Mostrar mensagens com a etiqueta Discos 2013. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Discos 2013. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 9 de setembro de 2014

NIAGARA - "Ouro Oeste" (2013, Príncipe Discos)




Por vezes, a grandiosidade e a própria grandeza de um país confundem-se. O fenómeno Príncipe Discos é tão endémico como o dark-minimal mais a Norte, mas as repercussões no exterior são de idêntica dimensão e contrastam largamente com o impacto no próprio país ou na própria área metropolitana vizinha ou rival.
Todavia, não vai haver forma de parar a enésima revolução musical baseada em alimentar as pernas e injectar serotonina na "fonte", mas terá de haver uma maneira de a preservar. A geração de uma nova identidade é essencial, mas no caso dos NIAGARA, trio formado por António, Alberto e Sara, o epicentro está todo na recuperação do essencial da música house.






"Ouro Oeste" é, de facto, algo que se julgava perdido para o progresso da música house: referências a outros lugares menos conhecidos do techno de que se tem abusado, a outras experiências e a outros convites aceites. A homenagem aos beats sólidos e ligeiramente old-school faz-se de forma decente e precisa fazendo balançar o groove mais para o lado acid-house quando se exige e até com mais psicodelia quando o abstracto e o minimal não chegam, nos máximos down-pitched de "Urmeiras" e "Verde" em que a simbiose é perfeita e não se sabe que componentes do tema estão a engolir ou a ser servis em alto mar. 
Enquanto rotineiramente vemos quem pegue pela exploração e desaceleramento de outros ritmos africanos que não o kuduro, os NIAGARA fazem a exploração estética da electrónica por detrás do house, desenrolam a trela e tornam-no igualmente tão inominável e hipnótico que não há pedalada para o trance.
Algo ao alcance de poucos e a manter fora do alcance de poucos. 






Dos confins da nova música portuguesa de dança no Bairro Alto ou no Cais do Sodré para a selecção dos melhores clubes do Mundo, o caminho faz-se pelo vigor da brisa de "Ouro Oeste".  


André Gomes de Abreu   
   




sábado, 9 de agosto de 2014

DE E POR: A VELHA MECÂNICA - "Tanto Por Dizer e Ainda Assim Se Escondia" (2013, Faca Espião)

Menina de sete saias, A Velha Mecânica é um caso de respeito na procura de desmultiplicar pequenos detalhes que não se querem repetíveis.
Como seria de esperar, a necessidade de alcançar outros horizontes é compreensível e compreendida pelo já experimentado grupo: Pedro Correia, por exemplo, é agora também um muito mais electrónico Sonny Boy; João Gil faz parte do brilhantismo dos Marla.
A associação à subreptícia Faca Espião faz com que "Tanto Por Dizer e Ainda Assim Se Escondia" seja um trabalho a descobrir pelo público, e não apenas pela sua maior penetração em certos nichos, mas também pela própria banda, que encontra em Fuse dos Dealema o guardião do subsolo de que necessitou para fugir/encontrar (riscar o que não interessa) a sua própria sombra.
Depois do êxito em várias aparições, chega de novo o tempo de festival, primeiro no FUSING Culture Experience, mais tarde no Woodrock Festival.
Como trabalho de casa prévio, a lição bem estudada, a obra ainda melhor escutada. Palavra aos artistas para emoldurarem cada uma destas canções.

    
























Tanto Por Dizer/António Viagens

A música "Tanto Por Dizer", apesar de aparecer separada, serve como interlúdio ao disco em si,e principalmente à faixa "António Viagens", encontrando-se abrangida pelo mesmo processo de criação e composição. Aliás, a frase musical que se faz ouvir na "Tanto Por Dizer", foi retirada da "António Viagens". 
Provavelmente a primeira d' A Velha Mecânica, mesmo até antes de haver banda.

Pareceu-nos natural que fosse a primeira do disco também.
O nome surgiu quando dois dos elementos estavam a ver um showcase do Tó Trips,
músico que todos nós admiramos. É uma espécie de homenagem.
A letra desenvolve-se a partir do conceito da "verdadeira viagem", que é a vida.
Aborda a perspectiva da finalidade do ser humano, um ser de potencialidades infinitas
mas temporal. É esta temporalidade que nos faz confusão. O "larápio" que é o tempo,
corremos atrás dele mas nunca o apanhamos. A vida com prazo de validade.


Aspirante

Relembra uma pessoa muito conhecida em Coimbra, costumava divagar pelas ruas e pedia
dinheiro e cigarros. Gritava frequentemente com as pessoas, e dizia coisas que muitas
vezes assustavam, mas era alguém que, mal ou bem, fazia parte de Coimbra.
A canção chama-se "Aspirante", porque era como ele se apelidava. Tinha que ver com o seu passado enquanto tropa, e diz-se que foi no exército que sofreu um acidente gravíssimo que o deixou num estado de demência.
Apareceu morto no rio Mondego, em circunstâncias estranhas, e achámos que lhe
devíamos prestar uma última homenagem.


Mil Homens

Com uma sonoridade mais "rock", esta música é muito especial para nós pois conta com a
participação do nosso querido Victor Torpedo, nome incontornável da música portuguesa, que nos marcou profundamente, não só na música como em vários aspectos da vida.
Tivemos o prazer de o ter neste álbum, foi quase um sonho tornado realidade.
Fala sobre a força de vontade, e a vontade de viver e vencer.


Bandeira Negra

O nome "Bandeira Negra" surge da tradução literal do nome de uma banda que teve muita
influência em alguns de nós.
A partir desse nome criámos um refrão. Uma alegoria marítima. Mesmo a nível musical
tentámos dar a sensação do balanço de um barco do mar. Fala-se da vontade de deixar
tudo para trás e começar de novo. Começar sem ilusões, apenas recomeçar,
O resto da letra ficou a cargo do Fuse de Dealema, que criou um texto fantástico,
acabando por acomodar o refrão num conjuntos que nos agrada bastante.
Sendo o Fuse um músico que todos admiramos, esta música acabou por ser das mais
especiais do disco.


