sábado, 16 de agosto de 2014

LAVOISIER - Entrevista

Seja pelo talento nas versões que fazem, seja pela consistência dos originais que vão lançando, é fácil gostar dos Lavoisier, um dos nomes que mereceram destaque no 2º dia de concertos do Festival BONS SONS 2014 como fruto do regresso de A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria a Cem Soldos e da própria banda aos palcos portugueses.
A Igreja esteve toda iluminada pelos Lavoisier e não queremos nem por nada transformar a atenção que devem continuar a chamar noutra coisa qualquer. Ora vamos lá: acordai!





BandCom (BC): Neste momento, o que é Lavoisier? É já uma entidade própria diferente da simples junção entre a Patrícia e o Roberto? 

Lavoisier: Acreditamos que a simples união, gera automaticamente um entidade própria.
Tentámos desde o inicio afastar as individualidades e focar mais no elemento exterior a nós, a música, e que só assim ganharia uma identidade própria. 


BC: Além da vida profissional, o que vos trouxe Berlim de novo à vossa vida
artística? Mais saudades de Portugal e das raízes? 
Lavoisier: 
Berlim trouxe uma nova visão, novos horizontes mas sobretudo um novo sentido do Real.
Representando, mais ou menos, uma montra fidedigna do que se passa culturalmente um pouco por todo o mundo, Berlim apresenta-se como um pequeno palco onde tens o muito bom, mas também consegues encontrar o muito mau, terra do querer é poder e do querer é fazer.
Deambulando numa cidade longínqua, questões como o "cantar em português" ou fazendo musica como português hoje no mundo, parecem brotar e ao que a nossa melhor resposta ter-se-à traduzido na expressão musical.
Relativamente ao facto de viveres fora do teu país durante quatro anos, as saudades fazem-te acreditar num Portugal utópico onde tudo resulta de uma forma próspera, aprendes a amar e a defender algo que se assume como a tua maior missão, mas a verdade é que olhando de fora para dentro tudo se torna objecto de interesse profundo, querendo-se perceber as próprias raízes sem pressões ideológicas ou patrióticas, talvez facilitando um melhor diagnóstico.


BC: Regressar de um país que não é aquele em que nasceram e apresentar de forma consistente a vossa música tem sido mais fácil do que fazer o trajecto inverso, ou seja, trabalhar primeiro a partir de cá e seguir depois para o estrangeiro à procura de holofotes para o vosso trabalho?

Lavoisier: A experiência de tocar música em português para quem não a entende trouxe-nos mais a procura de uma musicalidade, que não se traduzia tanto pelo significado da palavra mas sim pelo seu som e pela sua expressão. Com muito menos "lírica" e com mais harmonia e dissonância.
Sabemos que o percurso que escolhemos dita a música que fazemos e nesse sentido não nos arrependemos da escolha.
O ser mais fácil de apresentar em Portugal só o foi num sentido, é que a vontade de mostrar, apresentar e partilhar o que tínhamos andado a fazer em terras longínquas era muita.
Tudo isso é um processo, chegámos há um ano a Portugal e sentimos que ainda temos muito que tocar e partilhar.
É um trabalho árduo, e por vezes com condições muito precárias mas com a certeza de que o queremos fazer.


BC: No final de todo o processo, que características musicais principais notam na música de Lavoisier? São muito diferentes das características das vossas influências e das vossas preferências como ouvintes (sabemos que já fizeram uma canção dedicada a John Lennon e Jeff Buckley)?

Lavoisier: A música de Lavoisier nada mais é do que um reflexo artístico das nossas experiências de vida. Se nela se pode encontrar traços musicais de uns artistas mais do que outros é certo que também se encontrará ideias ou atitudes que nos levaram a fazer um determinado tipo de música em que a primeira regra seria o não preconceito.
Talvez, por causa disso, sintamos que temos muito a aprender e que a estética do que fazemos, não se prenda com o que ouvimos ou com o que lemos, mas mais com o que temos para dizer e como o que queremos fazer; se isso por vezes for mais visível na expressão de um tema popular português, que seja, mas nada nos impede de o procurar num português do Brasil ou num inglês do anglo-saxónico.


BC: Duas recolhas musicais já incluíram os Lavoisier: os “Novos Talentos FNAC” em 2013 e a mixtape nº 52 da Mercedes-Benz. Para além da satisfação natural, este sentimento de pertença a um grupo de artistas com canções valiosas é também um sentimento de que a música popular é ou pode ser moderna?

