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sexta-feira, 24 de julho de 2015

THE BELLRAYS + PLUS ULTRA + THE LAZY FAITHFUL @ HARD CLUB, 17/7/2015 - REPORTAGEM

Há um dia na vida de qualquer pessoa em que somos quase forçados a redefinir algo que já está bem assente na nossa cabeça. Este dia chegou para mim.
Numa altura em que achava que nada me surpreendia a nível de concertos no Porto, eis que chegam os The Lazy Faithful, Plus Ultra e The Bellrays para me provar que estava errado, e ainda bem! Uma lição de rock 'n' roll foi o que os intervenientes deste evento deram - por isso, preparem os apontamentos para da próxima vez que estes Artistas (sim, com A maiúsculo) vierem tocar nos palcos da Antiga, mui nobre, sempre leal e Invicta cidade do Porto, ou em qualquer parte do país, poderem aplicar os conhecimentos.




















The Lazy Faithful. Os enérgicos portuenses que nunca se vão abaixo – nem mesmo com os problemas técnicos que fizeram parte do concerto. Talvez a única coisa que tenhamos a dizer de negativo (sem contar com os já referidos problemas técnicos) é a não colaboração do público naquilo que foi, a nosso ver, um espectáculo muito bem conseguido como desde sempre nos habituaram. Pudemos ver potência e energia por parte de todos os elementos da banda aliadas com um profissionalismo não habitual em bandas jovens e, para além dos temas mais conhecidos do álbum de estreia como “Two Lines in the Sky” e “Good Night”, conhecer temas ainda não lançados pela banda - os exemplos de “Queen Anne” e “Seal My Fate”. Este quarteto, composto pelo groove do baixo de Rafael Silva, a demoníaca bateria de Gil Costa, a hiperativa guitarra de João Ramos e o clássico roupão de Tommy Hogg - que não atrapalha a sua técnica e maturidade -, é o que é preciso na música portuense e portuguesa: uma “chapada” de rock 'n roll em constante evolução e à espera de dar o salto para os grandes palcos (o que, para nós, já devia ter acontecido).







































O que acontece quando três homens enormes de bandas igualmente gigantes se juntam? Isto. Uma nova abordagem musical a estilos como rock, stoner-rock e metal com uma pitada de insanidade que não deixa de se revelar como extremamente profissional, com todas as suas nuances. Gon (ex-Zen), Kinorm (ex-Ornatos Violeta) e Azevedo (ex-Mosh) levam mais uma vez a sua atitude e abordagem violenta ao mais alto nível. Uma execução notável, onde nem baquetas partidas pararam o espectáculo, leva o público ao rubro e a uma interacção bastante mais presente. Claro que esta interacção também se deve ao espectáculo dado por todos os membros da banda, sempre com o cuidado de chamar o público para mais perto, sem nunca perder o fio à meada. E, mesmo sendo uma actuação digna de grandes palcos por parte do conjunto portuense, somos levados a elevar Gon a um nível diferente: neste concerto, em que até se misturou com o público à procura de mais energia, Rui Silva mostrou-se como uma figura para não ser esquecida. Não nos lembramos de ver um frontman portuense com tanta atitude como a que o vocalista demonstrou: nota 20 para todos os membros, 21 para Gon.
Este concerto faz notar que a experiência e a dedicação são importantíssimos para a formação de qualquer músico. Mas t
udo isto nos leva a outra questão: onde estão os grandes festivais à procura dos Plus Ultra? Onde estão as salas cheias? Se calhar, há que dar mais confiança à música local...mas esta é só uma opinião entre milhares. Não é “bonitinho” de se ouvir, mas é a mais pura verdade em guitarra, bateria e voz.







Chega o cabeça de cartaz. O crème de la crème.
Lisa Kekaula e Robert Vennum nunca desiludem e desta feita – com Pablo Rodas no baixo e Maxi Resnikosky na bateria – deram a última aula de rock 'n' roll da noite. Tema: o verdadeiro espírito do rock. É verdade que os The Bellrays sempre se revelaram como uma aliança perfeita entre o soul e o rock, fazendo dos seus concertos uma festa para todos e não propriamente algo fechado mas, à semelhança de outros concertos, nota-se que há um profissionalismo diferente das bandas portuguesas (não que estas não o tenham) que marca a distinção desta banda americana entre as três da noite.
Dado tudo isto, não ficou aquém das expectativas. São quatro músicos vindos de outro Mundo que nunca, mesmo nunca, param de dar espectáculo e de testar a resistência do público ao máximo. Tal como anteriormente, onde um amplificador de baixo não correspondia e uma baqueta não durou completa até ao fim do show, aqui foi Robert Vennum a ficar sem uma corda da sua guitarra e, como não podia deixar de ser, a nunca parar de tocar. Quanto ao público, não deixou de entrar no espírito desta dança que até teve direito a bolo, a propósito do aniversário do baixista Pablo Rodas, e suou até não poder mais, entrando em quase delírio quando os californianos brincaram, no bom sentido, com "Whole Lotta Love" dos eternos Led Zeppelin. 
A frase mais ouvida da noite foi "we are the Bellrays, and we are here to give you everything we got": sem dúvida Lisa, deram-nos tudo o que têm e nós como público apenas temos que agradecer e esperar que mais espectáculos destes cheguem ao nosso país. É uma máquina bem oleada do Mundo da música que merece os mais sinceros parabéns.

E assim concluímos a nossa aula de Rock 'n Roll 101. Parabéns à organização, que trouxe estes três magníficos grupos à cidade do Porto; parabéns às bandas, que nos deram tudo num evento em que podíamos ter correspondido mais como público; parabéns a Pablo Rodas, que fez anos; obrigado Pedro Soares – que me ajudou, sem saber, a escolher o título deste artigo; e um especial obrigado aos artistas portuenses que me fizeram não perder a vontade de ir a concertos na minha cidade. Espero que tenham apontado tudo o que tenham a apontar, porque não é todos os dias que temos uma aula como esta.



Texto de Sérgio Morais

Fotografias por Maria João Ferreira
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sábado, 13 de dezembro de 2014

GALA DROP @ GNRATION, 6/12/2014 - REPORTAGEM




No primeiro Sábado de Dezembro, a incrivelmente fria Bracara Augusta recebeu no GNRation os Gala Drop para mostrar “II”, o seu mais recente álbum que tem dado azo a imensas partilhas e boas críticas. Muita curiosidade pairava no ar para ver ao vivo a forma como, entre conga e guitarras, a incorporação na trupe de Jerald James e Maria Reis trouxe uma alma diferente à banda, com voz, com uma guitarra mais free-rockiana e com pitadas subtis de funk.





