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segunda-feira, 9 de junho de 2014

GOBI BEAR @ CASA INDEPENDENTE, 30/05/2014



Num dos últimos dias de Maio, o BandCom ignorou as festividades que decorriam no Parque da Bela Vista e deslocou-se até à Casa Independente, inserida no renascido Intendente (
qual Bairro Alto destes novos tempos) para ouvir e ver Gobi Bear, alter-ego do vimaranense de apenas 23 anos Diogo Alves Pinto. Apesar do atraso, à espera de quem resistisse à subida a palco de tantos nomes de peso a uns quilómetros ao lado, para aqueles que se deslocaram propositadamente ao espaço esperava-se um bom concerto, cheio de energia, alegria e surpresas num ambiente mágico e intimista.
















Com um novo EP "Dare" lançado recentemente e um disco, que integrou o top das listas de melhores discos editado, as expectativas para esta noite eram altas. Contudo, goradas as hipóteses de reproduzir algumas das remisturas agora conhecidas, rapidamente se percebeu que a noite seria dedicada aos seus trabalhos mais antigos - prova disso é o facto de Gobi Bear ter tocado praticamente todos seus temas já conhecidos do último “Inorganic Heartbeats & Bad Decisions” e do EP “Mais Grande”, com espaço ainda para a partilha de novas canções que irão integrar o seu novo disco que já está a ser trabalhado e algumas histórias mais íntimas que acabaram por contribuir para o ambiente cúmplice e familiar que pairava na sala. 





































A abrir: “Eli/Abel”, a colocar em sentido todos os presentes por toda a pujança e originalidade que impunha na guitarra mal soaram os primeiros acordes. Diogo Alves Pinto é um miúdo simples e tímido: no entanto, assim que liga a guitarra e toda a sua maquinaria de pedais ao amplificador, encontra o seu conforto e torna-se numa força da natureza. Um urso destemido que, de uma forma divertida e nas barbas do tigre que serve de pano de fundo ao palco da sala, não tem medo de desbravar os terrenos que nos guiam por caminhos cimbres onde mora a tranquilidade.
A partir daqui, estava criado o ambiente ideal para nos desligarmos do mundo. Após várias insistências do músico para chamar as pessoas para à frente do palco, foi, no entanto, o próprio a tomar a iniciativa e aproximou-se da ribanceira do palco para tocar 100% acústico, sem delays, sem efeitos, “Joana”, stepping stone para uma dose de melodias sensíveis e notas musicais a soltarem-se na calmaria e no escuro reconfortante.

Nota de destaque para os momentos de apresentação de dois temas: “Dusty Blues”, surgido no seguimento de um recente acidente rodoviário que o cantautor teve a infelicidade de presenciar na primeira pessoa e servido agora como epifania para a conclusão desta bela canção, com denotação de alguma influência de camadas mais ambientais de uns Godspeed You!Black Emperor; “1992”, um clímax de uma autêntica fusão entre o romance e a alegoria, uma experiência loucamente bem sucedida e contagiante através da junção milimetricamente equilibrada de camadas e camadas de sons feitos única e exclusivamente a partir de uma guitarra e uma loopstation.  








A terminar hora e meia de concerto antes de passar para trás da mesa de mistura (houve Smiths a pedido e tudo), reserva para a harmoniosa “Monica II” - se há coisa que nos podemos orgulhar é da qualidade da música nacional e da sua respectiva afirmação.
Nesta noite, estes dois atributos formaram a premissa cada vez mais real deste one-man band!




João Ribeiro
Fotografias por José Vidal 




quarta-feira, 21 de maio de 2014

PAUS @ HARDCLUB, 02/05/2014


A noite de dois de maio ficou marcada pela passagem de PAUS na cidade do Porto para a apresentação de “Clarão”, que sucede ao disco homónimo da banda lançado no ano 2011. E embora se previsse que a sala secundária do Hardclub não esgotasse, dado o seu pouco tempo de lançamento e promoção, era de antever uma plateia composta e com um público já em parte a saber para o que vinha.

Partindo do princípio da ideia, é praticamente dado como certo que um concerto deste quarteto seja obrigatoriamente enérgico. À semelhança do EP e disco anterior em que as músicas transpareciam exatamente isso e tocadas ao vivo fluíam de algum modo essa mesma energia ao público, após a audição de “Clarão” qualquer pessoa esperaria o mesmo. Aliás, talvez seja essa a razão que levou a comandante bateria siamesa a estar alinhada no centro do palco, servindo de protagonista e dando apenas espaço para Makoto e Shela brilharem em outras alturas do concerto.


Mas contrariando o postulado anterior, foi de forma mais introspetiva que o público recebeu a banda no Norte. Se “Primeira” não deteve a força necessária para ter feito a plateia explodir logo a abrir a noite, talvez pudesse ter funcionado como alavanca para “Cume” e “Clarão” funcionarem de modo mais efusivo. Nem mesmo “Pontimola” ou “Bandeira Branca” foram capazes de tornar o ambiente mais festivo. E tendo-se percebido cedo que, além dos quatro rapazes estarem ainda a sincronizar-se com as novas músicas em palco, a equipa técnica de som não estava nos melhores dias, talvez esses fatores tenham contribuído para a maior dispersão das pessoas. 


Assistia-se porém a um concerto que, além de qualidade, trazia novidades. Por cima da brutalidade da bateria siamesa construía-se uma sonoridade com algumas tendências eletrónicas que PAUS não tiveram medo de explorar no mais recente trabalho. “Cauda Turca” foi o trunfo mais flagrante nesse aspeto. Além disso, não se assistia ao “tal e qual como tocado no disco”, mas as variações que ocorriam fruto das adaptações ao palco não deixaram as faixas soar estranhas, mesmo para quem já as conhecesse bem. “Nó” foi a prova disso quando se embrenhou na complexa selvajaria sonora da guitarra e provou que o nome lhe encaixa que nem uma luva.


Se em 2011 “Deixa-me Ser” foi a faixa que definiu o estilo da banda, “Corta Vazas” surge em 2014 como aquela que se aproxima melhor dessa definição (juntamente com o single “Bandeira Branca”). Talvez por esse motivo quando as duas tocaram, uma seguida da outra, a sala ganhou a energia explosiva comentada anteriormente. Não que o público não estivesse a aderir ao concerto, já que no final não pareceu existir descontentamento, mas o seu verdadeiro despertar surgiu um pouco tarde.

A época não terminou, porém, para PAUS. Se a sua sonoridade resultou e ainda a primeira noite de verdadeira primavera estava a acontecer, com certeza tempos veranis e mais quentes convidarão a momentos onde a sua forte componente rítmica decidirá qual o próximo movimento de cada corpo da plateia. É oficial, já podem anunciar o verão mais quente de sempre que está tudo preparado.



