Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crítica. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de maio de 2014

MÃO MORTA - PELO MEU RELÓGIO SÃO HORAS DE MATAR (2014, Nortesul/Valentim de Carvalho)

Edição: Maio de 2014, Nortesul/Valentim de Carvalho
Classificação final: 9.1/10

Não há dúvida alguma: os Mão Morta são um dos nomes mais idiossincráticos que a música portuguesa já viu e, porque não, que virá. Contam já com três décadas de existência e tomar uma atitude céptica quando falamos de um novo disco seu é perfeitamente entendível; regra geral, muitas das bandas com mais de vinte anos de vida que sempre gostámos tendem, nos seus discos recentes, a dar-nos a nostalgia necessária para regressarmos aos seus antepassados. No caso da banda de Adolfo Luxúria Canibal & Companhia isso está longe, muito longe, de se verificar: Pelo meu relógio são horas de matar é o 13º disco em formato longa-duração que os Mão Morta fazem chegar até nós e jamais a nostalgia correrá pela nossa cabeça, porque se constrói a partir da modernidade.

Paralelizando, os Mão Morta são como uma espécie de Swans portugueses: várias formações da banda, onde sempre se conservou o perfil peculiar do poderoso Adolfo, mais de trinta anos de existência pautados por uma regularidade discográfica tremenda, constantes apelos ao industrial e ao spoken-word e a necessidade de haver uma banda, quase orquestra, submissa à espera que o seu maestro surja e conduza todos os acontecimentos. Em comum, existe ainda mais uma coisa: ambas voltaram à carga em 2014, os primeiros com To Be Kind, os segundos com Pelo meu relógio são horas de matar.

Quando se passou a conhecer o primeiro avanço do novo disco de Adolfo & Companhia, “Horas de Matar”, previa-se que os bracarenses fizessem um disco recaído na preocupação com os tempos em que vivemos. A previsão inicial rapidamente se torna uma certeza quando ouvimos o ponto de partida do álbum; “Irmão da Solidão” é uma canção que, a avaliar pelo single que nos tinham demonstrado, faz todo o sentido: «Eu sou um irmão, um irmão da solidão. Sempre um irmão da solidão».

Não é para Adolfo que está prestes a chegar a hora de matar, é para todos nós - cidadãos. Não no seu sentido literal, não dramatizemos ainda mais a tempestade de cabeças ocas que se insurgiram contra o vídeo da canção de avanço do disco, mas no seu sentido literário: os coros de “Horas de Matar”, seguidos dos versos parafraseados pelo enorme Luxúria «Também pelo meu relógio são horas de matar», despertam isso. Fazem despertar qualquer um, é clímax de quando uma canção deixa de ter qualquer rótulo que não o de música social. O disco rege-se por todo esse paradigma. Não é apenas mais um disco dos Mão Morta, é um disco que foi feito para também nos pertencer.

E pertence-nos; as partes de todos nós que se ilustram em “Hipótese de Suicídio” ou na maré de esperança vazia, mas triunfal, de “Nuvens Bárbaras”. «O futuro não é uma fonte de esperança, só nos resta a indigência». Pelo meio de uma paisagem repleta de verdades, existem “Pássaros a esvoaçar” à procura de um naco de pão, de uma oportunidade. Não a encontram, são “Preces Perdidas”. E tantas seriam se as contássemos por cada vez que todas elas de nada nos valessem.

Pelo meu relógio são horas de matar sofre uma alteração tremenda na sua segunda metade; “De coração aceso” é o melhor dos presságios possíveis para sabermos que a partir dali chegam uns Mão Morta mais frios, mais introspectivos, mais históricos. «Com sangue no meu coração, ficará manchado o caminho». Já dizia José Saramago que o seu coração era de carne e não de ferro e que, por isso, sangrava a toda a hora. No caso dos Mão Morta, a história é idêntica: também existe uma dor suficientemente grande para atormentar o seu coração. O problema, que não é problema nenhum, é que o coração dos Mão Morta retratado em Pelo meu relógio são horas de matar é composto por partes de cada um de nós. No fim, por certo, estaremos todos lá – nós e os “Ossos de Marcelo de Caetano”, que estão/estarão de regresso ao palácio de São Bento.

«Não há maior alegria do que a do sonho da vitória» diz-se em “Histórias da cidade”. Por enquanto, os Mão Morta ainda não podem dizer que tiveram a maior das alegrias com Pelo meu relógio são horas de matar. Para o poderem, faltam-lhes, a eles, nós, cidadãos. Falta celebrarmos o disco, falta-nos perceber que o constante declínio da nação poderá, um dia, chegar ao seu limite. Caminhamos, a passos largos, para que isso aconteça. Tudo está mais perto que ontem, amanhã mais do que hoje. Falta também nos apercebermos que pelo nosso relógio são horas de matar. Os coros da canção dos Mão Morta já o vão dizendo e já se vão ecoando nas nossas cabeças, mas falta cumprir-se algo ainda mais fulcral: nós.

Emanuel Graça






terça-feira, 25 de março de 2014

MR. HERBERT QUAIN - FORGETTING IS A LIABILITY (2014, Zigur Artists)

Título: Forgetting is a Liability
Edição: Março de 2014, Zigur Artists
Classificação final: 8.9/10

Se o disco que Mr. Herbert Quain editou em 2012 nos trouxe uma abordagem bastante peculiar à música que este personagem imaginária ia pensando, Forgetting is a Liability, o seu mais recente disco novamente carimbado pela Zigur Artists, é o consolidar de todo um processo que já não se adivinhava propriamente difícil: é apenas uma confirmação daquilo que já se previa, daquilo que já nos ia ficando na cabeça, de que Mr. Herbert Quain é uma valia segura na música electrónica nacional.

Quando em 2012 se fez editar How I Learned to Stop Worrying and Start Loving the Waiting, existia uma espécie de entrave que fazia com as suas bonitas peças não se conchavassem entre si para formar um belo puzzle. Mesmo sendo bonitas, todas elas caiam numa espécie de repetição que agregavam entre si resquícios de soul e de jazz. Em Forgetting is a Liability, a essência acaba por ser a mesma, não se assiste a uma saída de um porto de abrigo que já na altura parecia ser um habitat natural para as paixões de Herbert. Os ritmos do disco são lentos e acabam por se conjugar com uma ênfase tremenda que se vão dando aos beats que surgem à medida que os samples se desenrolando. Nem tudo nasce efectivamente do jazz ou da soul, há, por exemplo, The Breeders, banda de Kim Deal, ex-baixista dos Pixies, em loop em “Now”, mas a verdade é que acaba por tudo lá ir desaguar. A priori, experimentar numa estrutura única duas texturas totalmente diferentes seria um risco, mas a verdade é que existe por aqui uma maturidade imensa. Brinca-se com o fogo, não há queimaduras.

A Primavera ainda agora começou, qualquer dia começamos a ver as aves migratórias a rondar as árvores das nossas cidades, o Sol vai finalmente, esperemos, a ser uma coia regular no nosso quotidiano enquanto a chuva, vai, ocasionalmente, estando sempre à espreita. Forgetting is a Liability é um disco extremamente apropriado a esta altura do ano. O sol, ou a luz, está sempre lá, respondemos-lhe com um abanar a cabeça e um sorriso estampado na nossa cara. As andorinhas voam de spot em spot, mas sabemos que realmente andam, ou confluem, sempre com os sítios pertencentes à mesa esfera – é uma metáfora para o processo de samplagem de todo o disco. A chuva, fortalecida pelos vestígios de trip-hop que nos vão chegando, também está sempre à espreita, mas acaba por nunca vociferar mais alto do que o Sol. Para este disco, são válidas todas as metáforas do mundo, mas nem todas se encaixarão tão bem quanto as próprias canções do disco se ligam umas às outras. A vitória está confirmada, aqui há belas peças e um puzzle soberbo.


