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sábado, 27 de junho de 2015

JOANA REAIS - Entrevista

Joana Reais Pinto está à beira de completar 30 anos de vida e a sua biografia faz inveja a tão pouco tempo de vida. Um percurso que começou pelo jazz e que já a levou a trabalhos com vários artistas, coreógrafos, músicos, bailarinos e compositores quando enveredou de uma forma cada vez mais intensiva pela combinação da voz e do movimento com o teatro e a dança.
Desdobra-se em workshops e conferências que ministra e numa miríade de projectos musicais, mas é com o seu ensemble que decide finalmente colocar cá fora temas originais em que já o jazz é, de forma abnegada, uma das ferramentas que utiliza dentro do universo da música do Mundo que quer começar a descobrir melhor no Brasil onde agora está radicada.
Pelo meio, a história de um acidente aos 22 anos numa viagem de comboio.
Um pequeno apontamento para a força de vontade de quem quer multiplicar o que o seu talento alcance. Enquanto tudo o que Joana Reais fizer for a apontar para esse objectivo, ninguém da relação Joana Reais-público se quererá perder do outro.   




BandCom (BC): Em que momento é que te decidiste, entre a música, a dança e o teatro, por seguir a veia musical? E em que momento decides enveredar também por juntar músicas originais?

Joana Reais (JR): O momento inconsciente em que decidi tornar-me cantora foi provavelmente aos meus 6/7 anos de idade quando preparei um espectáculo musical na casa da minha bisavó para a família e adorei toda aquela emoção e a atenção dos outros sobre mim. A música sempre fez parte da minha vida e, em particular, o canto. Dentro da minha formação, tive a sorte de ter uns pais que se aperceberam de que a filha tinha “queda para as artes” - daí ter estudado dança e teatro -, mas a música sempre foi a primeira opção. Quanto a originais, esse passo dá-‐se mais recentemente, há cerca de um ano e meio, fruto de um caminho feito a cantar standards de jazz (que, naturalmente, são em inglês) e de ter pensado que tinha chegado a hora de me desafiar a cantar na minha língua, em português. Daí até ao desafio dos originais foi um pulinho.


BC: Todavia, alguns dos teus projectos já espelharam uma ligação bastante forte entre a música e outras artes. Como é que vês a ligação da música com outras artes? É fácil encontrar um meio­‐termo entre o que apela mais às massas ou mais a um consumo mais demorado?

JR: Sem dúvida de que aquilo em que eu mais acredito é num território artístico que pode – e deve! – ser contaminado por várias linguagens artísticas. Lembro‐me de comentar, quando estava nas Belas­‐Artes, que a faculdade também tinha cursos de Artes Plásticas pois, no dia-a-dia em Design, quase que nos esquecíamos dessa realidade devido à forma como o próprio edifício estava estruturado (Pintura e Escultura na cave, os serviços da Universidade no rés-­do-­chão, Design de Equipamento e de Comunicação no primeiro andar) e só nos lembrávamos que tínhamos colegas pintores e escultores quando as pausas do almoço coincidiam. Talvez tenha sido nesse momento que me apercebi de que uma maior comunicação entre as várias disciplinas beneficiaria toda a comunidade escolar e, sem qualquer dúvida, as próprias soluções artísticas encontradas pelos alunos. Desde então, tenho tentado encontrar esse campo aberto, fluido, que contamina e é contaminado não só pela música como pela dança, pela pintura, pela fotografia... o que não é fácil. No entanto, dentro das performances que tenho apresentado, onde misturo, sobretudo, as linguagens da Voz e do Movimento, o feedback tem sido sempre muito positivo. Diria que surpreendentemente positivo, o que me faz continuar nesta busca, mesmo tropeçando de vez em quando.

BC: Como é que se dá a tua ida para o Brasil? Em que é que essa estadia te tem ajudado a progredir na tua carreira?

JR: Acredito que a minha ida para o Brasil se começa a formular há muito tempo, desde os tempos em que ouvi as composições de Chico Buarque e me apaixonei, em que ouvi a voz de Elis Regina e me rendi, em que conheci alguns artistas da bossa nova, do samba e da MPB e os comecei a admirar, em que comecei a tocar com músicos brasileiros e me senti compreendida e estimulado de uma forma que não tinha acontecido até então. Sempre soube que, um dia, o meu caminho haveria de passar pelo Hemisfério Sul e, agora que aqui estou a concretizar objectivos profissionais e pessoais, acredito que o objectivo de gravar o meu primeiro disco está mais perto de acontecer.


BC: Apesar de teres aperfeiçoado mais o teu percurso no jazz, o teu primeiro EP “A Lisboa” está muito mais centrado na música do Mundo e especialmente. Pensas que o teu caminho até chegares a determinadas sonoridades que não o jazz seria o mesmo se não tivesses estudado jazz antes? O jazz foi deixando de ser um fim em si mesmo para passar a ser um meio para “algo mais”, mais livre?

JR: Sem dúvida, concordo completamente com a última afirmação: com o passar da minha carreira e com a experiência que fui ganhando enquanto pessoa e enquanto cantora, fui percebendo que o jazz, essa extraordinária escola onde tanto aprendi, não tinha que se encerrar em si mesmo – lá por ter estudado jazz, não significa que só cante temas dentro desse estilo! – e acredito que o meu desembarque na sonoridade das “músicas do mundo”, por um lado, tem tudo a ver com a pessoa que sou, com a forma como fui criada (com uma avó moçambicana e uma avó portuguesa), com o facto de ter nascido em Arroios e morado em Alfama, com aquilo que de mais genuíno e quente me apaixona na vida mas, por outro lado, sem o percurso no jazz, não teria conhecido os músicos com quem toco e as influências seriam certamente outras, assim como o resultado final.




BC: Consegues estabelecer algum tipo de comparação entre Brasil e Portugal no que diz respeito a públicos? Isto é, achas que poderias apresentar todos os teus projectos musicais em Portugal e no Brasil com o mesmo tipo de recepção?

JR: Embora Portugal e Brasil tenham todo um oceano a separá­‐los, e por muito que algumas pessoas estranhem ou até discordem, o facto é que falamos a mesma língua, a Língua Portuguesa. É certo que com sotaques diferentes, mas em português. Por essa razão, acredito que os meus projectos musicais assentes nas músicas do mundo estão aptos a serem apresentados nos dois países e, por não ser tão usual este tipo de linguagem no Brasil, tenho sentido um enorme impacto no público brasileiro. No entanto, espectáculos mais performáticos acredito estarem mais democratizados em Portugal, o que não deixa de ser um desafio nesta minha estadia pelo Sul do Brasil.

BC: Existem cada vez mais públicos, mais artistas e mais formas de os artistas procurarem mostrar o seu trabalho e aprenderem sobre outras perspectivas. Já estiveste em Terena, no Alentejo, numa residência artística a convite do Projecto Lamparina. Para além de residências artísticas, workshops e outras formas de exploração artística até integradas entre si, que outras iniciativas, mais ou menos alargadas, veria com bons olhos uma Mestre em Artes Performativas como tu que existissem mais assiduamente para estimular e aperfeiçoar o crescimento dos artistas?

JR: Gosto muito do formato da residência artística. Acho extraordinário que se possa reunir um número de artistas no mesmo espaço onde, para além de criarem algo, convivem, partilham refeições, conversam, trocam experiências... Acredito que os resultados finais saem bastante mais ricos do que se estivesse cada um no seu lugar, a criar isoladamente. No fundo, acredito numa maior contaminação entre arte e vida e penso que quanto mais diversificada for essa contaminação melhor: imagine-­se uma residência não só para artistas, mas também para médicos, bombeiros, engenheiros, economistas... que resultados incríveis poderiam sair desse caldeirão de experiências?


BC: O que é que mais te atrai a atenção num tema que ouças?

JR: Para te dar uma resposta genérica: o arranjo do tema. Numa resposta mais específica: a linha melódica e a sua interpretação. A voz. A respiração, a dicção, a emoção.


BC: Lembras-­te do espectáculo que mais gostaste de dar?

JR: Um dos espectáculos que mais gostei de dar foi no Terraço da Associação dos Amigos do Minho, ali no Intendente, a convite da programação de Verão do Espaço SOU, em 2013. Cantei acompanhada pelo Múcio Sá na guitarra e apresentámos repertório da nossa “guaramiranga”, um duo que foi criado para viajar pelos caminhos das músicas do mundo influenciados pelo tango, pelas mornas, pelo fado, pela bossa nova... Foi um concerto muito bonito, num local simples mas com uma vista de cortar a respiração, o horário foi muito bem escolhido, pois começámos a cantar era ainda dia e terminámos à noite, um público extremamente atento e generoso... foi mesmo muito bonito.



BC: A uma pessoa com mobilidade reduzida erguem­‐se muitas barreiras. Se essa pessoa decide seguir os seus objectivos pela via artística, ainda mais barreiras se erguem ao longo do seu caminho. Porém, a relação do público em geral com quem mesmo assim tenta ser bem sucedido é esquizofrénica: tão rapidamente aplaude e lhe presta atenção, muitas vezes por razões exteriores ao seu talento, como passivamente deixa que tudo ou quase tudo caia no esquecimento. Existe, em primeiro lugar, alguma altura na tua vida em que se pára para pensar ao colocares­te nos sapatos de outros artistas? Sentes­‐te ainda mais realizada pelo teu percurso?