Quando as luzes se apagaram, começámos logo a ouvir o início eletrizante de “You And I”, a primeira música de "II", e um imediato contraste entre uma bateria que se cuidou bem nos tempos difíceis que tinha que acompanhar e uma voz que não consegue entrar com o mesmo poder, de tal forma que só os espectadores mais atentos terão reparado na sua entrada. Todavia, seria o sintetizador a aglutinar e a tornar cada elemento perfeitamente audível para os primeiros pezinhos de dança de que mais se satisfazia com o que ouvia. Seguindo o alinhamento do álbum, os lisboetas tocam “Big City” e “Sun Gun”, em que fica na memória a boa entrada ritmada da guitarra e a voz colocada, já no volume certo, com tanto reverb para o fantástico de algo como “Leaving the heat of the gun/For the light of the sun/ Sun not guns"
. A harmonia entre uma bateria sempre irrepreensível e um baixo que nunca destoou do certinho já dava, porém, para reparar numa tendência de maior estaticidade na assistência, quase hipnotizada em bom som, e na banda, muito concentrada no detalhe da sua performance. 

Ao chegar a “All Things” e “Slow House”, a melancolia sobrevoava a BlackBox, com a voz de Jerry The Cat a surpreender com um enorme à-vontade mesmo no que parecia difícil de cantar. Um teclado a rasgar emoções, os synths a exprimir grandes alvoroços comoventes e a bateria sorrateira mas presente, embora sem se ouvir tanta guitarra como se pedia, e havia espaço de novo para um rebuliço fugaz. 

“Let it Go” introduz um pouco de magia de Jerry nas congas, o carácter exótico e sublime que logo se anexou bem ao baixo, ao resto da percussão e à impetuosidade dos arpejos dos teclados com tempo para celebração, espectáculo e arrefecimento para o que viria a seguir.
Chamaram-lhe “Samba da Maconha” a uma fase inicial de uma escala de beleza intensamente dub com metrónomo apontado ao sol de África e aos seus ritmos tribais e aos synths mais americanizados; não deram nome à sequência final do set que bem poderia ser uma futura nova canção.
E chamariam "Broda" à canção do encore, a essa forma de resplandecência individual e colectiva sem espinhas em que, se todos estavam preparados para o pré-encore, já ninguém estava preparado para o final iminente.  






Esta passagem dos Gala Drop por Braga terminava assim: de forma concisa, intensa com pequenas mas pouco influentes falhas mesmo com infinita atenção prestada a eles e a todos os pormenores. Conseguiram, no cômputo geral, aproveitar bem a sala, tanto a nível de luzes como a nível de sonoridade que não deixou de demonstrar também outra faceta mais intimista. Tentaram, tentarão, alcançarão, mas não irão tão longe de Braga assim que não possam regressar brevemente.


Texto por Marco Duarte

Fotografias por Inês Martins
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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

FESTIVAL CELLOS ROCK 2014 - Reportagem



O Cellos Rock 2014, festival que teve a sua primeira edição em 2002, aconteceu neste fim-de-semana de 21 e 22 de Novembro novamente em Barcelos, uma cidade que há muito já adquiriu como epíteto a música. Mal se chega ao Circulo Católico dos Operários de Barcelos (CCOB) sente-se toda essa aura. As pessoas, na maior parte dos casos, têm o mesmo tema de conversa: projectos que estão a surgir e o próprio festival. 


Dia 21






No primeiro dia tivemos JIBÓIA a abrir, que não nos para de surpreender. Desta vez, com ele trouxe toda uma magia visual com projeções hipnotizantes que nos desviavam os olhos anteriomente postos apenas em palco. E, à segunda música, Ana Miró, também conhecida como Sequin, antecipava a sua presença nesta noite que é, todavia, já assídua nos momentos de Óscar Silva. Em destaque estava o novo EP, "Badlav", mas ainda tivemos tempo para dar um pezinho de dança com outras canções menos recentes no meio de uma bela maneira de começar um festival, do imaginário da arte oriental restaurado em efeitos visuais incríveis consoante as frequências rítmicas a uma harmonia dançante que todos poderiam experimentar.






Dos momentos anteriores em que Ana Miró acompanhava puxava pelo micro numa tentativa bem-sucedida de animar os presentes rapidamente tudo se passou, com o público a manifestar-se de acordo, e transformou-se para Sequin, o seu projeto a solo. Foi um concerto sem surpresas mas diferente daquele a que estamos habituados: foi mais intenso mas mais difícil de promover uma reacção do público, principalmente com problemas técnicos pelo meio e também sem estar presente o baixista que a costuma acompanhar. Mas também quem espera sempre alcança e, lá para o fim, já a energia própria de "Beijing" acostumava todo o público ao porquê de, mesmo com os percalços desta noite, de se falar muito em lantejoulas nestes últimos tempos.





Entretanto, Sequin sai do palco e toda a gente aproveita para ir beber um copo ou fumar um cigarro sabendo o que se seguia: a apresentação ao vivo de um dos álbuns mais surpreendentes de 2014. É pelos Sensible Soccers que 8 é um número tão automático no pensamento de todos os olhos que brilhavam naquela altura e nos movimentos quase prontos para explodir quando soasse o primeiro beat. Aproveitando os momentos iniciais e introspectivos de “Fornelo Tapes vol.1”, tudo explode quando o assunto são os pontos altos do LP de estreia, como “AFG”, tudo culmina no indescritível e na pouca reação a tanta coisa incrível ao mesmo tempo. Com o objectivo de pôr 100% do público a dançar suplantado na perfeição, foi mais uma oportunidade de os Sensible Soccers provarem a sua força no final da primeira noite de Cellos Rock completamente preenchida e sem bilhetes para vender.


Dia 22  




Mudam-se os estilos mas não se muda a boa disposição do dia anterior.
O primeiro concerto é de Duquesa, projeto a solo e aparte de Nuno Rodrigues dos The Glockenwise locais, como tal indicam a apresentação singular, melancólica/amorosa ao início e a diversidade que a banda de suporte vai introduzindo a partir do meio de "Ice Cream". Uma boa e criativa demonstração de como se faz quando se está em palco para tocar e cantar cantigas de amor e que o indie-folk ajudou a não precisarem de ser foleiras. E mais, a surpreenderem-se e a tornarem-se estados de espírito, em boa acção e comunicação perante o público, também dando graças, claro, à(s) experiência(s).






De seguida, os Dreamweapon. Senhores do Porto que brindaram ao kraut-rock com um psicadelismo subtil ao ouvido suportado por um baixo incrivelmente alto, uma bateria a acertar com tudo e umas guitarras a viajar espaço fora sem fronteiras. Mais: pareceu que o concerto nunca parou numa faixa de tão pouco tempo, mesmo o necessário para que se enchessem os telemóveis com este nome. Dentro de uma bela experiência, interna e solitária, de contemplação do que se ouvia no meio de pouca luz, há a segurança de que só temos disponível um EP que não mostra todas as suas qualidades.