João Gil

Fotografias por Rodolfo Rodrigues
(galeria disponível em
facebook.com/bandcom)





segunda-feira, 24 de março de 2014

SENSIBLE SOCCERS + THE ASTROBOY @ TEATRO PASSOS MANUEL, 22/03/2014


Após a edição de “8”, os Sensible Soccers voltaram à cidade do Porto em jeito de apresentação do álbum recentemente lançado. E se modo há para comprovar que o quarteto de Vila do Conde atravessa um bom momento na carreira, tal refletiu-se logo meia hora antes da abertura das portas do Teatro Passos Manuel no passado dia 22 de março, quando o triplo das pessoas competia para os dez bilhetes que ainda existiam de reservas canceladas.


The Astroboy inaugurou o palco numa sala ainda não completamente esgotada. Fazendo-se acompanhar de uma eletrónica simples e recheada de cenários governados por temas digitais e cores frias, destacou-se uma atuação eficaz mas que, ao longo do tempo, começava a refletir alguma monotonia. O espaço não proporcionou o ambiente mais adequado, mas também poderá ser, em boa parte, verdade que o facto de uma quantidade considerável do público chegar apenas após esta atuação não entusiasmou o artista. Apesar de tudo, o membro de peixe:avião merecia mais.


Quês e porquês à parte: os Forneleiros a seguir? Vamos lá. Desde dois mil e onze que a banda tem lançado temas que vão marcando a música eletrónica nacional, num destaque claro para “Fernanda”, “Sofrendo por Você” e “Sob Evariste Dibo”, esta última incluída no disco mais fresco. Assim, qualquer um que acompanhe este projeto compreende que tal receita conjugada ao vivo resulta, evidentemente, numa espécie de festa transe para pessoas que usualmente não ouvem transe. É então sem surpresa alguma que ao longo do concerto os lugares sentados da sala portuense foram sendo deixados para trás, e corpos hipnotizados se levantaram numa espécie de dança que os aproximava do portal de acesso a um outro mundo extrassensorial.

Mas voltemos um pouco atrás. As referências ao mundo selvagem começaram quando o piano desse mesmo tipo abriu as hostes para “Eurobonds”, cuidadosamente retirada da "Fornelo Tapes Vol. 1". Não havendo duas sem três, “Zaire 1974” apenas confirmou como faixas compostas há dois/três anos atrás continuam tão atuais, realçando-se sempre surpresas em pequenos detalhes sonoros de deixar de sorriso na cara quem, de tantas vezes as ter ouvido, as sabe de cor. Ao lado entidades femininas conspiravam sobre Manuel Justo cantar/gritar bem.


A primeira fila do Teatro Passos Manuel já estava levantada quando Filipe Azevedo começou a malhar em cima do viciante ritmo de “AFG”. É este um dos segredos de Sensible Soccers. Se por um lado o corpo se vai entregando ao loop constante tão carismático da eletrónica contemporânea, por outro há um contínuo soltar de elementos heterogéneos que vão compondo cada faixa e alimentam a mente que tão pouco gosta da repetição. Corpo são, mente sã, e “Sob Evariste Dibo” teve assim todas as condições de fazer o que tão bem sabe fazer numa complexa selvajaria sonora. O público, esse, acompanhava.


Ainda antes do encore experimentaram-se arcos de violino na guitarra, quais Sigur Rós da eletrónica. “Maria Rosa” também teve tempo de se apresentar em versão prolongada e “Lima” rematou a fase mais introspetiva da noite, em espécie de aquecimento para o fôlego final. Porque, ainda não tinham entrado todos novamente em palco e Filipe, sozinho em “Paulo Firmino”, já deixava o público sofrendo ainda mais por (vocês) aqueles que não conseguiram entrada no teatro. Lógico é que depois da frase anterior torna-se relativamente fácil adivinhar como acabou a noite naquela sala, mas as provas ficam à distância de um clique aqui, dado que ninguém quer cansar ninguém com palavras sobre, por exemplo, roupa interior masculina.


A Groovement tem motivos para respirar orgulho. Após a colaboração na edição do álbum de Sensible Soccers, tem continuado associada à banda através da promoção de concertos que, como neste, têm provado a sua afirmação no panorama da música portuguesa. Se há pouco tempo tínhamos referido que existe material para internacionalização, a opinião torna-se ainda mais sólida após se assistir a uma performance dos próprios, com a concretização do mesmo. Do que estão à espera?


João Gil
Fotografia por Rodolfo Rodrigues




terça-feira, 4 de março de 2014

NOISERV @ CENTRO CULTURAL DE ÍLHAVO, 20/02/2014



Desde 2008 que Ílhavo tem conseguido competir com a capital de distrito que é Aveiro ao nível da criação de eventos culturais, particularmente no que toca a anunciar artistas nacionais do ramo da música. E foi com Noiserv, homem só e multi-instrumentalista, que a agenda de fevereiro do Centro Cultural da cidade encerrou na passada sexta-feira.

Numa sala onde é impossível não saltar à vista um palco tão agradável e bem desenhado (até o artista o fez questão de referir), destacavam-se caras jovens numa população que tem vindo a ver o seu índice de envelhecimento aumentar. Será esta a prova de que um espaço cultural pode constituir o modernizado mercado que antigamente ocupava exatamente o mesmo local e onde agora, em vez de legumes, se compra juventude? Bom, adiante.



Foi neste contexto que o projeto Noiserv, personificado por David Santos, subiu a palco auxiliado por Diana Mascarenhas. E desde logo se compreendeu que mais que um mero concerto, seria essa noite um evento de verdadeiro entretenimento onde choveria conteúdo musical ao sabor das capacidades ilustrativas de Diana, que projetava a sua tela eletrónica dividida em seis quadrantes por trás de David. Imagem essa que se começou a compor mal se ouviu “Mr. Caroussel”, retirada do EP “A day in the day of the days”.

E se por trás do maestro dos mil instrumentos começava a surgir depois da primeira música alguma cor numa urbanização que a ilustradora nos ia revelando, “This is maybe the place where trains are going to sleep at night” permitia que as duas ações que se passavam no palco se relacionassem entre si através da progressão crescente da própria música. Apesar da questão sobre se o artista alguma vez pensou a fundo sobre como se processaria a ligação entre dois pontos de criação diferentes no mesmo palco, mais interessante ainda é constatar a subjetividade inerente à interpretação do espetador. Melhor ainda é só mesmo observar a plateia que compunha a sala do Centro Cultural de Ílhavo deixar-se levar por esta espécie de transe que paira entre elementos visuais compostos ao embalar da melodia.