JR: Bom, eu sinto imenso orgulho no meu percurso. Efectivamente, sou uma pessoa com mobilidade reduzida, ou seja, sofri um acidente que me condicionou a locomoção, alterando os meus hábitos de vida do preto para o branco. Esse foi um momento para parar, reflectir, olhar para dentro e perceber quem era e o que queria fazer. Felizmente, o acidente que sofri não me retirou a habilidade de cantar nem a capacidade intelectual para me dedicar àquilo que mais gosto de fazer, que é a performance artística. Hoje, agora, olho para trás e vejo inúmeros motivos de orgulho, em mim, nos outros, nas minhas conquistas e também nas derrotas, que me dão oportunidade para crescer. Colocarmo-­nos nos sapatos dos outros nunca é fácil, mas é extremamente recompensador.


BC: Onde é que se dão as maiores lições: nos palcos ou quando te pedem para falar aos outros?

JR: São lições diferentes... nos palcos, a comunicação é mais para dentro de cada um, enquanto que ao falar aos outros a comunicação é direccionada para o todo e aberta à troca de experiências. Acredito que quando existem trocas surge um sem número de possibilidades de crescimento e de fazer futuro, que é o maior ensinamento que podes dar a alguém.


BC: Com quase 30 anos neste momento, o que gostarias de fazer até aos 40 que não fizeste até agora?

JR: Adoraria conhecer Moçambique, onde se encontra parte das minhas raízes. Espero ter a oportunidade de conhecer o país e, quem sabe, partilhar a minha música!


André Gomes de Abreu




quinta-feira, 18 de junho de 2015

RITA BRAGA - Entrevista

Rita Braga está de volta aos discos com o EP "Gringo In São Paulo". 5 canções pop, excluindo a versão-bónus de "Dama do Cabaré" do brasileiro Noel Rosa, que reflectem a vivência da dona de "Cherries That Went To The Police" (e de todos os que não falem um brasileiro impecável, se julgarmos apenas pela marcha carnavalesca do tema-título) na metrópole brasileira e que prosseguem na bonita onda de surpresas a cada instante, da troça dramática e saudosista até ao brilhante quasi-instrumental de "Tralala", desse disco de há 4 anos atrás que só quem compreende o que falta à musicalidade para além da música, da performance ao poder da imagem, se pode dar ao luxo de pôr no papel.
Um encantamento não forçado mas intelectualizado com quase tudo e ainda o que está para vir, esse encantamento intemporal de "Erosão", que explorámos com a própria numa pequena entrevista. De cantores de rádio dos anos 30 ao experimentalismo de uma musicóloga em evolução também como pessoa, a História cola-se à voz e à presença de Rita Braga.






BandCom (BC): Depois do anterior “Cherries That Went To The Police”, em que te dividiste enquanto intérprete por vários países e línguas, o título do teu novo EP “Gringo In São Paulo” pode ser enganador em relação ao foco geográfico desta nova fase ou as coordenadas são literais e precisas?

Rita Braga (RB): As coordenadas são precisas - o disco foi todo concebido, composto, e gravado em São Paulo e conta com várias colaborações de músicos dessa cidade. Apenas a mistura e masterização foram terminadas em Portugal pelas mãos do produtor e músico alemão Marc Behrens. A parte gráfica foi uma colaboração minha e dele.


BC: O Chris Carlone, teu colaborador de longa data, descreve-te oficialmente como "this charming and beautiful ukulele queen". Para o comum dos mortais, o ukulele pode ser visto como um dos mais singelos e sonoros instrumentos. É nesta combinação de simplicidade com grandiosidade que reside o poder e a magia do ukulele, sua Majestade?

RB: Essa pergunta pode ser dirigida ao Chris Carlone já que foi uma tirada dele! A frase era mais longa, referindo-se ao “mishmash” de estilos que toco no ukulele. Foi uma citação que ele escreveu inicialmente a propósito da minha primeira tour nos EUA em 2008 em que ele me acompanhou em 8 concertos na coste leste (Nova Iorque, Brooklyn, Filadélfia, Connecticut). Já colaborávamos pela Internet mas conhecemo-nos pessoalmente para realizar essa tour, que para mim foi fantástica. 


BC: Este quarto EP chega no mesmo ano que traz a Rita Braga ao “grupo dos 30” (anos). Ainda é cedo para te levares a sério ou tarde para levares tudo ou quase tudo na brincadeira?

RB: Os 30 muitas vezes são vistos como barreira psicológica entre o fim da adolescência tardia e a vida adulta “responsável”. Espero manter sempre o sentido de humor e não ficar demasiado “séria” com o passar do tempo (e levo a música e o trabalho muito a sério ao mesmo tempo que me divirto e tiro prazer do que faço, se é que isso faz sentido).



BC: Agora, tens uma “base” no Porto. Depois de muitas viagens e de várias “casas”, em trabalho e/ou para viver. O trabalho levou a melhor sobre as preferências pessoais ou tudo isto contribuiu também para um enriquecimento do ponto de vista pessoal mais substancial? Sentes que te estás a aproximar mais de uma identidade própria definida ou esse trabalho já foi feito ao longo dos anos anteriores?

RB: Ter uma “base” ajuda para manter um ritmo de trabalho. Tive fases em que mudava muito rapidamente e gastava mais energia nessa movimentação, mudanças de casa frequentes. Mas creio que foi tudo enriquecedor. Passar por várias paragens ajuda a criar uma perspectiva dos sítios onde se vive. A minha nova casa tem a vantagem que tenho espaço para um pequeno estúdio caseiro para trabalhar demos, etc...pude investir em algum equipamento básico de som que eu nem tinha apesar de trabalhar com música há anos. E gosto da cidade do Porto para morar.






BC: No tema que abre e dá título a este trabalho, apareces qual cartoon de Carmen Miranda com um inglês, intencionalmente, “arranhado”, encarnando quem vive em São Paulo como se vivesse no rebuliço de Nova Iorque. Mas “arranhar” letras de canções também é prática do ouvinte menos identificado com uma língua ou com uma cultura. Lembras-te de alguma canção que te marcasse pela forma ou pelo tempo em que foste “arranhando” a letra, o instrumental?..


RB: Acho que tinha em mente um género de canções sobre imigrantes recém chegados aos EUA do início do séc. XX. Não sei exatamente que canção mas acho que existiam várias nessa “categoria” que me chegam via memória coletiva. De uma época em que o “politicamente correto” não existia e se gozava abertamente com estereótipos de outras culturas – fossem russos ou irlandeses ou italianos ou asiáticos. Com uma dose de ignorância, comédia e entretenimento ligeiro.



BC: Qual é o artista mais desconcertante de sempre, na tua opinião? E a canção mais desconcertante?


RB: David Lee Roth: “Just a Gigolo”.



BC: Há alguns artistas em Portugal que recuperam um pouco o espírito vaudeville, o imaginário do humor ligeiro e teatralizável, o entretenimento naïve, espontâneo e quase de época. Por umas razões lembro-me dos The Soaked Lamb, por outras lembrar-me-ei da sallim. Consegues estar actualizada em relação à música portuguesa que vai surgindo ou preferes manter-te com o que já conheces? Concebes também como parte de conhecer um artista conhecer o seu espectáculo numa determinada altura, num determinado lugar?


RB: Não ando muito atrás das novidades anunciadas pela imprensa e meios de comunicação mas vou acabando por conhecer muitas coisas. Principalmente através de concertos, vou a muitos concertos de bandas e artistas que desconhecia só por curiosidade, sejam portuguesas ou que estejam cá de passagem. Frequento principalmente espaços pequenos e intimistas, mais do que os grandes festivais com nomes consagrados.



BC: Fazendo o simples exercício de juntar a lista de artistas com que já trabalhaste – alguns deles, como Bernardo Devlin ou Vítor Rua, com longas carreiras - e conjugando isto com a variedade de sítios onde já estiveste e já tocaste, é correcto afirmar-se que os portugueses são pouco justos no juízo da quantidade de tempo de antena dado aos seus artistas? Ou, como no caso dos músicos mais célebres do Brasil, é o “espírito de missão” e de “fazer” que vem primeiro e o resto é secundário ao trabalho feito?

RB: Pegando nesses mesmos exemplos – Bernardo Devlin ou Vítor Rua – acho que merereciam maior reconhecimento a nível nacional. Não tenho conhecimento de nenhuma rádio em Portugal que passe a música deles. O Devlin tem vários discos a solo com canções brilhantes e em português que muita gente poderia gostar. Ou o Presidente Drógado, com quem colaboro e acho que tem muita originalidade tanto na escrita das canções como no lado de performer - eu chamo-o de Eugene Chadbourne português. Há muitos que deviam ser mais ouvidos.





BC: Já fizeste/tentaste fazer várias coisas fora do teu trabalho na música. Essa vontade de experimentar também já deixou de ter limites na música que fazes e que ainda queres fazer? 

RB: Enquanto artista não vejo limites muito definidos – música, performance, vídeos, desenho. Tenho uma sensibilidade forte ao lado visual, não apenas sonoro. O que conta é a imaginação.



BC: O que tens projectado para os tempos mais próximos, (por exemplo, em matéria de concertos)?


RB: Já em Maio realizei a minha primeira tour de concertos na Suíça, com quatro concertos confirmados em Solothurn, Winterthur, Basel e Biel/Bienne. Em Junho irei tocar num evento em Varsóvia de cultura portuguesa. É possível que em Setembro regresse a Ponta Delgada e à Galiza, e em Outubro irei ter mais uma tour nos Balcãs (para já dois concertos confirmados na Croácia e conto ir pela primeira vez à Bósnia, para além de voltar à Sérvia, Eslovénia, Macedónia). Estou sempre em contacto com diversas pessoas na medida de fechar datas de concertos, em Portugal e noutros países e à medida que vou confirmado as datas publico na minha página.