E que dizer do último concerto, dos Black Bombaim de regresso a Barcelos para terminar o Cellos Rock deste ano? Tivemos de tudo, desde a “Side B” do mítico “Saturdays and Space Travels” a este ultimo “Far Out”. Guitarra a criar rumos, um baixo a criar fronteiras e uma bateria a dar a ordem a toda esta conjunção psicadélica que soou tão bem como sempre soa. Pessoas que não se continham ao poder dos riffs e até para o palco tentaram ir, que não queriam deixar ir mais uma edição do Cellos Rock.
Os 
Black Bombaim são uma parte importante da história da música em Barcelos e reparou-se bem o quanto o público se rendeu, o quanto esta comunhão foi, de novo, incrível e mais que perfeita por entre pessoas de todas as idades, algumas que viajaram de propósito para que, tal como quis quem organizou, tudo funcionasse dentro das normas e deixando a dica para voltar para o ano.
Foi certamente um bom fim-de-semana.


Texto por Marco Duarte

Fotografias por Pedro Gonçalo Costa
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

FESTA DO 45º ANIVERSÁRIO DO TEATRO MARIA MATOS - REPORTAGEM



“I'm not a minister, I'm not a philosopher, I'm not a politician, I'm in another category.” Sun Ra

No passado Sábado o Teatro Maria Matos presenteou-nos com uma dupla celebração: o seu quadragésimo quinto aniversário e o centenário do nascimento da icónica e complexa figura Sun Ra num espectáculo que envolveu uma série de ilustres da música portuguesa quer em cima do palco quer fora dele. Mas tal como referira o programador de música Pedro Santos, o objectivo principal era o de "celebrar o aniversário, mas subverter o foco de atenção. Não deve estar em nós, mas no que se passa em palco”. Como já havia sido feito há dois anos com John Cage, Sun Ra, nome artístico do norte-americano Herman Poole Blount, considerado figura proeminente, visionária e revolucionária do jazz pela sua originalidade e influências – afrobeat da Nigéria, improvisação, funk do Peru, electrónica, avant-garde, hard bop, religião e filosofia - mas também pintor, filósofo e poeta, através do convite endereçado a 4 artistas e aos frutos das suas vivências. Nuno Rebelo, o ex- “Street Kids” e “Mler Ife Dada”, Bruno Pernadas, extraordinário e tecnicista guitarrista que tem exactamente no jazz um dos seus mais sólidos pontos de interesse a solo ou em grupo, os Gala Drop e por fim Mo Junkie, juntos numa viagem que teve origem na Av. Roma, com passagem pelo Egipto (a cultura que mais influenciou Sun Ra) e ponto de paragem em Saturno.





A casa estava recheada quando pelas 16h30 a comitiva dirigida por Nuno Rebelo, da qual faziam parte jovens músicos do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga e o bracarense Gil Teixeira de La La La Ressonance, subiu ao palco para dar início às festividades.
O palco e a indumentária dos músicos permitiam-nos sentir claramente em frente à Sun Ra Arkestra e o concerto começou com uma série de documentos vídeo de Sun Ra e sonoros experimentais que criavam o mote para que numa linguagem musical crescente incorporássemos a viagem tortuosa pelo espírito misterioso e sideral de Sun Ra. Nota para a originalidade e irreverência da direcção artística e musical de Nuno Rebelo que teve até um momento em que o palco deixou de se limitar pelas paredes das instalações do Teatro e passou para um pequeno largo nas imediações do Edifício – porque afinal, as filosofias de Sun Ra, leiam-se pouco ortodoxas, pediam e mereciam sempre o menos convencional. Todo o momento revelou-se uma justa homenagem por aquele que tinha mais ligações ao músico, onde os sopros, os violinos a secção rítmica e o poderoso coro celestial conseguiram amplificar e eternizar temas como “We Travel The Spaceways” ou o clássico “Space is the Place”.






Por volta das 18h45 era a vez de Bruno Pernadas subir ao palco para nos abrilhantar com os seus arranjos, musicalidade e técnica naquela que é a sua praia – o jazz e a improvisação. Trazia consigo velhos companheiros de trabalho e outros colegas de projectos mais atuais, entre eles Pedro Pinto, João Rijo e João Mortágua. No palco, um tripleto de saxofones, trompete, vibrafone, duas baterias, piano e por fim Margarida Capelo e Afonso Cabral que vieram acrescentar uma nova dimensão à epicidade criada pelos instrumentos. A sua abordagem foi diferente: não se limitou a fazer réplicas da obra de Sun Ra, mas sim a construir edificações sonoras a partir dos alicerces de temas como “Lanquidity” ou “Rocket Number Nine” num percurso de verdadeiros momentos de improvisação para os saxofones e duelos guitarra-vibrafone sempre acompanhados de uma robusta secção rítmica e um piano poliglota. Era, por isso, no meio de grande cumplicidade musical e humana que Bruno Pernadas e companhia realizavam uma fusão de pensamentos e viagens cósmicas através de um espírito aberto a todas as possibilidades musicais.





Já próximo das 20h15, o som dos Gala Drop, através da sua forte componente electrónica, fez por materializar o arquétipo dos mitos e da suprema harmonia do universo de Sun Ra. Através do uso intensivo do sintetizador, da distorção da guitarra, do reverb ou do simples eco, os Gala conseguiram de facto narcotizar o público e trazer até ao Maria Matos todo o espírito rítmico de Sun Ra, apoiando-se no seu extenso portefólio angariado em experiências variadas de palco. Grandes fãs de Sun Ra, mas pouco ligados ao jazz, conseguiram estabelecer uma comunicação tal com uma outra dimensão onde mora Sun Ra que a certa altura parecia que o mesmo estava ali em cima do palco a dirigir-se a todos, de uma forma curta mas enérgica.





Nos intervalos entre os concertos e no fim do espectáculo chegava sempre a hora de ir beber um belo porto ao MM Café e ouvir aquilo que Mo Junkie, alter-ego de Edgar Matos ainda nos tinha para contar. Como prescrição de clínico para uma melhor digestão, Mo Junkie, munindo-se da sua electrónica esotérica, iam passando pelo seu gira-discos canções como “Angels and Demons at Play” ou “A Joyful Noise” conjugados com samples milimetricamente escolhidos numa operação caótica, mas ao mesmo tempo intuitiva, num novo plano temporal.
Foi uma tarde intensa para todos, ao nível do magnetismo do Mundo do "génio-Líder" da Arkestra. Sun Ra. 