Alternando faixas antigas com as frescas de “Almost Visible Orchestra”, o mais recente álbum, Noiserv não deixava escapar dois dedos de conversa com o público. Se este rapaz é talentoso ao nível musical, não deixa igualmente de ser um ótimo contador de histórias. Para a plateia contou segredos sobre o por quê deste e daquele tema, enquanto ia revelando algumas superstições que o costumam acompanhar. E, assim, entre a homenagem a Francisco Lázaro em “It’s easy to be a marathoner even if you are a carpenter” onde encaixa uma espécie de síndrome carpe diem sonhador adotado pelo próprio David, ia na mesma conversa e quase de modo paradoxal confessando que já lá vai algum tempo a tocar com a mesma palheta e se algum dia a perder, tudo poderá correr mal. É caso para dizer que a humildade revelada nas suas letras e melodias não se trata de fachada, mas antes algo tão natural como o seu “Obrigado, a sério” após um “Genial!” lançado por um elemento do público em aparente estado de catarse.

Foi já sem Diana Mascarenhas em palco que o artista voltou para brindar o público ilhavense com o encore. Mais importante que a volta foi a forma como deixou o público envolver-se na própria dinâmica do espetáculo, e mesmo não se lembrando onde a guardou na memória, lá foi ensaiando a “Where is my mind” após o pedido para que tocasse a cover dos Pixies.



Como que deixando no ar o toque etéreo que a voz altifalante de “Bontempi” revela, David recebeu o último aplauso caloroso de uma sala quase cheia. É, de facto, notável quando menos de um mês depois de um concerto a pouco mais de cinco quilómetros de distância o músico voltou a encher a plateia. Disse ele que a gente do norte faz as coisas acontecerem. Nós concluímos que é David quem permite à gente do norte fazer acontecer, e desta vez também a pequena cidade de Ílhavo provou pertencer a esse clã que tão bem recebe quem melhores cartas dá na música em Portugal.



João Gil
Fotografia por Rodolfo Rodrigues




domingo, 16 de fevereiro de 2014

CAPITÃO FAUSTO @ LUX FRÁGIL, 6/2/2014

Quinta-feira foi o dia da tão aguardada apresentação ao público do segundo longa-duração sucessor de “Gazela”, por parte dos Capitão Fausto
Santa Apolónia, lugar de chegada e partida como assim pedia a noite psicadélica, foi o local eleito para o passeio de “Pesar o Sol”.
A noite estava fria, as expectativas eram altas e a enchente era esperada: assim que chegámos às imediações do Lux Frágil deparámo-nos com uma longa fila constituída maioritariamente por dezenas de adolescentes atraídos pela sonoridade juvenil do quinteto. Já dentro de portas, apesar do atraso de uma hora, a noite não decepcionou e enfrenesiou por via de um bálsamo sensorial de qualidade.
Em noite de James Bond (e de homenagem a Nuno Roque, o 007 Português), houve ainda espaço para que os Capitão Fausto invocassem os seus
namoros antigos com o psicadelismo nacionalizado em temas como “Febre” e Verdade”.
Para este disco perfurante, que teve um longo período de tempo de maturação em estúdio (gravado no verão de 2012), pairava no ar uma certa expectativa para ver como era transportado o forte trabalho de pós-produção para um concerto ao vivo. O resultado foi muito positivo e os Capitão mantiveram-se bastante fiéis ao resultado da gravação.





Assim que Tomás Wallenstein e companhia entraram em palco, notou-se rapidamente a manifesta evolução da formatação imediatista de “Gazela” com a ascensão da massa sonora que enche “Litoral”, uma certeza da deriva de uns Temples ou mesmo dos australianos Tame Impala em que os Capitão Fausto encontram agora o embalo, assumindo a vontade de
dar continuação à segunda metade dos anos 60 em Portugal marcada por conjuntos como o “Quarteto 1111”.
Durante hora e meia de concerto energético, de ondulação reminiscente e caleidoscópica, o delírio, a histeria e o alvoroço foram uma constante, embora muitas das vezes dando também lugar a canções que levavam as pessoas a momentos de interiorização de canções suaves e cuidadas, como o tema homónimo do novo álbum - ou não fosse este um disco suficientemente diversificado.
Em “Prefiro que Não Concordem” era mesmo impossível o movimento por entre um moche/arrastão/empurrão desorganizado alimentado por guitarras aguçadas e uma bateria pujante; quando chegou a vez do single de apresentação“Célebre Batalha de Formariz”, abateram-se sobre o Lux Frágil climáticos minutos, em que se transpôs a fortaleza psicadélica com Tomás a surfar pela multidão.








As seguintes “Flores Do Mal” e “Maneiras Más” seriam os momentos em que mais se fazia notar a nova cartilha de afectações visuais dos Capitão Fausto, reinterpretando freudianamente um mundo exótico de sons desusados por via
de guitarras embebidas de efeitos, um sintetizador alquimista, uma bateria pungente e um baixo bem conciso. Para o encore ficou reservada, da mesma forma que no novo registo, a floydiana "Lameira", relembrando que os mesmos cinco de "Teresa" estão, em boa verdade, mais consistentes, desinibidos e investidos por uma forte consciência social e satírica.

À medida que abandonávamos a sala, surgia-nos a certeza de termos chegado a boas conclusões - este “Pesar o Sol” conseguiu, efetivamente, fazer jus à expressão técnica que lembra navegação e metaforicamente a viagem. E que, apesar da exaustão, as novas canções são o carinho necessário para que sejam recebidos com tanta afeição quanta maturidade. Parece que os Capitão Fausto trocam-no a partir de agora pela absorção correta de tudo o que lhes possa caber na regeneração das suas intermináveis cadeias melódicas.




João Ribeiro

Fotografias por Tamia Dellinger
(galeria de fotografias disponível
em facebook.com/bandcom)




terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

FILHO DA MÃE - APRESENTAÇÃO DE "CABEÇA" NO TEATRO PASSOS MANUEL, 1/02/2014


A chuva do Porto caía fria e constante na primeira noite de fevereiro, só mais um motivo para procurar abrigo possível de complementar a típica sensação intimista a que o clima convidava. Afinal, um dos trovadores da guitarra em Portugal estava a momentos de ser o dono do palco do Teatro Passos Manuel.

Filho da Mãe (ou Rui Carvalho) por si só é capaz de pactuar com tudo isto, qual homem com o talento de tornar o disco que vinha apresentar numa viagem onírica apenas interrompida em pequenos intervalos para afinar a guitarra. Ainda assim, é igualmente verdade que uma sala composta e entusiasmada fazia prometer não apenas uma regular audição daquilo que tinha sido editado em novembro do ano passado, mas antes a compreensão dessa mesma travessia como o momento de entregar a alma à melodia.