Para além disso, iniciei uma colaboração com a artista norte americana Martha Colburn, que se mudou para Portugal recentemente – vou colaborar no próximo filme dela, na parte da música e possivelmente participar nas filmagens. É uma sorte porque já conhecia e gostava do trabalho dela há um par de anos. Também preparo demos e novas composições para o meu próximo álbum de longa duração que deverá ser gravado neste Verão.

André Gomes de Abreu




quarta-feira, 17 de junho de 2015

D'ALVA - Entrevista

Haveria de chegar o dia em que Ben Monteiro se desligaria dos Triplet.
Haveria de chegar outro dia em que Alex D'Alva Teixeira se desprenderia dos Cast A Fire, do seu cantinho blogosférico e apareceria em "3 Tempos" a colocar dúvidas sobre o que seria ou não seria um projecto de passo de cruzeiro dos Bloc Party da geração "Silent Alarm".
Do EP de estreia ao disco, caminho em que os dois perceberam que eram D'Alva para durar, houve sempre algo que não mudou: os sons e as pessoas amontoaram-se sem uma razão determinante, sem que se pudessem calcinar a partir da sua identidade, ela própria à base de universo de pequenas variações de convicções e representações de ideais tão simples que ninguém sabe o que é. Como a la dolce Internet a que os colam como cartazes nas paredes para a próxima matinée ou para a próxima noite temática.
Não é obrigatório ler esta entrevista para perceber que alguma coisa deve estar certa naquilo que os D'Alva estão a fazer. Mas é necessário para perceber o porquê de estar (par)a acontecer e de todos querermos saber. A pop, sem preconceitos e com rebuçados de lascar o esmalte, rejuvenesce aqui para todos para a posteridade mas sem pesadas responsabilidades.

Não os deixem fugir esta Sexta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com Isaura e Diogo Piçarra como convidados especiais já confirmados.






BandCom (BC): O que significa a Internet para os D’Alva? Sentem-se totalmente confortáveis com alguma definição ou tentativa de definição com que tiveram contacto?

D'Alva: A Internet é onde facilmente todos passamos pelo menos um terço do nosso dia. Se isso é uma coisa necessariamente negativa ou não é outra conversa, mas o que é, de certeza, é um facto. E, nesse sentido, ser uma “banda de Internet”, como fomos apelidados, é estar presente nesse quota parte da vida das pessoas. E nós D’Alva também passamos parte do nosso dia na Internet; por isso, sim, é totalmente confortável. A Internet é um local que pode ser perigoso, irónico ou cínico demais, por vezes, mas é refrescantemente democrático ao contrário de tudo o resto que nos rodeia. E ser bem recebido nesse tipo de contexto é óptimo.

BC: Não é garantido para todas as bandas com apenas um disco longa-duração que consigam, mesmo até que nem sejam portuguesas, atingir um sucesso tal à primeira tentativa que lhes permita “escolher” duas salas com a dimensão do Centro Cultural de Belém e do Teatro Rivoli para comemorarem um ano desse lançamento. Em primeiro lugar, vêem isto, e até todo o trajecto até aqui, como a concretização de algo que é, para vós, justo ou, por outro lado, ainda estão surpreendidos com tudo isto e é-vos difícil analisar tudo como se fossem exteriores a D’Alva?

D'Alva: De facto, a cada dia há um novo episódio que se desdobra nesta curta mas bem recheada história que está a ser o nosso percurso. E até o dia de ontem não foi excepção, em que por exemplo ao jantar depois de um dia repleto de entrevistas e até interacção com outros músicos que admiramos, como por exemplo o Sérgio Godinho (sim aconteceu), uma artista nórdica que vive no Reino Unido e de quem admiramos o trabalho nos contactou para colaborar juntos, dizendo que ouve o nosso disco há meses e que é super fã, isto sem entender um pingo de português.
Também já recebemos convites da Austrália, dos Estados Unidos, e sublinhamos isto porque são apenas exemplo de coisas que nunca poderíamos imaginar que poderiam acontecer. Estamos constantemente a ser surpreendidos a cada instante e não, definitivamente não temos capacidade de análise exterior. Cada vez mais nos reconhecem na rua, os nossos amigos dizem que estamos em todo o lado, mas nós só vemos a nossa agenda a ficar cada vez mais cheia e de coisas cada vez melhores. Está a ser uma aventura, e estamos infinitamente gratos por poder vivê-la. Se justiça há nisso? Talvez.



BC: Em segundo lugar, apontar a salas de maior dimensão é também uma forma de redefinirem o que querem retirar de D’Alva e de partirem para lá de um formato redux aparentemente mais fácil de implantar?

D'Alva: Salas maiores e com lugares sentados são um desafio para nós. Temos repetido que é no contexto de um clube ou festival ao ar livre que nos sentimos em casa, pois são ambientes festivos, como o nome indica, e a nossa prestação ao vivo pode ser resumida a uma festa. E como todos na banda vimos de um background de música que vai beber ao punk e ao hardcore ou mesmo ao indie-rock mais musculado, é de facto aí que estamos mais confortáveis.
O formato "Redux" surgiu quase que por necessidade: a início éramos apenas nós dois, depois juntámos a Carolina que faz parte da banda maior para nos ajudar e agora juntámos o Gonçalo de Almeida, nosso baterista, para que esse formato mais electrónico e mais dançável funcione em palcos maiores e ganhe mais expressão dinâmica. E foi uma aprendizagem,também, transpor a energia de uma banda de 6 pessoas para 2, 3 e agora 4 mantendo alguma novidade e não sendo apenas um computador a correr um instrumental do disco. Aliás, temos sentido que somos pelo menos 2 ou 3 bandas numa só devido a todos esses desdobramentos mas [isso] fez de nós melhores músicos em palco, melhores entertainers e queremos acreditar que quem sai a ganhar é o público.
Mas estas salas, como o CCB, são um desafio e representam o próximo passo na nossa maturação enquanto banda ao vivo. Não podemos recorrer aos nossos recursos que funcionam num clube com pessoas perto de nós ou num festival com um som massivo em que podemos subir à grade e nadar em cima do público: aqui, tal como o público vai estar sentado, também nós precisamos de nos sentar e pensar, planear o que de outra forma nos é espontâneo e fazer valer a nosso favor as coisas que trazemos para cima da mesa.



BC: Acontece-vos que o descomprometimento associado aos D’Alva, aos seus concertos e à sua música, se sobreponha muito à seriedade com que certamente também gostariam de ser reconhecidos enquanto profissionais? Ou a seriedade é mais importante noutros locais, noutros projectos, noutros trabalhos?

D'Alva: A seriedade existe e é total mas na altura e local certos. De facto, o ambiente que cultivamos é tão descontraído que por vezes nos esquecemos que uma ida ao Porto para um concerto não é uma viagem de fim de semana de um grupo de amigos - porque na verdade é assim que nos sentimos. É algo profundamente importante para nós que essa seja a base de tudo o que acontece em D’Alva: se é isso que respiramos é isso que vamos transpirar para quem nos vem ver.
Mas tem sido excelente perceber a maneira como temos evoluído nesse aspecto e como até as equipas técnicas dos festivais e salas, que nos vão re-encontrando, sublinham o prazer que é trabalhar connosco. Tentamos ser o mais profissionais dentro do que nos é possível, visto a nossa estrutura face a outros músicos que já fazem isto há mais tempo ser ainda humilde, fazemos questão de cumprimentar, conhecer e no final agradecer a todos os membros das equipas técnicas, seja no palco ou fora dele com que nos cruzamos. É importante para nós essa postura “anti-diva”, pois no fundo sem estas pessoas do nosso lado o nosso trabalho de pouco vale, mas assim que as luzes baixam, a intro arranca, a seriedade desaparece por completo até que soe o último acorde. É algo intencional, é assim que queremos que sejam os nossos concertos: seriamente divertidos.


BC: Há pessoas, locais, acontecimentos que vos remetam de imediato para indexar tudo ao “#batequebate”?

D'Alva: Claro! Durante imenso tempo o #batequebate era um completo sucesso mas apenas para alguns amigos mais próximos que nos acompanharam no percurso de completar o disco. Há momentos-chave nos quais estamos a gravar e acontece magia, em que por exemplo uma namorada está a presenciar de break through sem que estejamos a dar conta e quando nos viramos para trás vemos um brilho nos olhos que denuncia que de facto algo especial está a acontecer. Há muitos momentos e locais assim, visto que este disco foi parcialmente gravado num Macbook Pro, portátil portanto, o que faz com que certos locais da nossa cidade, casas de amigos, até igrejas, sejam sinónimo de #batequebate para nós. Há até alturas em que escrevemos uma canção em reacção a uma crítica negativa por parte de alguém da imprensa à nossa música e acaba por ser uma das canções mais bonitas que escrevemos. Cada trecho deste disco carrega parte substancial das nossas vidas enquanto era feito mas o mais surpreendente é como estas canções continuam a serem catalisadores de momentos que nunca mais esqueceremos. Ainda ontem fomos os dois a um Rockódromo (ginásio de escalada), onde uma amiga nossa trabalha, e começa a dar uma canção nossa, ou, como aconteceu ontem também, vamos a uma casa de banho pública e estava alguém a assobiar o Frescobol na íntegra!
Esses momentos são preciosos demais.





BC: Enquanto músicos, é uma convicção que a música que produzem valerá por si. 
Com os vídeos, as performances em palco e outros complementos em redor, se chamar pop ao que fazem é estranho face aos termos de comparação mais acessíveis, se já nem as imagens são garantias de fidelidade, as pessoas ouvem, na vossa opinião, a música dos D’Alva de uma forma diferente daquela que vocês ouvem e daquela com que ouvem outros artistas?