Emanuel Graça




terça-feira, 11 de março de 2014

IODINE - "IZABEL" (2014, ED. AUTOR)

Iodine é o nome do projeto leiriense formado em 2006 por D. Pereira, G. Domingues, H. Ferreira e R. Santos. As influências da banda gravitam assumidamente em torno de projetos como Poison The Well, Deftones, Architects, Cult of Luna, The Ocean, entre outros. A partir daqui, para quem não conhece a banda, pode-se aferir desde já o estilo preconizado pela banda que deambula entre o post-metal, post-hardcore e metal progressivo. Com um conjunto tão vasto de estilos a servir de base para este disco, o resultado patente em “Izabel”, o novíssimo disco lançado este ano, só poderia ser algo digno de se ouvir.

“Izabel” parte do ponto onde “An Abyss at Nightfall” nos deixou em 2012. No último disco da banda foi-nos exposto um mundo negro que serve de pano de fundo para este novo trabalho o qual se apresenta num misto de caos e calma. O disco conta a história de Adam (o narrador) e Izabel, a filha de uma mulher conhecida como “The Chaos Swan”, líder de um movimento revolucionário primeiramente descrito em “An Abyss at Nightfall” cujo objetivo é combater as desigualdades vigentes em City of Abyss. Passados vinte anos a cidade vive tempos desesperantes impostos por uma ditadura onde não há espaço para a liberdade de expressão, individualidade, literatura ou qualquer forma artística. É a luta de Izabel e o seu movimento revolucionário contra o regime que são aqui musicados. 




Cada faixa explora um tema diferente que conta a história insubmissa deste duo. “Metastasis”, que narra a decisão de Adam em juntar-se a Izabel, é uma faixa assumidamente djent, com uma boa dose de agressividade, bons riffs, bateria complexa q.b. e pormenores dos sintetizadores que dão uma outra cor no seu papel de suporte; “The Seer” conta-nos os pensamentos de Adam, um sem-abrigo solitário que vagueia pelas ruas de City of Abyss, e segue o mesmo caminho mas de uma forma mais melódica com coros interessantes e riffs de qualidade a acompanhar; “Darker Days, Brighter Nights” é uma música direta e agressiva onde o groove impera a qual narra a decisão de Adam em tomar o lugar de Izabel após a sua morte; “Tempest/Dawn” retrata o primeiro passo de Adam como líder do movimento e divide-se em duas fases: uma mais agressiva (“Tempest”) com uma entrada potente, fases cheias de groove e ritmada, bem como excelentes riffs djent ,e outra bem mais melódica (“Dawn”) onde predominam as vocalizações limpas, acabando de forma instrumental e ambiental. Restam-nos ainda as instrumentais “Liminal Awakening”, a introdução épica e melódica ao disco, e “Rite of Passage”, uma curta ponte atmosférica.




Em “Izabel” os Iodine presenteiam-nos a evolução lógica de “An Abyss at Nightfall” passados anos desde o último lançamento da banda, façanha atingida de forma contundente pelo coletivo leiriense. Assistimos não só à evolução técnica dos seus executantes, o que culmina na ampliação estilística patente no álbum, mas também na evolução no que concerne à composição propriamente dita. Sem dúvida que estes são ingredientes suficientes para investigarmos este novíssimo álbum duma banda que promete não deixar ninguém indiferente.

Hugo Gonçalves




sábado, 8 de fevereiro de 2014

BRANCHES - CASA NOSSA (2014; MOUCA RECORDS)

Título: Casa Nossa
Edição: 2014, Mouca Records
Classificação final: 8.1/10

Quando Daniel Lopatin, sob o nome de Oneothrix Point Never, se começou a impor no panorama electrónico mundial percebemos imediatamente que as suas abordagens ao conceito de música ambiente eram um pouco invulgares; primeiro porque a dimensão das suas canções iam muito mais além do que isso, o seu esqueleto era demasiado forte (no bom sentido) e a maneira como ia repetindo os seus drones sem estes caírem na própria repetição era soberba. Segundo porque o modo como o produtor americano conchavava os seus registos era também ele idiossincrático: uma primeira parte muito mais calma e ambiente que servia de introdução para um segunda parte bastante mais elaborada e com ritmos mais rápidos.

Branches, nome artístico de Pedro Rios, conflui com parte dos ideais partilhados por Lopatin, contudo orientados segundo uma linhagem diferente. Casa Nossa, editado há cerca de um mês atrás, traz-nos um registo entrópico, onde cada música segue o seu próprio rumo. Não existem divisões nem existe um todo, existem apenas músicas que vão-se mostrando independentes entre si, sem que para isso seja necessário sair do seu habitat. Bastante marcado pelo ruído dos sintetizadores, Casa Nossa é um disco calmo e com um conceito de música ambiente bastante mais clarificado e conceptual do que, por exemplo, R Seven Plus ou até Replica. É a verdade que a sua filosofia é notoriamente diferente, aproximando-se muito mais de nomes como Tim Hecker, mas a sua essência acaba por ser a mesma.

Sente-se, sobretudo, a relevância do do-it-yourself da vanguarda alemã dos anos setenta, quando começou a rebentar o uso de sintetizadores à escala global. E claro que depois se sente o pesar mais actual, mesmo que bem lá no fundo, do manuseamento electrónico de Blanck Mass ou Emeralds. Há momentos completamente distintos ao longo de Casa Nossa, sendo que dois deles se resumem à inclusão de uma guitarra no disco, o que o torna, a curtos espaços, menos monótono e mais alegre. Falo de “Sol no Terraço” e de “Casa Nossa”. Mas a mais pura das verdades é que Branches esculpe um disco recheado de mistério e incógnitas e acaba por ser aí nesses momentos mais peculiares que Casa Nossa acaba por ser um disco tremendo, como o reflectem “Vida Nossa”, “Rumo ao Futuro” ou “Expirar”. Ainda existe espaço para aprimorar a sua estética e quebrar parte da monotonia habitué de um disco desta dimensão bem como torná-lo mais coeso e compacto, mas Casa Nossa acaba, no fim de contas, por se revelar um disco esteticamente belo, detalhadamente cuidado e bebedor das melhores influências. Bipolar, tanto nos consegue apelar para a meditação nos seus momentos mais calmos como nos consegue fazer sorrir pela sua vertente alegre nas suas músicas onde se incorpora a guitarra, tal como nos acontece ao longo da nossa vida. Há vida por aqui, “Vida Nossa”.


Emanuel Graça




quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

W.I.N.D. - PUZZLE (2014; ED. AUTOR)

Título: Puzzle
Edição: Ed. Autor, 2014
Classificação final: 7.9/10

MF DOOM é um autêntico polvo e os seus tentáculos ainda hoje se parecem agigantar à medida que ouvimos discos de música electrónica intimidados com os ritmos mais jazzy  e com a hip-hop de cariz instrumental. O novo disco de W.I.N.D. leva-nos, incontornavelmente, até esses espaços anteriormente já percorridos; aqui não há rimas, não há o brio da métrica do rapper norte-americano (aqui só há espaço para os próprios samples), mas existem vestígios nítidos do seu pesar no processo de fundir o jazz ao hip-hop, os pianos aos beats que nos pedem constantemente o chill, tal como hoje em tia tem feito Flying Lotus.