No entanto, reserve-se toda a consagração de “Cabeça” para o momento certo, dando oportunidade aos mais novos para prestar a prova de que podem ser a surpresa. Talvez tenha assim pensado a Lovers & Lollypops, que aproveitou a chance para lançar na primeira parte do evento o seu mais recente trunfo, “Quim”, EP de Gonçalo Alvarez (parte dos Long Way To Alaska), editado no passado dia 28 de janeiro. E foi por isso também quase em jeito de apresentação que o artista mostrou o seu valor a solo, numa “Paraguas” que deixou o público descobrir a essência do projeto, onde “Soldadinho de Chumbo” brilhou com a mestria delicada das melodias que causavam habituação e terminando com “Tuga” em loop e sozinha com o público, já Gonçalo se tinha levantado e abandonado o palco. Mesmo depois do que se passou a seguir seria impossível não mencionar a garantia de mais um talento com a sua guitarra.


Reservou-se então espaço para a casa de banho, dois dedos de conversa e uma bebida, algo que o espetador agradece quando vale a pena não sair da sala durante a performance. E foi por tudo o mencionado atrás que a energia precisava ser reposta. Afinal, entraria “Terra Feita” em suave introdução e a iniciar a narrativa, mas rapidamente dando lugar ao dedilhado em tom ligeiro que carrega o irónico apelido “Não Te Mexas”.
E era precisamente através de fases alternadas entre a doce melodia de uma guitarra ou verdadeiras explosões sonoras que podiam vir de repente ou em crescendo que Filho da Mãe ia saltando de música em música do novo álbum. Salto esse não interrompido por aplausos entre “Um Bipolar” e “Um Bipolar Dois”, a primeira que tão estranhamente acaba para deixar a próxima encaixar-se sem pausas, não fosse(m) a(s) própria(s) uma doença da “Cabeça”.


O público aderia e embarcava a cada aventura da história que se contava em seis cordas e alguns loops, com o entusiasmo evidente nas diversas caras cada vez que a intensidade e o ruído voltavam à tona para criar a tempestade e agitar o barco que se tinha instalado no Passos Manuel, que neste momento virava oceano. Se no início, “Improviso de Naperon” convidava à já falada introspeção e alguns olhos se viravam para a alma, foi o seu final que revelou por completo o transbordar de sensações mistas que as baladas deste artista carregam às costas. Momentos que provam o quão rigoroso é limitar a inteira atenção do público para uma só guitarra. Por isso, quando ele limpava o cru suor após cada faixa, a empatia do público sentia-se no agradecimento caloroso pela criação de algo que tem a dureza do trabalho e o prazer da diversão.


E quando se pensou que “Helena Aquática” estava guardada para o final, trazendo na sua melodia uma disfarçada e sofredora agonia que culminou no realçar da genialidade de Rui em usar o instrumento para além das cordas, o próprio voltou a subir ao palco para terminar como em “Cabeça” e elevar ainda mais a fasquia. De facto, se há prova que o talento existe, os fortes aplausos que se ouviam pouco eram comparados a todos os momentos em que o músico e a plateia se fundiram para partilhar o que ali aconteceu. E venham mais aventuras assim.


João Gil

Fotografias por Rodolfo Rodrigues




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

7º ANIVERSÁRIO DO MUSICBOX, 7/12/2013 - REPORTAGEM




Sete de Dezembro de 2013, dia especial no cais mal-afamado de Lisboa, o Cais do Sodré. Era a noite do terceiro e último dia das comemorações do sétimo aniversário do nosso já conhecido clube MusicBox e que teve como grande destaque da noite a apresentação dos discos de duas bandas portuguesas, vindas directamente do norte lusitano, que ao longo dos últimos anos têm contribuído largamente para o enriquecimento musical devolvendo uma enorme vitalidade a este purgatório com a forma de um estranho rectângulo geográfico cujo inconsciente nacional deixou, há muito, de se definir como um quadrilátero de ângulos e costumes rectos. 

São elas o duo bracarense Ermo, que lançou recentemente o seu álbum “Vem Por Aqui” pela Optimus Discos, e os Sensible Soccers, com um registo que só será editado em formato CD a um de Fevereiro de 2014 numa parceria PAD/Groovement mas que, para os fãs mais incondicionais, os SS tiveram a amabilidade de dar a oportunidade antecipada de adquirir uma edição especial em cassette.  


 
Antevia-se uma noite excepcional, que apesar de ter contado com alguns problemas técnicos de som na primeira parte - o que podia antever por seu turno um mau presságio – acabou por singrar e deixar o público lisboeta rendido. E assim foi para os Ermo: não seria de esperar outro desfecho para este último trabalho de António Costa e Bernardo Barbosa, que apesar de tenra idade já demonstram uma elevada maturidade musical e sapiência no que toca a questões que envolvem a virtude humana, e que lhes valeu altos elogios da crítica e do público. A juntar à poesia arquetípica e às electrónicas de abstracção minimalista tivemos presente uma performance artística em palco, em que muitas vezes António acabava por deixar o seu corpo absorver-se e possuir-se nas palavras que ele próprio ia proferindo. Era assim num ambiente ecuménico e singular oferecido pelo MusicBox que se ia juntando em palco uma conjugação profética de poesia, oração de textos genuinamente portugueses, dança interpretativa e intervenção, fazendo-se acompanhar de instrumentais electrónicos minimalistas intensos, penetrantes, que tornavam impossível ao público - mesmo aqueles mais cépticos ou menos familiarizados com os Ermo – sentir indiferença perante a arte que se fazia ali diante dos seus próprios olhos.
  
De 40 minutos de concerto há ainda a salientar o momento climático em que António, num tom saudosista, invoca os grandes heróis nacionais com “FMI”, original de José Mário Branco, mostrando que as lutas não foram em vão e que, inconformado, predisposto para derrubar preconceitos, investido de um elevado humanismo, rompendo paradigmas e assumindo uma libertinagem estética, está disposto a assumir o compromisso de continuar as suas obras por um Portugal melhor. O espaço do último tema estaria reservado a uma canção ainda mais recente que todo o “Vem Por Aqui”, a forma escolhida para presentear o espaço e o público que os recebiam. Despedindo-se desta forma do palco, e ainda ressoando as suas palavras nos nossos ouvidos, fica então no ar a esperança de que no fim “tudo correrá bem”.




Acabado o concerto intenso e negro dos Ermo, era a vez dos Sensible Soccers subirem ao palco. Aproximava-se então o momento de partida para um mundo diferente, ondulado, colorido e cheio de ideias que só o rock psicadélico com uma caixa de ritmos à altura poderia proporcionar. 
Logo ao primeiro tema, rapidamente se instalou uma atmosfera nostálgica de forte componente sensorial onde o incoerente transformava-se em coerente e onde o nosso imaginário era fortemente estimulado pelos sintetizadores, pela hábil guitarra e pela contribuição vocal subtil com vozes a entrar em fade in e um baixo consistente e rigoroso a perder-se em sinuosas paisagens electrónicas.  
De entre um autêntico crochet de harmonias com espaços para o improviso, surgia de um processo criativo instantâneo uma autêntica pista de dança que permitia aos presentes uma viagem sonora perfeita bem na senda de “Sofrendo Por Você”, único tema conhecido até agora do disco. Era nesta minuciosa simbiose que os vários elementos iam-se integrando, complanando-se ao pormenor, numa belíssima composição musical – a certa altura era quase impossível as metáforas e os trocadilhos de videojogos futebolísticos não se confundirem com outros tais como o Tetris, tal era a forma sublime como o quarteto empilhava todo o seu material sonoro.