D'Alva: É difícil responder a essa pergunta. Já perdemos a conta às vezes que alguém nos diz que o nosso disco é fresco. Ultimamente peço que me expliquem o que isso quer dizer e ninguém encontra mais adjectivos. A única coisa que podemos dizer é que tentamos fazer música que nos fizesse sentir o que sentimos quanto ouvimos os clássicos do Michael Jackson em criança e que não conseguíamos não dançar, o que sentimos quando ouvíamos um genérico de um desenho animado e que nos transportava imediatamente para um outro local, o que sentimos ao ouvir as clássicas canções dos filmes da Disney que ainda hoje todos sabemos de cor, o que sentimos quando em adolescentes escutávamos umas Spice Girls, a garra que sentimos quando ouvimos pela primeira vez até um Kurt Cobain, e o que sentimos quando descobrimos num outro extremo um James Blake ou uns The XX. Tentámos, pois reproduzimos essas sensações meio transcendentais enquanto compúnhamos, gravávamos e produzíamos as canções. Foi a primeira vez na vida de ambos enquanto músicos que pudemos ser livres e abraçar as melodias que corriam nas nossas cabeças, que ecoavam dentro de nós, sem quaisquer restrições. Se pensarmos que tocámos em bandas de punk-rock, hardcore ou metal, ou mesmo o nosso tempo na FlorCaveira, nem sempre as melodias mais catchy eram bem vindas. Aqui pudemos ser nós mesmos e fazer a música que queríamos ouvir.
Nós ainda ouvimos música e deixamo-nos levar e apaixonar por vários artistas da mesma forma e queremos que assim continue, e sinto que a maior parte das pessoas que conhecemos que fazem música perderam um pouco a noção pela qual começaram a fazer música. Ou que é importante que esse tipo de sensações seja o ponto de partida e só depois deve vir o resto e, na maioria dos casos, o processo tornou-se mais um projecto de engenharia fria mas precisa do que outra coisa.
Uma coisa é certa, a nossa música conseguiu atravessar gerações, sub-culturas, credos, temos continuamente quem oiça musica mais alternativa ou até metal a dizer que por uma estranha razão gosta da nossa música e não consegue parar de a ouvir.


BC: Apesar de o #batequebate ser uma viagem por tudo o que se juntou à pop ao longo destes anos para a puxar “p’ra cima” (qual malha da Xungaria no Céu), e de haver uma diferença de idades que vos incute vivências diferentes dos mesmos períodos históricos, é no futuro e naquilo que “vem a seguir” que D’Alva mais faz sentido, por exemplo, como uma banda para uma primeira parte de um concerto?

D'Alva: Um dia deixaremos de ser o futuro, um dia esgotaremos a capacidade de sempre surpreender, quem sabe? Aliás, esse dia deve estar bem próximo dada a velocidade a que as coisas acontecem agora. Se vamos conseguir manter alguma relevância não sabemos de todo, nem vamos perder tempo a tentar continuar a ser the next big thing, coisa que é impossível. Podemos apenas continuar a seguir o processo que nos trouxe aqui. Mas teremos todo o gosto em ser a “primeira parte” de toda uma nova geração e maneira de estar e fazer música em Portugal e isso é consciente de nossa parte.
Já é altura de muita coisa mudar e as ferramentas agora estão na mão das pessoas que querem criar e fazer coisas. A distância entre uma ideia e a sua concretização é a de um par de clicks e não o processo longo de juntar dinheiro, marcar um estúdio e toda a pressão inerente a isso. Vimos de paradigmas diferentes: um da era da K7 e outro da era do MP3, há que manter o que de bom o passado tem e não ter medo do que o futuro oferece.


BC: Quais são as cenas musicais de todo o sempre com que mais se identificam?

D'Alva: Não temos uma cena musical sob a qual tenhamos maior preferência. Somos apaixonados por música e gostamos da mesma intensidade do post-hardcore de uns Underoath como da excentricidade da Bjork. Tanto nos vão ver num concerto dos nossos amigos More Than a Thousand como dos PAUS. Não somos esse tipo de pessoas. Se a música for boa e nos disser alguma coisa, então somos fãs.

BC: Já li noutras entrevistas do Alex, que derivam em parte para a letra do “Não Estou A Competir”, que ele gostaria que no meio musical português “algumas pessoas “ percebessem que “a música não é uma competição e há lugar para toda a gente e há espaço para todos sermos diferentes”. Tendo em conta os convites que já receberam e algumas barreiras que já ultrapassaram, foi fácil, por um lado, arrastar as pessoas com quem têm trabalhado para construir D’Alva para partilhar a vossa mentalidade e,  por outro, mudar a forma de ver e de pensar dessas “algumas pessoas”? Há alguma sensação, mesmo que involuntária, de poder que não esperavam ter?

D'Alva: Essa visão não é de todo um ideal romântico, mas algo em que cremos profundamente. Ambos fomos a típica criança ou adolescente que sempre teve dificuldade em fit in, nunca sabíamos o que dizer às miúdas como os “fixes”, nunca fomos particularmente bons em desportos de equipa, nunca conseguimos ser como os outros e isso com o passar dos anos mói, custa, deixa marcas, e quando chegamos a outros contextos profissionais ou mesmo à música e percebemos que existe uma dose grande de territorialismo ou clubismo por parte da grande maioria dos músicos, somos naturalmente transportados um pouco ao passado e percebemos que em certa medida ninguém saiu do liceu - e existe esse desconforto de não fazer parte do grupo dos “músicos fixes” e de sentir que temos uma voz e algo a dizer que é único e não saber como o fazer.
Como ambos partilhamos um pouco esse passado, foi um encontro de kindred spirits e percebemos que a única saída seria fazer não fazer check em todas as caixinhas que fariam de nós membros dos clubes, mas fazer check em todas as caixinhas que nos deixariam satisfeitos pessoalmente. Essa foi a chave e, se há espaço para nós, há espaço para qualquer um.
Acreditamos em democracia musical, em que o público é que diz o que quer ouvir e reage ao que gosta, por oposição a como a indústria da música e imprensa funcionaram no passado (e ainda funcionam, um pouco) em que são eles o buffer do que deve ser editado e consumido: ou seja, apresentam um menu reduzido, safe e muitas vezes pobre e limitam as nossas escolhas. A Internet muda tudo isso, o on demand, o streaming muda tudo isso. São as pessoas a fazer as suas playlists, são essas playlists que vão parar a podcasts, DJ sets, etc. E, felizmente, na Internet há de facto espaço para todos e na Internet o que não é bom ou relevante com o tempo torna-se ruído de fundo.
Nós queremos ser [um] porta-estandarte dessa mentalidade e de fazer tudo o que está ao nosso alcance para que outros “D’Alvas” vejam a luz do dia. E se por um lado o percurso que fazemos é uma constante descoberta, cheia de desafios, sejam quais forem as portas que abrirmos, teremos todos o gosto que outros passem por elas.





BC: Não seria difícil construir, excluindo outras referências óbvias e únicas, uma genealogia muito básica da música dos D’Alva se nos tivéssemos que ficar por Portugal na actualidade. Uma espécie de urgência Xungaria No Céu que encontra a força dos HMB pelo meio e os teclados dos Voxels ou do XINOBI. 
Já vimos a Ana Cláudia, cujo EP de estreia o Ben produziu e também foi editado pela NOS Discos, fazer coros para os D’Alva, só para citar um exemplo. Existe esse laço umbilical, inexorável entre quem o Ben produz aparte os D’Alva e os próprios D’Alva? Aparte essa ligação, com quem discutem mais música e com quem gostam mais de o fazer?

D'Alva: Sim, existe essa ligação. A chave do que fazemos em D’Alva é a relação próxima que temos e que depois se estende para a nossa banda. Essa cumplicidade atravessa tudo o que fazemos. Quando há um disco ou uma canção em que um de nós participa ou produz existe partilha de feedbacks entre ambos, o que leva a que conheçamos as pessoas com que ambos trabalhamos, que se criem laços e que isso se traduza em relações até em cima de palco. Temos vindo a criar laços com bastantes músicos emergentes com os quais nos identificamos, tentado partilhar algum conhecimento que temos adquirido com tudo o que nos tem acontecido e sim, também discutimos música, como a fazer e como estar nela. Alguns desses nomes são, como foi referida, a Ana Cláudia, a Isaura, cujo presente single é produzido pelo Ben, e há mais nomes mesmo em géneros distintos com os quais encurtamos a distância de forma intencional. No âmbito de nomes mais estabelecidos temos talvez os Salto, os HMB e, em nomes mais emergentes, o Tiago Saga dos Time for T., as Golden Slumbers (ou parte visto que metade das irmãs Falcão está sempre fora de Portugal), o Enoque Silva, etc. De uma forma ou de outra sabemos que mais tarde ou mais cedo surgirão colaborações com estes nomes, seja em palco, seja fora dele, e mesmo dentro das fileiras de D’Alva há mais música com potencial de ser criada pelos seus membros, como por exemplo a Carol Barreiro, e queremos potenciar isso ao máximo.

BC: Qual é o elogio que mais gostaram de receber?

D'Alva: Foram muitos mas um que ficou foi de um amigo, o Alexandre, que integra a Banda do Mar ao vivo, que nos disse: “Até que enfim que alguém fez o disco que vocês fizeram, já não era sem tempo, obrigado”. Ficámos sem palavras.