Texto de João Ribeiro

Créditos das fotografias: José Frade




quinta-feira, 18 de setembro de 2014

REVERENCE VALADA - DIA DOIS | "Mãe, são sete e meia da manhã e ainda estou a ver concertos. Grande FestiVALADA”

Com os concertos a começarem com um atraso de cerca de uma hora, os portugueses DREAMWEAPON subiam ao palco Rio quando o relógio já marcava as três horas da tarde. Para quem não está a par, estamos aqui perante uma das maiores valias que o tempo se encarregará de trazer até nós; o facto de viverem das cinzas de bandas como The Jesus & Mary Chain, não os impede de fazer com que a sua música consiga navegar por outras marés e, em boa verdade, acaba por ser apenas um ponto de partida para a exploração das cordas e para a edificação de muralhas de distorção que nos atormentam a alma. Apesar de ainda só terem editado um EP, não temos a mínima dúvida que aqui está um caso muito sério para o presente e para o futuro do que por cá se faz: é esperar pela estreia nos discos em formato longa-duração. (8/10)


Também bastante positivo foi o concerto dos MUGSTAR, banda inglesa que abraça a onda de krautrock que nasceu em contingente alemão entre o final da década de 60 e o início da de 70. Repletos de sintetizadores – elemento-chave que ladeia grande parte das suas canções e que confere o que na altura do despertar alemão era o agente futurístico que impingiam nas suas sonoridades -, a música dos Mugstar foi propensa a viagens pelo espaço cósmico do space-rock; e muito basicamente, foram um dos nomes do cartaz que ensinaram a outros nomes presentes no cartaz que o space-rock merece uma estrutura mais complexa e menos repleta de fuzz e distorção ou de sintetizadores a zumbir ininterruptamente. (7,5/10)


Seguiam-se os portugueses ASIMOV e a sua nave espacial que, para o género a que pisca o olho, segue uma composição invulgar: será legítimo defender que estes adoptam o space-rock para lhe chamarem rock e vice-versa. Celestiais, sempre a libertar camadas intensas de fuzz e de batidas bem salientes e pesadas, ou mais contidos, com uma guitarra em transição e a acatar papéis mais abrasivos, os Asimov mostraram durante o seu concerto que jamais desprezarão as suas principais raízes: as raízes tradicionais do rock, o amor e a sapiência que se transborda a partir da guitarra e aqueles cabelos longos que não enganam ninguém. Só por isso merecem o nosso apreço, mas o seu concerto também foi, claramente, um acréscimo que se vincou na nossa cabeça de que eles sabem o que fazem. (7/10)


Os norte-americanos BARDO POND são uma banda mítica e isso é quase uma verdade irrefutável. O seu concerto foi lindo e isso tem de ser uma verdade irrefutável. Mas o seu concerto foi mais pequeno que o pénis de um sul-coreano e isso é uma verdade inquestionável (porque está cientificamente comprovado que assim é). Durante as três canções que foram tocadas no concerto houve espaço para que quase tudo se complanasse no mesmo espaço e no mesmo tempo: da música propriamente dita, tocaram-nos canções diversificadas entre si onde se conseguiram articular de uma maneira que mesmo quando estão a ser ruidosos, os norte-americanos conseguem ser detentores de uma das mais belas sonoridades que já ouvimos. Houve tempo para se enfatizar a voz ao invés de distorcê-la como acontecia nos tempos embrionários de Amanita, 1996, - de onde tocaram uma canção durante o concerto. Houve tempo para uma pequena bronca entre a belíssima vocalista e o seu guitarrista: «FUCK ME», dizia ela. Demorei mais tempo a escrever isto do que o tempo de duração do concerto: foi uma pena, foi uma desilusão, foi um choro tremendo. Ambos mereciam mais: eles e o próprio público; soberbo enquanto durou, no fim a nossa tesão de nada serviu – empataram-nos aquela que estava a ser a melhor foda do festival. Queríamos mais, queríamos mais. (8,5/10)


Voltámos à carga em A PLACE TO BURY STRANGERS, banda norte-americana responsável pela abertura do palco maior do festival. Aguardados com alguma ansiedade por quem foi até à Valada, os norte-americanos foram objectivos e claros no seu propósito: estavam ali para incomodar, no bom sentido, quem os via. Assim foi; possivelmente menos barulhentos do que em estúdio – e o facto de o som do palco Reverence naquele dia poder estar mais alto também se salientou nos concertos posteriores -, trespassaram a sua agressividade para outros lugares: em palco há robustez e preenchimento que, conectados, conduzem a performance para uma cena de porrada. E basicamente foi isso que aconteceu – as guitarras ganhavam asas e voavam constantemente pela mão de quem as dedilhava (e em boa verdade, nós também acabámos por voar juntamente com elas). As muralhas de distorção que iam constantemente criando saltavam ao tímpano mais próximo e iam-nos derretendo os ouvidos. O que acontecia em palco exteriorizava-se: a desordem acompanhou-nos durante todo o concerto. No fim ficámos apenas a achar que mereciam mais tempo (nós e o público). (8/10)


Os PSYCHIC TV são uma das bandas mais idiossincráticas dentro do panorama da música experimental dos anos 80 e em palco podem não ter mostrado o seu lado mais baseado na experimentação – a vertente industrial, por exemplo, que era o habitat preferido deles, foi esquecida -, mas acabaram por demonstrar porque é que foram uma banda essencial daquela época, rubricando um concerto que, à falta de mais e melhores palavras, foi bonito. Melódicos e com uma presença em palco fulminante por parte de Neil Megson/Genesis P-Orridge (são a mesma pessoa) – que, de resto, mostrou-se com uma voz invejável -, arranjaram tempo para tocar “Interstellar Overdrive”, dos Pink Floyd. Uma surpresa que não foi assim tão surpresa para quem conhecia, mas que possivelmente causou algum impacto em quem não estava a par da singularidade do projecto comandado por Orridge. (8/10)


De seguida, talvez o nome mais esperado de todo o festival: os HAWKWIND são conterrâneos e contemporâneos de bandas como Led Zeppelin ou Black Sabbath. O seu primeiro disco remonta-nos a 1970 e o facto de vermos senhores que tinham idade para ser nossos avôs em palco a dar um recital de psicadelismo como muitas bandas que passaram no Reverence Valada não tiveram a capacidade para fazer dá que pensar. Numa primeira parte mais contidos, fizeram com que o concerto fosse crescendo gradualmente – e cresceu tanto que acabou por se desenlaçar no seu próprio clímax. Na sua estreia em terras lusas (muito possivelmente terá também sido a única passagem dos ingleses por cá), os Hawkwind demonstraram o porquê da sua grandeza: foram dos primeiros nomes a mesclar os sintetizadores nos riffs vertiginosos das guitarras (que naquele dia se mostraram menos intensos do que há 40 anos atrás – é a lei da Mãe Natureza) e passadas quatro décadas ainda aqui existiu mais intensidade e complexidade do que o genérico clima psicadélico em que vivemos. Professores de muitos, fixaram a ideia de que quem sabe nunca esquece; caso para dizer: grandes velhos. Despediram-se com projecções de folhas de cannabis e com “Hassan I Sahba”. (8/10)

