quinta-feira, 11 de setembro de 2014

DEALEMA - Entrevista

No final do ano passado os Dealema chegaram com outra energia e timing à "Alvorada da Alma", quarto longa-duração do grupo de Maze, Fuse, Expeão, DJ Guze e Mundo Segundo largamente conhecido pelo longo e acutilante léxico de rimas e batidas de fazer homens e mulheres olhar de outra forma para dentro e para fora e um dos grandes responsáveis por chamar a atenção para outros protagonistas, problemas e cenários que acabariam por ver reconhecida a sua relevância ao longo das suas quase duas décadas de carreira. 
Homens de família e de dádivas várias como as respectivas carreiras a solo e, recentemente, o Oblá FM nas antenas da rádio na véspera de nova festa histórica com os Mind da Gap num dos palcos do NOS Em D'Bandada, a Praça dos Poveiros: qual é, afinal, o "factor X" do sucesso e, sobretudo, reconhecimento a la Wu-Tang Clan dos Dealema?
Eles explicam que, na nação hip-hop que ajudaram a criar, não há nenhum e são muitos.






BandCom (BC): Qual foi o momento mais difícil que os Dealema viveram ao longo de todos estes anos?

Dealema: Os momentos mais difíceis talvez tenham sido os anos que antecederam o lançamento do primeiro álbum pois andávamos a tentar perseguir o sonho de podermos levar o nosso projecto mais além e com as vidas ocupadas que tínhamos pouco tempo nos sobrava para nos dedicarmos à música com a devida atenção que esta merece.


BC: Com filhos para educar e relações para estimar num Portugal também diferente, a relação entre fontes de inspiração e dificuldades pelo caminho está mais ou menos favorável?

Dealema: A nossa música sempre foi e será um reflexo do que somos e do que passamos portanto seja qual for a situação em que estivermos será sempre um momento de aprendizagem de onde poderemos extrair algo para criar mais e melhor.


BC: A existência de várias carreiras a solo de membros dos Dealema também tem contribuído para que o grupo se mantenha coeso por tanto tempo?

Dealema: Sim, os projectos a solo, além de nos permitirem experimentar outras texturas sonoras que caracterizam cada um como individuo, funcionam também como uma dose extra de motivação para os projectos que se seguem; por conseguinte isso torna-se uma mais valia para o projecto Dealema.


BC: Sucedendo a um disco mais denso e negro, encontramos talvez o disco mais luminoso dos Dealema. Contudo, este álbum também funciona se visto como uma peça isolada da vossa discografia. Juntando os vários conceitos que têm definido cada um dos álbuns que lançaram, era esta a altura exacta para que a história que têm contado tenha, como nas palavras do Mundo a solo, um “raio de luz”?

Dealema: Visto que atravessamos uma fase de crise financeira e de valores não fazia sentido criar algo que nos trouxesse mais para baixo interiormente mas sim exactamente o oposto, dai o conceito "Alvorada da alma" ,o renascer de uma nova esperança onde a mudança surge de dentro para fora.





BC: Certamente que com a “Bom Dia” tiveram feedback de quem nunca vos tinha ouvido antes ou que não seguia tanto o vosso percurso. Mesmo com a projecção maior e diferente do hip-hop hoje em dia, as pessoas ainda convivem melhor com os refrões mais tradicionais e luminosos de outros géneros que não o hip-hop “puro e duro”?   

Dealema: A “Bom Dia” foi mesmo o melhor cartão de visita para o “Alvorada da Alma”, o refrão do Ace entra com facilidade para o subconsciente! É um facto que a melodia no refrão é continua a ser mais apelativa para um público generalista do que os refrões com rap.


BC: “Alvorada da Alma” é uma expressão que, à semelhança d’ “A Grande Tribulação”, está espalhada pelo vosso passado e especialmente por algumas das letras mais emblemáticas dos Dealema. De certo modo, um trabalho com este nome já deveria/poderia ter sido lançado há mais tempo?

Dealema: Com este nome talvez pudesse, visto que usamos muitas referência do nosso próprio universo, mas nunca com esta sonoridade e maturidade. Este disco vem no tempo certo.


BC: A “Alvorada da Alma” marcou, de certo modo, o regresso e o solidificar do lugar dos Dealema para públicos maiores. É, para vocês, o capítulo mais bem sucedido da vossa carreira?