Dedos

Provavelmente o único tema "amoroso" do disco, ou que se refere a ele de forma mais
directa. É o nosso primeiro single e teledisco (gravado pelo Leandro Silva).
A letra tem que ver com a celebração do amor. "Os dedos que partem o frio" referem-se à vulnerabilidade do amor que precisa de constante cuidado, "o corpo que não aceita o que viu", diz respeito à quase incredulidade de algo tão bom nos poder acontecer, "o teu nome teceu à aranha canta o meu nome", quando vemos o amor em toda a parte e em todas as situações.
Esta música é o resultado de uma das primeiras jam's d' A Velha Mecânica, permanece no
disco praticamente da mesma forma como foi criada. É cruelmente honesta.





Um Quarto De Hotel

Fortemente inspirado em "Twin Peaks" do Mark Frost e David Lynch, funciona como um
interlúdio.
Extremamente solitário e introspectivo, procura um lugar longe do frio, qualquer lugar...


Esposa Cão

Tema raivoso. Raiva de quem não quer saber, não quer saber de quem sente. Apenas quer subir na escada social. Não liga a meios para atingir fins. Essa pessoa é a esposa cão. Até um dia...


Fujída

Encerra o disco. Como todo o álbum é bastante negro, pretendeu-se acabar com uma
mensagem de libertação e esperança.
Esta música funciona como um hino ao optimismo. A letra remete para a alegria e o
sentimento de liberdade característicos da infância.
Grita-se "partida, largada, fugida! A mim não me apanhas tu! Até os pulmões saírem pela
boca.




sábado, 19 de julho de 2014

FRANCIS DALE - "Lost In Finite" (2013, Ed. Autor)





Uma viagem ao finito da vida. É assim que Diogo Ribeiro, mais conhecido como Francis Dale, descreve o seu EP. "Lost In Finite" é o seu primeiro trabalho publicado e podemos dizer que começou da melhor maneira. Já tendo algum reconhecimento pelas covers que faz no seu canal de Youtube, este era o seu próximo passo para se afirmar no panorama português. Fazendo música que diz ser influenciada pela Motown, Jeff Buckley e principalmente pela vida em si, a aposta recai numa sonoridade calma que nos inspira uma vontade de fechar os olhos e sorrir. Dominada pelos ritmos lentos e bem assentes, a sua música e não nos larga facilmente e é ainda complementada por uma poesia cheia de coração e alma.

















A primeira faixa, “Retrospect”, é o exemplo perfeito. Quase como um paradoxo musical, todo o instrumental parece querer dar certezas, enquanto a letra faz questionar, e a faixa desenvolve-se com a mesma maré de sentimentos, simplista mas profunda. De notar o bom trabalho nos teclados e na colocação da voz.
A partir da segunda faixa repara-se numa pequena mudança de atitude, mais intimista e mais soul: “Burning” transparece o amor ardente reconhecido por artistas como Marvin Gaye em música dirigida pelo ritmo mais acelerado, o coração; pela guitarra bluesy, a respiração; e pela voz cheia de emoção, o toque. Temos assim o retrato de paixão transmitido na dimensão musical de Francis Dale.

“Pie In The Sky” continua com o que a faixa anterior deixou pendente, a declamação de uma paixão que nos dá e tira vida, mas desta vez com o pesar do que foi e já não é. O início do fim não mostra raiva mas sim melancolia, que está, de certa forma, em paz consigo própria. Aqui conseguimos ouvir o apogeu da guitarra como uma forma de expressão, chorando quando a voz já não consegue retratar a emoção presente. O instrumental em si não é melancólico mas sim de uma extrema serenidade, o lado calmo da tempestade. “Overture”, a última faixa, é o começo e o fim desta viagem. Feita de nostalgia, fecha este EP com um encanto natural. Francis deixa que as palavras o capturem e que falem por si, quase como um convite para repetir a audição de todas as músicas. O sujeito musical, dentro do seu pesar, é invadido por todos os pensamentos e deixa-se dominar sem medir as consequências. Não é um final trágico, mas sim uma redenção cheia de beleza.





Ao todo, são quatro faixas, um EP, uma história. Chegamos ao fim a pedir, a ansiar por mais uma amostra do talento deste artista. Com uma noção instrumental que, apesar de não ser particularmente inovadora, transmite bem a mensagem, com uma produção cuidada em quase todos os pontos, temos em Francis Dale soul e R&B que prometem.

Marcelo Franca





segunda-feira, 14 de julho de 2014

GOBI BEAR - "Inorganic Heartbeats & Bad Decisions" (2013, Murmürio Records)






Gobi Bear é o alter-ego de Diogo Alves Pinto, um entusiasta singer-songwriter vindo das terras do nobre D. Afonso Henriques. O seu contacto com a música é bastante recente: experimentou aventurar-se nas cordas em 2010, o seu 1º ano da faculdade. Por entre várias tentativas de iniciar projectos musicais, começou a enveredar pelos caminhos a solo e, ao longo do tempo, foi descobrindo a música e a música foi descobrindo Gobi Bear. Hoje é um dos mais promissores multi-instrumentistas portugueses e o seu primeiro LP é exemplo disso mesmo.

“Inorganic Heartbeats & Bad Decisions” mantém a identidade criada já pelo anterior EP “Mais Grande” de 2012. A sua génese continua a assentar sobre um dueto entre guitarra e voz; no entanto, este seu novo trabalho revela-se mais denso e maduro e não podemos esquecer também a vertente mais electrónica que acaba por conferir ao disco uma tendência mais pop. Um caminho menos experimental mas mais acessível às massas, um pouco à semelhança do que outros one man band, como é o caso de Noiserv, têm feito. São 13 faixas construídas sobre várias histórias, sobre várias estórias, ora suas, ora de filmes ou contos. Fazer de narrativas canções é um desígnio de uma voz bem doce, que corre ao sabor dos acordes dos instrumentos delineada por uma percussão subtil, embora bem ritmada, feita precisamente de “Inorganic Heartbeats & Bad Decisions”. 





O começo com “Joana”, onde a electrónica encarrega-se de abrir as hostes para “Eli/Abel”, em que o instrumental se assume protagonista e a voz é também um instrumento que cria ritmo próprio, empederne em “Wooden Toys” que nos desperta uma dose de nostalgia pela sua melódica escolha de acordes e ritmo bem marcado. Por entre um enorme dedilhar de acordes com breves resquícios de distorção vamos-nos aproximando de “Animals”, o tema que coloca lado a lado a guitarra, violoncelo e violinos num arranjo belíssimo e profundamente harmonioso onde a voz serve de leme. O auxílio do baixo bem definido ajuda a que não se perca o embalo quando visitamos a pujante “Scarecrow in the Rain” e de seguida, já na recta final, a distorção das guitarras de "A Thousand Light Bulbs" e a mais serena "Monica II”, onde uma suave melodia ritmada acompanhada de coros assume o bom fecho.