Pelo meu relógio eram horas de ver os MÃO MORTA; Possivelmente uma das bandas mais importantes da história da música portuguesa, Adolfo Luxúria Canibal & Companhia chegaram ao Palco Reverence e tinham à sua frente uma das maiores enchentes do festival (possivelmente, a rivalizar com essa enchente só mesmo Electric Wizard e os anteriores Hawkwind). Era merecido, façamos-lhes a justiça devida. A partir do momento em que chegaram, a missão era nítida: trazer ali um dos melhores concertos do festival. Missão cumprida; com uma setlist a incidir um pouco por toda a discografia dos bracarenses, edificou-se um concerto memorável, onde o perfil vocal singular de Adolfo foi fielmente conservado. Entre as canções tocadas, destacam-se “E Se Depois”, “Barcelona”, canções do novíssimo Pelo Meu Relógio São Horas de Matar e “Até Cair”, onde Adolfo, um dos maiores poetas não poetas que Portugal viu nascer, chegou mesmo a simular uma queda – e um dos pontos fortes do concerto, como sempre, foi a presença de Adolfo (é um Deus e basta). Foram embora sob fortes aplausos cravando-nos ainda mais na cabeça de que a história musical nacional é dependente deles, dizendo que «pelos seus relógios eram horas de matar». Já deram o mote, que se faça a revolução. (9/10)


Passámos do vinho para a água quando chegou a vez dos BLACK ANGELS: não temos nada contra reviver tempos idos, mas temos contra clichés e contra pessoas que andam perdidas no tempo. Ouvir Black Angels sem saber quem são tem a sua piada – som alegre q.b., ritmo mexido, uma tonalidade muito com o espírito sessentista ou setentista norte-americano à mistura e o cliché total de que se revestia o surf e o psych rock. Certo, agora vou ver quem são: uma ajuda do Wikipedia disse-me que são uma banda norte-americana formada em 2004. Acho que agora percebem o porquê de quase ter adormecido durante o concerto (depois vinham as jams e cortavam sempre o flow). Sabe bem ouvir sem saber o que é, mas há um problema comum a muitos outros nomes que têm investido no revivalismo desta espécie: o passado fala mais alto. (4/10)


O cansaço já nos cercava – dois dias vividos intensamente e pouco mais de 8 horas dormidas no seu conjunto já nos ia limitando as capacidades – e por isso só voltámos para os esperados MOON DUO, que deram um concerto ameno: pouco emotivos, possivelmente porque no dia anterior um dos seus membros tinha ido parar ao hospital, e com pouca garra, as guitarras assumiram, como expectável, o principal alicerce da base da construção das suas canções; porém, o facto de as terem estendido em demasia levou-nos quase a que, em quase todo o concerto, prestássemos mais atenção às próprias projecções do que à própria música. Caso para dizer que uma imagem consegue ser mais psicadélica do que mil palavras. (5/10)


Saímos para THE OSCILLATION a meio de Moon Duo e saímos bem: no Palco Rio estava-se a presenciar um senhor concerto de uns britânicos que não gostam de estabelecer barreiras ao longo das suas músicas. Heterogéneos, os The Oscillation conseguiram, de novo, trazer a luz que até ao concerto de Black Angels parecia estar sempre presente: ora com guitarras distorcidas em primeiro plano ora com o baixo a assumir os contornos da pintura que se ia esboçando, foram crescendo a cada canção perante o pouco público presente (só mais tarde, depois do concerto de Moon Duo ter terminado, é que foi chegando mais público ao Palco Rio). É nome para se estar atento. (7,5/10)


De seguida, a festa era portuguesa: primeiro os EQUATIONS, depois Jibóia. Os primeiros, para mim, foram a maior surpresa do festival. Mais concisos e menos exploratórios do que o seu primeiro disco longa-duração nos mostrara, os lisboetas vão-nos mostrando que estão menos preocupados com as equações e muito mais preocupados com um aprumo na estética sonora para que esta soe mais concisa sem que para isso tenham de abandonar a experimentação que sempre acompanhou as suas canções. Hoje em dia, contrariamente a outrora, já não se berra de maneira estridente. Hoje em dia as guitarras estão menos rápidas sem que para isso se tivessem de desertar dos prismas da math-rock. Hoje em dia existe um sintetizador/teclado que nos remete para uma psicadélica foleira quando o som que dali se brota está muitíssimo longe disso. Os Equations de hoje estão completamente diferentes de os de 2012 e nem precisaram de muito para que isso acontecesse, apenas de engenho e maturação. Claramente rubricaram um dos melhores do Reverence e, a adivinhar pelo que vimos, vem daí um dos discos do ano. (8,5/10)


Assim de cabeça penso que o relógio marcava as impensáveis sete da manhã quando Óscar Silva, aka JIBÓIA, subiu ao Palco Sabotage para o encerramento do Reverence Valada. Loops contínuos a florirem a partir do seu teclado, mãos na guitarra e pintava-se a Arábia na Valada. A música de Jibóia é quente e tem na passagem para o palco um trunfo tremendo: aliás, é lá que se vê o que é e quem é Jibóia. Não nos faz serpentear, mas pouco falta – que o diga o senhor da primeira fila que fazia um comboio humano imaginário sozinho. Há demasiado para dizer sobre este concerto, mas vou-me limitar dizendo que a partir do momento em que se despertou o primeiro loop este foi o melhor momento de todo o Reverence Valada. Onde é que já se viu um festival terminar às 7:30 da manhã com um concerto que, comparativamente com todos os outros, teve pouca gente mas onde todos os intervenientes estavam a dançar como se fosse o último dia da sua vida? É nestes casos que também se revela a grandiosidade das coisas – em 24 Hour Party People diz-se constantemente que um dos primeiros concertos dos Sex Pistols foi histórico e só estavam lá cerca de dez pessoas. Em Jibóia, o número foi um pouco superior mas todos os seus contornos levam-nos a querer apelidá-lo da mesma maneira: histórico. E todo o mérito foi dele – é preciso saber-se para não deixar aborrecer quem não dormiu nos dois dias anteriores e quem tinha a “cama” ao seu lado. Jibóia manteve-nos com ele até ao fim e, bolas, eram sete e meia da manhã. (9/10)

Texto por Emanuel Graça


Fotografia por José Vidal




domingo, 24 de agosto de 2014

FUSING CULTURE EXPERIENCE 2014 - DIA 3




Ao terceiro e último dia, o FUSING Culture Experience contava com um sol a queimar, menos vento para incomodar, mais artistas para ver e continuava a parecer que estava tudo a começar de novo nas próximas horas quando o fim estava já aí e, verdade se diga, cheio de momentos para voltar a contar com a energia de dias anteriores, mesmo que o alinhamento musical tivesse algumas pequenas nuances dignas de relevo.  