Lavoisier: Ficamos muito contentes com o reconhecimento do nosso trabalho. E principalmente muito felizes por fazer parte de uma geração tão próspera a nível musical em Portugal.
Em relação à musica popular e/ou moderna, são conceitos difíceis de definir.
Tentamos fazer musica sem preconceitos, mas sabemos que existem. Abordar a música popular portuguesa foi para nós inevitável num processo de auto conhecimento, mas jamais negando a nossa época e o nosso tempo.
Não nos agradam os puristas. 


ÁGUAS QUE MOVEM MOINHOS from TARABELO on Vimeo.


BC: Falem-nos um pouco sobre a vossa participação no projecto “Águas Que Movem Moinhos”.

Lavoisier: Acontece em forma de convite pelos realizadores do projecto. Havendo uma conexão com a terra de Vinhais, sendo o Roberto natural de lá.


BC: Apesar dos vários palcos que já pisaram, os Lavoisier ainda continuam a marcar presença em eventos simbólicos e com um valor especial associado a esse momento. Não é apenas o poder mostrar a vossa música, mas também marcar a vossa presença num momento único, que vos continua a motivar para um espectáculo ao vivo, é isso? 

Lavoisier: Para nós faz sentido fazer música e apresentá-la ao vivo.
O que nos continua a motivar é a vontade de fazer mais e melhor. Todos os palcos são diferentes, todos os públicos são diferentes, todos eles te trazem memórias, seria injusto compará-las qualitativamente. Acreditamos que a nossa "ascensão" não se traduzirá na escassez de "palcos simbólicos": se é palco merece o teu respeito e dedicação.


BC: O que tem a Murmürio que mais nenhum colectivo tem?

Lavoisier: O trabalho com a Murmürio é muito recente. Mas o que nos agrada na agência é que é uma pequena empresa que respeita os músicos, e que é "maluca" o suficiente para enfrentar "os monstros" do grande mercado e acreditar que é possível fazer de outra maneira.


BC: A “antropofagia” é uma das lacunas principais da música popular portuguesa para que esta não se transforme e chegue a outros patamares como a música brasileira chegou?

Lavoisier: O conceito "antropofagia" acontece num contexto. Se no Tropicalismo ela assumiu um papel importante para se poder perceber uma identidade cultural, que não queria ser vista como estanque, mas sim evolutiva e consciente de uma realidade que os rodeava nos anos 70, em Portugal esse termo não suscitou na altura, matéria que possamos hoje analisar como forma de lacuna ou não. Até porque possuímos um vasto legado de influencias africanas, brasileiras e europeias com uma bela dose do imperialismo norte-americano, o que faz com que tenhamos vários artistas que se sintam mais confortáveis/disponíveis para se exprimirem noutro idioma que não o deles.
Palavras como Tropicalismo ou Antropofagia suscitam em nós um tipo diferente de atenção: estas fazem-nos crer que o português de hoje não pode ser indiferente à sua história e à relação que tem com o Mundo, quer seja em presença física ou virtual. A digestão de culturas diferentes existe em qualquer pessoa, apenas achamos que o artista português se encontra algo mais privilegiado pelo contacto imediato com influencias tão variadas.


Lavoisier - "Eu não me entendo" de José Mário Branco from MPAGDP on Vimeo.


BC: Como emigrantes, e para além dos artistas nacionais que vos inspiram e que apreciam, há outros casos de portugueses a fazer música lá fora que vos cative?

Lavoisier: Tivemos contacto com o Carlos Bica, residente em Berlim, com o qual fizemos umas colaborações e pudemos aprender bastante.  
Em Berlim conhecemos vários músicos/artistas portugueses que nos têm inspirado bastantes. 


BC: Qual a vossa ligação com outras artes, como o cinema ou a ilustração? 

Lavoisier: Ambos estudámos na ESAD, Caldas da Rainha. O Roberto frequentou o curso de Som e Imagem e a Patrícia estudou Design de Cerâmica e Vidro. Em relação ao cinema ainda não houve grande ligação, havendo somente uma animação musicada para as TED Talks a convite da Maria Nogueira e uma pequena participação sonora na série "Nada Tenho de Meu"  de Miguel Gonçalves Mendes.
Já com a ilustração a Patricia faz todo o trabalho gráfico do projecto.


BC: Quais os planos dos Lavoisier para os próximos tempos que possamos ficar a saber?

Lavoisier: Nos próximos tempos estaremos por Portugal em concertos: o próximo festival será o Avante e dia 26 de Setembro temos o lançamento do trabalho "Projecto 675" uma edição limitada de 675 CDs que contou com a colaboração de José Fortes, o "captador de emoções". Para mais detalhes sobre os próximos concertos, podem encontrar a informação actualizada no nosso website.

André Gomes de Abreu




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