sempre imponente de Adolfo Luxúria Canibal. A primeira música de Titans vinca nitidamente uma mensagem política: nasce ensopada em riffs e anunciando toda uma produção simplesmente avassaladora. Cresce desenfreadamente com a ressonância das guitarras e daquela linha de baixo embalsamada em perfeição e sofre uma interrupção abrupta quando a bateria se exsurge de uma maneira altamente perfeita, silenciando todos os demais. A bateria cessa e dá-se um vazio sonoro. E eis que, todo aquele trio instrumental se funde para nos começar a derreter o cerebelo: começa a viagem, bem anunciada por “Eleva, levanta bem alta a bandeira. Avança sobre os corpos tristes.”.


Titã, és um titã!”. É esta passagem de Noel V. Harmonson, Adolfo Luxúria Canibal, Jorge Coelho, Shela, a primeira música do alinhamento de Titans e a única que tem vocais na sua estrutura, aqui vociferadas impetuosamente pelo incontornável Adolfo, que mais guardamos no ouvido.  É aqui que é dado o mote para todo o álbum e é aqui que tudo se inicia sem qualquer tipo de aviso prévio:



O primeiro capítulo de Titans tem um esqueleto absolutamente estupendo: depois de nos derreterem o cérebro e de nos fritarem cada miolo com aquela intensidade instrumental tórrida, posteriormente associada àquele elóquio persuasivo de Adolfo, dá-se novamente um vazio sonoro, mas este muito mais prolongado; a partir daí soa-nos uma guitarra acústica que parece estar a ser afinada. A afinação prologa-se por alguns minutos, e, se outrora os nossos ouvidos eram amplamente violados por todos aqueles riffs e por todas aquelas batidas medonhas, agora era tempo de uma surpreendente acalmia: primeiro o caos e a tempestade, o escuro nacional e a crise financeira, a necessidade de libertar o escravo (o povo) da prisão (o governo) e não ter medo do poder, que tanta gente enlouquece. Agora a esperança, em forma acústica, a exponenciar-se numa base de afinação orquestral, de revolução de mentalidades, de esperança e, acima de tudo, de introspecção. Mas, como qualquer máquina, não é em escassos minutos que a conseguimos calibrar. A esperança sucumbe. Morre. E os infernos descem aos céus para nos voltarem a infernizar. Lembram-se da mensagem política? É isso mesmo. A música desenlaça-se do modo como se iniciou e ganhamos logo a noção que Titans não é uma coisa para brincadeiras.


Segue-se no alinhamento Tiago Jónatas, Guilherme Canhão. Uma autêntica bomba para o nosso sistema cardíaco, capaz de nos atordoar o sistema durante os seus quase vinte minutos de duração. É impossível não nos envolvermos nos autênticos adamastores, ou, se quisermos, riffs, que por lá habitam e pintam de inóspito e tingem de negro, negrume bem enfatizado, as paisagens que vamos imaginando e que vamos vivendo ao ouvir esta música. Perfeita acaba por ser pouco para a definir. Seguem-se Steve Mackay, Isaiah Mitchell (ah, os saxofones) e Ghuna X, HHY, Tiago Pereira e a essência, filosofia e sonoridade dos Black Bombaim acaba por fazer jus àquilo que se vive nas duas primeiras músicas.


Riffs capazes de nos levarem além das nuvens, numa viagem simplesmente hipnótica e esquizofrénica, batidas hábeis ao ponto de se penetrarem nos nossos ouvidos e comandarem o nosso cérebro a fazer com que gesticulemos as mãos e acompanhemos o ritmo que Senra impinge nas suas músicas. A linha de baixo, essa, está sempre em simbiose com tudo e sempre a roçar a perfeição. Muito evidenciada e grande catalisadora para a criação da sonoridade dos Black Bombaim. Como funciona tudo num só? Pá, faltam-me as palavras. Quando tudo se funde, é qualquer coisa de inolvidável: psicadelismos siderantes, capazes de nos anestesiar e colocar-nos a baba a escorrer pela boca durante os sessenta e quatro minutos que compõem o álbum. E acreditem que quantas mais vezes o ouvirem, mais irão gostar dele; sirvo de prova.


Em suma, muita tinta tem corrido às custas de Titans. Porém, por muita tinta que se gaste, nada ficará tão escrito na eternidade como a música atordoante edificada e estruturada na complexidade do álbum dos Black Bombaim. É impossível negar uma viagem espacial pelo universo “frita-miolos” que os barcelenses criam em todas as suas composições através de pormenores embalsamados em psicadelismos atordoantes: um titã é um vocativo mitológico genérico para apelidar os gigantes que pretenderam escalar o céu, só que o esforço dos Black Bombaim não se limitou aos céus; transcendeu-os. Uma vénia, por favor.