BC: Para terminar, por quem, por que ideias, por que assuntos é que os D’Alva fazem barulho “só porque sim” sem terem que justificar nada?

D'Alva: GIFs dos anos 90, memes certeiros, one liners carregadas de ironia, canções bem escritas por outros, comida que nos dão a provar por esse Portugal fora, física quântica e, para alguns de nós, apenas carros. Para cada há um ruído específico e peculiar.



André Gomes de Abreu




quinta-feira, 5 de março de 2015

XINOBI - ENTREVISTA

Não haverá melhor lugar para XINOBI se inserir do que na cena electrónica portuguesa que está cada vez mais exportável. E não haverá, a julgar pelo Verão passado, pedestal mais honroso do que o sucesso da personalidade dos Vicious Five como nota de que sem eles haveria toda uma década musical que não teria sido a mesma em Portugal.
Agora é Tio Patinhas de tudo o que se quiser derivar da palavra "festa", pai de remisturas de temas de gente tão diversificada como John Grant, Toro Y Moi, Nicolas Jaar e, bem recentemente, Redshoes, Bruno Cardoso tem um passado rico em vivências que não riscam histórias para se substituir à interpretação das suas memórias, ao que agora vê como a direcção certa de uma encruzilhada profissional, pessoal, melómana, constante.
"1975" está para XINOBI como o recente "Voyager" está para Mirror People: cada um deles, um primeiro capítulo altamente mastigado por novos formatos e ideias para divulgar criatividade vítima do abraço em tempo útil da divisão portuguesa da Universal Music.
Eis a auto-exploração de um protagonista táctico nas próximas linhas.






BandCom (BC): O título do teu disco, “1975”, remete para o ano em que os teus pais regressaram de Moçambique e foram viver para Trás-os-Montes. Afirmaste, numa entrevista ao Público, que algumas fotografias deles nessa altura fizeram-te lembrar uma série de filmes com a mesma estética. Como explicas que por exemplo o cinema português, como também o teu disco, nutram uma atenção tão particular a esse período da história? Que lembranças tens hoje dos tempos que passaste no norte de Portugal?

XINOBI: Este período da História de Portugal é fértil para qualquer cineasta ou escritor. É suficiente recente para cimentar com factos um documentário sólido. Para a Ficção torna-se fácil moldar uma história familiar ou um romance – que tenha como base memórias de inúmeras pessoas, pois embora tenhamos 40 anos passados sobre 1975, não houve ainda um salto geracional suficiente amplo para diluir memórias e enredos.
Eu nunca vivi realmente no Norte. Nasci na ressaca do “retorno” das colónias e acabei por vir viver para Lisboa antes de completar 1 ano de vida. Mas em puto fiz muitas férias e passeios no Norte, pelas terras dos meus avós. Os meus pais quando chegaram, nascidos em Moçambique, não pertenciam a lado nenhum. Naturalmente acabaram por pertencer ao êxodo dos muitos que partiram rumo às cidades em busca de trabalho e estabilidade. A minha infância está cheia de momentos com referências a esta transição – o antes e pós 25 de Abril: pessoas a falar sobre o assunto; discussões animadas sobre política sobre o que era bom e já não é, sobre o que era mau e agora vai ser melhor; sobre expectativas. A televisão, a rádio, etc.
Consigo perfeitamente pintar a conjuntura dos anos antes de eu nascer, podia ilustrá-la em escrita, por exemplo. Acabei por referir-me a ela musicalmente - no entanto, neste álbum não procurei, de todo, fazer um retrato do ano de 1975.



BC: Quais seriam, neste teu disco, as tonalidades que mais te fazem lembrar esses tempos?

XINOBI: Principalmente as tonalidades que geram momentos mais contemplativos. Por exemplo, eu não considero este álbum como uma obra nostálgica, de todo - mesmo sabendo que tenho nele elementos que remetam para a nostalgia, como a letra da "Mom and Dad" ou alguns dos momentos mais melancólicos. Diria que associo mais as três primeiras músicas a “esses tempos”, principalmente o ambiente que podem ouvir em “Polana” que, creio, é também o meu tema favorito.


BC: Noutra entrevista, disseste que não conseguias “ver música desprovida de raízes”. Quais são, para ti, as “raízes” da tua música?

XINOBI: As raízes da minha música são tão dispersas quanto o minha procura incessante por música que não conheço. Sou muito adepto de absorver o que me é novo e agregar rapidamente ao que faço. Mas, para ser simples, posso afirmar que as raízes centrais da minha música se encontram no disco e no house, nas bandas-sonoras dos meus filmes favoritos, no rock e na Jamaica. Pelo meio está o meu sangue latino e luso, mas esse é-me intrínseco – não é a raiz da minha música, mas completa-a.


BC: Conta-nos um pouco mais sobre a escolha dos singles deste trabalho e da sua ligação com os videoclips criados.

XINOBI: Honestamente, para singles escolhi, ou ando a escolher, os temas que são mais canção e que fogem um pouco ao enredo mais abstracto de alguns dos instrumentais. É uma escolha clássica contundente com a “norma” da indústria da música. Não me chateio nada com isso, pois não fiz nenhum dos singles com o objectivo de o serem. Deixei os videoclips um pouco na mão de outras pessoas, ainda que no primeiro para a "Mom and Dad" tenha contribuído com input extenso. No segundo single, "Real Fake", cujo vídeo estreou agora, o meu input foi residual. O realizador Rui Vieira interpretou a música de uma forma que eu não esperaria e eu adorei.


BC: O teu disco poderia servir de banda sonora para um filme. Qual seria o enredo e qual seria o teu papel? A tua experiência com o teatro Praga inspira-te a pensar numa aventura cinematográfica?

XINOBI: Eu sou muito timído para actor. O filme, no entanto, seria a história de um rapaz a lutar para fazer do seu hobby a sua profissão. E sim, seria meio auto-biográfico.
O trabalho que fiz com o Moullinex e com o Teatro Praga para uma re-interpretação d' "A Tempestade" de Shakespeare musicada por Purcell foi talvez a minha maior aventura artística até à altura de lançar o álbum. Tenho a certeza que o input emocional, estético e físico que apreendi aquando do trabalho com o Teatro Praga foram cruciais para alguns momentos do álbum. Eu quero fazer música para filmes, independentemente da proveniência dessa vontade de a fazer.


BC: Um dos teus autores favoritos é o Paul Virilio, pensador, entre outras coisas, da velocidade e do medo, dois elementos segundo ele interligados. A “sincronização mundial das emoções” é também um dos elementos que aborda. São preocupações tuas? Achas que a música, hoje em dia, é mais fácil de chegar a todo o lado por haver uma maior uniformização da cultura no mundo e porque as pessoas tendem a ter as mesmas expectativas?

XINOBI: A primeira vez que li Paul Virilio fiquei deprimido e achei que não havia qualquer tipo de futuro para a relação humana com proximidades definidas, e que tudo o que era físico iria ser desvalorizado, que no imaterial residia um futuro, negro, etc. Hoje, por exemplo, não sinto desconforto para com isso. Não me choca nada a elasticidade espacio-temporal que os canais de comunicação nos permitem usufruir. É interessante que do meio da fumarada de lixo cibernético ainda haja multidões virtuais que se materializam na rua com objectivos que não se podem limitar ao online. Arrepia-me que, como Virilio defende, uma nova tecnologia traga inerentemente um “acidente” ou uma catástrofe anunciada, ou que uma tecnologia inventada para um bem seja usada de forma atroz. Algures, ele falava do comboio como tendo sido uma invenção que unificaria povos mas com o comboio veio também a possibilidade tecnológica que disparou a Primeira Guerra Mundial...etc. Com a Internet veio uma ideia de proximidade absoluta mas também apareceu um novo ser solitário, que se entrega ao online e esquece o offline. Um pouco uma versão radical d' "O Homem Da Multidão" de Edgar Allan Poe, desolado e sem identidade, ou d' "A Multidão Solitária" de David Riesman - com tanta gente por perto a sentirmo-nos mais sozinhos do que nunca.

A  música e principalmente o consumo de música reflectem tudo isso. E padecem de algo como um totalitarismo do excesso: tens tudo em demasia e não consegues quase nunca canalizar um foco de atenção a algo em especifico. É muito fácil ser melómano de superfície, principalmente com o Google ou um Shazam mesmo à mão. Eu adoro a disponibilidade total da música mas por outro lado sinto saudades de lutar para poder ter um disco.  Ou de acreditar numa review e encomendar um disco mesmo à bruta, sem medos – “logo se vê se é mesmo bom”. Hoje, [os] problemas são tentar que conteúdos do Spotify que desejo ter offline caibam na memória de um dispositivo. Que preocupações mais fúteis diria eu de mim mesmo e de uma geração que vai alargando a idade...  

Tenho pena de não conseguir ter disciplina de audição. As sugestões de Youtube ou Spotify que aparecem recorrentemente mexem em demasia com a atenção que atribuis à música.





BC: Antes de chegarmos ao teu primeiro disco, assistimos ao funeral condigno dos Vicious Five de que também fizeste parte. Já consegues olhar para trás e analisar a importância de todo o trajecto dos Vicious Five? É verdade que ficam mais marcados os melhores momentos do que os piores momentos?

XINOBI: Os melhores momentos ficam sempre acima, mas os momentos maus que tenham sido decisivos não são nada fáceis de apagar da memória. Sei que os The Vicious Five foram importantes para uma data de putos e que os levaram a fazer bandas e a celebrar o facto de estarem vivos. Missão cumprida.