Todo o feitiço, o afecto, o acabamento de uma delicada técnica da guitarra com a voz: “Inorganic Heartbeats & Bad Decisions” não nos irá acalmar o espírito mas com certeza apaziguar-nos-à a alma.

João Ribeiro




sábado, 14 de junho de 2014

DE E POR: AMPLIFICADOR D'ALMA: Amplificador D'Alma (2013, Ed. Autor)

Carlos Alves, João Ganilho, Luís de Barros e José Luís de Barros são os responsáveis por levar o Amplificador d'Alma a bom porto, de Campo de Ourique, ou da Bobadela, para o Mundo, apenas após alguns meses de riffs de guitarra improvisados a que se acrescentou apenas para finalizar a percussão e o violoncelo num registo que capta bem a essência que o post-rock e o blues-rock tão bem partilham. Não é por acaso que quando lhes pedimos que nos falassem um pouco sobre cada uma das 5 faixas deste trabalho recearam que os seus ouvintes pudessem perder a possibilidade de "ouvir e deambular pelas músicas", idealizando "as paisagens sonoras associadas a cada música".
A nosso ver, que gostamos sempre de um bom ponto de partida, as suas descrições ainda ajudam mais.





Onde Os Pés Me Levarem

Sem destino, vamos traçando um caminho sobre este mundo, ao sabor dos nossos passos. Somos matéria volúvel que segue em frente e anseia por mais.


O Desconhecido
De olhos semi-cerrados, sinto a brisa e penso em ti... Penso como será este passo no desconhecido.


Contigo Nas Estrelas

De um fogo de artifício estelar, para um átomo na minha mão. Somos feitos da mesma matéria. Somos pó de estrelas.


Caracol Azul

Caminho lentamente sob o escaldante céu azul. Olho apenas para as pedras que vou pisando no caminho. Os passos vão marcando o meu destino. Sempre que avançamos deixamos algo para trás. Eu, deixo o pó...


O Caminho

Num cinzento amanhecer lisboeta, ele sai à rua. Pára e olha para o rio à sua esquerda surpreendendo um tímido beijo de uma Tágide. Ele sorri e segue o seu caminho.




quarta-feira, 9 de abril de 2014

REFLECT - "REFLECT" (2013, Kimahera)




5 anos depois de “Último Acto”, surgiu ainda em 2013 o disco epónimo do artista algarvio Reflect. Composto por 10 faixas ricas e contando mais uma vez com múltiplas colaborações, desde a maior esperança feminina do rap português W-Magic aos amigos da editora Kimahera que fundou, Dezze, Gijoe, João Mestre ou ainda Real Punch, salta à vista a vontade do artista em realizar uma obra mais coesa e com uma mensagem coerente, com menos temas, que capte o auditor do princípio ao fim.





5 anos depois, a escolha dos artistas em cada tema pareceu mais adequada, mais bem sucedida. Sobressaem os temas “Redundância Crónica” com W-Magic, onde o seu “eu indeciso” colide à perfeição com as rimas melancólicas e cheias de paixão de Reflect. Uma paixão pelo rap ilustrada com perícia em “O Arrepio”, dos temas talvez mais complicados de construir por ser dos mais clichés. No miolo surgem o single “Sala de Troféus” e “Passeio Pela Praia”, com um instrumental respirando ventos novos, soprados pela brisa do mar, tema que continua muito presente neste álbum - e provavelmente em todos os que se vão seguir.
Há também o feat com o grande Real Punch, com uma mensagem clara do sentimento de falta de liberdade que cada vez mais sentimos e cada vez mais conseguimos expressar e polir em palavras, e o tema melancólico de reflexão, de conclusão de tudo aquilo que Reflect realizou até agora, de tudo o que tempo não apagou.
A partir daí, mergulhamos na brecha aberta em "Último Acto", onde já se ouviam elementos pop e por vezes rock; nota mais para a voz suave, simples e sem artefatos de Vanessa Ferreira em “Diz-me Se Vale A Pena”, assim como a junção ousada e original entre o piano e a guitarra de João Mestre, os scratches de Gijoe e as rimas de Pedro Pinto nos temas seguintes.



Se pegarmos na totalidade do disco, os temas old-school são menos visíveis, enquanto a maturidade e a coesão da obra do artista estes se sentem muito mais, a cada faixa. É verdade que não se sente aquele “arrepio” que "Infinitamente" provoca a cada audição. No entanto, convém relembrar que esse é talvez dos temas mais bem conseguidos do hip-hop nacional destes últimos anos. Não apenas destes últimos 5.
Mickaël C. de Oliveira




sábado, 5 de abril de 2014

DE E POR WONER: "A MINHA CABEÇA SAI SEMPRE CORTADA (VOL. 2)" (2013, Ed. Autor)

João Figueirôa é Woner, um dos jovens nomes que vai construindo um novo mapa para o hip-hop nacional depois de uma época de glória e ascensão ao mainstream que vai ensinando lentamente as vantagens de quebrar com o que é mais expectável.
Contudo, em relação ao passado recente, as coordenadas de partida estão mais ou menos certas (Vila Nova de Gaia) e há mesmo um grupo de suporte e evolução, o colectivo Diatribe que partilha com Neatro e Suary.
A pessoalidade de certas referências, a serem desconstruídas ao longo da trilogia "A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada", convive de forma feliz com a escatologia linear de Edgar Allan Poe na capa e do lado mais negro de uma biografia (do) dia-a-dia, com cenas cortadas por cada uma das 16 faixas deste trabalho ao ritmo de "Happiness" de Todd Solondz.
Antes do fecho de ciclo, 2014 já trouxe uma compilação de temas que ficaram de fora deste volume da trilogia, intitulada "Cortes da Cabeça Cortada/Coisas Que O Boi do Amor Faz" e poderá ainda trazer mais uns quantos discos a solo. Resolvemos também não perder mais tempo e pedimos palavras ao autor.