Após um encore repetido, era assim que se anunciava o fim dos protagonistas de uma noite de concertos intensa que deixou qualquer um siderado para o resto da noite com CVLT e Bangkok Snobiety.



João Ribeiro

Fotografias por Tamia Dellinger




sexta-feira, 25 de outubro de 2013

OS ARTISTAS PORTUGUESES NO JAMESON URBAN ROUTES



A edição de 2013 do Jameson Urban Routes continua a pautar-se pela atenção dada aos artistas nacionais, aproveitando também o bom trabalho de quem o organiza e gere o clube lisboeta Musicbox: rodeando-se das mais diferentes propostas para, mais do que divulgar, ajudar a decorar novos nomes, como os das pérolas da Príncipe Discos, ou dar o poder de sugestão a músicos que serão logo rotulados como bons conselheiros por inerência à sua própria produção.

Nesta edição, embora distribuídos por todos os dias da programação, alguns dos nomes portugueses do cartaz concentraram-se logo ao dia de abertura, dia de showcase gratuito para o público, onde estiveram alguns dos responsáveis pelas carreiras dos The Knife, Destroyer ou Chromatics com bons conselhos para as carreiras de Filho da Mãe, Throes + The Shine, The Quartet of Woah, DJ Ride, Bangkok Snobiety, ou Sleepwalker.

Com canções novas, Rui Carvalho fez mais uma vez uma demonstração da sua música não aconselhada a comuns mortais. Uma guitarra acústica, uma luz, um banco e algumas muito boas projecções vídeo são factos suficientes para que o público que enchia o Musicbox começar intrigado e não desistir dos momentos seguintes - como o Filho da Mãe salientara, estariam ali mais uns quantos que poderiam desertar se o gratuito não fosse suficiente. É com o progredir da actuação que todos os presentes entram numa deriva colectiva arrepiante em que todos os ritmos e momentos de qualquer música imaginada se concentram na exploração dedilhada daquele espectáculo. Obviamente, "Helena Aquática" foi a imagem de uma intensidade raramente vista em palco por estes dias.

Poder-se-ia dizer que sobre os Throes + The Shine a matéria está toda dada até ao próximo disco. Contudo, em dia de conquistar novos admiradores, o convite "Vamos dançar" traduzido numa das canções do disco a sair no próximo ano foi alicerçado com o flow e o charme do kuduro e a aspereza do rock mais turbulento, corpulento que não se estranhava com tanto calor. Não interessava (e daí, poderá ser engano) sequer que o público lisboeta, de tão desarmado, não soubesse como desfrutar de um espectáculo em que ele próprio era integrado pela banda à sua frente, nem que muito menos soubesse se deveria tomar aquilo como um guilty pleasure ou da mesma forma que poderia idolatrar o aproveitar da fruta da terra como ao passar por um disco de Diplo. Depois dos aplausos e de o tempo ter passado demasiado depressa, a lição estava terminada.

Super Bock Super Rock 2013: nasce um mito urbano do rock n' roll português chamado The Quartet Of Woah. Há, ainda hoje, um antes e depois daquele concerto frenético para "Ultrabomb", o disco de estreia do quarteto lisboeta. Prova disso foi a recepção galáctica já pela madrugada ao longo de todo o concerto.
É verdade que os dados estão todos lançados, que a sonoridade é mais do que clássica e recalcada no subconsciente de quem já experimentou voltar à época dos papás, mas é raro uma estreia parecer em si o final épico de um ciclo. O som endurece e avoluma-se, quatro músicos descobrem enfim o que procuraram noutros projectos, pequenos segundos despontam gigantes correndo para 4, 5, 6 minutos e recriam emoções escondidas sob a carga de uma palavra: "tradição". É verdade que, em boa época de revivalismos, andam muitos à procura das sensações que não são deste tempo. É verdade que é fácil dar-lhes rock para os sentidos. É, tão somente, admirável que os The Quartet of Woah consigam fazer construindo em crescendo as suas próprias canções e não perder o que com taunts e "vivas" ao rock se revolta de um momento para o outro contra eles próprios. Está aqui um belo desafio para um segundo disco.





A hora já ia adiantada e já não foi possível ver e ouvir com atenção o resto do alinhamento. Na segunda ronda do Jameson Urban Routes, depois dos bons exemplos White Haus (em estreia como live act), Octa Push, Niagara e Xinobi há quase tantos nomes nacionais, todos a ter debaixo de olho, como os da noite inaugural. Riding Pânico, o regresso dos If Lucy Fell, Nigga Fox e Batida prometem coordenadas diferentes para a mesma descoordenação dançável. As expectativas duram só até mais logo e/ou Sábado, no mesmo sítio, a partir da meia-noite.


André Gomes de Abreu 




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ROCK MONSTER #1 - EQUATIONS + BLACK BOMBAIM - 10/10/2013

Na primeira das noites Rock Monster no Musicbox, em Lisboa, os Equations e os Black Bombaim desceram à capital para honrar o Portugal que é fã de rock, quase tão grande como aquele que é fã de fado. Não há muitas pessoas em Portugal fãs de sensaboria, mas estamos em tempos de selectividade: é verdade, a crise lá fora e nós a escolher com tremendo método o que ouvir entre tanta novidade.





Na demanda de servir rock a quem quer sobretudo ser surpreendido, os Equations fizeram-no bem na estreia em disco com "Frozen Caravels". Math-rock, algum psicadelismo e esfregar tudo isso na cara como se estivéssemos a falar de hardcore. Mas muito recentemente, os Equations foram além-fronteiras não só nos espaços de concertos, mas também na sua sonoridade: a mini-tour pela Europa antecipou-lhes os movimentos. 
Vem aí um segundo disco em 2014 mas onde o rock é mais space e/ou prog, diz certamente quem os viu lá fora, na D' Bandada Optimus ou nesta noite. Num alinhamento totalmente alocado às novas canções, não se recolhem os destroços e recordações no final, mas é caso para se tirarem pequenas polaroids pelo caminho e notar-se uma abordagem psicadélica diferente e mais tropicalista mas sem batuques, embora a reorganização sonora seja fantástica. Bem-vindos de volta...agora, depois, quando quiserem.