Tal como um certo membro da Brainfeeder (falamos, claro, de Teebs), editora do também norte-americano Flying Lotus, W.I.N.D. aposta na estética lo-fi das suas músicas, o que se acaba por traduzir num som menos monótono e mais imprevisível, como está evidente em, por exemplo, “Can’t Sleep”. Existe também o fio condutor, possivelmente dado pela linha de baixo, que nos leva até aos portugueses Orelha Negra em “Jeremiah”, um dos melhores sons do disco.

Contudo, existem algumas imperfeições em Puzzle que o impedem de ser um disco muito bom para ser apenas um bom disco; nesse campo importa apenas referir o scracth de “The Message” é completamente falhado e descontextualizado de tudo o que foi anteriormente construído. Ainda assim, há neste disco momentos preciosos que nos fazem reviver ainda que sem métricas a música que os Digable Planets inicialmente adoptaram como sua, para mais tarde MF DOOM lhe dar o devido triunfo, como W.I.N.D. em “We are lost”. Hoje, grande parte da música computorizada vive disso. A averiguar por este Puzzle, ainda bem: está aqui um talento seguro para o futuro da música electrónica nacional.


Emanuel Graça




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

YOU CAN'T WIN, CHARLIE BROWN - DIFFRACTION/REFRACTION (2014, PATACA DISCOS)

Título: Diffraction/Refraction
Edição: Pataca Discos, 2014
Classificação final: 8.9/10

Bandas e a coabitar Portugal com o estatuto de “super-grupo” são escassas, mas sempre vão existindo algumas (poucas, é verdade) que conseguem ter esse estatuto. Quando os Diabo na Cruz surgiram, por volta do fim da década passada, contavam com B Fachada como seu membro e rapidamente conseguiram consolidar-se como uma das maiores bandas nacionais da sua altura, sendo que ainda hoje o são (mesmo já sem B Fachada), contando na sua formação com membros como Jorge Cruz ou João Gil. Passado pouco tempo da formação dos Diabo na Cruz, surgiam os You Can’t Win, Charlie Brown, inicialmente formados apenas por três membros. Mais tarde, David Santos, musicalmente conhecido por Noiserv, Tomás Sousa e o próprio João Gil dos Diabo na Cruz juntaram-se ao grupo e ainda hoje esta é a sua formação.

Depois de um EP editado em 2010, os YCWCB cresceram bastante e acabaram, naturalmente, por se tornar um dos nomes mais importantes para a música portuguesa com a edição de Chromatic, em 2011, carimbada pela Pataca Discos. Já na altura, a estética das suas canções era aprumada e preocupada com os pequenos detalhes de passar o silêncio ao não silêncio de uma forma bastante simples: bastava a adição de um sintetizador naquele trecho de canção e esta ganhava mais corpo sem que para isso se tivesse de moldar a um novo esqueleto. Mudam-se os tempos, mas as vontades parecem manter-se; parece ser esta a doutrina pela qual os You Can’t Win, Charlie Brown se regem, e ainda bem.

Diffraction/Refraction, o segundo longa-duração da banda lisboeta, viu a sua luz do dia no passado mês de Janeiro, numa edição novamente carimbada pela Pataca Discos e mantém o perfil idiossincrático que Chromatic nos mostrara, contudo de uma forma mais coesa, concisa e madura. “After December”, tema escolhido pela banda como amostra de Diffraction/Refraction, fazia prever uns YCWCB com menos chama e por essa razão o disco não tem um início estrondoso, mas quando nos chega “Fall For You” aquela chama que tinha acendido em 2011 volta a aquecer-nos e a aconchegar-nos de uma maneira como hoje em dia poucos sabem como fazer isso acontecer.

Urge referir a canção folk de cariz mais tradicional como um dos géneros que mais marca o disco; “Heart” relembra-nos o dedilhar habitué da canção folk dos anos setenta, onde se foi desencantar Nick Drake ou mesmo Jackson C. Frank. Contudo, raramente nos é possível sentir o peso que a guitarra tem no disco como teve nessa canção: a guitarra é completamente colocada em segundo plano, juntamente com toda a restante panóplia sonora. Diffraction/Refraction é, acima de tudo, um disco que se rege pela actualidade da canção folk, pela sua modernização e pelo detrimento que este género tem dado, cada vez mais, à guitarra: o que mais interessa são os sintetizadores e o modo como eles nos conseguem aprisionar ininterruptamente às canções. É mais do que evidente que os You Can’t Win, Charlie Brown apostam muito mais nos teclados do que nas guitarras ou baixos, tal como hoje em dia têm feitos nomes como Grizzly Bear, Surfjan Stevens ou mesmo Animal Collective, mas com a diferença de que hoje, 2014, ninguém tem mostrado que o faz melhor do que eles.

 As vocais do disco são de excelência, quer a sua componente principal quer mesmo a harmonia dos seus coros, o modo como Diffraction/Refraction nos prende a si é soberbo: e, generalizando, a sequência “After December” / “Fall For You” é um autêntico exemplo de como deve correr um disco; deve ser conexo entre si, contar uma história ao mesmo tempo que nós queiramos que essa história nos seja contada. Podemos não ter aqui um momento tão épico como “An Ending”, musicão do primeiro LP, mas temos um autêntico puzzle de onze peças em que quando nos apercebemos da sua imagem sorrimos de satisfação por um dever que, mesmo não sendo nosso, foi cumprido.

Emanuel Graça




segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

JUBA - MYNAH (2013, Pontiaq)

Título: Mynah
Edição: Novembro de 2013, Pontiaq
Classificação final: 8.3/10

Sempre, ou quase sempre, que olhamos para o shoegaze pensamos na dream pop e nas suas melodias etéreas características: é uma lembrança comum e que vem já dos tempos de My Bloody Valentine ou de Slowdive. Com o passar dos tempos, a dream pop foi ganhando novos contornos, alguns mais electrónicos (com recursos a teclados, samples e etc), outros mais apoiados num novo tratamento da guitarra; desde o fim da última década, e sob a esta segunda doutrina, fez-se catapultar nomes como Wild Nothing, DIIV ou Mac DeMarco. Os dois primeiros vivem muito do shoegaze enquanto o terceiro nome vive em muito das influências post-punk dos anos 80; os lisboetas Juba fazem a conexão possível entre os dois estilos: continuam a servir-se da panóplia electrónica e a apostar num novo tratamento de guitarra, mas também se acabam por exprimir algumas marcas do pós-punk da década de 80.

Mynah, disco de estreia do quarteto, impressiona pelo modo arrojado como concilia a vertente dançável da dream pop mais recente (ouçam-se discos como Nocturne ou o homónimo dos Beach Fossils) com o modo como as guitarras, por vezes, vão explodindo, invocando, não por muitas vezes, vestígios de uma noise pop contida e tímida, mas presente. Importa dizer que as guitarras de Mynah são, sobretudo, a sua vitória: por vezes imprevisíveis, “Victorian Creeps” pode ser um paroxismo disso, por vezes simplesmente atmosféricas e ambientes, por vezes a relembrarem-nos o surf rock dos anos 60/70 e que agora está a renascer e por outras vezes, quando a música dos Juba se torna mais explosiva, mais barulhenta e mesclada com os efeitos dos pedais; a guitarra dos Juba é ecléctica, ajusta-se facilmente ao terreno que pisa e é raro, muito raro, encontrar um eclecticismo sem defeitos.