~




"Este é o segundo volume de uma trilogia de nome “A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada”.
Tentei criar um álbum com uma narrativa do início ao fim, para ser ouvido pelas pessoas como se estivessem a ver um filme.
Esta história é, em grande parte, sobre depressão (para já).
Como vou estar a descrever o que cada música representa na história vou-me referir na terceira pessoa, isto porque se o álbum tem uma narrativa eu não passo de uma personagem. Esta personagem sou eu, claro. Os sentimentos, os pensamentos, as experiencias, tudo isso é meu, ainda que a história seja fruto da minha imaginação com elementos de filmes, animes e jogos."



1. AMCSSC

“Olá, o meu nome é Darko...”. Pode parecer insignificante, mas é um dos pontos mais importantes para a percepção do trabalho que estou a desenvolver. Chamo-me João na “vida real”, Woner no que toca a trabalhos musicais, e digo que me chamo Darko (algo que, segundos depois, é corrigido por uma voz que se deduz ser o meu psiquiatra).
É uma faixa composta por três partes. A primeira começa com um diálogo que dá a conhecer que a personagem está numa consulta (num grupo de várias pessoas) porque se tentou suicidar. Começo a cantar na segunda parte com uns acordes de piano repetitivos e desinteressantes (é também assim que a personagem se sente) e na terceira parte, nos últimos minutos, o instrumental muda e fica mais “animado”. Tirando a parte inicial do diálogo, é uma música muito pessoal. Creio que foi a primeira faixa pública em que falei abertamente sobre autoflagelação, odio próprio, isolamento e amigos imaginários.
Inicialmente a música ia-se chamar “APSE” (As Pessoas São Estúpidas), mas faz mais sentido “AMCSSC”.


2. Prozac 2

Esta faixa é um remake (talvez não seja o termo correcto) de uma que integra o primeiro volume que fiz nos princípios de 2011. Lembro-me que fui atuar com o meu grupo, Diatribe, e depois fui a casa do Suary. Ele estava a mostrar-me instrumentais e a improvisar. Gostei muito de um deles, cantei a letra da “Prozac” porque não gosto de improvisar (de forma séria) e ficou. A letra surgiu com o terminar de uma relação. Quem amava deixou de estar presente e os comprimidos preencheram o vazio, nesta altura ainda não era de forma destrutiva, faziam-me sentir bem e estavam presentes todos os dias.


3. Cão

Também em 2011, andava a queixar-me de falta de beats. O Neatro deu-me este no mesmo dia em que fiquei com o da “Prozac 2”.
Embora a “onda” principal do meu trabalho seja depressiva, gosto sempre de ter uma ou duas músicas “estúpidas” com elementos de autocrítica algo engraçados (técnicas para quebrar o gelo). Esta é uma dessas faixas.
Quem me conhece sabe que eu e os cães não nos damos bem. Eu acho que são animais bonitos, mas eles não gostam de mim e na maior parte das ocasiões os donos são completamente irracionais. O tema surgiu do seguinte pensamento: o cão pode ladrar em qualquer lado, ir com as patas contra qualquer pessoa ainda que sujas por tocarem no chão, morder quem entender como ameaça, praticar o acto sexual onde bem entender, e aos olhos das pessoas continua a ser bonito e querido. Então e se eu fizer tudo isto? Será que não vou levar logo dois socos na cara? Não me vão insultar? Não vou estar a interferir com a liberdade de cada um? Vou, e é exactamente por isso que vai ser engraçado.
Esta música não é uma crítica aos cães (que honestamente não têm culpa de nada) nem aos donos (que dizem sempre: “Ele não morde, ele não morde...”, até morder). É uma autocrítica, porque eu é que sou um universo de imperfeições. Se estão todos bem menos eu é porque o problema reside em mim (é assim que se deprime numa música aparentemente engraçada).


4. Cheeseburger (c/ Neatro)

Esta foi gravada tão em cima da hora que acabei a mistura a dias de sair o álbum. A ideia surgiu quando estávamos na paragem do autocarro. O Neatro estava a comentar um vídeo que tinha visto sobre a forma como fastfood se degradava. Eu disse que não queria saber, pois o que me apetecia mesmo naquele momento era um cheeseburger e não me importava se morresse mais cedo. Ele disse que preferia comer algo saudável para poder viver mais tempo que as outras pessoas. Foi assim. Durante a música toda estamos a contrariar as ideias um do outro.
Na história do álbum esta faixa mostra um pouco mais sobre os pensamentos depressivos do personagem e mostra como os amigos reagem face à nuvem de negatividade que paira nele.
(aos 48 segundos começa um dos meus momentos preferidos)


5. Eu Não Nervos

O título indica uma situação em que quero dizer “não tenho nervos” ou “não estou nervoso” e me engano e troco tudo. O erro torna evidente que estou nervoso quando queria dizer que não o estava para passar despercebido (sou tipo aquelas pessoas que tentam passar despercebidas e acabam por estragar as coisas e chamar a atenção sem querer).
A música começa com um som de theremin e um excerto de um dos filmes em que me baseei para criar a narrativa. O que quero que se retenha é que a personagem tem pensamentos obsessivos que a consomem, e vê tudo o que a rodeia como uma ameaça. Tudo a irrita e isso começa a torná-la agressiva. Neste ponto da história não estamos a falar simplesmente de uma depressão.
O instrumental é dos mais recentes que fiz neste álbum e é dos que gosto mais.


6. O Bebé Levou Um Tiro

Graças a esta música recebi dois emails de pessoas que levaram a mal o tema. Existiram mais 2 versões desta música. Uma que fiz em 2011 que não era nada agressiva e falava sobre a minha infância em Lisboa, e outra que seguia a linha de pensamentos “agressivos” da original com um instrumental todo tocado meio psicadélico. Optei pela versão que está no álbum por estar mais crua.
Esta música desenvolve a linha da faixa anterior e aborda os chamados pensamentos intrusivos. É uma conversa com o psiquiatra em que o personagem admite ter pensamentos agressivos para com outras pessoas, sonhos em que mata sem motivo aparente pessoas que estão felizes num jardim (mais um elemento de outro filme). Aborda mais uma vez, depois do refrão, a insegurança face às pessoas que encontra no seu caminho, e o facto de se meterem com ele só agrava o seu estado psicológico. Quando parece acabar a música ouve-se uma linha de baixo com uns snares algo descoordenados enquanto “grito: “Eu não sei o que digo!”, várias vezes. Isto serve para dar a entender que o personagem sofre por pensar em fazer mal às pessoas, ou seja, não é algo que controla. Depois disso entra um instrumental diferente todo tocado que, sinceramente, por muito piroso que esteja, é dos que mais gosto. No final paira a ideia: “... Eu não te quero fazer mal... A culpa não é minha... Foge... Tu tens de fugir de mim... Morre...”.