Não foi o caso do Cooking Lounge Pingo Doce, que continuou a ser um oásis de boa programação nesta edição do FUSING, e apropriadamente um "Rebento" com o luxuoso RED Trio de Rodrigo Pinheiro, Gabriel Ferrandini e Hernâni Faustino naquele que foi o concerto de jazz mais eléctrico, e por isso mais aproximado a algo como free rock, que teve lugar neste pequeno palco em que há que virar costas à ala gastronómica do festival por uma bela paisagem em fundo. Sem contrabaixo e piano acústico, o baixo e o piano eléctrico juntam-se à bateria num tornear de tons, ritmos e técnicas que recriam o tempo e o caos para a formação de um trio de jazz tão tradicionalmente explorado, menos de certeza a avançar, a improvisar, com segurança, ao objectivo de longo alcance de todos os vértices e de quantos mais intervenientes se lhes juntassem. Um curto seminário que só poderíamos esperar de três virtuosos como estes, a provar a grande mais-valia da parceria local com a excelência do Jazz Ao Centro Clube.


Para além da estreia, mais tarde, do projecto When The Angels Breathe nos palcos, era também altura de debute em grandes palcos para 6 bandas seleccionadas através do concurso de bandas "Da Garagem ao Palco", promovido pela organização do festival. Aproveitando melhor ou pior o pouco tempo que tinham para mostrar trabalho, em alguns casos, mesmo já editado, os PITCH, Marvin, HRRA, Lupiter, Les Crazy Coconuts e Bearbug abriram o Palco Experience aos festivaleiros e ocuparam-no até à chegada de Orlando Santos. Surpreendentemente, os Bearbug garantiram a passagem para o Palco Fusing na edição de 2015, mas há outra grande certeza: há tempo e necessidade de trabalhar para que o talento se esmere. 

De seguida, no Palco Experience, a variedade da música portuguesa foi novamente mais do que representada com a presença de Orlando Santos, o intérprete e colaborador, entre outros temas, dos famosos "Since You’ve Been Gone" dos Orelha Negra e "Time Out" de Branko. Ainda com pouca gente no recinto, o reggae do artista soou particularmente bem naquele momento do dia, com o sol a cair por detrás do mar, mesmo que a comunicação com o público da belíssima voz soul do autor de "My Soul" e primo de Kika Santos, novamente acompanhado pelos Jahmmin, não tivesse de todo sido bem sucedida e explorada ou consubstanciada, um pouco à semelhança da sua música a que falta ainda dar passos mais significativos.    




É um Bernardo Fachada solitário, claramente diferente mas não menos incrível na sua simplicidade e inspiração que encontramos pouco depois no Palco Fusing. É visível a necessidade e inesperado o resultado de explorar o pouco que se define cruzando irremediavelmente amores e desamores pela electrónica e métrica do cancioneiro português: por muito que o público tentasse combater, a atenção foi toda para "Criôlo" e o mais recente "B Fachada", o que não impediu um "Zé!" arrancado acapella e um delicioso "Não Pratico Habilidades" com pretexto para uma das tiradas saborosamente mordazes do costume face à maior reacção do público nas grades: "Sim, esta é boa e as outras são uma merda!". Numa agradável surpresa, a assistência não descolou e entrou em saudável confronto com o músico quando não estava a soltar grandes gargalhadas nos momentos entre canções. No final de um dos concertos de alma cheia deste FUSING, com "Tó-Zé" a ecoar, o B não caiu em definitivo do "one man band", do "legendary" B Fachada, mas onde ficaram os gritos orgásmicos de "É Normal"?  

Pelas 23h, foi a vez de David Francisco, cara bem conhecida da música portuguesa pela sua presença no grupo Uni_form, entrar em cena com o post-rock já não a solo When The Angels Breathe. Ao FUSING faltava uma banda sonora que ilustrasse na perfeição a ascensão épica de um conceito único em Portugal, o de juntar a música à arte, à gastronomia e ao desporto. Poder-se-á dizer que este tipo de música adaptar-se-ia melhor ao cenário figueirense post-23h, talvez longe da Figueira que imaginamos ao vermos fotografias que a retratam. Mas há em When the Angels Breathe o sopro melancólico que nos faz chorar por mais, por mais música portuguesa, por mais música desta, por mais FUSINGS que proporcionem a emergência de grupos deste gabarito. É verdade que a atuação enorme do Tigerman acabou por chamar toda a atenção do público, que a pouco e pouco foi abandonando o Palco Experience, com a excepção de alguns resistentes ao apelo do conhecido. E para o próximo ano, porque não, poderia muito bem dar o salto para o palco maior... "Savage", "Magdalena" e "Dark Wolf" foram alguns dos temas que os fãs reconheceram e que se tornaram ainda mais pujantes com a forte presença em palco do David e dos seus parceiros, entre os quais se alistaram João Pedro dos Murdering Tripping Blues, (Luís) Azevedo Silva e também os Opus Diabolicum.

Sobretudo com a influência de Alexandre Frazão na bateria, a música dos Dead Combo sai reforçada quando tem de o ser, as suas qualidades e veios são desenvencilhadas a 100% e criam mais facilmente o ambiente necessário para grandes palcos, mesmo que clássicos como "Rodada" percam uma boa parte da sua magia e cadência. Ainda que a música dos Dead Combo seja feita de uma portugalidade - sim, aquela genuína que está mesmo e sempre à nossa frente - que engrandece a adequação e intepretação por parte de um país da globalidade das canções de todos os outros, havia que crescer e esse trabalho foi feito para deixar Tó Trips e Pedro Gonçalves sem grandes problemas na altura de se apresentarem a partir do seu novo cantinho quase relicário a uma esfera pública altamente ruidosa. Do novo "A Bunch of Meninos", "Miúdas e Motas", "Dos Rios" e uma "Waits" que é a "Temptation" que não se esquece, mesmo para a enchente que surge atrasada em relação às indescritíveis "Lusitânia Playboys", "Eléctrica Cadente", "Pacheco" e "Mr. Eastwood".
Há quem diga que este novo arranjo espacial com tradução artística é inferior ou superior ao formato anterior; na realidade é diferente e incomparável.





































A Ana Miró já conhece bem os cantos da Figueira. No ano passado, tinha atuado com as costas viradas para o mar e tinha surpreendido com as sonoridades asiáticas de JIBÓIA quem ainda não a conhecia. Este ano, a Sequin defendeu o seu disco "Penélope" acompanhada por um teclista, com uma audiência bem composta e pronta para dançar ao ritmo das soantes "Beijing" e "Naïve". Para os mais emotivos e adeptos das sensações planantes e chill do palco Experience, a primeira música tocada, "Meth Monster", foi mais que convincente.