Sair defraudado de um concerto dos Black Bombaim estava fora de questão, e até aí a saída com os Equations tinha sido exemplar. Era altura de escalar muros de volume e electricidade sem fim à vista, por três dos melhores do Mundo, mesmo que intercalados com uma pequena/grande escapadela a "Side B" de "Saturdays and Space Travels". Por mais voltas que se dê, todo este inferno stoner e psicadélico dronítico criado com dotes de hipnotizador só acaricia os ouvidos.
No Musicbox, os Black Bombaim voltaram a justificar todos os elogios, todas as críticas (des)construtivas de forma coesa e compenetrada, sem lugar a grandes rodeios e chamando a si todas as atenções como se o palco contíguo se tratasse na realidade de uma arena gigante. É para que as bandas se assumam e batam o pé que se pagam bilhetes: os Black Bombaim dão mais e ressuscitam a beleza e a gravidade apocalípticas até os amplificadores subitamente se desligarem e o Mundo se recompor.
Ainda bem que inventaram a palavra "evolução", ou teríamos só um muito bom primeiro EP e um muito bom álbum de estreia. A partir daí, inclusive, é História, meus amigos: não adianta porem a tocar outra vez o "The Wall" e dizerem que "dantes é que era".


Há mais dois monstros, Moloch e Nommo, para satisfazer no Musicbox em Novembro e Dezembro. Ou com os Valient Thorr, dia 2 de Novembro, ou com os Camera, dia 13 de Dezembro, à meia-noite começam novos dias.

André Gomes de Abreu
Fotografias por André Branco
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domingo, 13 de outubro de 2013

10 ANOS COM OS LINDA MARTINI: PRÓXIMA PARAGEM: LISBOA, MEO ARENA, 12/10/2013









São 22h e "...Like Clockwork", dos Queens of The Stone Age, começa a esvair-se nas colunas.
Estão na sala Tejo do MEO Arena umas boas centenas de pessoas para ver o segundo concerto de apresentação de "Turbo Lento", o terceiro disco da carreira dos Linda Martini. Dentro destas, serão várias as que os terão visto mais do que uma vez e até em pontos muito distantes do país. Entretanto, 10 anos passaram, e bandas como os Ölga, Bypass ou Bildmeister, contemporâneas e afiliadas sonicamente em inícios de 2000 e tal, evoluíram para outras bandas, ao passo que os, agora, quatro estabeleceram-se como desde o dia 1. A criação de um público próprio e fiel, com que a banda cresceu na continuidade da sua produção musical, é a razão mais destacada para o rótulo meio "fenómeno de culto" meio histeria catártica generalizada que se vai colando à banda de Queluz e que desencadeia impressões semelhantes para toda uma nova geração que tem nas suas playlists cada vez mais música feita pelos seus irmãos de bandeira. 








Com este novo registo, é tempo de jogar no lixo todas as loas aos Sonic Youth que, por comparações demasiado imediatas, pareciam estar na génese da ascensão do fenómeno de quem lhe respondeu em "Casa Ocupada" com "Juventude Sónica". Na verdade, a t-shirt dos God is An Astronaut colada ao corpo num distante Super Bock Super Rock em 2007, os ensinamentos da cena hardcore de que vieram e as memórias dos At The Drive-In e And You Will Know Us By The Trail of Dead continuam a ser o DNA prévio ou mutado de quem os descobre em alguma parte da sua vida. 
Ter os Linda Martini no activo é uma convivência de pés em falso e vício permanente com tanto swerve: um videoclip de "Ratos", canção que parece que nada tem a ver com politiquices, que afinal estaria guardado para "Aparato", quasi-eterno single adiado; a extensão lexical (olá, "Pirâmica") e lírica que, no fim de contas, se molda a instrumentais dementes como se fosse realmente o contrário que acontecesse; uma base massificada de seguidores que desesperam por um novo "Olhos de Mongol" e que, instilada pela fúria do seu sucessor do mesmo, ainda não reconhece o regresso do novo trabalho a esse território. 







Durante quase duas horas, as luzes abriram-se para uma apresentação ao vivo norteada definitivamente pelo novo trabalho, tocado de fio a pavio no seu alinhamento. Mas também dominada por um equilíbrio ténue, desafio amigável de sucessivos assaltos de um público à beira do descontrolo com o acorde seguinte, a pedir incessantemente aquela e a outra canção, e de um grupo onde Cláudia e Hélio eram os porta-vozes da realidade, criada à imagem e semelhança dos Linda Martini primeiro, convidando os seguidores depois. É por isso que esta não era "uma festa académica", como Cláudia a certa altura lembrou.

"Panteão", a rebentar indirectamente as costuras das feridas de "Casa Ocupada" logo a abrir, ia especialmente para o grupo de jovens que guardava lugar desde o início da tarde à porta do recinto, aqueles que como Sebastião, o mais recente membro da família Martini, não devem querer "ser como toda a gente", não devem querer "crescer de repente".  Às guitarras etéreas e progressões sinistras de períodos de "Pirâmica", "Sapatos Bravos" e "Ratos", ao refrão inesquecível de "Aparato" e às impressões digitais pinchadas em "Juárez", juntavam-se coros e vozes "no ponto", como "até agora", desde que se começaram a ouvir os novos temas, não se tinham reconhecido ao vivo.
Quase que se fazia matinée ou serão: os encores definitivamente não são questão para o grupo, com "Juventude Sónica", "Nós Os Outros", "Belarmino", "Estuque" e principalmente "Este Mar" e "Cem Metros Sereia" sempre alerta. A pouco custo, "Dá-me A Tua Melhor Faca" era verdadeiramente o aftermath da noite, entoado de maneira afinada quando, em surdina, as palmas eram desaconselhadas após "O Amor É Não Haver Polícia" ter sido sentido como nunca (e façam como nós: sentem-se a ver o videograma aqui ao lado, do passado para o presente, e relembrem momentos de um Santiago Alquimista, de Paredes de Coura ao final da tarde, ..., etc.).






A Universal é uma editora extremamente sortuda por ter sacado a oportunidade de ladear com o sucesso dos Linda Martini aos 10 anos de carreira. É à Universal que aquele "Foi bonita a festa pá, fiquei contente" também pertence, como retorno de uma aposta segura e como felicitação a transmitir após as primeiras duas noites de "Turbo Lento" ao vivo.



André Gomes de Abreu
Fotografias por André Branco
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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

NOISERV @ TEATRO MUNICIPAL SÃO LUIZ, 1/10/2013 - REPORTAGEM



Dia Mundial da Música, um verdadeiro ponto de encontro de desencontros, entre melómanos dopados e todos os outros apreciadores ocasionais de um ou vários artistas, músicas e talvez discos. O concerto de Noiserv neste dia era também essa janela aberta para o final da "Festa de Abertura" do Teatro Municipal São Luiz e para o arranque da expansão das músicas de "Almost Visible Orchestra", o segundo disco da carreira a solo de David Santos. 