7. Lápis de Niizuma

Nos últimos segundos da faixa anterior ouve-se a voz do psiquiatra a dizer para a personagem tentar relaxar e fazer algo que goste, como desenhar. Durante a música vê-se que a personagem tem uma imaginação muito fértil enquanto desenha histórias nas paredes do quarto, e que tem um desejo muito forte em ser o herói que salva o mundo (talvez para que as pessoas que não gostam dele o aceitem). A meio, percebe que se deixou levar pela história que estava a desenhar e que perdeu a noção da realidade momentaneamente. Debate-se ainda com o ódio que sente pelas pessoas que salva e pondera se deve ser o herói ou o vilão.
A última parte da faixa tem referências “escondidas” ao Super Sonic, Crash Bandicoot, Final Fantasy e Kingdom Hearts, isto porque a música revela, no fundo, a solidão e a falta de vontade de viver esta vida, e nesses momentos as memórias de infância e adolescência são reconfortantes.
(esta música vai ser muito importante)


8. Casa de Gelo

Instrumental que mais me agrada neste álbum. Vou tentar explicar por partes. A música serve para dizer que a personagem revela ideação paranoide e tem ataques de pânico. Digo “...o gelo é uma metáfora para o medo que sinto”, logo quando dou a entender que não há saída do quarto porque está coberto por gelo estou a dizer que tenho medo de sair. Quando digo que faço um boneco de neve para ser o meu melhor amigo estou a dizer que convivo tanto com o medo que me habituo à presença dele. Perto do fim, antes do instrumental mudar digo “hipotermia”, estou a falar de um ataque de pânico. Tive a ideia de fazer esta metáfora do gelo/medo e de fazer um boneco de neve amigo que se vira contra mim em 2011. Na altura era num instrumental do Neatro. Claro que, mesmo tendo a ideia na cabeça não escrevi, deixo sempre as coisas a cozinhar até chegar o momento.
Já em 2013, estava eu a stressar a tentar fazer o álbum e não reprovar a nenhuma cadeira, e vi que era muito complicado para o Neatro refazer o instrumental (também por falta de tempo fora de aulas). Um dia sentei-me com o teclado, lembro-me que andava a ouvir uns álbuns de música electrónica/experimental e tentei fazer algo inspirado nisso. Algo com ambiência, com rara aparição de snares cheios de reverb, um piano no fundo também ele com reverb, um coro (muito piroso, mas que adorei), e aquele sintetizador que entra aos 2:23... Eu gostei. Não é o que o pessoal do rap procura e gosta, mas era aquilo que eu queria explorar. O instrumental muda completamente aos 3:24, é algo que gosto muito de fazer (o vol.3 está cheio dessas coisas).


9. Insónias Diurnas (c/ Suary)

Claro que tinha que ficar com este beat do Suary.
De noite a insónia não deixa dormir, e de dia o “sono” (ou desinteresse) não nos deixa vivenciar as coisas à nossa volta. Portanto, estar acordado de dia é igual a estar a dormir (como diz o Suary), e de noite a paranóia decide bater à porta.
No final da música, à semelhança da faixa com o Neatro, a personagem é de novo abandonada pelos amigos que já não conseguem suportar o “drama”.
Em Julho ou Agosto já tinha a faixa gravada, pronta para masterizar e lembrei-me de um instrumental que o Suary tinha feito num dia em que estivemos a produzir e pensei que ia ajudar a consolidar a música geral. Quando acabamos de cantar entra esse instrumental (quase no fim), acho que resultou muito bem.

10. O Reflexo de Nada/ O Convite

Foi a primeira faixa que produzi e escrevi neste álbum. Nesta altura ainda recorria a samples para fazer instrumentais. Estava a ver um filme com a minha irmã, que tem um final algo emocionante para quem é da minha geração. No meio da emoção ouço o sample... Fui logo procurar. Encontrei, fiz o beat, escrevi, gravei, ficou feito. No que diz respeito à história do álbum esta faixa é um reafirmar da depressão, dos cortes, do isolamento, ódio próprio, etc.
É também a faixa em que a personagem se mentaliza que vai morrer.
Quase dois anos mais tarde decidi juntar um instrumental, no fim, de nome “O Convite” porque achei que a faixa original estava incompleta, faltava algo. Não é que este tenha uma produção incrivelmente boa, não era esse o objectivo. Serviu para completar. É um instrumental inquieto, incerto, a bateria não está bem no tempo, apetece pôr “direito”... É bom porque as pessoas deprimidas também não se sentem “direitas”.


11. Demasiado Tempo

Uma vez que a personagem decidiu morrer, não tem mais que ter medo ou vergonha de dizer o que sente. A música anda em torno disto. O objectivo é convencer o psiquiatra de que não dá para adiar mais os comprimidos e que têm que ser receitados sem demora. O final da música tem um excerto de mais um filme em que me inspirei. “Until the day you die, you, not me, will always be shit!” é a mensagem final que a personagem deixa às pessoas que a magoaram antes de se fechar e acabar com tudo.

12. Frágil Porcelana

Estive quase para não fazer esta música (ainda bem que a fiz porque foi a que as pessoas mais gostaram). Já tinha todas as faixas ordenadas e escritas num papel. Se não me engano, isto foi em 2013. Já não usava samples para fazer instrumentais e houve um dia em que me apeteceu voltar a fazê-lo. Ainda ponderei se devia escrever ou não. Enfim, correu bem.
Na história do álbum esta faixa  representa as últimas horas antes do suicídio. O personagem passa o tempo que lhe resta a beber no chão do seu quarto com a mobília toda destruída. Embebeda-se porque no fundo quer ficar. Só não fica porque não se sente aceite, na sua cabeça a culpa é das pessoas (factor muito importante para o vol.3). Desesperado diz: “eu também me odeio”... Podemo-nos dar todos bem porque também me odeio, finalmente temos algo em comum.  
No final há um pequeno interlúdio em que repito algumas vez: “Eu sou o palhaço triste”. Uma referência a uma música do primeiro volume e também um aviso aos artistas de rap que começam agora a pisar a sonoridade “alternativa” e a temática depressiva. Eu sou “O” palhaço triste.