Nota final: 9.5/10



Emanuel Graça
 




domingo, 23 de setembro de 2012

RA - Rancor (Lovers & Lollypops, 2012)





Oriundo da cena doom de Setúbal, Ricardo Remédio lançou o EP Rancor, que mistura as suas antigas influências, de quando era teclista nos Löbo, com música eletrónica ; um rumo que quis definitivamente adotar no seu novo projeto RA – Rei Abutre. Negro, este EP ajuda a conhecermo-nos melhor, realçando a parte mais sombria de cada um de nós. Desse modo, a análise das quatro músicas que compõem Rancor assemelha-se a um acompanhamento de um filme de terror, aéreo e lírico na negrura, com o objetivo de expulsar de nós a parte desconhecida, ou melhor, aquela que não queremos ver e que deixamos ao julgamento dos outros.

O(s) Cobarde(s) ou aqueles que não ousam ouvir. O(s) Cobarde(s) ou aqueles que não aceitam o inferno. O(s) Cobarde(s) ou aqueles que não se ouvem a eles próprios. O(s) Cobarde(s) ou aqueles que simplesmente não (se) aceitam.


Envolvido na atmosfera assombrada dos primeiros instantes do álbum Rancor, sinto-me logo atacado : a angústia que sinto não será apenas a que eu tenho em mim ? Magoado na minha autoestima, encho o peito e sigo em frente, sem medo. Atravesso as fronteiras sombrias semeadas de urtigas enegrecidas, procuro enfrentar o meu mau-estar avançando e mostrando-me a ele, rodeado de vozes fantasmagóricas e de uivos de lobos permanentes. Até à minha salvação: a esperança mesclada aos primeiros sons de teclado, lentos, aéreos, planantes. Acolhido desse modo, acredito que me tenham aceite antes mesmo de eu ter decidido entregar-me. E se me aceitam, também me aceitei.



Mas o tempo é ainda de reflexão. Contemplam-se visões opostas, desafiam-se, tentam perceber-se, encontrar uma semelhança. Tudo se torna mais melancólico numa quase dark wave que não se quer apagar. E a música acaba.
A lentidão do Rancor assemelha-se ao percurso sinuoso que me é oferecido pelo artista. Não é fácil alcançar-me, não é fácil alcançá-lo. Como dois corpos que se conhecem ainda há pouco, os primeiros toques são subtis, mesmo que a ousadia ganhe em força ao longo do tempo. Quanto mais ele passa mais ganho confiança e me deixo levar pelo ritmo que se torna então mais completo, acelerado. A batida ganha cor na negrura, e tudo se embala. Preparo-me a sofrer as consequências da minha pouca abertura mas espero, firme, com as certezas de cair em boas mãos. Tudo isto para um castigo que nunca mais chega, que nunca vai chegar. Aí, o meu Rancor torna-se superior ao do artista : queria aquele último golpe fatal. Queria o meu próprio sofrimento.

Mas o que vale a confiança nos tempos que correm ? A Paz Podre, declarada aos poucos, e o lado habitado que emerge e me testa de novo. A angústia, lobos, o medo, uivos, o negro, fantasmas. Em pleno No Man’s Land, esta música define a efemeridade do nosso estado, entre a entrega total e a reflexão.

Em O Inferno são os outros, a batida é mais forte, sinal de despedida fúnebre. Procura-se o ângulo de ataque, o ponto fraco, entremeiam-se alguns sons mais dubstep, já não existem gentilezas, ataca-se com os sons mais saturados e fortes possíveis, destrói-se por completo o ouvido do ouvinte, mistura-se o sonho ao pesadelo, a vida à morte, no fundo tudo é o mesmo. O velório pode acabar sem nunca termos ido, a marcha fúnebre desafina. O Inferno são os outros, aqueles que nós somos, o reflexo da parte de nós que nos assusta, que nos destrói, seleciona, põe à parte.

No meio de tanta sensação confusa, pouco importa se estamos vivos ou mortos, o importante é ter estado, ter ouvido este álbum, um hino à confusão dos sentimentos. E como diria Jean-Paul Sartre de quem se inspira Ricardo Remédio no último som : « Há uma quantidade de gente no mundo que está no inferno porque depende em demasia do julgamento do outro. » Resta saber se a música do RA não é uma espécie de catarse que nos permite também entender-nos a nós próprios.







Mickaël C. de Oliveira




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