Começando por olhar o disco, diria tão simplesmente que "Almost Visible Orchestra" é um conjunto de canções que leva o encontro de desencontros a outro nível: é a história prosaica do artista que se segue por lei não publicada, de legislador próprio ou alheio, que realmente interessa. E interessa porque é um claro aperfeiçoamento da matéria anterior, seguro, tanto à procura de mais pessoas como a conservar a sua fragilidade emocional quase a pensar em exclusivo em cada ouvinte. Detalhes que o Francisco Lázaro de "It's Easy To Be A Marathoner Even If You Are A Carpenter" reconheceria.

É esse estado de derrelicção partilhada do palco, à medida que os traços de Diana Mascarenhas, convidada a re-ilustrar em tempo real, se firmam, que tudo o que é orgânico na quase invisível mas palpável festa orquestrada de Noiserv entra e a beleza das novas Don't Say Hi If You Don't Have Time For A Nice Goodbye", "It's Useless To Think About Something Bad Without Something Good To Compare" e "I Was Trying To Sleep When Everyone Woke Up", em que n
unca antes de hoje se conseguira juntar no mesmo palco quase todos os seus intérpretes, se conjuga com "Palco do Tempo" e a maravilhosa "Bontempi", guardada a preceito para a recta final. 
Não seria um soco no estômago fechar a correr com 47 segundos, 4 frases e um "I don't think it's my time" (oh, estás no palco de um tempo que é teu!), depois de longa a conversa entrecortada com suspiros demorados e um rol de agradecimentos aos que o ajudaram e ajudam. Do público, renovam-se, muito provavelmente, para uma próxima oportunidade, brevemente, no mesmo local.
Para aquecer depois dos arrepios na espinha: dar largas voltas e mais voltas nestas novas canções. 




André Gomes de Abreu


P.S: Um crédito alargado para a fotografia, um dos 13 retratos de músicos portugueses compilados agora na primeira publicação fotográfica editada de Vera Marmelo entretanto já disponível para compra na livraria STET ou directamente junto da fotógrafa. Agora, voltemos ao topo, não?  




domingo, 11 de agosto de 2013

FUSING CULTURE EXPERIENCE - DIA 4




No último dia do FUSING Culture Experience, com um cartaz musical mais reduzido, o Palco Experience teve uma das suas melhores assistências, talvez por terem atuado mais bandas locais. Com os Lulas Belhas, vimos mais um concerto de punk rock em língua portuguesa, durante o qual a banda deu a conhecer alguns dos seus melhores êxitos ao mesmo tempo que debitava palavras duras contra o acordo ortográfico e o ódio anti-sistema (como em "Chulos") sempre bem-vindo nestas ocasiões.
Pelas 17h, outra banda local, mas num estilo completamente diferente: os Bong Belly Pickney  tiveram uma atuação bastante apreciável, muito ajudados pela performance do seu vocalista. Souberam, de forma profissional e competente, também fazer esquecer alguns problemas técnicos de que se iam queixando, mostrando ser outro colectivo mas de reggae/hip-hop a ter em conta no futuro.




Durante o intervalo musical de 5h, onde o recorde mundial de gente a cozinhar ao mesmo tempo num workshop foi batido, houve tempo para aproveitar a praia privada ali ao lado, quando já pairava no ar que as últimas horas do festival estavam a chegar. 
Os Bad Pig seriam responsáveis por dar início à última noite de concertos e não surpreenderam quem já os conhecia. Os figueirenses mostraram que está nas suas mãos e do seu stoner-rock ascender a outros patamares que não preparar a audiência para o momento seguinte. 





Já aos Killimanjaro coube a lição rock da noite. Com José Roberto Gomes em destaque, sempre mais afinado e num registo vocal com cheiro a whisky (sem cola). Se o nome da banda em si tem um cume objectivo, o caminho para chegar ao fim pretendido está a ser bem percorrido e há um álbum a sair em breve, como se pôde ver e ouvir, a alargar as fronteiras do EP de estreia homónimo. 
Os Throes + The Shine nunca deviam ter atuado no palco Experience num Domingo pela meia-noite, no último dia de um festival, na véspera de um dia de trabalho. É simples: é sabido que a experiência que é assistir a um concerto deles faz com que no dia seguinte nunca seja fácil acordar em boas condições. Mesmo assim, o quarteto conseguiu fazer com que o público presente, com direito a algumas amostras de novos caminhos, se mexesse um bocado. André e Diron assumiram o papel de mestres de cerimónia e ainda convenceram quatro pessoas a arquear-se com eles em cima do palco. Não foi provavelmente o melhor concerto, mas dentro de todas as condições de contexto, foi muito mais que aceitável. 





No fim de festival, manda o bom senso dizer um "
até já" ao FUSING Culture Experience e depositar expectativas na satisfação do público e do seu feedback. Parece que o bom senso dita igualmente que este festival não só se deva repetir mas também se torne num dos maiores do país contando com o melhor que Portugal tem para oferecer.


Mickaël C. de Oliveira





FUSING CULTURE EXPERIENCE - DIA 3






O terceiro dia do FUSING Culture Experience trouxe alguma estabilidade, com a grande maioria dos concertos a ter lugar no Palco Experience e com algumas bandas a aproveitar a oportunidade para deixar boas indicações para o futuro.

Com o sol a bater, as meninas de calções justos de saída, alguns corajosos em tronco nu, só faltava entrar em cena uma banda rock que nos enchesse de pó e de riffs agressivos. Foi aí que os Dukes of Speed chegaram, à moda de Buarcos (ali ao lado da Figueira), perante uma assistência atenta e que acompanhava a boa entrega em palco da banda com fortes aplausos. O vento era forte, o nosso cabelo era rock.





Os Mr. Miyagi, a segunda banda do dia, não tiveram a sorte de contar com muito mais gente mas não fez caso. Tratou-se de cuspir a raiva hardcore, como o sabem muito bem fazer, deixando bem vincado que a L&L é talvez a editora mais cameleónica que por aí anda e que em Viana do Castelo há quem não se esquive a esforços para conquistar o público, mesmo que isso implique um vocalista, tempo de voo e aproveitar as ondas. O encore, trouxe uma condição : "têm que partir essa merda toda", Ciso San dixit. O mosh Não se voltaria a repetir muito mais vezes ao longo do festival.




O desfile de bandas continuou com os Elektra Zagreb, pelas 19h. Com o público que procurava lugares sentados à sombra, poucos faziam frente à banda. As experiências ao vivo sucederam-se, as experimentações também : "Six Magic Mountains" foi um dos melhores momentos e "SoOOoo" causou muita estranheza entre os presentes. Não se trata, por certo, da "banda mais acessível do Mundo" mas, como muitas vezes o "estranho" pode ser sinónimo de interesse oculto, os Elektra não desperdiçaram a ocasião que lhes foi concedida. 