13. 05 x gm06 cazorp

Esta faixa serve para o ouvinte descansar um bocado. Do ponto de vista da narrativa, se atentarmos ao nome está escrito : prozac 60mg x 50. Este é o momento em que o personagem toma 50 comprimidos de 60mg de prozac, ou seja...overdose.


14. 005

Bêbedo, momentos antes de o excesso de comprimidos surtir efeito negativo, aprecio o ambiente que me envolve. É uma última reflexão antes de cair do 5º andar. Se é para recorrer ao suicídio é para partir em grande, ou seja, bêbado, com 50 comprimidos de prozac de 60mg, e uma viagem do topo do prédio até ao chão. Tudo isto de gravata, claro.
O instrumental foi feito pelo Raikuaza. Inicialmente era outro beat, mas ele perdeu-o. Foi passando o tempo, e um mês antes de sair o álbum decidiu dar-me este, que foi um beat pelo qual eu tinha uma fixação desde que o ouvira pela primeira vez.


15. O Grito do Silêncio, a Lua e o Beijo

Esta diz-me muito. Não pelo tema, limitei-me a seguir a narrativa com base no que sinto. O beat marcou uma fase da minha vida em que fiz imenso trabalho musical e muito pouco para a faculdade. Não sei dizer porque me marcou, mas sempre que ouço o instrumental lembro-me desses tempos em que ia para as aulas fazer instrumentais e trabalhar no álbum, nem nos intervalos parava. Às vezes, acordava cedo, chegava lá, faltava e ficava algures numa sala a ”produzir”.
Voltando à narrativa. Isto é quase como se a personagem se estivesse a ver a ela própria estendida no chão. Como se o tempo tivesse parado e o sangue ainda não estivesse a cobrir o cimento. É a experienciar a morte. É um adeus.

16. 28 06 42 12

Fiz este instrumental a meio de uma aula do meu segundo ou terceiro ano de faculdade. É uma faixa sem voz, algo melancólica, que encaixa no álbum sendo que, segundo a história, morri na música anterior. É o final do álbum. Contudo, nos últimos segundos ouve-se uma voz distorcida a dizer: “Acorda”. Algo para dizer que vai haver um terceiro volume (ou não seria uma trilogia), ou que talvez não tenha morrido, é novamente uma menção a um filme. A voz pertence a uma das personagens principais do vol.3 (que foi mencionada durante o álbum).
É desta forma que acaba o “A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada (Vol.2)”.




segunda-feira, 24 de março de 2014

TAR FEATHER - "HEAVY METALS" (2013, EASY PIECES)





Descrição mais elaborada não se poderia pedir: Diogo Tudela é quem se esconde por detrás de Tar Feather, "um projecto de leftfield português responsável por uma abordagem enviesada ao techno e música house, produzindo temas que envolvem a música de dança ortodoxa num casulo de drones baços e batidas fragmentadas".

Dir-se-à que “Heavy Metals”, editado em 2013, terá sido uma das maiores falhas por parte da crítica e do público em geral devido ao seu esquecimento. Longe dos holofotes mediáticos mora nesta obra uma ambiência negra imensa, à base de uma panóplia de samples, capaz de nos remeter imediatamente para paisagens pantanosas dentro de um outro universo onde queremos entrar e não mais sair.






Ponto de paragem essencial, em “No Land Lands” a presença da cítara e das vocalizações magnetizantes encetam uma hipnotizante viagem sonora pelas recordações de uma Europa barroca que culmina numa vasta experiência surreal e sinestésica.
No entanto, após um breve momento climático inicial de plenitude e paz, rapidamente dá-se uma inversão sonora alimentada por batidas pungentes e sons minimalistas abstractos para dar lugar a um gore bucólico, retratando um encontro angustiante com a inquietação e a melancolia e uma aproximação a uma vertente electrónica mais tecno.

Em “Gravel”, os instrumentais electrónicos são capazes de invocar um cenário fantasmagórico na orla de uma densa floresta onde residem as carpideiras, a remeter para Darkside quer por via das suas produções matematizadas abundantes em ambiências, quer por via do seu downtempo e vertente mais experimental.
Com devaneios sonoros como uma constante ao longo do registo, a sua riqueza e diversidade encontra como que a desesperada busca de cada ser humano, pecando talvez e unicamente na coerência defeituosa entre tantas faces da club music como o house, o blankwave, o dub ou o brokenbeat. Mas que, logo após as primeiras audições, não se duvide da inerente qualidade e talento que aqui residem. O convite a entrarem neste belo mundo de música de dança não-dançável está feito. 7,8/10


João Ribeiro




segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CAVALHEIRO - "TRÉGUA" (2013, PAD)

Título: Trégua
Edição: PAD, 2013
Classificação: 6.8/10


Tiago Ferreira vestiu novamente a pele de Cavalheiro, a identidade que o próprio refere não se tratar de um indivíduo. De capa vermelha e aspeto sóbrio, o EP “Trégua” (pode ser ouvido aqui) trata-se do seu quinto lançamento, um por ano desde 2009 e desta vez em conjunto com a PAD, editora que fechou desta forma o passado ano de 2013.

Seguindo a definição da Priberam que tão bem se adequa, cavalheiro é aquele que é “bem-educado, de bons sentimentos”. Ora, já em trabalhos anteriores houve uma contextualização do próprio pseudónimo escolhido pelo artista e desta vez não é exceção. Apesar de todas as faixas poderem ser perfeitamente tocadas individualmente é facto que toda a parte lírica se parece encaixar numa única música/longa conversa em jeito de desabafo durante dezoito minutos, conversa essa própria daquele que não tem vergonha de ligar a essa coisa dos sentimentos.

No entanto, embora “Cedo” entre a matar, talvez constitua logo o primeiro entrave para aqueles que procuram toques mais experimentalistas nas melodias. Com o seu jeito pop-rock, aqui não há lugar a grande experimentalismo, o que não quer dizer que não traga coisas novas. E quem avança até “Talvez” descobre um pouco mais o véu do verdadeiro conteúdo que está neste EP e que não sendo embebedado em experimentalismo, vale a pena experimentar. Com um solo de guitarra que em Cavalheiro é perfeitamente adequado e consegue enaltecer a composição, o que se destaca de tudo o resto é mesmo a entoação da voz de Tiago, que será o ponto forte até ao fim do disco. 