E por falar em pedais e efeitos de guitarra, há também o nítido chamariz, e aqui esqueçamos as guitarras, ao shoegaze: vozes meias abafadas pela produção do disco, coros/backing vocals a funcionarem quase como agentes de instrumentação. Em suma, Mynah é um disco refrescante para o panorama nacional e como agora a ZON até tem a “Doused” como OST do seu anúncio televisivo pode ser que a coisa corra bem e que os Juba tenham uma aceitação pelo público como aquela que nós temos por eles: malhos como “Mynah/Lull”, “Lambaro” ou “Please Oh Please” não nos fazem pensar outra coisa que não «que belo disco». É mesmo, belo disco.

Emanuel Graça




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

TORTO - TORTO EP (2013, LOVERS & LOLLYPOPS)

Título: Torto EP
Edição: Dezembro de 2013, Lovers & Lollypops
Classificação final: 8.6/10

Há muito que, nós portugueses, já nos aclimámos à ideia de que a Lovers & Lollypops, editora discográfica com raízes em Barcelos, é, muito possivelmente, a label que mais fulcral é para a música portuguesa neste momento; algures no início da década fizeram nascer os gigantes Black Bombaim para mais tarde, com Titans, nos fazerem ver que está ali um dos nomes mais sonantes da stoner rock contemporânea. No ano passado catapultaram nomes, hoje unânimes, como Memória de Peixe, Throes + The Shine ou RA. Este ano, menos produtivo, é certo, as vitórias dos barcelenses parecem reflectir-se, numa maior escala, em Jibóia EP, de Jibóia, Leeches, de The Glockenwise e no recente EP homónimo dos Torto.

Os Torto são um caso peculiar na maneira como fazem e pensam música; o escape a rótulos é evidente: não se podia estranhar se os apelidássemos d’os Tortoise da stoner rock. Tal como a sonoridade dos norte-americanos, a música dos bracarenses portuenses assume um espectro mais atmosférico e imprevisível e, propositadamente, menos explosivo. As linhas de baixo fazem um apelo claro à importância do baixo pesado da stoner rock, as guitarras são tratadas com classe q.b. para que nunca seja necessário fazer barulho a sério para ver que está ali alguém que as sabe tocar e as baterias apontam-nos, na maior parte das vezes, para o principal foco deste disco: o foco ambiental.

O saldo final é extremamente positivo; os Torto respiram e fazem-nos respirar música, malhos como “As coisas atrás”, “Tigre” ou “Polvo Sereno” são uma lufada de ar fresco para o rock nacional. O disco desenlaça-se com “Barcelos”, local onde se iniciou uma espécie de revolução na música portuguesa; a avaliar por este EP de excelência dos Torto, apesar de portuenses, a revolução parece continuar: Avante, camaradas.


Emanuel Graça




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

∆TILLL∆ - IV (2013, Ed. Autor)

Título: IV
Edição: Julho de 2013, Ed. Autor
Classificação final: 8.4/10

Dois discos num ano é sempre um registo considerável; ∆TILLL∆ é um nome em clara emergência no panorama electrónico português e, lida a primeira fase deste texto, é quase irreversível dizer-se que não tem feito por isso. Em 2013, brindou-nos com dois álbuns; o primeiro, intitulado III, foi editado no primeiro mês do ano. O segundo, hoje o nosso objecto de análise, intitula-se IV e não segue outros contornos que não aqueles que todas as aventuras de ∆TILLL∆ seguiram até ao momento: ainda bem.

Se pouca gente hoje em dia se preocupa com o conceito de álbum, Miguel Béco de Almeida, o homem por detrás de ∆TILLL∆, não pertence certamente a esse grupo de pessoas; as suas músicas seguem uma continuidade e não será ao acaso que cada uma delas se intitula como música 1, música 2, música 3, etc.: conta-se uma história que se divide por episódios e é sempre bom quando encontramos um disco despreocupado com as gentes e mais preocupado consigo mesmo. Assim é IV, assim é ∆TILLL∆: um demónio que se está a cagar para tudo, que parece fazer as coisas simplesmente porque gosta de as fazer.

Demónio será, por certo, um dos melhores termos para definir aquilo onde a música de Miguel Becó nos leva: música cruelmente impiedosa, que se abarca timidamente à witch house (até a simbologia presente no nome ∆TILLL∆ nos remete para isso) enquanto se mune de drones sombrias e pesadas e nos traz à lembrança os territórios mais electrónicos e sinistros que uns Ulver já nos fermentaram outrora; há também, numa menor escala, resquícios muito escondidos de um dubstep gélido ou de uma industrial de J.K. Broadrick mais repetitiva. Ainda assim, e é verdade que este leque de influências é soberbo, IV é um disco que faz de ∆TILLL∆ um artista aquilo que a sua história pré-IV não fazia: houve aprendizagem de estúdio e houve uma maturação tremenda quanto à duração que um discos deste género pode e deve ter – aqui bate tudo certo, trinta e um minutos deste tipo de descarga sonora é o tempo perfeito, mais, como era habitué, era tornar um disco com potencial num disco cansativo e faminto por nos comer o cérebro.

Em compêndio, IV é um disco tremendo de um jovem que, claramente, está a ganhar o seu próprio espaço: se no ano passado Rancor, de RA aka Ricardo Remédio, me cilindrou a cabeça pela sua abordagem carregada de crueldade à darkwave através das doutrinas techno, este ano foi claramente este IV que me fascinou: o potencial de outrora é agora uma certeza, bastou que se encurtasse tempo e que este ditasse a maturação natural das coisas. ∆TILLL∆ não é para meninos, ainda bem!

Emanuel Graça




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

ERMO - VEM POR AQUI (2013, OPTIMUS DISCOS)


Título: Vem Por Aqui
Edição: Novembro de 2013, Optimus Discos
Classificação final: 9.3/10

Há cerca de um ano atrás, no âmbito das nossas listas de fim de ano de 2012, onde classificámos o EP de estreia dos Ermo como um dos dez melhores EP’s nacionais do ano, dissemos que o duo bracarense formado por António Costa e Bernardo Barbosa não se resume apenas a música propriamente dita: há história e estórias, devaneios criativos como, por cá e não só, pouca gente até agora se atreveu e viagens que, a avaliar pela obra discográfica da dupla, parecem pouco preocupadas em chegar a um porto seguro.

Certamente é essa a sua intenção, a experiência de ouvir Ermo, quer no seu EP quer agora em Vem Por Aqui é abaladora, inquietante e, desculpem-me se me sirvo de hipérboles, quase única: não espanta, por isso, que no fim da viagem, no momento de atracar a caravela, desconheçamos as terras que se encontram; é um espaço novo, nunca antes, por nós, navegado, onde tudo o que lá existe e habita se resume àquilo que poucos esperariam encontrar. Sabemos apenas que é por lá, nos seus lugares mais sombrios, que os Ermo viram o seu sol, a iluminação paradoxal do seu estro, da sua essência: como sabe bem mirar um hipotético horizonte e encontrar caravelas, parte da história e glória nacional, a chegarem a novas terras em pleno século XXI, porém terras diferentes, mais tristes que outrora. Da glória dos nossos antepassados e da tristeza de Portugal versão 2013 se serve o triunfo dos Ermo.

«Porque é que queremos ser pequenos? // De lá fora cada vez mais // de Portugal cada vez menos. // Porque é que vemos sempre escuro // quando p’ra dentro nos olhamos.». Somos um país triste, com uma história irreversivelmente triste, onde a felicidade é, por estes dias, apenas uma miragem. As pessoas do nosso Portugal sabem disso, preferem ver nas conquistas do passado as alegrias dos dias de hoje; é sempre assim, hipotecando-se o futuro, deixando-o de parte, viver hoje à espera do amanhã, com o ontem sempre na lembrança. Os Ermo sabem disso e, exactamente por saberem disso, vivem no passado, no presente e no futuro: do ponto de vista lírico existem oito canções ilustrativas, ou seja, todo o disco, do ponto de vista sonoro idem; habita a certeza de que as composições mais clássicas se cruzam com os tempos futuros das composições folk.