Do Luxemburgo, de Tokyo, de França ou de Portugal, os Love Echo acompanharam o escurecer da noite com uma mensagem cheia de esperança. A voz ténue e doce de Vicki Glass, quase sexual, foi salpicando ao longo da noite os tons eletrónicos de Victor Miranda. E só não nos aqueceram mais porque a noite figueirense é das mais frias que há por aí, pelo menos nesse dia 3 de agosto. Mas num cenário de praia, com a noite a cair, os Love Echo são aquele tipo de música a ouvir, em disco, engolido por um puff, entre o sono e o despertar, no limbo. Receptivos, viajámos em "Departure" como nos foi sugerido, e foi realmente um "Daybreak" na vida de quem, como os atingidos em cheio pelos sons dos Love Echo, quer ao máximo estar em todo o lado, ao mesmo tempo. A experiência sensorial atingiu o clímax talvez em "Love Cats", que não recomendamos a depressivos.





Mais relaxados, não sabemos se bem acordados ou não, se entristecidos ou mais felizes, se com mais frio ou mais calor, era tempo de levar mais uma lufada de riffs titânicos e tântricos, já no palco principal para ouvir os Black Bombaim. A história começou com os quase vinte minutos de "A", enquanto Tojó, Paulo e Ricardo impressionavam pela energia depositada, quase sem interrupções, num formato de 50 minutos (mesmo assim bem mais curto que em "Titans"). A correr, a correr, depois de mais uma daquelas palmadas monstruosas, era altura de descansar no palco Experience com escassos segundos do criador de sonhos que é Sun Glitters e de ouvir ao longe Frankie Chavez já mesmo no final, dando ainda para entender que contava com um público bastante receptivo.




O dia, ou noite, chegava ao fim com os Linda Martini no palco principal. O momento mais esperado do dia e aquele que, mais uma vez, atraiu mais público. E houve música para todos os gostos. Dos mais saudosistas de "Olhos de Mongol" aos que apreciaram mais os LM em "Casa Ocupada". Houve empenho, força, entrega, transmissão, paixão mas também as falhas do tempo ocupadas pelos Miura que no Palco Experience davam tudo para roubar para si alguma da emoção do palco FUSING. O que conseguiram em alguns temas, onde a confusão sonora instalou-se de tal forma que, a meio, ficaria a sugestão, irónica de quem já se confrontou com outras situações semelhantes, dos próprios Linda Martini para que no próximo ano fizessem um DJ Set no backstage
Hinos como "Belarmino", "Juventude Sónica", "Cronófago" ou o novo "Ratos" não deixavam ninguém quieto, tanto à espera do novo bébé, "Turbo Lento", como à espera que o final do 3º dia do FUSING Culture Experience tivesse direito a tocolíticos. Missão cumprida, em rock, em português, e não seria muito mais vezes que assim sucederia na Figueira da Foz.



Mickaël C. de Oliveira






sexta-feira, 9 de agosto de 2013

FUSING CULTURE EXPERIENCE - DIA 2




O dia 2 do FUSING Culture Experience deu para apreciar com mais cuidado todo o potencial do festival. O cenário idílico do Palco Sunset com vista para o mar, o calor abrasador que até fez suar os dançarinos mais fraquinhos que não ousam nunca dançar e a areia que foi a pouco e pouco tomando conta de quem quis usar sapatilhas e não havaianas.




Aí, JIBÓIA deslumbrou. E houve uma consensualização mais alargada com o nome escolhido por Óscar Silva para se apresentar a solo, que já vagueava pelo centro da cidade com algumas tonalidades do artista, parcialmente dissimuladas (ou disseminadas) pelo vento. "Uadjit", cantada pela mística Ana Miró, serpentaria em nós até ao final do dia, até ao final do festival (como os PAUS no final do dia anterior). 

Com um concerto dado à hora certa e horários já sem atrasos, sobrara com um intervalo de quase duas horas para nos perdermos pelo Palco Sunset de passagem com uma performance de beatboxing. Pela parte da comida, as pizzas chamavam a atenção (só descobrimos no dia seguinte que havia sandes de leitão fenomenais!). 

O palco principal podia parecer demasiado grande para eles. Mas os JUBA demonstraram, lá pelas 21h40, que a presença deles naquele sítio fazia todo o sentido. Sem disco ainda editado, não deixaram de impressionar, convencer e deixar muito boas esperanças para o futuro. Entre as várias que se vão conhecendo, tornou-se óbvio que a sua malha mais conhecida, "Bloodvessels", foi um dos sucessos.




No lado oposto, esperava-se com ansiedade a atuação de Da Chick, a artista e rosto da cada vez mais (re)conhecida D.I.S.C.O.Texas. Se pusermos de lado os problemas de micro na primeira música, podemos dizer que Da Chick contribuiu muito para que o público da Figueira, que nem sempre foi dos mais reativos e ativos, acordasse de uma vez por todas, muito ajudada também pelos seus dois dançarinos e a sua hiperatividade caraterística. Até "Monsta", uma música "que não fazia há bué", surgiu em grande.
  





No Casino, acordámos para outra grande experiência: António Zambujo e Samuel Úria em palco com o Rancho dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, com a chancela, e não poderia ser de outra forma, de A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. Havia uma surrealidade normalíssima, um junção de opostos que nunca, à partida, imaginámos poder dar um resultado tão óbvio, muito por culpa da simplicidade de António Zambujo que nunca quis sobrepor-se ao trabalho do rancho alentejano. E fez bem, porque a potência vocal desses jovens e menos jovens derreteu um Casino cheio que provavelmente não voltará mais a ter rancho dentro das suas quatro portas um dia. Para além do mesmo culto prestado, Samuel Úria salientou ainda o facto de se sentir em casa na Figueira por lá ter os seus pais a viver, num resumo de um concerto em que se viu que momentos especiais exigem raízes profundas.


Cabeças de cartaz, os Orelha Negra encantaram naquele que foi claramente um dos momentos fortes de Sexta-feira. Os abundantes medleys entrecruzaram-se com alguns dos temas do colectivo, bem ao jeito da mais recente mixtape, com as homenagens ao hip-hop, ao funk, aos Estados Unidos e a Portugal, com vários samples para todos os gostos. Já a Moullinex, não se sabe se pelas expectativas elevadas antes da sua subida a palco, parece ter faltado algo entre a garra de Da Chick e maior afinação nas vozes que se ouviam. Nem o grande "Take My Pain Away" salvou que, na perspectiva de se assistir nos dias seguintes a novos momentos de realce como alguns deste dia, tenha ficado um ligeiro desapontamento, em particular, com o encerrar da noite.






Texto de Mickaël C. de Oliveira

Fotografias por Bruno Batista





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