Também em “Walker” e “Família Feliz” surgem sonoridades capazes de agradar ao ouvido mais bucólico. O destaque novamente para a componente lírica da segunda, com chavões como “Não é perfeito”, “E tudo muda / Sem sair do lugar”. Aqui não tem lugar nenhum esforço em transformar as palavras numa rede complexa quase artificial, antes aceita a naturalidade e o pragmatismo da sua visão acerca do tema, sendo neste caso a família e tudo aquilo que ela representa.

E é por toda a subtileza que vem acompanhando o EP desde o início que “Mistral” é a forma mais inteligente de o terminar. Composta sobre um emaranhado de divagações onde impera a metafísica do amor e da vida, a faixa soa como esse vento de Outono, “Vem para levar para longe” a razão do deambulismo anterior, mas trazendo sempre o novo frio disfarçado na trégua que surge antes da tempestade.

João Gil




sábado, 18 de janeiro de 2014

DE E POR A ARMADA: "CLÁSSICO" (2013, Ed. Autor)




"Clássico" é o nome do EP que A Armada lançou já na recta final do ano passado, composto por 5 canções que foram sendo divulgadas pouco a pouco, com videoclips a condizer, mas construídas ao longo de mais de 4 anos, tal como a própria concepção de um projecto cuja formação tanto se alterou. Dizem-nos que "o conceito que tentámos cumprir neste disco foi produzi-lo para que soasse como uma boa estação de rock n’roll clássico, e portanto, cada canção foi produzida com a influência de uma banda ou bandas que são uma referência para nós" e que "Clássico" representa algo que precisamente não mudou: "não deixou de ser fundamental para nós contar a nossa história, ainda que ela tenha entrado num novo capítulo, para que pudéssemos partilhar com todos uma fase que nos deu tanto gozo escrever e da qual nos orgulhamos". Há um disco para descobrir este ano, há agora um EP que a própria A Armada nos conta ao pormenor:


Maria Guilhotina
"Quisemos abrir o disco com esta canção porque tem um riff de entrada muito rock n’roll e uma progressão muito à la "Brown Sugar" dos Rolling Stones.
Brincámos com as mudanças de tempo e enchemos tudo com muitos arranjos de guitarra ao jeito de pergunta-resposta.
A canção fala de uma senhora muito amargurada por um homem que não soube cuidar dela e é um hino de esperança para todas as senhoras e meninas que foram magoadas.
Acaba com um coro à "Hey Jude" numa progressão harmónica emprestada do "Movin’on up" dos Primal Scream com uma melodia nossa por cima. Não temos vergonha nenhuma de dizer isto.


Afinal

Só quando acabámos de gravar esta canção-poema é que nos apercebemos que tínhamos feito uma malha folk/southern rock. Esta não tem solos nem instrumentais como as outras. É a nossa canção mais "chá-lá-lá".



Má Rês
Motörhead. Foi aos Motörhead que fomos buscar o som para a bateria e para o baixo. Esta música não levou nenhuma edição desde a estrutura feita em ensaios. A meio travamos a fundo no tempo e retomamos para cantar o resto. Fala de meninas perfeitas, mimadas e fúteis que vivem para as aparências. E que são boas demais para nós.
Bandidos do Cais

O rastilho para escrever a "Bandidos do Cais" foi uma aventura boémia pelo Cais do Sodré, numa altura em que o surto de bares modernos na Rua Nova do Carvalho ainda não tinha acontecido. Tudo aquilo era muito caricatural, com diferentes tipos de espécies a povoar as diferentes alturas do dia. Era turistas pela manhã, distribuidores e empregados da restauração à tarde, malta nova que ia para os copos até às 2 da manhã e depois a cena virava com prostitutas e bandidagem por todo o lado. Sentia-se que se podia ser saqueado cada vez que se cruzava uma esquina por malfeitores tipo piratas quando estão em terra. E foi nesta imagem que se pegou para compor esta música. Acho que foi o último vestígio do antigo Cais do Sodré e achámos que merecia uma canção, uma espécie de trova popular mascarada de rock n'roll bem riffado e meio psicadélico, que retratasse esse Cais do Sodré a caminho da extinção.


Sinceramente

Esta canção foi a primeira a ser gravada nos estúdios da Valentim de Carvalho. Todos ao mesmo tempo.
Por incrível que pareça, tem mais de 10 anos. A versão original era punk e foi escrita ainda na adolescência pelo João Miguel Matos, o nosso baixista, e tinha uma letra ligeiramente diferente e bastante hardcore. A letra tem três frases e é uma festa cada vez que a tocamos ao vivo.
 




domingo, 12 de janeiro de 2014

FOR THE GLORY - "LISBON BLUES" (2013, Rastilho Records)



Os lisboetas For The Glory são um dos mais emblemáticos coletivos portugueses de hardcore e não podiam ter arranjado melhor forma de celebrar o seu décimo aniversário com o lançamento deste "Lisbon Blues", o 4º álbum da banda que vem confirmar aquilo que tão bem sabem fazer.




Servem-nos um disco recheado dos ingredientes que caracterizam o estilo: riffs abrasivos, vozes berradas, batidas fortes, ritmos bem demarcados e um groove viciante do princípio ao fim. É inevitável sentir a visceralidade e a alma incutida em todos os temas, algo que já seria de esperar para aqueles que os conhecem. Apesar de, no seu todo, ser composto por músicas diretas e com um ritmo alucinante, isso não quer dizer que em "Lisbon Blues" não nos possamos surpreender, aqui e ali, com pormenores interessantes que conferem uma outra dinâmica a alguns temas, como os breaks presentes em faixas como “The Key", "Lisbon Blues”, “Old Wounds” ou “Never See Me Fail”, ou os apontamentos melódicos de guitarra em temas como “Life is a Carousel” e “Dark Times”.
Contudo, não nos podemos esquecer que estamos perante um disco de hardcore e temas como “No Color”, “110”, “D.W.F.”, “Restless Souls” e até mesmo “Dark Times” são feitos daquela matéria que muitos dos fãs do género tanto admiram: grandes riffs, ritmos encorpados e viciantes debitados por uma secção rítmica bem oleada e um groove que nunca mais acaba. Aqui, com uma palavra ainda para a produção do álbum que contribui de forma decisiva para o som final do disco.