Parece que nem todas as expectativas estavam concentradas no que Paulo Furtado faria como The Legendary Tiger Man - se calhar falar de ir para casa e fazer amor a famílias com crianças pequenas não é aceitável para quem se afasta gradualmente da restante assistência ao nosso lado - mas este foi sem dúvida o momento de transcendência que faltava ao Palco Fusing até à altura, onde se cumpriu o rock n' roll que entre dentes se prometia e que salvou segundo Moisés o concerto dos PAUS - e não falamos apenas da quebra das barreiras de segurança finalmente conseguida. Que "True" é um dos discos do ano e mais uma obra de arte blues-rock suada e bem junta ao ouvido como se quer e quando já não se imaginava como poderia ser excitante, isso é um preconceito. Colocar estas e tantas outras verdadeiras malhas num alinhamento rumo a um clímax de alívio, de libertação de energia num ambiente perto do saudável descontrolo em que todos são personagens principais, isso é simplesmente parte de The Legendary Tiger Man. O crescimento que cada vez menos palcos receiam e o FUSING reconhece aos seus convidados musicais tem que incluir os cavalheiros Paulo Segadães e João Cabrita, fundamentais para despegarmos dos clássicos como "Big Black Boat" que conservam o espaço de Paulo Furtado em frente a uma multidão de "gente de bem" e continuar-se a dizer "não" ao cativeiro de banda mas poder-se gozar do nervo a pulsar, da batida a sujar, dos coros a abater drones imaginários - não fosse assim e não poderia haver o punk daquele "Let's Do The Bird All Night Long", daquele "Danse Craze", daquele "21st Century Rock n' Roll" no epílogo. Antes disso, a versão do clássico de Lee Hazelwood e imortalizado por tantos outros "These Boots Are Made For Nothing" e a reunião com os Dead Combo não para os "Blues da Tanga", mas sim para uma versão em família de outro clássico, "Teenage Kicks", dos The Undertones.         

A tarefa de tocar no palco principal depois dos ogres Dead Combo e The Legendary Tiger Man não é fácil para ninguém, nem mesmo para o grupo que deu o melhor concerto da primeira edição deste evento, os PAUS. Consciente de que a participação do público ia ser mais que necessária para reeditar a atuação do ano passado, o baterista Hélio Morais pediu aos seguranças que deixassem uma parte do público entrar no acesso reservado aos fotógrafos. A banda nem tinha começado a tocar e já tinha a Figueira toda no bolso. “Eu não toco enquanto não abrirem as barreiras”, ousou o baterista aliando-se às palavras proferidas já no primeiro dia do festival por Capicua e instantes antes por Paulo Furtado. A partir daí, explodiram as baterias, numa desgarrada que não parecia deixar nenhuma chance ao guitarrista e ao teclista. Erro de quem não os conhece, pois por detrás da violência há sempre uma grande harmonia tanto quando são tocados os singles mais antigos como “Deixa-me Ser” ou “Mudo e Surdo” como quando são tocados os mais recentes “Bandeira Branca” ou o próximo single “Cume” do novo registo "Clarão". Ainda tiveram tempo para deixar alguns recados ao Governo, às gerações portuguesas mais jovens mas também ao facto de ser raro num festival em Portugal haver tantos fotógrafos a imortalizar os seus concertos. Uma aparição em grande, perfeitamente adequada para fechar um palco Fusing repleto de estrelas.

Numa fase em que os festivais de música portuguesa estão na moda, o FUSING Culture Experience percebe ao segundo ano que a diferença cria-se com todas as actividades paralelas à música, que ajudam a envolver pessoas no conceito, mas também construindo um futuro, com memória e com artistas internacionais que afastem a terrível ditadura do nacionalismo/proteccionismo barato e hipócrita. Para primeira tentativa, há a felicidade (menos na tesouraria) de estar à vista que os artistas nacionais não esquecem o festival e que as pessoas não os poderão ignorar no melhor do "seu" festival.
Não se deve repetir um fim-de-semana tão concorrido em matéria de acontecimentos de celebração da música portuguesa - o calendário tem 51 outros, estamos num país pequeno, em crise e podemos passar a ver sempre "os mesmos" também em festivais que teimarão sempre em não desistir -, não podemos morrer pelo realismo da estupidez. Como o Centro de Portugal tem direito a um espectáculo destes dividido por vários dias, é altura de fazer contas ao que se tem que afinar e estimar as redes de afecto e de parceria que tão bem suportam o FUSING Culture Experience. Os Bearbug voltam para o ano e parece que não serão os únicos.  







Textos de André Gomes de Abreu e Mickaël C. de Oliveira
Créditos das fotografias: Organização do FUSING Culture Experience




sábado, 23 de agosto de 2014

FUSING CULTURE EXPERIENCE 2014 - DIA 2




Depois de uma véspera de feriado onde as condições meteorológicas e de segurança foram mais favoráveis a quem passou pelo palco do que a quem esteve com atenção ao mesmo, o segundo dia da edição deste ano do FUSING Culture Experience manteve um Palco Fusing recheado de propostas consolidadas e com espaço para demonstrarem todo o seu potencial e um Palco Experience a garantir não menos boas experiências a quem se atreveu a passar mais cedo pelo recanto da música moderna da Figueira da Foz atacada também no mesmo fim-de-semana por promoção a touradas, a festas populares em Buarcos, a outro festival que aconteceria no fim-de-semana seguinte e até a uma temporada inusitada de concertos no Casino Figueira. 

Mais uma vez, embora com atraso para que tudo coubesse entre soundchecks, o Cooking Lounge Pingo Doce foi ponto de estadia obrigatório para escutar as propostas do duo Luís Vicente e Jari Marjamäki, homens de passagem por vários projectos, países e até por caminhos alternativos ao jazz, e mesmo à música, convencional de que são exemplos as 4 faixas do novo EP "Alternate Translations" captadas originalmente ao vivo. Um claro embate entre electrónicas mais ambientais, controladas e ocasionalmente ritmadas e os rasgos de melodia tendencialmente mais livres, mais ou menos abstractos mas também não menos definidos para uma envolvência surpreendente a cada instante, necessária para se destacar do simples acompanhamento das actividades culinárias bastante participadas por pais e filhos que decorriam a pouca distância, tal como o pequeno Pleno Lounge que renascia bem perto da pequena praia privada dentro do recinto.

Para abrir o dia no que toca aos dois palcos dedicados à música, e p
or falar no público figueirense, os Salto foram talvez os que mais carinho receberam por parte dos visitantes do FUSING. No Palco Experience, a atuação do grupo da Maia representou perfeitamente a fase em que se encontra este grupo: entre a banda de pop-rock Miami garage e a que cresceu a ouvir os Temptations, as Supremes e outros mestres da cultura negra até chegar a J. Dilla, Amy Winehouse, Flying Lotus e aos Orelha Negra. Num ambiente de festa digno de uma festa adolescente que vemos nas comédias americanas, festejaram-se os anos de Luís Montenegro com uma aparição especial de Francisco Ferreira dos Capitão Fausto e o (agora) quarteto convenceu e demonstrou que tem futuro muito para além do que faziam até agora. "Can’t You See Me" do EP "Beat Oven" é claramente uma música a ter em conta nos próximos tempos.