As guitarras que outrora serviam de máxima à canção habitué da folk são, em Vem Por Aqui, substituídas por jogos concitantes de teclas e sintetizadores, sempre trabalhados com um carga electrónica bastante apreciável, e desviam-se do cliché de estarem em fase com as vozes: é demasiado evidente que a produção de Vem Por Aqui enfatiza e dá mais importância à voz de António Costa do que a tudo o resto; é ele o principal trovador do duo de Braga, é sobre ele que, como se esperava, recaem todas as atenções. António fala mais do que canta, berra mais do que murmura: podia-se, por isso, chamar Antónimo Costa que ninguém, por certo, se incomodava (matem-me).

E é por todas estas razões que Vem Por Aqui é um disco tremendo em todas as suas vertentes: esplêndido na sua plenitude enquanto registo que afilia tempos distintos da canção folk, exímio na abordagem política a interventiva que faz à sociedade portuguesa da primeira metade da segunda década do século XXI – onde as doutrinas de nomes como Fausto, Sérgio Godinho ou Zeca Afonso foram bem aprendidas – e soberbo no modo como a sua capacidade criativa consegue chamar e alertar a atenção das pessoas. “Correspondência”, “Primavera”, “Porquê?” ou “Projéctil” são apenas quatro das canções que fazem do primeiro LP dos Ermo um disco enorme, gigante. «Cala-te e come // Tu não tens fome. // És surdo e mudo // Orelhas de burro», os quatro versos delineados, escolhidos a dedo, para desenlaçar Vem Por Aqui ainda se ecoam na minha cabeça. Talvez não nos encontremos em tempos de não comer porque os outros comeram tudo e não nos deixaram nada, talvez agora a gente não coma porque não tem fome, porque somos uns burros e mesmo famintos mentimos a nós próprios dizendo que não temos fome. Afinal quem é que andamos a querer enganar? Está na hora de ver o nosso próprio sol porque Portugal está p’ra acabar e não podemos deixar o cabrão morrer.

Emanuel Graça




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Putas Bêbadas - Jovem Excelso Happy (2013, Cafetra Records)

Título: Jovem Excleso Happy
Edição: Novembro de 2013, Cafetra Records
Classificação final: 7.5/10

A Cafetra Records é uma editora discográfica que, embora seja muito recente e constituída por gentes bastante jovens, já solidificou o seu próprio legado e já se auto-patenteou: produções de discos sempre intimidadas com a lo-fi, construções de muralhas infindáveis de distorção através das guitarras e lirismos que nos achegam à lembrança tempos idos de uma adolescência que tem tanto de despreocupada como de problemática.

Jovem Excelso Happy é a nova produção da Cafetra, num disco que tem a assinatura de Putas Bêbadas. O pensamento, já cliché, que estamos a ouvir um disco da editora que sustenta nomes como Pega Monstro, Os Passos em Volta ou Éme permanece: a produção mantém a sua fiel aliança com a baixa fidelidade, o que ajuda e serve de catalisador para que os processos criativos da guitarra, quase sempre a confluírem com distorções pouco amigas dos ouvidos (no bom sentido).

A componente vocal de Jovem Excelso Happy facilmente nos remeteria para um disco shoegaze: as vozes são constantemente abafadas, regaladas claramente pela produção para segundo plano, o que confere mais volume e corpo ao trabalho de guitarra em si. Além disso, não se percebe puto do aqui se diz; talvez seja essa a intenção, mas no fim de contas não percebemos que língua este jovem fala e acaba sempre por ser importante numa qualquer relação com outro alguém saber de onde ele provém e quais as suas origens.

E se do ponto vista lírico não existe quase nada a dizer, o que se vê como ponto mis negativo do disco, sabe-se, a priori, que as origens de Jovem Excelso Happy e das Putas Bêbadas se prendem sobretudo à noise, quer seja ela num campo mais ligado ao rock quer seja ela num campo mais abstracto: “Long Live The Mullet”, uma autêntica chuvada e elucidação de que se pode fazer um barulho não muito volumoso, mas doloroso (outra vez no bom sentido) acaba por ser uma espécie de compêndio daquilo tudo que este jovem prega: desde os níveis mais entrópicos de “Gonorreia” à calma, que se urgia, de “Ladies das Olaias”: há qualidade e promessas, o tempo tratará ou não de as fazer cumprir; quiçá estas putas deixem de ser bêbedas e passem a acompanhantes de luxo.

Emanuel Graça




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dreamweapon - Dreamweapon EP (2013, Ed. Autor)

Título: Dreamweapon EP
Edição: Ed. Autor, 2013
Classificação final: 9.0/10

Em 1985, os Jesus and Mary Chain, com o lendário Psychochandy, faziam com que se abrisse portas a um mundo sonoro proto-shoegaze; e não que ele não existe já antes, porém a sua existência assumia outros contornos, sobretudo mais no espectro ambiente. Iniciou-se um período onde as guitarras, principal componente do género, começaram a ter outro tipo de tratamento: começaram a soar nitidamente mais arranhadas, bem mais audíveis e, sobretudo, mais etéreas. Quanto às vozes, pouca coisa mudou deste então: ainda em 2013 continuam perfeitamente (e hiperbolicamente) inaudíveis.

Os Dreamweapon surgem algures no meio de todo este contexto: repescam nitidamente o mundo shoegaze anterior ao dos My Bloody Valentine, ao dos Swirlies ou ao dos mais recentes Yuck; as guitarras expelem-nos para os mundos criados pós-metade da década de oitenta, espaços que não foram mais celebrados por ninguém que não os Jesus and Mary Chain: isso acaba por ser bom, embora não nos traga qualquer tipo de novidade; já estávamos fartos de filhos não biológicos dos MBV.

Dreamweapon EP acaba por ser a estreia em termos discográficos da banda que junta André Couto, Edgar Moreira, João Costa e Luís Barros: e não se trata apenas de uma estreia promissora, trata-se já de uma certeza. “Black Mountain”, primeira canção do registo e que, por coincidência ou não, é o nome de uma banda stoner que até pode ter o seu peso nas composições dos Dreamweapon, é a primeira prova dada em como existe aqui algo sério, algo que mexe connosco; desde aquela drone estrondoso que nos comandando os ouvidos até às batidas e bassline que nos podiam facilmente induzir em erro, se ouvidos em separo, e levar-nos até aos caminhos mais clichés da stoner rock. “Fall” mantém esse espírito, é do caralho: o paradigma shoegaze está bem aprendido, as vozes estão, como manda a regra, abafadas.

“Let it shine” ou “Someone’s At Door” acabam por quebrar o ritmo ao EP, são canções que se aproximam mais dos caminhos do post-punk e da noise pop e que, por isso, retiram pujança e volume ao EP, porém a qualidade mantém-se e é nas explosões das guitarras que elucidamos que, uma vez mais, está aqui um caso muito sério no espectro futuro da música nacional: os Dreamweapon têm tudo para um grande triunfo; têm uma excelente escola, são óptimos alunos e preferem dar uma reposta que não cliché a uma pergunta cliché. Qualquer professor ia gostar disso: está aqui um dos melhores registos de 2013.