Dealema: Nós já cá andamos há 18 anos, já conhecemos muito bem a montanha russa que é a indústria musical neste país, a persistência e a vontade de fazer música que gostamos leva-nos a continuar sempre independentemente de uma aceitação exterior. De facto este disco fez-nos chegar a um público maior que o habitual público consumidor de hip-hop, mas isso também tinha acontecido no nosso primeiro álbum. Continuaremos a rimar das entranhas.


BC: Este último trabalho traz à tona a soul, o funk, até o boom bap, outras sonoridades que no resultado final complementam, não raras vezes na perfeição, o que é característico dos Dealema. Conhecendo o contexto em que o hip-hop surge e a necessidade de que haja sempre alma e sentido de ritmo por detrás dos seus intérpretes ou canções, estas novas nuances têm correspondência com algo que nunca tinham feito antes enquanto grupo ou antes vêm acentuar algo que já existia? 

Dealema: Nós somos amantes da soul, do funk e crescemos com o boom bap clássico da era dourada do hip-hop, os anos noventa, e tudo isto faz parte do nosso DNA, temos vindo a abordar estes terrenos ao longo da nossa carreira, mas nunca antes como neste álbum em que nos dedicamos apenas a estas sonoridades.


BC: O público noutros países pode ser sempre uma incógnita para uma banda, sobretudo quando continua a somar anos de carreira. Têm tido feedback de quem vos ouve noutros países? Além de vos pedirem sempre para ir tocar ao seu país, já houve quem tentasse ultrapassar esse desejo vindo a Portugal para assistir a um dos vossos concertos?

Dealema: Sempre recebemos muito carinho de todos os países lusófonos e das comunidades portuguesas emigradas por todo o mundo, mas desde que temos Facebook esse contacto é mais directo e intensificou-se. Ao longo de todos estes anos já tivemos muitas surpresas no fim de concertos com pessoas a revelarem que viajaram de propósito para nos ver, ou que fizeram muitos quilómetros especialmente para estar connosco.





BC: Como é que os Dealema se têm adaptado ao hip-hop do século XXI, em especial ao destes “anos 10”? São especialmente saudosistas (para além das letras em que mostram esse lado)?

Dealema: A adaptação é natural, os tempos mudam nós mudamos com eles, esse saudosismo pelos bons velhos tempos irá sempre existir, mas nunca nos limita, queremos estar sempre à frente a puxar o barco.


BC: Por tradição, os artistas bem sucedidos no hip-hop cresceram com pouco, alguns enriquecem mais do que outros e, muitas das vezes, os que mais sucesso têm acabam por ter cada vez menos relevo na mensagem que transmitem. Por outro lado, vemos alguns artistas com interesse e destaque, inclusivamente licenciados, a encontrarem conforto no hip-hop e outros fazem da música a sua “universidade da vida” de tal forma que poucos podem rivalizar com tamanho enriquecimento cultural. Ainda é difícil que os públicos mais maduros reconheçam o mérito de quem produz hip-hop e que, em alternativa, os mais jovens mantenham o foco no que há 20 anos atrás era essencial, como a palavra?    

Dealema: Felizmente o nosso público de há 18 anos atrás continua a seguir o nosso trabalho e agora os filhos deles também, e a palavra continua a ter o poder de mudar mentalidades. "A Palavra é a Arma"! Muitas barreiras desabaram nestes 20 anos, o hip-hop hoje em dia chega a um público cada vez mais vasto e cada vez existem projectos mais diversificados capazes de alimentar nichos e públicos muito específicos.


BC: São 12 no total os convidados dos Dealema para este “Alvorada da Alma”. Actualmente, a relação entre os artistas do hip-hop em Portugal é diferente daquela que sentiam ou viviam no início da vossa carreira?

Dealema: Sim, esses laços entre quem já anda por cá há algum tempo estreitaram-se, e as amizades foram crescendo com o tempo, com muitos palcos e backstages partilhados.


BC: Recentemente, a mediatização excessiva dos meets alertou também para os problemas dos eventos gratuitos. Qual a vossa opinião sobre os eventos em que os espectadores não têm de pagar entrada para assistir? Alguma vez assistiram a algum comportamento mais ofensivo entre o público nas vossas actuações ou têm receio de que isso possa acontecer?

Dealema: Os nossos concertos são rituais de celebração, reuniões de paz, amor e harmonia. É isso que cultivamos no nosso público desde 96.


BC: Como se estão a preparar para o frente a frente com os Mind Da Gap nos Poveiros para o NOS Em D’Bandada?  

Dealema: Os Mind da Gap são família. Nunca é um frente a frente, é sempre um lado a lado.

André Gomes de Abreu




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