Com a mesma tarefa que os For Pete Sake se deparavam no dia anterior, os Norton não se deram tão bem ou, pelo menos, com tanta facilidade. Mesmo com maior experiência enquanto banda e discos para o justificar, os Norton não desligaram tantas pessoas da claramente pré-determinada hora para jantar. Os tiros certeiros e de várias maneiras orelhudos de "Two Points" e "Magnets" demoraram a apelar à participação dos presentes e apresentaram o saudosismo daqueles Norton mais electrónicos e compenetrados como uma boa companhia dos albicastrenses que estiveram bem mais estrelares e incisivos nas suas caças aos tesouros melódicos deixados no novo disco homónimo e no anterior "Layers of Love United". Claramente, uma banda com 10 anos ainda a crescer, com muito para dizer mas não a todas as assistências.  

Referência da zona centro, os Nice Weather For Ducks justificaram a boa fama e as excelentes críticas que têm recebido num concerto enérgico, intenso, durante o qual tocaram músicas do álbum "Quack!" como "2012" ou "Back To The Future" e algumas do novo registo pelo qual todos ansiamos. Dos concertos mais conseguidos desta segunda edição do FUSING, mesmo que também tenha ligeiramente sido perturbado pela atuação dos Norton no Palco Fusing. Acima de tudo: excelentes músicos e salta à vista a boa relação que existe entre os diferentes elementos da banda, tal como se notou no dia anterior com a outra banda leiriense, os First Breath After Coma. 

Num festival como o FUSING Culture Experience que se procura estabelecer e se constitui de um público bastante heterogéneo mas também à espera de ser surpreendido, o jogo de luzes e a cenografia montados pelos peixe:avião foram uma pura demonstração de personalidade e um convite muito próprio a uma visita a esta verdadeira nave espacial. Sem preocupações com o alinhamento (e) (d)o espectáculo, claramente já pré-determinado no seu disco mais recente, uma das super-bandas menos óbvias no território nacional caminhou contra a luz, à boleia das letras de Ronaldo Fonseca numa fricção gravitacionalmente feliz de um conjunto de melodias minuciosamente ligadas de canção a canção e desligadas porque há sempre uma oportunidade para testar os limites do próprio som sabendo o que se quer e o que não se quer. Quem ficou, respeitou; quem não gostou, tinha as soluções intermináveis dos Nice Weather For Ducks na outra sala de máquinas. Simples. Arriscado. Brilhante.    

Outro dos segredos bem guardados da zona centro é o grupo A Velha Mecânica. Música no máximo, colunas prestes a rasgar, os conimbricenses descobriram a solução radical para evitar as perturbações do palco principal. Riffs violentos, crus, envoltos numa dança de belas palavras portuguesas, umas vezes polidas, outras vezes cuspidas. Potentes, de uma força imparável e até agora talvez nunca vista neste festival, num grupo a vaguear entre o post-rock e o metal, "Mil Homens", o single "Dedos", mas sobretudo "Esposa Cão" e "Fujída" (PARTIDA! LARGADA! FUJÍDA!!) incendiaram a plateia. Das melhores surpresas do festival para quem ainda não os tivesse visto ao vivo...




À procura do entusiasmo com a música de Cícero num dia exigente e ainda frio o suficiente para fazer da auto-preservação também contemplação, encontrámos os locais MiUrA, também sobreviventes da edição do ano passado e o concerto do grupo juntou mais público do que se previa. A banda figueirense tratou de acabar com o trabalho já bem iniciado pelos A Velha Mecânica e continuou, em português, a gritar bem alto que o rock/metal/hardcore duro e directo em português também existe e não é nada ridículo. O carismático Nelson Afonso deu conta do recado na voz, bem ajudado pelos riffs dirigidos pelos amigos e pela bateria enérgica de Luís Saraiva. O tema mais melancólico “Já Ninguém Escreve Cartas de Amor” serviu para mostrar uma outra faceta deste grupo que honrou a Figueira nesta Sexta-feira.

Digam outra vez: que fantástico concerto dos Capitão Fausto. Com "Pesar O Sol", há claramente uma satisfação renovada no quinteto lisboeta que debita novas ideias para cantar ainda melhores do que as que já editou, via um Salvador Sobral imparavelmente quase kraut sem roubar energia ao resto da banda que o seguia para caber tudo em cerca de uma hora, de Beatles aos Flaming Lips com um refresco de Pink Floyd. Apesar de "Pesar O Sol" não ter caído ainda totalmente nas graças dos admiradores de "Gazela", nota-se que um concerto dos Capitão Fausto agora está construído de uma forma ainda mais musculada e encadeada, em que se torna mais fácil entrar nas novas canções e onde a descontracção caminha com esperta ambliopia sobre todo e qualquer limite, seja com as costas no chão como Tomás Wallenstein, ou com os pés na ponta do teclado como Francisco Ferreira.
A retribuir o favor, o aniversariante Luís Montenegro saltou para o baixo de Domingos Coimbra em "A Verdade" antes da "Sobremesa" final. Às ordens, sem etiquetas de Avicii, meu capitão!    


Quinta banda da noite no Palco Experience, quinta experiência. Depois dos Salto para todos verem e ouvirem, do rock dançável e brilhante dos Nice Weather For Ducks e do rock potente dos A Velha Mecânica e dos MiUrA, chegou a hora da música eletrónica entrar em palco, antes do hip-hop do DJ Slimcutz com Ace, dos Mind da Gap. Os dois irmãos contaram com a presença de dois dos convidados do brilhante "Oito": Catarina Moreno e Alex Klimovitsky dos Youthless assim como o apoio do baixista dos Blasted Mechanism. Temas como "Françoise Hardy" e "Please Please Please" puxaram por quem que os conheceu ao ouvi-los na rádio, enquanto outros responderam "presente" em canções com sonoridades africanas mais vincadas como "Ali Dom" e "Afroinscope". Frente a frente, os Octa Push deixaram o centro do palco aos seus convidados e ofereceram um concerto cheio de classe, de requinte, onde a musa Catarina Moreno se destacou tanto em "Please Please Please" como numa cover bem reggae de Billie Holiday. Um formato de concerto talvez um pouco menos dançável do que aquilo que se estava à espera mas tremendamente lindo e eficaz, uma forma tentadora de fechar o círculo sobre a abrangência de universos servida na ascensão do FUSING Culture Experience ao seu último dia.



Textos de André Gomes de Abreu e Mickaël C. de Oliveira
Créditos da fotografia: Organização do FUSING Culture Experience 




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