Emanuel Graça




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

MOTHER ABYSS - "BURDEN" (2013, Ed. Autor)

Título: Burden
Edição: Agosto de 2013, Ed. Autor
Classificação final: 6.5/10

O tratamento do sludge e do doom metal há muito tempo que tem sofrido alterações; aquilo que as realçava, algo que se debruce na lentidão dos riffs, nas batidas lentas e no tom melódico das suas composições, alargou-se a outras variáveis do metal: uma delas é irreversivelmente o post-metal. Os Mother Abyss, quarteto de Viana do Castelo, têm consciência disso e seguindo essa espécie de paradigma editaram Burden em formato EP.

Nos campos acima referidos é quase inegável falar da importância de bandas como Mastodon ou Baroness numa primeira instância, numa segunda passa-nos pela cabeça algo como Cult Of Luna ou Neurosis. Os MA descendem sobretudo da segunda instância e a importância de registos como o aclamado Vertikal, em fases mais pesadas e com um corpo mais cheio, é bastante grande: voz a esquivar-se para aquilo que pretende soar inóspito, batidas fortes e riffs de guitarra que, embora não evidenciem uma originalidade por aí além, cumprem aquilo que a priori era pedido.  

Porém, e apesar da qualidade que Burden assinala, ainda parece haver um longo caminho a percorrer pelos Mother Abyss: primeiro, necessitam de se conter nas suas influências e de não as extravasar de uma maneira tão denunciada. Segundo, e a averiguar por Burden, precisam de se tornar mais coesos. E terceiro, e último, não podem simplesmente ter ambiências tão prolongadas quanto “The Killer” mostra – afinal de contas, e até ver, estabelecer uma ponte ligante entre o sludge e post-rock não é muito bom. É esperar que o fruto, que por agora parece quando maturado saboroso, se deixe maturar.

Emanuel Graça





quinta-feira, 10 de outubro de 2013

MAIN DISH - "ESTE INVERNO" (2013, Ed. Autor)

Título: Este Inverno
Edição: Outubro de 2013, Ed. Autor
Classificação final: 8.1/10

Tal como aconteceu com Insight (ler crítica aqui), Main Dish também aguçou o apetite para o seu próximo álbum, intitulado Oneiric e que sairá numa data próxima de brevemente, através de um lançamento de uma quantidade de gravações que pairava pelo seu computador – que juntamente com a sua guitarra forma a panóplia instrumental de que se serve. Este Inverno, assim o chamou, reflecte uma mudança brusca ao que o jovem portuense nos tinha aclimado.

Em primeiro lugar, e aquilo que mais se sente, importa referir que se pensávamos em Main Dish como um artista que explorava as visceralidades que a lo-fi podia conferir às suas canções, Este Inverno diz-nos para esquecê-lo nesse registo; as suas músicas já não se denotam tão polidas de pureza e, por isso mesmo, evidenciam-se aprendizagens que se adquiriram no tratamento áudio de modo a que estas não soem tão “caseiras”. A priori, e para quem quase ama a baixa-fidelidade, isso seria um aspecto negativo. A posteriori, estamos felizes com esta evolução: afinal de contas a música continua maculada e a profundidade lo-fi, agora reduzida, continua a conferir uma beleza incontestável a Main Dish.

Outra coisa que incontornavelmente está diferente é a maneira como Este Inverno foi editado: sente-se a preocupação em aligeirar o grau de dificuldade de digestão que tínhamos vindo a ter com Girls With Hats Are So Lovely ou Insight. Está um EP mais abrangente, mais feito a pensar nas pessoas. Porém, não se pense que a sua essência tenha mudado; continuam a existir vestígios incalculáveis de pós-roque britânico dos anos noventa (destaque para “Cold & Rainy”, que brota Bark Psychosis por tudo quanto é sítio) e ambiências shoegaze repescadas das melhores fontes.


No final das contas, contam-se três músicas belíssimas (“Cold & Rainy”, “Ela não disse” – malhão dos grandes e a única música com vertente vocal – e “Maria Inês”) e mais duas músicas que com nomes curiosos: “Hope”, alguma tentativa de referência a Godspeed You! Black Emperor? Acho que não. E “Derivada”. Contudo, mais do que isso; contam-se os dias para que chegue Oneiric. Este Inverno pode não reflectir o mais coeso dos discos, mas se for entendido com um conjunto de músicas soltas – que o é, na verdade -, acaba por ser o melhor que Main Dish nos trouxe até agora. O melhor disto? É que toda a sua música tende a ser grower. Venha daí Oneiric


Emanuel Graça




terça-feira, 1 de outubro de 2013

10 ANOS COM OS LINDA MARTINI : "TURBO LENTO" (2013, Universal Music)

Título: Turbo Lento
Edição: Setembro de 2013, Universal Music
Classificação final: 9.1/10

«Foi bonita a festa, pá. Fiquei contente». Seria possível os Linda Martini samplarem um dos reis da música popular brasileira? Seria possível os Linda Martini soarem ao seu terceiro longa-duração de estúdio, e já com década de existência, como se ainda estivéssemos nos tempos em que estes cresciam via fenómeno myspace? Seria possível o (agora) quarteto lisboeta explorar as sonoridades que sempre exploraram e estas não nos parecerem desgastadas?

Sejamos francos, muitas gentes eram aquelas que se demonstravam reticentes para Turbo Lento (e nisso, a contribuição do single Ratos ajudou). Motivos? Medo que se tratasse apenas de mais um disco de Linda Martini. E não que isso fosse mau, porém se assim fosse iríamos sempre preferir ouvir aqueles discos onde realmente nasceram os Linda Martini. Felizmente, não se caiu no cliché mas a certeza de que a viagem acabou por lá passar é uma garantia.

Foram várias as entrevistas onde a banda confessava que Turbo Lento iria ser uma espécie de mistura entre Olhos de Mongol (ler crítica aqui) e Casa Ocupada (ler crítica aqui): não nos mentiram, não temos razões para nos sentir defraudados. Conserva-se a identidade mais experimental do pós-roque e os rasgos mais exacerbados de guitarras que foi patenteado no primeiro LP da banda e mantém-se, numa dose ainda mais vincada, o espírito punk e a preocupação idiossincrática de transportar-nos, através do estúdio, para o palco de Casa Ocupada. Pelo meio, aromatizações de math-rock que foram outrora comtempladas em Marsupial.

Pelo parágrafo anterior poder-se-à pensar que, pelas partes, o todo se mantém intacto e igual a si mesmo e que Turbo Lento ao invés de se tratar de uma reinvenção se trata mais de um reaproveitamento daquilo que anteriormente se fez. É verdade que se trata mais de um reaproveitamento do que de uma reinvenção, contudo há uma coisa que está irreversivelmente diferente e que faz com que Turbo Lento difira de todas as outras obras discográficas dos Linda Martini: são os coros. É um disco ainda mais cancioneiro que Casa Ocupada, um disco ainda mais preocupado com a propensão que este tem em chegar a mais pessoas: não é para menos, o conceito lírico também está mudado, denota-se um perfil mais interventivo. No meio da confusão que nem sequer tropeça nos dias, urge dizer-lhe que ela pode cessar e que os dias não existem para que tropecemos neles mas sim para eles se tropecem em nós.


E assim, no compasso de tudo isso, se canta sobre uma juventude (será uma juventude sónica? parecemos putos) que parece querer sê-la para sempre, que não quer crescer, que quer evitar a todo custo uma entropia das coisas e que se conforma com o um «fado que agora quer ser samba» (será uma crítica a temáticas como o AO?). Mas no fim não há cura para as rugas, os ratos continuarão a devorar-nos e a «fera», essa, não continuará outra coisa que não mansa. Pudéramos nós tornar imensa cada música dos Linda Martini, mas eles não precisam; Turbo Lento é só mais uma prova disso. 