BC: Cada vez mais vê-se pessoas a dançar num concerto de pop-rock da mesma forma que o fariam numa pista de dança e, por outro lado, cada vez mais pequenos públicos que concebem a música de dança como demasiado texturada e preferem compreender passo a passo, camada a camada, o que vão ouvindo. É mais difícil entender aquilo que faz, como se faz alguém dançar e/ou mexer-se ao som de uma música do que se possa imaginar?

XINOBI: Eu tenho uma dificuldade tremenda em estruturar de forma certa uma música para que ela apele da melhor forma aos sentidos de uma pessoa numa pista de dança. Até porque uma pista de dança não se pode resumir e unificar numa pessoa só. Consigo, no entanto, fazê-lo. No fundo, é estar no estúdio a pensar como DJ. Unir esta disciplina de música para pista com as directrizes de uma canção pop-rock sem que se desrespeite nenhum dos géneros é outra luta. Há artistas que a fazem tão bem que acabaram por unir públicos e daí o comportamento de que falas se tornar normal. O caso de Caribou é paradigmático de como se podem unificar subtilezas de vários géneros pop sobre uma base dancy.


BC: Entre diversas remisturas, colaborações com outros artistas e originais teus, já muito vimos e ouvimos falar de XINOBI mas, certamente, estará muito trabalhado guardado numa gaveta. A que é que dás maior importância na altura de desenvolver um determinado tema? Acontece-te com frequência empenhares-te tanto numa faixa e depois chegar a um beco sem saída por tanto trabalho e tantas ideias concretizadas em tão pouco tempo?

XINOBI: Tenho um contentor de esboços, ideias, músicas quase terminadas...
A dada altura acabo por desenvolver o que vai correndo melhor dentro do material que gosto. Se até certo ponto este processo pode parecer – e até é – meio aleatório, depois o pragmatismo tem de vencer e nada melhor que um deadline que me faça focar em definitivo nos temas que tenho a desenvolver.



BC: A palavra “snobismo” aparece em algumas entrevistas tuas. Em que é que isso te afecta na tua actividade como músico? Onde o vês mais presente? Será que, por exemplo, um clube mais "snob" é forçosamente menos acolhedor para um músico como tu ou nem por isso?

XINOBI: Obviamente que todos acabamos sempre por julgar os outros por acharmos que o nosso entender da vida é o mais fixe. Somos todos "snobs" em certo ponto do nosso universo. Não me recordo bem em que contextos falei de snobismo...
Um clube "snob" será um clube que te julga pela roupa que trazes? Ou será aquele que oferece uma programação que agrada menos às massas e mais a nichos? Não sei muito bem. Mas nenhum destes casos me afectou por aí além enquanto músico. É entrar, fazer o que se tem a fazer. Detesto que haja alguém que se pense superior só porque detém consigo mais conhecimento sobre algo, mais dinheiro, uma cara mais bonita ou whatever; no entanto, curto ser um "snob" gigante quando, por exemplo, vejo o apogeu de uma mediocridade absolutamente indiscutível, como por exemplo numa Casa dos Segredos (ahah). Da mesma forma, um músico virtuoso pode olhar para mim e rir – "olha para este fedelho... pfff, não sabe nada, anda aqui a desacreditar o que é realmente a música".


BC: As ligações que tu e a própria D.I.S.C.OTEXAS em que apareces integrado conseguiram estabelecer com grandes salas europeias são o fruto de uma nova apreciação da música portuguesa, mais actualizada, no estrangeiro?

XINOBI: Creio que de início foram fruto da desterritorialização da nossa música. Isto é, quando comecei a ter feedback fora de Portugal não o tive como consequência de viver em Lisboa mas porque a música que fazia não representava claramente o lugar de onde vinha. Nos "entretantos", tenho a plena noção que alguma da música que escrevi tem roots populares portuguesas - ainda que maioritariamente distorcidas, e também acredito que se olhe para, por exemplo, a cidade de Lisboa como mãe de cultura exótica que é fixe enquadrar num festival ou num clube europeu ou seja de onde for. Muito por culpa de uns Buraka Som Sistema, dos Madredeus, dos Dead Combo, ou Moonspell e por exemplo, mais recentemente, dos PAUS. Portugal hoje oferece realmente algo fresco – simultaneamente genuíno e universal – que pode contaminar o Mundo. Aqui anda-se a fazer do melhor que se faz no Mundo, ainda que sem as infraestruturas que muitos tem acesso lá fora.





BC: Muitos espectáculos e muitas horas no estúdio depois, este é ainda o teu primeiro LP. Ainda subsiste alguma pressão, sobretudo na hora de o apresentar ao vivo?

XINOBI: Eu, por mais seguro que esteja em relação a algo meu, na altura de o defender tenho sempre o nervoso miudinho à perna. Entro em modo autista uma boa meia-hora antes e devo parecer um pateta antipático. Para mim, a pressão aumenta quando há expectativas sobre ti, e por exemplo num DJ set é muito fácil arruinar a tua posição para com os teus fãs se quiseres agradar rapidamente a todos os presentes que ainda não te conhecem e que se calhar nem estão preocupados em conhecer-te. Num concerto também podes desapontar muito mas com outras texturas e, por norma, a apresentar apenas a música que é da tua autoria. Nunca deves soar mais "xôxo" ao vivo do que o que gravaste em estúdio, por exemplo.


Mickaël C. de Oliveira




domingo, 11 de janeiro de 2015

LA CHANSON NOIRE - Entrevista

Após alguns anos de actividade, Charles Sangnoir deu como terminado o seu projecto La Chanson Noire, embora não possamos considerar a falta de sucesso como um motivo para essa decisão. Na verdade, La Chanson Noire foi crescendo e colaborando com artistas dos mais diversos campos artísticos, apesar de sempre ter sido, no seu âmago, um projecto a solo. A decisão de lhe pôr término foi revertida recentemente e falámos com Charles acerca do passado e futuro da banda, futuro esse que inclui um novo álbum já em 2015.





BandCom (BC): Após o lançamento de Macumba Stereo, em 2013, insinuaste que esse seria o capítulo final de La Chanson Noire. O que te fez mudar de ideias?

Charles Sangnoir (CS): Na verdade Chanson esteve com os dois pés na cova e a verdade é que durante quase um ano abandonei o projecto por completo – cheguei a um ponto de saturação e cansaço em que senti a necessidade de fazer um corte e começar de novo. No entanto, há coisas que custam a morrer e de repente, quando comecei a trabalhar num novo disco, percebi que tudo aquilo que estava a fazer era Chanson – Eu sou Chanson, e é quase impossível apartar-me desse legado. Tive ainda um período de negociação comigo mesmo, a tentar perceber se deveria ou não procurar outros caminhos, mas quando surgiu o convite da C.M. de Lisboa para tocar no cemitério dos Prazeres (onde fiz a sessão de fotos para o primeiro disco de La Chanson Noire) percebi o óbvio – e pronto, a canção negra regressou.



BC: O ocultismo e a música parecem estar sempre de mãos dadas em La Chanson Noire. São interesses que te acompanharam a vida toda?

CS: Estes dois tópicos pautam a minha vida desde a infância e cruzam-se diversas vezes pois são parte integrante do meu dia-a-dia.


BC: E há uma relação muito forte entre a tua vida profissional e musical?

CS: Inabalável. Na verdade, desde há meia dúzia de anos que vivo quase exclusivamente da música – tenho um estúdio de gravação, uma editora, uma agência e colaboro com diversos artistas em estúdio e ao vivo. E não trocaria esta vida por nada!


BC: É bastante evidente que, tanto a nível cénico como musical, tens uma grande atracção pelo teatral e pela fantasia. É uma forma de escapar à vida mundana?

CS: Há uma falácia nesse raciocínio: a vida 'mundana' é toda ela inundada de teatralidade e fantasia; é apenas o cansaço dos nossos olhos que não nos deixa ver isso com mais frequência. Na verdade, tenho uma atracção mortal pelo burlesco e pelo bizarro e isso transparece no meu trabalho mas não é, no fundo, mais do que um reflexo da minha vivência do dia-a-dia.


BC: Isso estende-se aos inúmeros videoclips de La Chanson Noire, onde a música serve de banda sonora e com frequência não és mais do que uma personagem numa história. 

CS: Tenho uma paixão enorme pela arte em todas as suas vertentes, incluindo o audiovisual – acho que toda a música pode crescer quando acompanhada por imagem e se pudesse faria um vídeo para cada um dos meus temas – na verdade já estive mais longe disso e terá tendência a piorar com os anos.





BC: Que correntes do cinema te seduzem mais?

CS: Não discrimino muito e vejo o que me agrada – na adolescência era um fã enorme de cinema de horror, principalmente série B, mas com o passar do tempo vim a descobrir uma riqueza enorme no cinema chamado independente e em filmes de cariz mais experimentalista. Desde Lars Von Trier a Tim Burton, de Pasolini a Kenneth Anger, entretenho-me com muita coisa diferente.


BC: Apesar de todo o interesse pelo ocultismo e de rotulares a tua música como “música impopular portuguesa”, tiveste o Fernando Alvim na apresentação do teu livro (Cadernos de Desapontamentos) e o Adolfo Luxúria Canibal dos Mão Morta como convidado no teu disco "Cabaret Portugal", entre muitos outros. Não aderes portanto à mentalidade de que a música “underground” deve ficar fechada sobre si mesma.

CS: Na verdade não acho que hoje em dia faça sentido o rótulo seja em que estilo for – a Internet veio a quebrar muitos mitos e hoje em dia só fica fechado na garagem quem quiser. Tenho consciência que a música que faço não é para consumo de todos os segmentos da população mas estou em paz com isso. Quanto a colaborar com personalidades tão diversas como Fernando Alvim, Fernando Ribeiro, Nuno Markl ou Adolfo Luxúria Canibal, tem que ver com o meu gosto por contrastes e pelo inusitado. Há uma beleza particular nas coisas fora de 'contexto'.