Apesar de não primar pela inovação, "Lisbon Blues" revela-se como um álbum bastante capaz e uma adição de qualidade ao reportório de uma banda que se tem vindo a demonstrar como um dos coletivos mais competentes no género em terras lusas. Audição altamente recomendada.


Hugo Gonçalves




sábado, 28 de dezembro de 2013

ROSEMARY BABY - "THE FIRST TIME" (2013, OPTIMUS DISCOS)

Título: The First Time
Edição: Optimus Discos
Classificação: 6/10

Os Rosemary Baby não são a Semente do Diabo, quase se tratando do antónimo desta. Dizem eles que a sua inspiração vem diretamente do continente africano, apesar de sonoramente se localizarem tão distantes dele. Lá compuseram os primeiros registos como coletivo e no passado dia 25 de novembro foi altura de The First Time ser divulgado ao público.

Não obstante de ser o primeiro álbum editado por Bruno Rosmaninho (voz, guitarra e ukulele), Afonso Lagarto (guitarra e banjo), David Neto (baixo) e Johnny Dinamite (bateria), tal não acrescenta nada de incrivelmente novo ao panorama musical nacional. Esta é uma verdade que no entanto, não pretende soar como uma crítica negativa, já que no dicionário novo não é sinónimo de qualidade e os Rosemary Baby conseguem ser uma prova disso.

Num primeiro aspeto é preciso ver aqui algo projetado com melodias simples e fáceis de alcançar, de forma a ficarem rapidamente gravadas na memória. Com certeza que um frequente ouvinte de uma estação de rádio generalista ficaria agradado em poder conhecê-los durante a viagem de carro ou enquanto estivesse no emprego. Há letras construídas com temas bastante triviais e que como os próprios descrevem significam “coisas da vida, coisas do coração, alegrias e tristezas do dia-a-dia”, sempre “em inglês simples, fáceis de ouvir e sem pretensões.”




Posto isto, e compreendendo quem realmente são estes quatro senhores funcionando como coletivo, torna-se então possível encontrar algumas malhas muito bem conseguidas ao longo de todo o disco. Casos de Pressure On ou Days Are Over, a primeira com um registo em crescendo que serve de porta de entrada para os 25 minutos totais, e a segunda com a melhor guitarra presente a dirigir o comando da balada, e que torna tudo ainda mais mágico aos 42 segundos.

A certa altura quase nos lembramos de Madame Godard em Aurora (corria o longínquo ano de 2009). Talvez pelos temas abordados serem muito próximos, mas também pela sonoridade das duas bandas que apesar de temporalmente distantes conseguem preencher o mesmo espaço existente no cenário nacional.

Contudo, o ponto que poderá representar a grande falha deste trabalho está bastante à vista. Não é preciso ouvi-lo muitas vezes para descobrir aquilo que o torna heterogéneo. De Runaway para as restantes faixas existe uma diferença na sonoridade, e não que isso não possa existir, mas tal deve surgir conceptualmente, de modo a que essa alteração faça sentido. Esse conceito não existe aqui e além de quase quatro minutos completamente desencaixados existe ainda o acréscimo de não conseguirem estar ao nível dos restantes.

Este não é o disco do momento nem sequer constará na maior parte das listas sobre aquilo que marcou o ano. Nem deve ser essa a exigência de um ouvinte perante The First Time. A ser colocado no seu devido lugar, permite um bom momento a deixar lá longe e noutra modalidade aqueles que prometerão ser a revelação de 2013. E, com honestidade, a boa música está lá e isso é tudo o que realmente interessa.

João Gil




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

JUBA - MYNAH (2013, Pontiaq)

Título: Mynah
Edição: Novembro de 2013, Pontiaq
Classificação final: 8.3/10

Sempre, ou quase sempre, que olhamos para o shoegaze pensamos na dream pop e nas suas melodias etéreas características: é uma lembrança comum e que vem já dos tempos de My Bloody Valentine ou de Slowdive. Com o passar dos tempos, a dream pop foi ganhando novos contornos, alguns mais electrónicos (com recursos a teclados, samples e etc), outros mais apoiados num novo tratamento da guitarra; desde o fim da última década, e sob a esta segunda doutrina, fez-se catapultar nomes como Wild Nothing, DIIV ou Mac DeMarco. Os dois primeiros vivem muito do shoegaze enquanto o terceiro nome vive em muito das influências post-punk dos anos 80; os lisboetas Juba fazem a conexão possível entre os dois estilos: continuam a servir-se da panóplia electrónica e a apostar num novo tratamento de guitarra, mas também se acabam por exprimir algumas marcas do pós-punk da década de 80.

Mynah, disco de estreia do quarteto, impressiona pelo modo arrojado como concilia a vertente dançável da dream pop mais recente (ouçam-se discos como Nocturne ou o homónimo dos Beach Fossils) com o modo como as guitarras, por vezes, vão explodindo, invocando, não por muitas vezes, vestígios de uma noise pop contida e tímida, mas presente. Importa dizer que as guitarras de Mynah são, sobretudo, a sua vitória: por vezes imprevisíveis, “Victorian Creeps” pode ser um paroxismo disso, por vezes simplesmente atmosféricas e ambientes, por vezes a relembrarem-nos o surf rock dos anos 60/70 e que agora está a renascer e por outras vezes, quando a música dos Juba se torna mais explosiva, mais barulhenta e mesclada com os efeitos dos pedais; a guitarra dos Juba é ecléctica, ajusta-se facilmente ao terreno que pisa e é raro, muito raro, encontrar um eclecticismo sem defeitos.

E por falar em pedais e efeitos de guitarra, há também o nítido chamariz, e aqui esqueçamos as guitarras, ao shoegaze: vozes meias abafadas pela produção do disco, coros/backing vocals a funcionarem quase como agentes de instrumentação. Em suma, Mynah é um disco refrescante para o panorama nacional e como agora a ZON até tem a “Doused” como OST do seu anúncio televisivo pode ser que a coisa corra bem e que os Juba tenham uma aceitação pelo público como aquela que nós temos por eles: malhos como “Mynah/Lull”, “Lambaro” ou “Please Oh Please” não nos fazem pensar outra coisa que não «que belo disco». É mesmo, belo disco.

Emanuel Graça




Twitter Facebook More

 
Powered by Blogger | Printable Coupons