Emanuel Graça




quarta-feira, 25 de setembro de 2013

AL FUJAYRAH - SHANTI SHANTI (2013, Ed. Autor)

Título: Shanti Shanti
Edição: 08/2013, Ed. Autor
Classificação final: 8.7/10

Para quem não leu (quase ninguém, certo?), os Al Fujayrah foram um dos nomes mencionados como uma das grandes apostas musicais portuguesas para o futuro mesmo sem terem nada editado àquela data. Existiam somente pequenas amostras, porém suficientemente grandes para nos apercebermos que seriam um caso bastante interessante; primeiro, os ritmos arábicos da sua sonoridade são, arrisco-me a dizer, exclusivos no que à música nacional diz respeito. Segundo, o silêncio que compassava as suas músicas era algo que, tendo em conta a sua filosofia alicerçada entre o post-rock e uma stoner aligeirada, davam uma dimensão irreversivelmente diferente à sua música (um pouco ao encontro da essência de uns Slint, só que no fundo nada a ver). E em último, só tínhamos vontade de poder ouvir mais e mais.

Acontece que os “putos” decidiram ir ao Estúdio Sá da Bandeira, no Porto, gravar o seu primeiro registo. Shanti Shanti mostra-nos uma faceta diferente daquela que o trio prometera: as guitarras acústicas já quase não existem, a sua música está mais robusta, preenchida, barulhenta. Os vazios sonoros estão mais ocultos (“culpa da produção”), mas continuam a lá estar assim como a máxima que a sua sonoridade é comandada por riffs brilhantes – é, sem dúvida, no trabalho de guitarra que os Al Fujayrah ganham. Não vos vou mentir: confesso que gosto muito mais de uns Al Fujayrah em modo menos electrizante, mais acústicos e cientes que é no silêncio das suas músicas que antecedem a habitué “explosão” que está a sua magia. Contudo, não dá para negar a viagem simultânea pelos seus dois mundos; e viaje-se a 8km/h ou a 80km/h, velocidade que se sente como constante em quase todos os desenlaces das suas composições, não há como dizer que ela não é boa.

A verdade é essa: Shanti Shanti é um disco que patenteia uma vertente mais post-rock do que qualquer outra coisa, porém sem as ambiências que, a priori, fariam as transições dos ritmos mais contidos até aos habituais crescendos – isso é bom: sabe bem encontrar, de vez em quê, um disco que se tente esquivar à previsibilidade do seu rótulo. Pelo meio dele, ritmos arábicos ou catalães, riffs pesados, batidas lentas (o ritmo do disco é globalmente lento) e um baixo que nos lembra a importância que a stoner teve na sua construção. No fim, recordamos um EP de estreia soberbo repleto de músicas excessivamente viciantes como “Tartaruga”, “Inverno na Catalunha” ou “Jihad”. Estes miúdos têm tudo para poderem triunfar e o triunfo não será um mero triunfo; será uma certeza de que quem faz por si sem recorrer a vitórias já atribuídas sente ainda mais o valor do triunfo.


Thanks to: Daniel Lopes, Jorge Carmo, João Vilar and all their friends and family.

Emanuel Graça




sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Plane Ticket - Currents (2013, Cakes and Tapes)

Título: Currents
Edição: 22 de Agosto de 2013, Cakes and Tapes
Classificação final: 9.0/10

Under The Quiet Sky EP, registo de estreia dos Plane Ticket e o meu EP favorito do ano passado, assim o prometia: o quarteto de Torres Vedras é especial, tem identidade própria sem que para isso o seu ADN não esteja maculado de boas influências. A estreia nos longa-durações acontece hoje com o lançamento de Currents numa nova parceria com a Cakes and Tapes.

Para abordar o som que os Plane Ticket nos condimentam é necessário falar de Interpol, de post-punk revival, de new wave e de indie rock genérico. E quando falamos de Interpol importa dizer que falamos deles nos seus melhores tempos, tempos de Antics mas, sobretudo, de Turn On The Bright Lights. São estas duas obras as grandes influências para Currents, tal como tinham sido outrora para Under The Quiet Sky; há linhas de baixo estupendas, bem ao estilo do que o movimento impulsionado pelos Joy Division pede, há guitarras bem aguçadas que, embora nunca tenham um riff capaz de nos deixar boquiaberto, estão sempre no sítio certo – é a tal história de Johnny Marr e dos The Smiths, um homem que nunca precisou de demonstrar ter uma barba rija para ser um guitarrista tremendo -, há até sintetizadores bastante leves e há vozes que se assemelham àquela que Paul Banks patenteou no legado da post-punk revival. Mas nem só disso vive Currents: há vestígios, mesmo que a espaços bastantes curtos, de um indie rock leve ainda quase na sua fase embrionária digno de uns The Dandy Warhols ou até de uns Pavement.

Além da boa mistura de influências, a estreia do quarteto é marcada por ser bem escrita; sempre com as temáticas do passado, do que ficou e do que está para vir, duma mente sã, de uma esperança em ver as coisas a tornarem-se melhor à deriva. Existe muita repetição nos versos, mas o post-punk é mesmo assim: um ciclo interminável de repetição, quer sonora quer ideológica. «Do you want to hear the same words? / Cover your records, cover your records, cover your records».


Em suma, Currents cumpre aquilo que Under The Quiet Sky prometia e expõe os Plane Ticket como um nome maior da montra alternativa nacional; a sua música é simples, sem merdas, de fácil digestão e facilmente nos faz ganhar consciência que aqui está uma banda que se exsurge ouvir e acompanhar futuramente (Stanligard e Into The Ground que o digam). Se Under The Quiet Sky foi um dos melhores EP’s de 2012, Currents tem tudo para ser um dos grandes álbuns nacionais deste ano. Bigmouth strikes again.

Emanuel Graça




10 ANOS COM OS LINDA MARTINI: OLHOS DE MONGOL

Título: Olhos de Mongol
Edição: 2006, Naked Records
Classificação final: 10/10

Algures em 2006: os Linda Martini editavam, ainda com a sua formação primordial, uma das maiores obras-primas que há memória na história da música portuguesa. Olhos de Mongol, primeiro longa-duração do grupo lisboeta, via a luz do dia depois da edição do EP homónimo, no ano anterior, onde tinha nascido um dos hinos mais incontestados da banda, Amor Combate.

Contrariamente ao que se tinha passado com o EP que antecedeu a edição da estreia nos LP’s dos Linda Martini, Olhos de Mongol não foi um registo editado com direitos de autor; dado o fenómeno Myspace, que teve clímax por estas alturas, a Naked, uma editora na altura recém-criada, descobriu o, então, quinteto lisboeta no sítio e na hora certa. Resultado? Julgo que não podia ter sido melhor. A produção do disco está assombrosa, medonha, sinistra, a combinar perfeitamente com a avalanche sónica que descarrila durante todo o registo. A verdade é toda ela essa: a música dos Linda Martini está diferente, sobretudo se se comparar com o único registo até então, mas mantém-se igual a si mesma: mantém-se inóspita, dolorosa, sangrenta, sempre com toques de post-rock à deriva, mas que desta vez não se convivem sós. Há vestígios de post-hardcore à la At The Drive In, há experiências e aventuras pelo math-rock, pelo punk, há guitarras assanhadas, baterias demoníacas e um brilhantismo lírico simplesmente desolador.