BC: Apesar de seres fundamentalmente uma one-man band, já trabalhaste com dezenas de artistas. Como balanças a autonomia e a cooperação?

CS: Sou uma pessoa de relativamente bom trato mas tenho um feitio abominável no que toca às minhas criações: sou muito intransigente e tenho uma ideia muito específica do que quero fazer, pelo que a melhor forma de trabalhar é convidar pessoas para colaborarem comigo pontualmente – o resultado é muito satisfatório e perco menos amigos!


BC: Lançaste o teu livro (Caderno de Desapontamentos) através da Necrosymphonic Entertainment, editora que geres. Já que ela precede La Chanson Noire, qual é a sua origem?

CS: A Necrosymphonic nasceu em 2003 e foi fundada a meias com o Simão Santos, também conhecido como Beyonder e vocalista de Martelo Negro. Foi constituída essencialmente com o propósito de lançar os nossos projectos paralelos ou coisas de que gostássemos mas que não tivessem viabilidade comercial.


BC: Como escolhes os artistas a lançar via Necrosymphonic?

CS: Na verdade o mais normal é ser por relação de afinidade – quando conheço algum artista que me fascina ou que sinto poder ajudar, avanço. Portanto, um aviso à navegação: deixem de enviar e-mails e discos, não procurem por nós, nós procuramos por vocês!





BC: Este ano sairá o novo álbum, "Evergloom". O que nos podes dizer sobre ele?

CS: Posso dizer que será o disco mais negro e intransigente de La Chanson Noire – farei exclusivamente aquilo que me apetecer e os meus critérios de exigência estão mais elevados: pela primeira vez na minha vida dei por mim a jogar temas ao lixo por achar que não se adequavam.


BC: Neste momento, qual é o futuro que vês para La Chanson Noire?

CS: Um futuro negro, muito negro.  ;)



Daniel Sampaio






segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

VITORINO VOADOR - Entrevista

"O Dia Em Que Todos Acreditaram" é o título de um dos primeiros discos a ver a luz em 2015. A estreia em longa-duração de João Gil como Vitorino Voador chega a 19 de Janeiro com carimbo da Azáfama após o EP de estreia "O Vitorioso Voo Do Vitorino Voador" que lá pela primeira edição do Festival Novos Talentos FNAC em 2012 se viu e ouviu ao vivo também pela primeira vez.
Depois de vários espectáculos por todo o país e todo o tipo de palcos e públicos, está prometido que este novo conjunto de canções irá herdar todo esse processo de crescimento, enquanto adaptação e assimilação, que não tem fim, muito menos com uma mente criativa em jogo. Em antecipação, a conversa para desconversar sobre anos de muito trabalho, muitos papéis e muitos pequenos futuros imediatos.






BandCom (BC): Que recordações te deixa 2014 e, por outro lado, o tempo de vida em termos de concertos ao vivo que teve o teu primeiro EP?

Vitorino Voador (VV): Olá. 2014 foi um ano brutal no que toca a concertos que dei, passei pelos palcos mais incríveis onde já estive, corri os festivais quase todos (uma das coisas boas de tocar em várias bandas!) e isso levou-me a conhecer muita gente muito boa e com muita coisa para contar. O meu EP teve um feedback muito positivo e isso levou a que tivesse mais concertos do que aqueles que tinha imaginado. Um dos meus primeiros concertos foi no Vodafone Mexefest e isso serviu logo para matar qualquer medo de me apresentar em palco. Passei depois por outros sítios e todos foram especiais à sua maneira, uns com mais gente, outros com menos, mas sempre com uma reacção muito boa. Foi uma grande lição para mim como músico e frontman pela primeira vez num projecto.


BC: Consegues efectivamente obter um feedback diferente como Vitorino Voador do que como membro de outras bandas? Em que medida?

VV: Como membro das bandas em que toco, recebo um feedback normalmente relacionado com o que faço ao vivo. Como Vitorino Voador as pessoas que falam comigo, falam de outras coisas e interessam-se por coisas um pouco mais escondidas em mim. Perguntam-me como fiz as músicas, sobre o que falo, o porquê disto e daquilo...é diferente, há um interesse um pouco mais profundo por aquilo que faço, mas que acho que é normal já que é uma coisa onde dou completamente a cara e falo abertamente da minha vida.


BC: Vagueando pela Internet, vemos que o “Venha Ele”, por exemplo, já existia em 2012 quando já o tocavas ao vivo. Este intervalo de tempo entre estes dois trabalhos alimentou ainda mais a criatividade, ao ponto de talvez teres que deixar músicas para um outro álbum, ou foi mais um “espera/desespera” para lançar as canções que ficaram já prontas há algum tempo?

VV: Esta é uma pergunta muito boa. O tema “Venha Ele” é um dos temas que tinha planeado colocar no EP, por várias razões isso não aconteceu. Mas gostei sempre muito da música e toquei sempre nos meus concertos - cheguei mesmo a retirar o meu single do EP do alinhamento mas essa música nunca saiu e terminou muitas vezes os meus concertos. Quando comecei a planear o disco e a ver um novo alinhamento a surgir, a música fez todo o sentido novamente e entrou no disco. Muitas ficaram de fora e muitas mais continuam a ser feitas quase diariamente: infelizmente, não consigo fazer tantos discos como gostaria mas as ideias não ficam esquecidas, pode sempre chegar o dia delas a qualquer momento. Existem outras músicas da fase do EP que gravei e que não entraram nem no EP nem no disco, estão guardadas e um dia talvez as rearranje para que se enquadrem com algum novo trabalho que faça. Felizmente e infelizmente, gosto do que faço, isso leva-me a grandes lutas comigo mesmo para decidir o que fica e o que sai fora dos meus discos.


BC: “O Dia Em Que Todos Acreditaram”. Não eras nascido quando o 25 de Abril se deu. É um disco dedicado aos heróis dessa luta ou um disco dedicado às tuas próprias pequenas lutas diárias, sendo que algumas mudaram a tua vida de forma igualmente decisiva?

VV: Todo o meu trabalho será sempre dedicado aos heróis dessa luta. Não sou um homem da política, mas cresci ao lado de uma mulher e um homem que me contaram as suas vidas e a forma como viveram até ao 25 de Abril, as suas lutas acabaram por ser também as minhas. No entanto, dizer que é um disco “só” dedicado aos heróis do 25 de Abril seria uma mentira com a qual não viveria bem; a verdade é que é “também” um disco dedicado a eles, mas é também um disco sobre as minhas lutas diárias. Não são apenas algumas que mudam a minha vida, são todas, mas todas valem a pena. Poderia falar de cada uma delas mas seriam precisas mais 500 folhas para o testamento que aqui escreveria. É melhor não.





BC: Há um momento claro em que te recordes que, mesmo já com a intenção séria de gravar um novo trabalho, estás a afastar-te e a construir um rumo diferente do “Vitorioso Voo”?

VV: Penso que estou a evoluir para alguma coisa diferente: acredito que todos os dias mudo um pouco, mesmo que não oiça música nova, ou que não toque nenhum instrumento durante meses ou que fique fechado num quarto sem fazer nada, acredito que mesmo assim, nos nossos pensamentos, vamos mudando um pouco quem somos e que isso nos leva a novos caminhos com novas soluções. Acho que isso aconteceu no novo disco, talvez não seja perceptível para todos mas eu sinto que sim, que o rumo foi ligeiramente diferente do EP.


BC: A colaboração, por exemplo, no novo EP de ModoFractal vai de encontro a uma tentativa de romper com o que ficou para trás?

VV: Não, nada disso. A participação com o ModoFractal é uma coisa nova para mim. Participar como Vitorino Voador na música de outra pessoa permite-me ser um novo Vitorino Voador - isso não quer dizer que queira quebrar seja o que for do que está para trás. Eu gosto de desafios e este sem dúvida que foi um daqueles que me deram mais gozo: trabalhar com o Telmo (aka ModoFractal) foi um prazer, porque ele, além de ser uma pessoa muito acessível, é também um musico com qualidades brutais e que eu espero que seja reconhecido rapidamente. Aliás, para ser sincero, acredito que muito antes das pessoas ouvirem o meu nome irão certamente ouvir falar nele. Sem querer romper com o que ficou para trás, quero apenas abrir novas portas que tragam novas soluções musicais.


BC: A capa do teu disco é baseada na obra de Joshua Benoliel, considerado por muitos um dos fotógrafos de referência do início do século passado. Apesar de ser um projecto da tua autoria, “O Dia Em Que Todos Acreditaram” acaba por reflectir também a força da união que surge retratada nos grandes trabalhos fotográficos/grandes acontecimentos que Benoliel presenciou, isto é, que um pedaço da nossa intimidade e personalidade só se realiza se for partilhada com outros?

VV: Lembro-me que cresci como músico com alguns medos. Um desses medos foi sempre mostrar a minha música; felizmente, rodeei-me de pessoas que me ajudaram a perder esse medo. A música que faço está cheia da minha intimidade e personalidade e só sinto que faça sentido fazê-la se for para partilhar com os outros. No trabalho de Joshua Benoliel senti que de certa forma isso também acontecia e, olhando agora um pouco para trás, penso que este disco não poderia ter outra imagem ligada a ele. Foi das poucas vezes que olhei para a fotografia como se estivesse a ouvir música.