Sim, é mesmo verdade: as letras das canções dos Linda Martini são mesmo, em grande parte, geniais e não é pelo facto de noventa por cento dos nossos amigos nas redes sociais as colocarem como estados, etc. que estas perdem a sua genialidade. As voltas que elas dão são quase sempre as mesmas: corações cilindrados, quebrados, acelerados, destroçados, repletos de ódio, paixão, dor. Será cliché dizer-se que se tudo fosse unificado tecia-se um combate ao amor, mas são os próprios o afirmam: O amor é não haver polícia. O amor é a entropia das coisas, é um paroxismo da desordenação emocional, racional, sempre a duas partes. É transcendente, vale apenas deixá-lo viver incondicionalmente. «Se o nosso amor é um combate // então que ganhe a melhor parte». Em casos particulares não sabemos quem ganha, mas em Olhos de Mongol a vitória é unicamente dos Linda Martini.

E se as letras são pesadas, melancólicas e tristes, o mesmo é aplicável à tonalidade instrumental que as banha: guitarras apetrechadas de reverb a conferirem uma sonoridade inóspita, uma bateria simplesmente arrasadora (sim, é verdade: O Hélio dá-lhe como o caralho!) e um baixo que embora nunca brilhe bastante, a estética sonora da banda assim não o permite, acaba sempre por cumprir bem a sua função. As vocais, sempre a cabo de André Henriques, também não sendo algo de extraordinárias, cumprem a sua peculiaridade – a de estarem lá unicamente por estar, não é algo que a banda dê ênfase, não é algo que nos faça estar com muita atenção a ver se se canta bem ou não: a pólvora está toda na instrumental e na letra. Quase só importa perceber o que se canta, nada mais.

E é exactamente isso: a pólvora está quase toda ela concentrada na vertente instrumental do disco. Das cinzas de ‘Cross The Breeze, dos Sonic Youth, que se exsurgem como uma das influências mais vitais no processo criativo dos Linda Martini, se incendeia Dá-me a tua melhor faca, uma das melhores canções, senão a melhor, do quarteto até à data. Uma dor demasiado grande para se viver sozinha, a procura de outrem com quem a partilhar, a esperança em que isso aconteça, a sentença de vivê-la sozinha. Tudo em apenas dois versos, «Dá-me a tua melhor faca p’ra cortarmos isto em dois // e amanhã esquecer», e numa descarga sónica abismal. Partir para ficar, excerto da histórica FMI, canção original de José Mário Branco, assegura uma vez mais, depois de Adeus Tristeza, o talento bruto que o grupo tem para tocar canções que não suas. Estuque vale pela sua esquizofrenia, pelo seu misto de emoções, pela «voz que é surda atrás da mão», pela sobreposição do agir à razão. Depois surge o momento, se é que assim se pode chamar, do álbum:

«O mundo é grande e em todo o lado se vive // Diz-lhe para parar aqui // Vivemos em caixas de fósforos // Não sopres // Se as mãos pudessem dizer por mim, se as mãos… // Eu queria tanto parar aqui», escreve-se em o Amor é não haver polícia, a faixa que mais vinca a faceta hardcore dos lisboetas: guitarras incessantemente turvas, gritaria descomunal e desejo obsessivo em «parar aqui». Mas não, não paramos ali; há mais por onde andar e temos tudo menos vontade de parar o soco no estômago que é Olhos de Mongol. Descansa-se, literalmente, em Quarto 210, um interlúdio que desacelera o ritmo frenético que se vive até então, e volta-se à carga na icónica Amor Combate, faixa que dispensa qualquer tipo de apresentações (porém, convém relembrar que esta faixa está alterada em relação ao registo que a fez nascer, está mais limpa, menos suja). A Severa (ver de perto) é a faixa que serve de desenlace ao LP de estreia dos Linda Martini e acaba por funcionar como compêndio do registo: mais esquizofrenia, mais uma mistura tão díspar de emoções, sentimentos. Mais um par de intrigas, de corações desnorteados à procura de chegarem a porto são. «Ver de perto com a dor de quem está longe», esforço em vão: no fim é só mais uma dor inquietante.

E de isso é feito Olhos de Mongol; é feito de insalubridade, desespero, agonia. É uma obra que dói, que choca, que não consegue deixar ninguém incólume porque, na verdade, o seu objectivo era mesmo esse: inquietar as pessoas. Missão cumprida, não há como sair daqui indiferente. Não depois de um som tão violento que viaja pelo post-rock, punk, hardcore e com curtas passagens pela math-rock. Não depois de ouvir coisas tão incrivelmente arrasadoras como Dá-me a tua melhor faca ou O Amor é não haver polícia. Não depois de nos apercebermos que o amor é isso mesmo: um combate à espera que se definam os seus dois vencedores ou os seus dois perdedores. Porém, em Olhos de Mongol a vitória é apenas singular: dos Linda Martini.

Emanuel Graça




terça-feira, 20 de agosto de 2013

IVVVO - FUTURE EP (2013, Public Information)





"Future" é o novo EP do prolífico IVVVO, no qual o artista oriundo do Porto continua a demonstrar que o país dele é talvez demasiado pequeno quando comparado com a capacidade de reação que tem, com tal jeito de se reinventar de um EP para o outro e de lhe inculcar um humor que varia a todo o tempo. Mas é também a prova de que já deu o passo que muitos de nós ainda não deram. Se Victor Hugo disse que "a música é barulho que pensa", no caso de IVVVO, os sentimentos que traduz em sons é que acabam por se misturarem todos na música que faz. Tudo é muito espontâneo, a música é que depois faz o trabalho e torna um barulho num barulho que pensa.

As duas primeiras faixas acabam mesmo por ser a expressão máxima dessa incoerência tornada límpida e pura à medida que os segundos avançam. Com um mundo a priori de opostos que se revelam bem mais próximos do que o previsto. "Darkness In My Soul" e "Before the Death of Rave" têm esse lado dark adicionado e moldado com perícia e minuciosidade com sonoridades a puxar ao dancefloor que provocam no auditor um sentimento bem difícil de entender, como se a música quisesse ficar com os seus segredos, os segredos do seu criador e do mecanismo que tornou o barulho pensador.


Arriscar e fusionar são dois verbos a ter em conta no futuro. Como ter duas faixas com piano num EP de eletrónica/house/industrial/... é de uma coragem e de uma ousadia que poucos têm. Sobretudo quando a essas mesmas faixas são somados pequenos efeitos fissurantes que dão à melancolia e à emoção um desejo de as destruir como as suas bases de pianista e as referências que teve, brincando mais uma vez com os géneros.
















"Future", que se avista depois, é sem dúvida o tema mais exótico do álbum: o espírito 
dark já menos visível num tempo que tem destas coisas bem mais risonhas, um tema de passagem para o outro mundo… que acaba por nos oferecer o mesmo que tínhamos precedentemente, o futuro de uma ilusão. Em "Under Grey", o mundo é negro e continuará a sê-lo e as pessoas continuarão a dançar e a divertir-se sem pensar no tempo seguinte, em "Rave Pt.2" tudo acaba com a melodia do piano da vovó, riscada.

Bem menos onírico, sem vozes fantasmagóricas, bem mais negro, IVVVO demonstrou mais uma vez que sabe fazer de tudo, bem, e em muito pouco tempo. "O verdadeiro músico do futuro é aquele que compõe as suas músicas só com o seu rato." A frase pode não ser "de ninguém", mas é o que vem à cabeça quando vemos o que este artista consegue criar num ritmo frenético a partir de pontos de partida muito restritos.



Mickaël C. de Oliveira




Twitter Facebook More

 
Powered by Blogger | Printable Coupons