BC: Para o lançamento do teu primeiro disco como Vitorino Voador passas em definitivo da NOS Discos para a Azáfama. O que pesou mais nesta decisão: as amizades e cumplicidades? A facilidade com que a tua música se poderia integrar no catálogo actual da Azáfama?

VV: A NOS Discos surgiu numa fase muito importante do meu trabalho e isso foi muito bom e decisivo no futuro do Vitorino Voador. Permitiu-me mostrar o meu trabalho a mais gente, mas foi sempre falado desde o início que seria apenas o EP, porque só muito raramente é que a NOS Discos repetia artistas. A Azáfama também fez parte do EP e continuou para o disco. Na verdade não foi necessário pensar em nada, foi apenas continuar a fazer tudo como fiz até ali mas desta vez sem a NOS Discos a participar no processo. As relações de amizade que fiz na NOS Discos continuam e na Azáfama estou rodeado de amigos também, acho que só por isso já faz todo o sentido fazer parte do catálogo.


BC: Sendo editado em Janeiro, altura em que não há tanta música nova como noutros meses do ano, sentes-te mais seguro com a atenção que vai recair sobre este disco e que pode também protegê-lo e apresenta-lo da forma que preferes?

VV: Existem alturas melhores e piores para lançar discos. Na verdade, a decisão no meu caso não está muito relacionada com isso mas sim com o trabalho todo que tenho com as minhas bandas e a necessidade que tenho de agendar bem as coisas para não calharem umas por cima das outras. Janeiro pareceu-me uma boa altura para lançar o meu disco, já que é mais ou menos na altura em que acabo os ensaios para a nova digressão de Diabo na Cruz. Felizmente calha também numa boa altura para mostrar novo trabalho.


BC: Há próximos concertos confirmados que nos possas anunciar?

VV: Nesta fase ainda estou a tratar disso mas gostaria que fossem um pouco depois do dia em que sair o meu disco, talvez Fevereiro, para que as pessoas que queiram ir ao concerto também possam ouvir o disco com calma.


André Gomes de Abreu





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

PEDRO E OS LOBOS - Entrevista

"Um Mundo Quase Perfeito" é o novo EP do projecto Pedro e Os Lobos liderado por Pedro Galhoz, músico de longa data a que não falta uma forte consciência quer do seu papel no meio musical, através da Luckyman e da Nova União das Artes, mas também do seu papel como cidadão. Aldina Duarte, António Manuel Ribeiro, Carlos 'Pacman' Nobre, João Rui e Tó Trips surgem como convidados especiais num conjunto de 7 faixas que oscilam entre o foco na realidade e o foco naquilo que a realidade poderia ou deveria ser, sempre com o blues, a folk e a escrítica de autor altamente presentes.
O desenjoo natalício com direito a concerto logo à noite no Sabotage Club, em jeito de regresso a Lisboa, é pretexto mais do que suficiente para uma conversa com Pedro Galhoz. 






BandCom (BC): Qual o teu balanço deste 2014 que está quase a terminar?

Pedro e os Lobos (PEOL): De um modo geral foi um ano de readaptação para a maioria dos portugueses, em que ficou declarado pelo Governo que as instituições financeiras valem muito mais do que o povo que habita o país e que a maioria do povo não se importa muito com isso. Musicalmente falando, o afastamento da zona de conforto é uma inspiração e estou muito feliz por continuar a ser um sobrevivente nesta pequena selva, sinto que o projecto Pedro e os Lobos está pouco a pouco a ganhar um espaço.


BC: Que Mundo é este que é “quase perfeito” e tem um lado B para conhecermos mais tarde?

PEOL: O Mundo "quase perfeito" é aquele que abraçamos todos os dias quando nos levantamos e colocamos os pés no chão, é aquele que temos, único; no entanto, cabe a cada um de nós torná-lo o melhor possível, não para o ser individual, mas sim para um bem comum. É nesse Mundo que acredito.
O lado B já está em construção, conto mostrá-lo em 2015.


BC: "Convidei músicos que admiro, alguns deles amigos de longa data com quem sonhava um dia colaborar e o dia chegou. Vale a pena sonhar!", assim falas de como reuniste todos os convidados para este novo EP. Os que não eram teus amigos conheciam o teu trabalho? Ficaram também teus amigos?

PEOL: De um modo geral penso que as pessoas sabem quem eu sou enquanto guitarrista dos Plastica, no entanto nem todos tinham conhecimento desta minha faceta de songwriter solitário. Acho que para alguns foi agradavelmente surpreendente e ficaram portas abertas para o futuro. Quanto à amizade, não se adquire, constrói-se - a vida real não é um Facebook (risos).





BC: Três anos separam o primeiro EP deste novo trabalho. O próximo, segundo o que já confirmaste, não demorará tanto tempo a sair. Houve, a certa altura, algum síndrome do “n” álbum ou “writer’s block” de que te tivesses apercebido e sentisses que havia que ultrapassar?

PEOL: Este é um projecto independente, sem pressões de editoras. Consigo gerir as coisas ao ritmo que quero: dá-me tempo para olhar para trás, perceber de onde venho e para onde quero ir. O facto de assumir que o próximo disco não vai demorar muito a sair, tem a ver com o facto de saber o que quero fazer e também o que não quero fazer.


BC: Apesar da longa ligação aos Plastica, a música que fazes, que agora “dás” a outros para ouvirem, tem uma relação mais directa com o que acabas por gostar mais de ouvir?

PEOL: De certo modo é um regresso às minhas origens. Sempre fui fã dos velhos blues e simultaneamente sempre admirei bandas sonoras. A paixão pela América perdida nunca foi escondida, mesmo em muitas músicas dos Plastica. No entanto, em Pedro e os Lobos, por ser um projecto a solo, a minha personalidade está mais vincada e os meus gostos particulares mais expostos.


BC: Não é muito habitual um músico de folk/alt-country/blues ter músicas suas remisturadas ou objectos de versões cujo resultado final consegue ser tão distante do original. É uma forma de reconhecimento dos teus pares que te surpreende também, sobretudo quando poderiam recorrer a outras formas de o fazer ou mesmo às tuas próprias referências musicais?

PEOL: Por um lado considero uma forma de reconhecimento, por outro penso que é uma simples parte de um processo em que a liberdade artística está acima de qualquer formatação prisioneira da moda. Estou 100% disponível para colaborações em que acredite.


BC: Muitas vezes se fala no esgotamento da novidade da música, que tudo o que havia para fazer já foi feito. Contudo, há fórmulas antigas que continuam a dar os seus resultados e mensagens que permanecem actuais. Isso é, de certa forma, o reflexo de que o Mundo em que vivemos actualmente não mudou assim tanto e poderá também não mudar muito mais?

PEOL: A música é feita a partir de sentimentos, por vezes com objectivo de provocar também sentimentos ou sensações em quem a escuta. Os sentimentos humanos são os mesmos desde sempre, o que verdadeiramente muda são as formas de os provocar e os instrumentos que o homem produziu para os embelezar.
Os problemas, as virtudes e as lutas da humanidade são os mesmos desde sempre, com mais ou menos assimetrias. Na minha perspectiva cabe-nos a nós, artistas, o papel de alertar e denunciar essas assimetrias na esperança de contribuirmos para melhorar algo.
Afinal o homem consegue andar no espaço, mas ainda não conseguiu acabar com a fome no Planeta Terra.


BC: Qual é a tua relação com as redes sociais? Qual foi a mensagem de alguém que te viu ao vivo ou ouviu a tua música que mais gostaste de receber? E qual a que mais influência teve em ti?

PEOL: Relaciono-me regularmente com amigos e conhecidos nas redes sociais, tenho por hábito responder a toda a gente que me contacta para falar de música.
A ultima mensagem que me recordo num concerto foi a de um senhor de sessenta e poucos anos que estava a assistir a um showcase e que me disse "bolas Pedro, as suas letras são fortes!". Fiz uma pausa e depois dei-lhe um abraço.





BC: Antes tinhas estado como parte de uma banda que partilhou o palco, entre outros, com os Oasis e com os Suede. Agora, já tens a experiência de dar a cara por um projecto que partilhou palco com Chrysta Bell ou Jennifer Charles e os Elysian Fields. Vês com naturalidade que a mudança de sonoridade se acompanhe de uma mudança de espectáculo, que permite também outro tipo de encontros e de experiências, ou haveria algum encontro improvável feito partilha de palco para concretizar?

PEOL: Sim, a mudança de sonoridade e a experiência colocam-me num patamar diferente, sobretudo menos preocupado com o que possam pensar de mim. A minha história está a ser escrita através do meu trabalho - um dia chegará ao fim, mas entretanto espero continuar a partilhar palcos com outros artistas. Dá-me muita alegria poder continua a fazer o que mais gosto.


BC: Uma “nova união das artes” é algo que poderá ajudar, financeira e criativamente, um músico em Portugal? O que é que é necessário que uma associação, um conjunto de artistas tenha para poder fazer a diferença para cada um dos indivíduos em causa?

PEOL: A " NUA" (Nova União das Artes) é uma associação cultural da qual sou membro fundador e que tem como objectivo unificar as artes e os artistas, promover o seu talento e criar projectos que possam interessar ao mercado, mas também criar alternativa ao mercado tradicional, fomentando e desenvolvendo das várias formas de cultura. É preciso tempo!


BC: Por fim, o que é que Pedro e os Lobos acrescentam e/ou querem acrescentar à música portuguesa? 

PEOL: Sendo artista, mas também consumidor de música e outras culturas, o que me move é sobretudo uma inexplicável vontade de criar em liberdade e mostrar a todos essa minha liberdade.


André Gomes de Abreu




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